O que precisa ser dito sobre deuses (parte 5 de 5)

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Autor: Caio L. Aidar – paulistano, 24 anos, e desde os 17 se interessa por Ciências e Filosofia.

Analisados os três principais argumentos dos teístas, e demonstrado que estes argumentos são facilmente refutáveis, concluo esse ensaio com duas reflexões.

A primeira é a de que quanto mais específica for a ideia de um deus, mais fácil será refutá-la. O Deus cristão, por exemplo, é bem específico. De acordo com a Bíblia, ele é onipotente, onisciente, onipresente, criou tudo o que existe no Universo, e concedeu ao ser humano o livre-arbítrio. Ora, a onipotência, do ponto de vista lógico, é um atributo inválido. A onipotência, ainda seguindo a análise lógica, também é incompatível com a onisciência. E a própria onisciência é incompatível com o suposto livre-arbítrio que nos foi concedido. Diante disso, é bem fácil concluir que o Deus cristão não existe.

Algumas pessoas, contudo, alegam crer em deus, mas não num deus pessoal, e sim em uma espécie de “energia inteligente”, responsável por ser a origem de todas as coisas. Este conceito de deus é bem vago, abstrato, e, justamente por isso, difícil de falsear. Mas por ser difícil de falsear é correto concluir que seja verdadeiro? Óbvio que não. Existem diversas ideias que não podemos falsear, mas que nem por isso são levadas a sério. A hipótese de que estamos vivendo dentro da Matrix é uma delas.

Dito isto, gostaria de introduzir a segunda reflexão: quão improvável são os deuses, sejam eles pessoais ou sejam simples “energias”? A resposta, a meu ver, é bem simples: deuses constituem a hipótese mais improvável que podemos imaginar. Divindades são extremamente improváveis devido à sua alta complexidade. Se nós, humanos, com toda nossa banalidade e fragilidade, com toda nossa ignorância que às vezes nos impede de construir de modo correto um simples edifício, somos criaturas improváveis, imaginemos, então, o quão improvável é a existência de um ser capaz de criar um Universo.

Não estamos falando sobre filosofia, lógica ou ciência. Estamos falando, simplesmente, sobre bom-senso. Um exemplo bem simples ilustrará melhor a questão: é impossível encontrar pela rua um caminhão cheio de dinheiro, estacionado ao lado de uma placa com o seu nome, onde se lê “Essa grana é pra você”? Não, impossível não é. Mas, fazendo uso da razão, é sensato crer que algum dia receberemos tal presente? Óbvio que não. Quem pensar diferente, pode parar de trabalhar e começar a gastar os milhões que o esperam no futuro.

Mentes, provavelmente, são novas no Universo. Até hoje, a única mente que conhecemos capaz de pensar de modo complexo é a própria mente humana. Ainda não localizamos outra. Teístas querem nos fazer crer que, antes de qualquer coisa, já existia uma supermente, mas não justificam de modo racional o porquê dessa crença. A ausência de evidências e a extrema improbabilidade de um criador sugerem fortemente que foi o homem quem inventou deus, e não deus quem inventou o homem. Basta estar disposto a aceitar essa realidade, que pode parecer desoladora a princípio, mas que no fim se revela libertadora.

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O que precisa ser dito sobre deuses (parte 4 de 5)

<<PARTE 1

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Autor: Caio L. Aidar — paulistano, 24 anos, e desde os 17 se interessa por Ciências e Filosofia.

Vejamos agora o último argumento:

O Argumento Teleológico

Vemos toda a ordem e harmonia que existe no Universo, a miríade de espécies, a imensa complexidade que existe em cada pequena célula dos seres vivos, a intrincada interconexão e interdependência que há entre todos eles. É impossível imaginar que toda essa maravilha existe por acaso. Isso porque, se as condições planetárias fossem sutilmente diferentes das atuais, a vida na Terra seria impossível. Dizer que o mundo que conhecemos veio de uma “explosão” (Big-Bang) é tão absurdo quanto dizer que um dicionário é fruto da explosão de uma tipografia. Tem de haver uma mente por detrás de nosso Universo, que planejou, criou e mantém a ordem que nele observamos.

Qualquer ateu sensato concordará que a complexidade da vida e do próprio Universo é algo impressionante. Mas há uma diferença essencial entre ateus e teístas nesse ponto: os ateus aceitam o desafio de tentar explicar racionalmente toda a complexidade da natureza, mesmo que as respostas encontradas não sejam muito confortadoras a princípio. Ainda existem lacunas em diversos ramos da ciência, o que é bastante compreensível, afinal estamos falando sobre uma atividade intelectual que necessita de tempo para explicar os fatos da forma mais precisa e segura possível. Ocorre que não existem motivos para concluir que há uma supermente por detrás do Universo. O fato de um determinado evento ser complexo, e ainda não explicado pela ciência, significa apenas que tal evento é complexo e ainda não o compreendemos, somente isso. Qualquer apelo a deuses para explicá-lo será baseado tão somente em crendices, desejos pessoais e extrapolações improváveis, e não em evidências.

A complexidade dos seres vivos é um tema que pode ser explicado pela Teoria da Evolução, idealizada por Charles Darwin e Alfred Russel Wallace, que é uma das teorias mais robustas existentes, respaldada por diferentes áreas de estudo da ciência, como a boa e velha paleontologia, a citologia e a genética.

Muitos criacionistas atacam o evolucionismo com interesses bem sombrios, como já era de se esperar. Nos seus devaneios, imaginam que, derrubado o evolucionismo, o criacionismo seria a explicação mais plausível para entender como se formou a vida. Ledo engano. Mesmo que o evolucionismo se mostrasse errado, o que é bem improvável, ainda assim não aceitaríamos o criacionismo, porque outras teorias verdadeiramente científicas poderiam ser construídas para explicar a origem dos primeiros seres.

Com relação à origem do Cosmos, muitos pontos de interrogação foram decifrados pela ciência e, atualmente, existem físicos trabalhando nas “Grandes Questões”, como a origem da matéria e a suposta existência de vários outros universos. Se houvesse indícios de criação, se existissem evidências da ação de uma mente responsável por arquitetar o Cosmos, deveríamos aceitar essa explicação. Mas o fato é que não há.

Vamos ser francos. Se fôssemos extremamente poderosos — a ponto de criar um Universo — , sábios e cheios de bondade, não faríamos algo melhor do que esse mundo que conhecemos?

O modo de pensar do teísta, em linhas gerais, funciona adequando a realidade às suas crenças pessoais. Se fulano morreu em um acidente, é porque Deus concluiu que era a hora dele partir. Mas, se em vez de morrer, ele tivesse ficado paraplégico, seria porque Deus concluiu que ele deveria passar por essa prova, e assim por diante, sempre adequando os fatos ao seu sistema de crenças, mesmo que isso às vezes termine de modo absurdo.

Existe uma incrível complexidade ao nosso redor e a ciência tenta explicá-la descrevendo a realidade da forma mais precisa possível. Até hoje, não conseguimos entender como poderia existir uma mente divina por detrás do Universo, por detrás de nós mesmos. Agora, se a intenção desse Deus era se esconder o máximo possível, de modo que parecesse que não há deus algum, então ele é muito competente.

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O que precisa ser dito sobre deuses (parte 3 de 5)

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Autor: Caio L. Aidar – paulistano, 24 anos, e desde os 17 se interessa por Ciências e Filosofia.

O Argumento Ontológico

Eu tenho a ideia de um ser, de um ente perfeito. Ora, como há necessariamente mais razão na causa do que no efeito, a ideia da perfeição não pode proceder senão da própria perfeição. Esse ente perfeito tem que existir porque, se não existisse, faltar-lhe-ia a perfeição da existência, e desse modo não seria perfeito.

Claramente percebemos que “existência”, para o idealizador do argumento, deve ser tratada como uma “qualidade”, o que, evidentemente, é um erro. O argumento nos diz que um ser totalmente perfeito deve ter, no seu extenso rol de qualidades, a qualidade da própria existência. O argumento afirma que entre uma perfeição real e uma perfeição imaginária há uma diferença qualitativa: perfeito mesmo seria apenas aquilo que é real. Em absoluto, não há qualquer diferença qualitativa entre a perfeição real e a imaginária, simplesmente porque existir não é uma qualidade.

Imaginemos um engenheiro que mentalmente projetou uma máquina perfeita, que não desperdiça insumo algum, e tem um rendimento insuperável. Qual a diferença entre o projeto dessa máquina e a máquina real, quando for construída? Resposta: não há diferença. “Não existir” não é um defeito, assim como “existir” não é uma qualidade.

Existindo ou não, o teor de uma ideia e suas respectivas qualidades permanecerão as mesmas. O ponto principal do argumento é facilmente refutável. Mas, por um instante, vamos imaginar que não conseguimos encontrar o erro aí escondido, e que ainda pensamos que existir é uma qualidade. Mesmo assim nada estaria provado, por um simples motivo: nossa mente é capaz de imaginar coisas que não possuem paralelo algum com a realidade ou, para ser mais claro, que não existem. Posso imaginar centauros, constituídos de uma substância invisível, que habitam bosques no interior da minha cidade. Borboletas, do tamanho de dragões, que viajam pelo tempo, ou qualquer outra bizarrice. O fato de eu imaginar alguma coisa, perfeita ou não, não quer dizer que essa coisa exista.

No fim das contas, assim como acontece com o Argumento Cosmológico, mesmo que o raciocínio fosse impecável do ponto de vista lógico (o que está longe de ser verdade), acabaria sendo incapaz de provar qualquer coisa, porque também poderíamos imaginar deuses perfeitos rivais, cuja existência mútua não é possível; vários deuses, caso optássemos por adotar o politeísmo, etc.

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O que precisa ser dito sobre deuses (parte 2 de 5)

 <<PARTE 1

Autor: Caio L. Aidar – paulistano, 24 anos, e desde os 17 se interessa por Ciências e Filosofia.

O Argumento Cosmológico

Todo efeito tem uma causa. Se o Universo existe, então ele teve uma causa, pois não existe efeito sem causa, e ele não poderia ter criado a si mesmo, a partir do nada, pois, nesse caso, ele seria causa e efeito ao mesmo tempo, o que é impossível. Se retrocedermos na cadeia de causas, teremos uma série infinita que precisa ser interrompida, caso contrário nunca teria havido um primeiro efeito e, portanto, não existiríamos. Esta Causa Primeira é Deus; um ser incausado, imóvel, eterno, sustentáculo e criador do Universo em que vivemos. 

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Este argumento apresenta três erros que o tornam totalmente inválido. O primeiro não é tão visível assim, e, para identificá-lo, é necessário um olhar mais treinado. Já os outros dois são simplesmente grosseiros.

Em primeiro lugar, o significado da palavra “causa” foi distorcido para que o argumento parecesse mais confiável. Inicialmente, temos “causa” em uma perspectiva científica, significando de fato “causa e efeito”. Posteriormente, o sentido é radicalmente mudado: agora temos a palavra “causa” significando algo como “[o Universo] vir a existir”.

“Criar” é bem diferente de “construir”. O carpinteiro, que é a causa de uma cadeira, não a criou: ele a construiu a partir de materiais que já existiam. Trata-se, na realidade, de uma falsa analogia entre a natureza do Cosmos e a natureza das “criações” humanas, que talvez revele um pouco do nosso antropocentrismo, afinal, o idealizador do argumento parece erroneamente concluir que tudo aquilo que existe deve ser fruto da ação de uma mente projetista, apenas porque neste pequenino ponto chamado Terra existem mamíferos dotados de alguma inteligência que costumam construir (e não criar) seus próprios utensílios.

Agora, vamos aos erros grosseiros. O próprio Deus, cuja existência está se tentando provar, foge à premissa postulada para se chegar a ele. Em um primeiro momento, afirma-se “todo efeito tem uma causa”. Mais adiante, temos que Deus é “incausado”. Ora, se uma dessas duas premissas for verdadeira, a outra obrigatoriamente deverá ser falsa. O argumento é contraditório e, por isso, inválido. Quando afirmamos que algum deus pode ser “incausado”, abrimos espaço para perguntar por que o próprio Universo não poderia ser incausado, o que é muito mais parcimonioso. Talvez a matéria sempre tenha existido. Hoje, ainda não conseguimos falar seguramente sobre isso.

Vale a pena notar que, mesmo se não tivéssemos identificado estes dois erros, ainda assim não estaria provada a existência de qualquer coisa que possa ser intitulada de deus, pois não há motivos racionais para usar deuses como resposta para o problema da regressão infinita de causas e efeitos. As ciências naturais, na tentativa de explicar o mundo e se aproximar o máximo possível da realidade objetiva, também enfrentam o problema da regressão infinita de causas e efeitos e, talvez, nunca encontremos uma resposta definitiva para essa questão. Talvez nunca conseguiremos dar fim à regressão.

E a terceira falha consiste no absurdo de colocar um ponto final neste complexo problema através da simples criação de um ser que se chama Deus, e alegar que ele é Imóvel, Eterno, Criador do Universo, etc. Por que deveria ser essa a resposta? Simplesmente porque o teísta assim deseja? A resposta é: não deveria. Desejos pessoais reconfortantes não servem como evidências em uma discussão. Ademais, se um argumento inconsistente como esse pudesse ser usado para provar a existência de um deus específico, como o Deus dos cristãos, por exemplo, acabaria, então, podendo provar a existência de qualquer outro deus, inclusive provar a existência de dois deuses rivais, que não podem existir conjuntamente, como o Deus Cristão e o Deus Muçulmano.

Por que não era Baal quem estava lá, antes de tudo? Por que não Mitra? Por que não Odin? Por que não adotamos o politeísmo e imaginamos que vários deuses são a resposta para as incógnitas ainda não decifradas pela ciência? Há um oceano de distância entre as premissas postuladas e a conclusão. O máximo que este raciocínio consegue fazer é voltar a uma incógnita e nomeá-la como Deus, e, como já vimos acontecer antes, em períodos inclusive bem recentes da História, chamar nossa ignorância de Deus costuma sempre ser um erro.

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O que precisa ser dito sobre deuses (parte 1 de 5)

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Autor: Caio L. Aidar — paulistano, 24 anos, e desde os 17 se interessa por Ciências e Filosofia.

Visto que a discussão sobre a hipótese de deuses existirem ou não é algo recorrente em nossas vidas, seja numa conversa de bar, seja num debate promovido em uma grande universidade, decidi fazer algumas considerações sobre o tema. Ao fim deste ensaio, a pessoa que crê em algum deus poderá considerar o ateísmo como uma posição muito razoável ou, sendo otimista, a semente da dúvida será plantada em suas reflexões. Pelo menos são essas as sinceras intenções do autor.

Em primeiro lugar, devemos observar que, em uma discussão sobre a existência ou não de deuses, o ônus da prova é de quem afirma a existência, e não de quem a nega. Àqueles que estão familiarizados com o ceticismo, ou aos estudiosos do Direito, a observação pode parecer óbvia, mas, para grande parte das pessoas, a questão de qual das partes deve ser incumbida de provar o que diz, quando falamos sobre deuses, não é tão clara assim.

Se João alega que Pedro é ladrão, cabe a João fornecer evidências concretas para provar tal afirmação. Pedro simplesmente negará a autoria do roubo, e não precisará apresentar evidências para provar que o crime não aconteceu. Com a hipótese da existência de deuses a ideia é a mesma: cabe àqueles que afirmam que deuses existem fornecer evidências sobre sua existência. Aqueles que negam a existência de seres como deuses não precisam fornecer evidência alguma sobre a inexistência destas entidades.

O raciocínio que determina essa condição é bem simples: para que se prove a existência de um deus, basta encontrá-lo, em quaisquer que sejam as condições. Para que se prove a inexistência de um deus, a tarefa é bem mais complexa: é necessário vasculhar cada canto do Universo para, só depois do fim da busca, poder afirmar que nada foi encontrado. Negativas universais são praticamente impossíveis de se provar, daí o fato de o ônus da prova recair, obviamente, em quem afirma a existência. Negar que seja verdadeira uma hipótese esdrúxula, improvável e, muitas vezes, que não se pode falsear (não podemos confirmá-la, nem refutá-la) é sempre a posição padrão. Sendo assim, é totalmente desnecessário buscar evidências para sustentar a posição de negação.

Contudo, diversos argumentos ateístas foram desenvolvidos para tornar praticamente impossível a hipótese da existência de seres com as características comumente atribuídas a deuses. Não há, aqui, espaço e nem é a intenção deste ensaio desenvolver tais argumentos, mas, apenas para citar um deles, podemos mencionar o “Problema do Mal”, que faz desaparecer a hipótese de um deus bondoso e onipotente, como, por exemplo, o Deus da mitologia cristã.

Em segundo lugar, devemos repassar rapidamente os três principais argumentos usados por aqueles que creem em algum deus e, aceitando o ônus da prova, tentam demonstrar racionalmente — e não por meio da fé — a existência da divindade na qual acreditam. São eles: (1) O Argumento Cosmológico; (2) O Argumento Ontológico; e (3) O Argumento Teleológico. A intenção é demonstrar como estes três argumentos, que aparentemente parecem coerentes e bem estruturados, são tão inválidos, quando devidamente analisados do ponto de vista lógico, quanto os argumentos visivelmente mais simples.

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PARTE 2/5

PARTE 3/5

PARTE 4/5

PARTE 5/5 (A SER PUBLICADA DIA 4/JUN)

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Aquela vez em que eu morri

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http://deusilusao.com/2011/02/18/porque-tudo-muda/

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sem título

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É claro que eu posso estar equivocado, mas não lembro de ter lido nada no Antigo Testamento acerca do Diabo ou seus demônios fazerem as pessoas cometer pecados. Discuti isso com uma mocinha evangélica, esses dias, que me chamou a atenção para aquele famoso episódio do Jardim. Acontece que o texto do livro sagrado dela não diz que a serpente era o Coisa Ruim. Diz apenas que “a serpente era o mais astuto dos animais” [Onde mesmo a gente costuma ler esse tipo de construção? Isso mesmo: nas fábulas!].

Até onde eu sei, esse negócio de que a ocupação de Satanás e seus funcionários é fazer com que a gente perca a “Salvação” apareceu junto com Jesus Cristo, de cuja cabecinha de cabelos encaracolados saiu a ideia de torturar eternamente quem não acreditasse que ele era quem ele dizia ser. Pois bem. Aquela mocinha evangélica também não sabia onde falava do Diabo tentando as pessoas no AT, mas argumentou comigo que “é ele (o Demo) que faz a gente cometer pecados”.

Como era uma coisinha muito linda, muito inocente e cheia de hormônios como todas na idade dela, eu achei que poderia esticar a conversa e, tipo…, com a melhor das boas intenções, futuramente… quem sabe… permitir que ela viesse a cumprir aquela vontade divina do “crescei e multiplicai-vos”, afinal, eu ainda tô solteiro.

Então eu perguntei a ela o que seria “pecado”, e ela respondeu que “são ações que desagradam a Deus”.

  — Tá — eu disse. — Mas como eu vou saber o que desagrada a Deus.

  — Tá na Bíblia.

  — Jura? Onde?

  — Nos Dez Mandamentos.

  — Então, torturar uma pessoa não seria pecado, porque não faz parte dos Mandamentos…

  — Só que Jesus resumiu os Dez Mandamentos em apenas dois, e um deles diz que você não deve fazer aos outros o que não gostaria que fizessem com você.

  — Sim… então… pelo que eu entendi… se eu te violentasse não seria pecado, já que eu não iria me importar nem um pouco se você me violentasse… Muito pelo contrário!! ; )

Bom, a conversa foi encerrada abruptamente nesse ponto, e finalmente eu descobri por que ainda estou solteiro…

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Minha linda coroa de brilhantes (fim)

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Eu posso me considerar, pelos padrões morais da nossa sociedade, uma pessoa boa, honesta, decente, justa. Sendo ateu, não sou como sou visando nenhum prêmio. Nem nessa vida, nem numa suposta vida após a minha morte. Não me interessaria pela coroa de brilhantes que Deus ofereceu à Paulo, nem me atrairia viver pra todo o sempre ao lado de criatura tão depravada e mesquinha como a divindade descrita na Bíblia.

Um religioso certamente retrucaria que também não é como é por conta das promessas de imortalidade, de coroas de brilhantes, ou de desfrute eterno de dezenas de ninfetinhas. Mas se é assim, pra que serviriam as promessas com as quais esse Deus parece sempre chantagear a humanidade? Será que um ser tão inteligente e poderoso não seria capaz de perceber que tais promessas ridículas, além de ridículas, seriam completamente desnecessárias?

Claro que perceberia. O problema é que nenhum ser inteligente e poderoso fez tais promessas. Elas foram feitas por pessoas ridículas, medíocres e nem um pouco inteligentes.

O nosso grande problema, hoje e sempre, é que as pessoas querem acreditar nesse Deus, justamente por conta dessas promessas imbecis. Há pessoas que desejam viver pra sempre; outras desejam recompensas materiais (mesmo num mundo imaterial); outras, talvez devido a uma vida toda de privação e restrições (sexuais principalmente), querem poder transar pra sempre com um sem-número de virgens.

Eu não desprezo a religião por ser ridícula em si mesma. Eu desprezo a religião porque ela treina as pessoas para serem esses imbecis choraminguentos, medrosos e desonestos como os cristãos, que se intitulam filhos de um Deus que eles inventaram a partir de um outro Deus que um povo subjugado, medroso e choraminguento inventou pra si mesmo, numa época em que eles não eram capazes de fazer nada melhor do que sonhar com uma  outra vida, num outro mundo.

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Minha linda coroa de brilhantes (3)

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Se você pegasse um daqueles fiéis que concordaram com a visão do Valdemiro Santiago, a de que Deus tem uma coroa de brilhantes para dar de prêmio, depois da morte, aos que fizerem as suas vontades divinas, e o levasse a considerar essa interpretação mais detidamente, até que ele se visse obrigado a finalmente escolher entre uma dessas duas opções:

a) o cristão só faz  as vontades de Deus visando a uma recompensa celeste;

b) Deus acha que os cristãos só farão as suas vontades se forem recompensados;

certamente aquele fiel iria argumentar que a “coroa de brilhantes” é apenas uma metáfora, e que o Valdemiro estava só “enfeitando” mais essa metáfora, quando dizia que Deus mandava um anjo colocar mais uma pedra de brilhante na coroa, sempre que o crente fazia uma boa ação.

Duas coisas com relação a isso.

Uma. O tal do crente só viria a descartar aquela interpretação do Valdemiro depois de tê-la avaliado melhor; até então, a visão de Deus acenando dos Céus com uma coroa de brilhantes nas mãos, para um Paulo prestes a ser executado, parecia completamente aceitável…

A outra. A metáfora da coroa faz sentido apenas se você considerar que ela era um tipo de pagamento, afinal, o que Paulo estaria querendo dizer quando escreveu que a sua coroa da justiça já estava guardada? A “coroa”, mesmo não sendo literalmente uma coroa, seria um prêmio, com certeza; de outro modo a frase não faria sentido algum.

E isso nos levaria de volta às opções “a” e “b” acima. Um beco sem saída, na verdade, que faz dos cristãos um bando de prostitutas (com o devido respeito às prostitutas).

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Minha linda coroa de brilhantes (2)

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Fato 1: os milhares de fiéis que assistiram à pregação do apóstolo Valdemiro Santiago, sobre a coroa de brilhantes com que Deus vai lhes premiar se eles forem bonzinhos, concordaram com a interpretação que ele fez daquele texto bíblico, na segunda carta de Paulo a Timóteo (2Tim, 4:8).

Fato 2: a ideia de que uma divindade onipotente irá te recompensar, num mundo imaterial, com algo de tão grande valor (no nosso mundo) não é tão ridícula quanto a tua vontade de obter tal recompensa.

Mas pergunte a um crente se esse tipo de prêmio, oferecido pelo criador do universo, é o motivo que o leva a fazer coisas boas aqui na Terra, “nessa vida”. A experiência me sugere que você vai receber sempre negativas como resposta. Não; ele não faz coisas boas apenas porque espera receber uma recompensa, cravejada de brilhantes ou não… Mas aí, eu me pergunto, por que diabos Deus iria bolar tal recompensa? Das duas, uma:

a) ou Deus é mesmo onisciente e conhece que você só faria coisas boas se fosse devidamente motivado para isso;

b) ou Deus é esse idiota de moral execrável que pensa que você só faria coisas boas se fosse devidamente motivado para isso.

Duvido que algum cristão vá aceitar uma dessas opções como sendo a resposta, por motivos óbvios. A saída?  O eterno “carta na manga” do cristianismo: a interpretação do texto bíblico.

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Minha linda coroa de brilhantes

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“Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.”

Essa conhecida frase de Saulo de Tarso, o “apóstolo” Paulo, na sua segunda carta a Timóteo, foi tema de uma pregação do pastor Valdemiro Santiago, da “Igreja Mundial do Poder de Deus — a mão de Deus está aqui!”, nesse domingo.

A frase serviu de tema, mas o foco do culto foi bem outro: as recompensas que Deus tem pra você, mas que você só terá acesso depois de morto. Segundo o apóstolo Valdemiro, Deus deve ter ido visitar Paulo na sua cela, na noite anterior à sua execução, para lhe mostrar algo verdadeiramente divino: “uma coroa repleta de brilhantes como nenhum rei da Terra jamais usou”. E Deus, certamente, deve ter questionado Paulo:

 – Você já viu uma dessas, meu filho? — E Paulo:

 – Não, Deus, nunca. — E Deus:

 – Pois essa é sua!

Eu acho que mesmo estando a menos de 24 horas de pisar no cadafalso, Paulo deve ter se mijado de alegria. Eu tiro por mim, porque, se eu estivesse prestes a ser decaptado e alguém viesse me dizer que eu iria ganhar uma coroa de brilhantes, eu não ia saber o que fazer com tanta felicidade.

O pastor Valdemiro estava, então, interpretando, essa “passagem” da Bíblia (2Tim, 4:8):

    Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda.”

Esqueçamos o fato de que “justiça”, aqui, é entendida apenas como a alegre expectativa pela volta de um ser superior a essa dimensão. Concentremos nossa atenção em dois pontos apenas:

1. que o Valdemiro entendeu que a coroa mencionada por Paulo, na carta que escreveu ao seu filho, era um presente de Deus, uma recompensa, em forma de coroa mesmo, como as usadas por reis aqui na Terra;

2. que os milhares de pessoas presentes concordaram com essa interpretação e ficaram satisfeitíssimos com ela.

Valdemiro chegou mesmo a dizer — ele, que entende mais do que ninguém dessas coisas celestes — que quando um crente faz uma boa ação, como dar uma esmola, Deus imediatamente manda um anjo colocar mais uma pedrinha de brilhante na coroa do dito cujo. E, nesse ponto, as câmeras mostraram várias e várias pessoas sorrindo na plateia… Na certa pensando “Ah! eu vou fazer um monte de boas ações pra que a minha coroa venha repleta de pedras de brilhante…”.

Já imaginou a cena? O céu repleto de pessoas/almas/corpos glorificados usando coroas de brilhantes que darão a ideia de quão boas elas foram em vida? Mas será que você acha que vai precisar usar essa coroa o tempo todo “lá em cima”, por toda a eternidade? Se você é devoto do Valdemiro Santiago, sua resposta terá que ser “sim”.

Talvez no Paraíso não exista gravidade. Nem senso de ridículo.

CONTINUA

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Campeonato Mundial de Xadrez

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Pra sair da rotina

Desde sexta-feira está sendo disputado, em Moscou, o campeonato mundial de xadrez, entre o atual campeão, o indiano Viswanathan Anand, e Boris Gelfand, bielorusso naturalizado israelense (fazendo seu lance com as peças pretas, na foto acima).

Os jogos são transmitidos ao vivo pela internet, de segunda a sábado, a partir das 07h55min, hora de Brasília. Serão doze partidas no total.

Clique na foto acima para ser direcionado para o site oficial da competição.

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Deuses de mármore (parte 3)

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Todo religioso com quem já conversei age como se o Deus do Antigo Testamento tivesse morrido.

Isso mesmo. É como se ele tivesse existido, criado o universo, tocado o terror na Terra por um tempo e, por fim, tivesse envelhecido e batido as botas, igualzinho a todo mundo. E como “deus morto, deus posto”, eis que a vaga veio a ser ocupada por seu filho, Jesus. E é a esse que as pessoas que conheço se referem o tempo todo, mal lembrando do outro lá, o falecido.

Quando algum crente  menciona Deus no seu discurso, nunca é o Deus do Antigo Testamento. É um Deus que ele criou em sua cabeça, a partir da ideia que faz de como um Deus deveria ser.

Um escultor pode olhar para um bloco de mármore e imaginar a figura que irá sair de dentro dele, assim que cortar fora os pedaços de pedra que a estão escondendo dos olhos do mundo. Enquanto não começa a trabalhar, só o artista vê o que está oculto na rocha. O cristão tenta fazer o mesmo com o seu Deus-Pai, mas, diferentemente do mármore, a Bíblia não se deixa despedaçar. Daí o crente precisar contar com a boa vontade dos outros para imaginar, junto com ele, o mesmo Deus que ele imagina ver ali dentro. É a razão de tantas religiões cristãs: cada grupo de pessoas vê um Deus diferente.

Se você quiser fazer um teste, sempre que alguém vier “falar de Deus” pra você, esse Deus que se diz ser bondoso, paternal, perfeito, etc., aponte no Antigo Testamento um dos sem-número de trechos que descrevem um Deus malévolo, belicoso e infestado de péssimas qualidades humanas. As chances são de que a pessoa sugira que você faça o que ela mesma já fez: jogar fora esses pedaços de Bíblia que não fazem parte da sua escultura.

Como evidência do meu argumento, segue o link para um texto que um leitor do blog deixou nos comentários. O título é uma tentação: “O que é inspirado por Deus dentro da Bíblia?”.

http://antonioferreirarosa.blogspot.com.br/2011/05/o-que-e-inspirado-por-deus-dentro-da.html

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Deuses de mármore (parte 2)

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Um leitor do blog vez e outra costumava escrever nos comentários dos meus textos:

    Desse Deus em que você acredita, eu também sou ateu.”

Isso como forma de rebater os argumentos em que eu descrevia as incongruências entre o Deus-Papai Noel com o qual os cristãos viciam seus filhos, e o Deus esquizofrênico presente em toda a Bíblia. Para esse meu leitor, aquele Deus a que eu me referia nos posts do blog simplesmente não existia; daí ele se considerar, também, um ateu. Só que todos os meus textos sobre Deus são baseados na Bíblia, que é a única “fonte” original sobre ele. Para acreditar num Deus de amor, justo e bonzinho, o cristão precisa fazer, com o seu livro sagrado, o mesmo que o escultor faz com um bloco de mármore: retirar tudo o que não serve para compor a estátua que ele já imagina estar dentro da pedra. É um processo bastante ineficiente, nesse caso, porque, mantendo a comparação, os pedaços da Bíblia que ele jogou fora para moldar o seu Deus continuam sempre lá.

Eu moro a menos de 500 metros de uma boca de culto de Testemunhas de Jeová. Como se sabe, uma vez por semana eles saem batendo de porta em porta para entregar revistas, panfletos, e falar do amor que uma certa criatura que se esconde numa dimensão mágica tem por você. O engraçado é que, quando o meu pai vai atendê-los, eles costumam demorar uns dez, quinze minutos conversando. Quando sou eu, a conversa não se estende além de uns dois minutos.

– Deus me ama? E se, por acaso, eu não resolver amá-lo de volta ele vai me jogar no Inferno?

– Olha, Deus amou tanto o mundo que enviou seu filho unigênito para que todo aquele que nele crer tenha a vida eterna.

– E Deus amou tanto o mundo a ponto de afogar as pessoas num dilúvio.

Quando a conversa é com meu pai, suponho, eles se detêm falando de amenidades, quando o Deus-Bipolar estava de bom humor, talvez. Quando é comigo, eu descaradamente faço com que eles contemplem os pedaços da Bíblia que não fazem parte do Deus que eles esculpiram pra si mesmos.

CONTINUA…

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Deuses de mármore

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Diz-se que, quando perguntado como era capaz de esculpir estátuas tão perfeitas, Michelângelo costumava responder:

   Ela já estava lá, dentro do bloco de mármore; eu só retirei os excessos.”

Embora fosse um meio de expressar sua indevida modéstia, não se pode dizer que o famoso escultor estivesse errado: todo o seu trabalho se resumiu a retirar pedaços da pedra que não estavam destinados a fazer parte de sua obra. O material que compõe a estátua pronta, como ele bem observou, sempre esteve lá, escondido por trás dos “excessos” de pedra a que ele se referia.

Outro dia me dei conta de que a Bíblia sagrada dos cristãos é, também, um bloco de mármore, a partir do qual cada crente esculpe o seu próprio deus, de acordo com suas preferências pessoais, assim como um escultor tira de uma pedra bruta a figura que bem  quer. Não admira haver tantas denominações religiosas, tantas interpretações diferentes para um mesmo livro sagrado, tantas regras diferentes que, se descumpridas, conduzirão a diferentes infernos…

Dizer que o Deus cristão é único é uma das maiores mentiras do cristianismo, se não a maior, a começar pelo seu próprio dogma da Santíssima Trindade, que obriga o religioso a se entender com dois deuses ao mesmo tempo — Jesus e o Pai dele — , porque o Espírito Santo, a bem da verdade, nem fede nem cheira.

CONTINUA…

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A divina tragédia

Onde: casa do Barros.

Quando: quando o Barros era criança.

Personagens (na ordem de importância): Barros, Papai Smurf, Huguinho, Zezinho e Luizinho.

Cena 1: Sexta-feira de manhã. Mesa do café. Papai Smurf acabou de comer. Ele sorri enquanto observa, cheio de amor, seus quatro filhos.

Papai Smurf: Crianças, tenho algo muito sério a dizer. Por isso espero que vocês ouçam com atenção. Vou agora para o trabalho. À hora do almoço, estarei de volta. Comportem-se bem. Divirtam-se, sejam bonzinhos e aproveitem a manhã. Tá bom? Tudo bem? Ouviram o papai? Hein? Hum?

Ninguém dá muita atenção, como era de se esperar, visto que as crianças foram muito mal educadas, criadas sem mãe e sem nenhuma educação direta do Pai, que sempre se mantém ausente durante a maior parte do dia. Nessa manhã, as crianças quase tocaram fogo na casa e quase que se mataram brigando entre si.

Cena 2: Hora do almoço. Papai Smurf chega, vê  a zona em que a casa ficou, é  informado de tudo e fica muito bravo.


Papai Smurf: Pois bem. Eu sou o seu Pai e não gostei nada nada do comportamento de vocês. Como eu sou um Pai muito ausente e não sei educá-los de outra forma, vou dar uma surra em cada um que vocês jamais esquecerão. Aí vocês vão aprender a se comportar e a ser bonzinhos.

Barros: Papai Smurf, por favor, eu queria receber o castigo por eles, pelos meus irmãos, porque eles não sabem o que fazem. Eu os amo muito: bata só em mim.

Papai Smurf: Barros, meu amado filho, tu és o meu primogênito. Fico feliz com tua coragem e orgulhoso do teu coração puro. Mas fica sabendo que tu vai se lascar, porque vou descarregar num só o que ia ser dividido pros quatro. Vai encarar?

Barros: Papai Smurf, seja feita a tua vontade, não a minha! Meu corpinho de criança não está pronto, mas meu coração está.


Barros é brutalmente espancado, durante alguns minutos, pelo Papai Smurf. Depois, vão todos para a mesa do almoço e almoçam, exceto o Barros, que perdeu alguns dentes e cortou a língua em vários lugares.


Papai Smurf: Vocês ficarão sozinhos outra vez. Só volto agora à noite. Para não acontecer de novo o que aconteceu com o Barros aqui, meu filho amado, eu vou deixar escrito o que eu quero que cada um faça durante a minha ausência e o que não é pra fazerem de jeito nenhum! Como não quero que esqueçam de nada, nem que usem isso como desculpa, vou deixar tudo o que eu quero que vocês façam, bem explicadinho, num monte de recadinhos autocolantes “post it” amarelos que vou fixar na geladeira.

Barros: Papai Smurf, eu posso, depois, copiar todas as instruções dos recadinhos num único livro preto, grande e pesado?

Papai Smurf: Barros, meu amado filho, faça como quiser. Você ficará, ainda, incumbido de divulgar minha palavra entre seus irmãos mais novos para que eles não se desviem do caminho. E quem tiver ouvidos para ouvir que ouça: eu não vou mais aceitar que um se sacrifique pelos outros. Agora, cada um responderá pelo seu mau comportamento. Aqueles que me obedecerem e fizerem como está escrito, eu os recompensarei. Eles cearão comigo e eu com eles numa pizzaria aqui perto. Num lugar onde haverá um playground maravilhoso, gramado, lindamente iluminado e onde eles tomarão Coca-cola à vontade. Aqueles que me desobedecerem, conhecerão a minha ira. A surra que eu dei no Barros vai ficar parecendo um carinho. Enquanto estivermos nos divertindo na pizzaria, eles serão lançados numa pracinha escura que fica do lado, onde serão espancados por um grupo de marginais. Lá haverá pranto e ranger de dentes.

Huguinho: Papai Smurf, eu ainda não sei ler.

Zezinho: Adoro Coca-cola!

Luizinho: O Senhor não tá exagerando, não?

Papai Smurf: Quem tiver alguma dúvida sobre como deve se comportar para ser salvo desse tormento, procure o Barros, que ele vai tirar suas dúvidas. Ninguém vem ao Pai se não pelo Barros.

Cena 3: Noite. Papai Smurf volta do trabalho.

Papai Smurf: E, então, Barros? Faça o que tem que ser feito, pois a hora chegou.

Barros: Todos fizeram como o Senhor disse, Papai Smurf, exceto o Luizinho.

Papai Smuf: Pois bem. Eu sou o Senhor seu Pai. Deixei minha palavra. Preto no branco. Não quis cumprir, agora aguente!


Cena 4: Pizzaria. Papai Smurf, Barros, Huguinho e Zezinho estão acabando de comer uma pizza gigante, metade portuguesa, metade muzzarella. Enquanto eles comem, acompanham, do outro lado da rua, numa pracinha escura e abandonada, quatro delinquentes torturando o Luizinho. Nesse exato momento, Luizinho, que teve as calças e a roupa íntima arriadas, está sendo seguro por trás pelos braços, enquanto outros dois marginais seguram, cada um, uma de suas pernas, mantendo-as afastadas. O quarto se aproxima com uma chaleira de água fervente e derrama seu conteúdo entre as coxas abertas da criança, que se contorce de dor e gane como um animal em agonia.


Papai Smurf: Estão ouvindo isso? Eu não disse que seria um lugar de pranto e ranger de dentes?

Huguinho: Disse, sim, Pai. O Senhor é muito justo.

Zezinho: É o melhor Pai do mundo!!!

Barros: Vamos pedir outra pizza?

…        …      …     …      …     …      …     …      …      …       …       …

O post inominável

Eu sou.

Eu sou Deus.

Só eu sou.

Eu sou só.

Sozinho. Solitário. Nada mais há. Nada além de mim. Eu sou tudo o que existe e sempre foi assim. Sempre eu fui. E sempre eu fui só. Sempre fui só eu e sempre foi só eu.

Mas me cansei. Se sempre tiver que ser assim, como sempre foi, eu ser tudo e nada dá no mesmo. E seria um paradoxo imbecil um Deus, que é tudo, não poder ser nada. Seria. Futuro do pretério. Não mais será. Futuro do presente. Por quê?

Porque eu também sou o Verbo: eu faço e aconteço. Basta querer. E, aqui, vai um no infinitivo mesmo, pois eu também sou infinito. Adoro brincar com as palavras! Juro por mim! Ha-ha-ha. Um dia ainda quero escrever um livro. Ou vários. Uma Bíblia, talvez… Nossa! quantos planos! Como é bom ter o que fazer!!! Bom, chega de conversa fiada.

Vou criar o Paraíso — o Céu — onde habitarei com seres perfeitos: os anjos. Seres imortais, puros, divinos, que irão dividir o Céu comigo, que vão me amar, glorificar, adorar, obedecer. Eternamente. Não serei mais só. E terei quem me venere, quem reconheça meu poder, quem me exalte, quem me ame, quem não tenha nenhuma outra aspiração, nem deseje outro fim, que não seja se prostrar diante de mim e me contemplar embevecido com minha glória e fascinado pelo meu poder. E meu poder é pleno. Parece que a única necessidade que eu tenho é a de ser amado. Incondicionalmente. Que coisa mais estranha essa! Nunca havia reparado… Mas… enfim. Vamos lá. Que assim seja:

Pluft!

Mas não entendo. Mesmo tendo criado o Paraíso e os anjos, não estou contente. Parece que criei um monte de enfeites. Sinto-me como um artesão que fabrica vasos, que tomam a forma que ele quer e cumprem o destino que ele dá. Se fabrica um ou um milhão, dá no mesmo.

Continuo entediado. Mesmo com o amor incondicional dos meus anjos. Um amor perfeito, completo, extremo. Eu sou o Deus deles e eles não hão de querer outra coisa além de passar toda a eternidade ajoelhados olhando para mim e me amando… Arre!, que coisa mais monótona!

Talvez eu tenha uma outra necessidade ainda mais estranha: preciso me exibir. Só que meus anjos me adoram e me veneram sem que seja preciso que lhes faça absolutamente nada! Posso passar toda a eternidade sem fazer uma única mágica e, ainda assim, eles continuarão me amando e me obedecendo. É… parece que criei um monte de vasos mesmo!

Ei! por que não criar uma nova raça, então?! É isso mesmo!!! Eu sou muito sabido!! Hehehehehehe. Uma raça de seres quase iguais a mim! Com inteligência, com discernimento, com livre-arbítrio, com a capacidade de pensar, de escolher por si… Uma raça tão independente e livre que terá até o poder de não me amar, e mesmo o de me rejeitar, se assim acharem que devem!! Isso me dará muitas oportunidades para me exibir, para mostrar como eu sou poderoso! Como eu sou perfeito!! Como eu sou completo!!! E, então, fazer jus ao amor deles… Nossa!, que desafio! que parque de diversões!!

Mas já estou divisando alguns problemas… Como pretendo fazê-los inteligentes, eles vão acabar percebendo que eu não sou completo. Ora, se precisei tê-los criado! Se eu fosse completo não precisaria de nada e teria deixado tudo como sempre foi. E o diabo é que logo logo vai aparecer um engraçadinho na Internet, se valendo de qualquer bloguezinho gratuito fajuta, e vai dizer que eu não sou completo justamente por isso! E que não sou perfeito por causa dessas necessidades estranhas que tenho de ser amado e de me exibir… Ai, ai, ai… isso não vai pegar bem… Epa! Já sei! Vou providenciar para que exista um tipo de deus maligno de baixa potência e botar a culpa nele sempre que alguém falar mal de mim! Seja verdade ou não. Huummm… Peraí… Como eles vão ter discernimento… e livre-arbítrio… já pensou se, de repente, eles acharem muita mesquinhez da minha parte ter criado todo um universo e eles próprios só para ter para quem me exibir? E por conta disso resolverem adorar o outro deus e não euzinho? Gente, que tiro no pé!!!

Arre!, eu sinto que minha ideia é boa, só que esse negócio de discernimento e livre-arbítrio não está encaixando! Poxa, isso seria essencial para dar certo a minha nova obra, para que eles não sejam mais outra fornada de vasos, de enfeites divinos; mas, também, ao que parece, é um problema muito complicado de se resolver… até para mim. E se eu tirasse o discernimento? Ou só o livre-arbítrio? Arrrrh!, esse troço de ter que decidir tudo sozinho me dá nos nervos!!!

– Ô, anjo, vem cá!

– Sim, Altíssimo!

– O que você acha de eu criar uma raça inteligente, que tenha livre-arbítrio e até mesmo a opção de não me amar?

– Ah!, Onipotência, tu és Santo, Santo, Santo.

– Sim, mas o que você acha? Daria certo?

– Ó, Majestade, só tu és Deus!!!

– Meu filho, eu tô perguntando a sua opinião! Você se incomoda!? Hein?!!!

– Mas, Santidade, tu podes tudo, porque tu és o Alfa e o Ômega!!!!

– O Alfa e o Ômega o raio que o parta! Vaza daqui! VAZA!!!

– Sim, Meritíssimo!!!! A ti, toda a honra e toda a glória!!

– Vai-te embora, infeliz, antes que eu perca a compostura!!!!!  Que inferno!!!

Uia!  Tive outra ideia!!!…

Dissertação sobre Moralidade

Esse foi um dos melhores vídeos que já vi no You Tube. Serve para ilustrar o maior de todos os males que a Religião causa à humanidade: obrigar a cada um a rejeitar o seu próprio raciocínio, desconsiderar a própria inteligência, ignorar o próprio bom-senso, em nome da perpetuação de um sonho tolo, prejudicial, e completamente desnecessário.

Você pode se sentir tentado a achar o vídeo comprido demais e ter preguiça de vê-lo até o fim. Quando isso acontecer, basta lembrar que é justamente por conta desse tipo de sedentarismo intelectual que a ideia de Deus é tão atraente: ela “responde” a tudo bem rapidinho, ao mesmo tempo que desobriga as pessoas de refletirem sobre seus próprios atos e sobre suas próprias vidas.

 

Apocalipse: o mundo “já” acabou!

Como bom cristão, o padre Fábio de Melo molda como bem quer a palavra sagrada, imutável, perfeita e eterna de Deus. O Apocalipse já passou, você sabia?

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O que Jesus “não” faria

Indicação do Cristiano:

 

A seguir…

Em breve, estarei iniciando uma nova série de textos que vai se chamar OS DEUSES DE MÁRMORE.

Enquanto isso, que tal entender como funciona o produto de consumo de maior sucesso da História? Segue o link:

http://deusilusao.com/2011/12/27/deus-manual-do-usuario/

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Em nome da Vida

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Minha série de textos sobre o aborto:

http://deusilusao.com/2011/09/14/aborto-a-batalha-entre-fe-moral-e-razao-parte-1/

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Deus: a hipótese falha

Clique na imagem abaixo para ler a tradução que fiz de um texto belíssimo extraído do livro de Victor J. Stenger. Para ler mais, veja nos Melhores Textos o tópico Traduções.

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Tratado das Ilusões

Clique na imagem abaixo para ler o meu TRATADO DAS ILUSÕES

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DeusILUSÃO no iPad

 

 

 

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Olá.

Se você é usuário de iPad, poderá ler o DeusILUSÃO num formato bem atraente, específico para usuários do tablet da Apple.

Basta clicar em “Ver site iPad”, que aparece pra você ao lado do passarinho do Twitter, à direita na página, logo abaixo do cabeçalho do blog.

O retorno para a visualização comum de internet poderá ser feito a qualquer momento, através do link “Ver site padrão” que aparecerá na parte inferior da página.

Espero que gostem.

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3 frases imbecis

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Cristão que é cristão costuma dizer frases imbecis a torto e a direito, simplesmente porque faz parte da sua rotina não racionalizar nada referente à sua própria fé. Ele ouve e repete; lê e acredita; ora e espera. É assim que funciona e sempre funcionou. Mas, de todas as frases imbecis que se pode ouvir de um religioso, “Deus é fiel” ganha o primeiro lugar, à frente até da surrada “Jesus te ama”, segunda colocada, e “Deus é amor”, a terceira.

Deus é fiel, crente? Claro que ele vai dizer que sim, e, como sempre, não vai querer seguir com a conversa. Porque a conversa acabaria por revelar que ele está equivocado. Equivocado no seu entendimento do que seja ser fiel, ou equivocado no que venha a ser o Deus que ele diz que ama. Na verdade, na verdade, o crente só é crente porque ele ignora um sem-número de coisas, dentre elas, sua própria divindade.

Se eu dissesse, crente, que ser fiel é ser leal, eu poderia perguntar: Deus é/foi leal a quem exatamente? Eu sei que você pode tirar alguns bons exemplos do seu livrinho de fábulas, mas, ainda assim, a coisa fica feia pro seu lado, porque você vai precisar admitir que Deus foi leal a certas pessoas, e a outras não. Se ele apoiou um lado num campo de batalha, porque era o lado cujo comandante babava seu ovo sagrado, não demonstrou um pingo de lealdade para com Jó, por exemplo, que também era seu devoto. Se Deus é leal, às vezes, quando lhe convém, você não pode transformar isso num tipo de “descrição” dele. A menos que queira aumentar aquela frase campeã de imbecilidade para “Deus é fiel, quando quer”.

Outra: ser fiel é ser constante. E taí uma coisa que o Deus bíblico não é. Muito ao contrário, ele é bastante volúvel, para não dizer bipolar. Se não acredita em mim, faça uma coisa que você nunca fez (embora sua alma eterna dependa disso): leia a sua Bíblia. Você vai ver que Jesus e Deus têm personalidades bem diferentes. Só pra não me estender, lembro que Deus queria ser o deus dos hebreus, seu povo escolhido — e só. Jesus queria ser o deus de todo mundo.

Outras definições de fiel? Seguro. Que não falha. Você acha que Deus se encaixa? O mesmo Deus que vem tentando há milênios ser o único deus digno de adoração? Que criou a humanidade e se arrependeu? Que veio à Terra em carne e osso deixar uma mensagem que explicasse como a gente poderia se salvar de sua fúria e só complicou tudo mais ainda?

Quando alguém, inadvertidamente, me diz que Deus é amor, eu invariavelmente respondo “Ou você não entende porra nenhuma de Deus, ou não entende porra nenhuma de amor”. Já quando um religioso me diz que Deus é fiel, eu pego mais pesado ainda.

Eu pergunto “Por quê? Por que você acha que Deus é fiel?”. E termino por fazer um crente infeliz.

Porque, por um segundo, eu o obrigo a perceber a imbecilidade que acabou de proferir.

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Cânticos

Sugestão do leitor Stranger_Land

A metade de uma ilusão

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Reflexões… Parte 2

Eu imagino a primeira vez em que alguém falou de sereias para outro alguém. Com certeza deve ter sido um pescador, longe há meses da terra firme. Quando um homem fica muito tempo sem sexo, começa a pensar demais no assunto, e daí a ver coisas é um pulo. Então você tem um cara doido pra transar, pensando em mulher o tempo todo, e lidando com peixe da hora em que acorda até a hora em que vai dormir. Ele juntou uma coisa com a outra, meio a meio, e espalhou a notícia. A ideia era original, correu de boca em boca e acabou caindo em mãos habilidosas que a eternizou no papel. Mas o início de tudo deve ter sido assim: alguém juntou aquilo que mais fazia parte de sua realidade com o seu maior sonho no momento. Peixe + mulher = sereia.

Agora isso: o que mais faz parte da realidade? Bem, a nossa realidade é pródiga em demasia acerca de tudo. Não espero que a minha última frase faça algum sentido, mas diz o que eu quis dizer: muita coisa pode responder àquela pergunta. Os sofrimentos; as incertezas; os perigos; a dor; a morte. E qual seria o nosso maior sonho coletivo? Hein? Como seres humanos? Ah!, que houvesse alguém nos vigiando, um pai celeste, cuidando das nossas vidas, fazendo as nossas vontades, aliviando os nossos sofrimentos, defendendo a gente de perigos, da dor e, de brinde, nos tornando imortais. Essa ideia, nada original, também foi eternizada no papel por mãos habilidosas. Mas o início dela, nas mais diferentes culturas ao longo da nossa história, também deve ter sido assim: alguém juntou aquilo que mais fazia parte de sua realidade com o seu maior sonho no momento. E os deuses entraram no nosso mundo.

Mas como a sereia, metade mulher, metade peixe, você sabe que parte é  real, e que parte foi fantasiosamente adicionada. A dor, o sofrimento, o perigo, a incerteza e a morte, isso tudo faz parte do nosso peixe. É com o que lidamos no nosso dia a dia; da hora em que acordamos até a hora em que vamos dormir.

A metade que sobra é apenas desejo.

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Uma prova de que Deus não existe

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Um filme imperdível [documentário]

 

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João 3:16 = 0,1875

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“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigénito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”

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Reflexões… Parte 1

Eu conheço gente que dirige há décadas e ainda acha que a seta do carro foi feita para indicar quando o veículo vai sair de uma rua e entrar noutra. Se ele está na avenida X e vai entrar na rua Y, ele dá seta. Se vai fazer uma ultrapassagem, um retorno, ou mudar de faixa, não. Já morei numa cidade em que era comum os motoristas acionarem a seta “depois” de iniciarem uma mudança de faixa, por exemplo. Um colega dizia que eles acreditavam que a seta era pra dizer que “Já fui!”. Mas, fora isso, muitas daquelas pessoas eram excelentes motoristas.

Dá-se o mesmo, eu acho, com relação à fé religiosa. Fora essa visão imbecil do mundo, nada impede que essas pessoas sejam tão inteligentes em tudo o mais, quanto qualquer outra.

Os crentes só não percebem a tolice infantiloide de acreditar em seres mágicos superpoderosos que habitam outras dimensões porque evitam, a todo custo, refletir sobre suas próprias crenças. Quando a gente faz isso por eles é que percebe como esse artifício é mesmo necessário para mantê-los fiéis à suas crenças. Refletir sobre a própria fé talvez seja o caminho mais curto para o ateísmo. E vem daí a utilidade dos dogmas, que, por definição, são proposições que devem ser aceitas sem questionamentos.

Um exemplo bem prático: Jesus Cristo.

Jesus é o deus dos cristãos. O Deus-Pai, o Deus do Antigo Testamento, esse eles usam apenas como parte do vocabulário. O deus das canções, dos louvores, e da adoração nas igrejas católicas e demais bocas de culto é aquele que morreu na cruz. Pois muito bem.

Para que mesmo Jesus morreu na cruz?, eu pergunto. Ah!, para nos salvar, eu respondo. Simples, não? É sim. Muito simples. Mas o pessoal que vive em função de Jesus e Satanás só vai até aí. Quer fundir a cabeça deles? Quer arrumar uma briga durante a sobremesa? Quer fazer as pessoas numa festa olharem para você como se você estivesse todo cagado? Vá um pouco além disso. Perguntando, talvez… por exemplo…

Mas salvar de quê?

Do Inferno.

Jesus não quer que a gente vá para o Inferno?

Claro que não.

E a maneira que ele encontrou pra te salvar do Inferno foi exigir que você acreditasse que ele não quer que você vá pra lá?

Quando Deus cagava no mato

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Longe de ser uma prova de amor (“Deus amou tanto o mundo que deu seu filho unigênito…”, blah!), o suposto sacrifício de Jesus teria sido uma indiscutível prova de idiotice. Se Deus existisse, essa sua ideia de “salvar” a humanidade (dele mesmo, só lembrando…) através de um sacrifício humano já seria, por si só, ridícula. E seria tanto mais ridícula quanto mais poderoso fosse esse Deus. Ou isso, ou estaríamos todos nós vivendo num universo governado por uma divindade extremamente sádica.

Pense bem. Deus, uma criatura que é capaz de construir de átomos a galáxias, teria bolado um plano para nós escaparmos de sua ira. Isso porque, em algum momento, parece que nós o deixamos puto por não seguirmos as suas regras imbecis. O fato de um bando de macaquinhos arteiros feito nós termos tido a capacidade de enfurecer um deus não é tão revelador quanto o fato de um Deus criador de universos ter-se enfurecido conosco. Mas, mesmo deixando isso de lado, e o crente faz questão de deixar isso de lado, considere-se apenas a solução que esse ser superior arranjou para o problema.

Ele teve um filho com uma mortal.

Ora, mas se não era um expediente muito em voga nas várias mitologias da época! Parece que, depois do descanso do Sétimo Dia, Deus ficou sem inspiração nenhuma e resolveu tirar algumas ideias das estorinhas que esses macacões aqui costumavam contar para ninar seus macaquinhos…

Esse filho, na verdade, seria ele mesmo disfarçado de gente. Nessa condição, ele se deu uma missão suicida, pela qual deveria ser executado após promover umas tantas badernas, e criar inimizades com os sacerdotes do seu povo, por transgredir as leis sagradas que ele mesmo lhes havia imposto. Uma vez morto e ressuscitado, ele iria querer que as pessoas acreditassem que ele, como Jesus, era Deus, e que a sua tortura e morte na cruz serviria para apaziguá-lo, como Deus, de estar puto porque nós não seguíamos as suas regras (as mesmas que ele também não seguiu enquanto estava aqui embaixo cagando no mato como todo mundo), mas ele continuaria puto se nós não acreditássemos que ele fez isso, assim como eu estou dizendo.

Não se envergonhe de ler o parágrafo acima de novo. A coisa é assim tão ridícula a ponto de deixar a gente zonzo. Isso parece mesmo, pra você, um plano concebido por um ser que sabe construir átomos e galáxias? Você só pode tá de sacanagem! Até o pessoal do SEBRAE teria inventado uma solução melhor! Isso pra mim tá mais parecendo um plano bolado por um bando de velhotes ignorantes que limpavam a bunda com areia quente.

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Nós nos tornamos nossa própria invenção

Um estupro versículo a versículo (parte 2)

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     Então, disse Maria:

     Eis aqui a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.”

(Lucas, 1:38)

No desespero de se encontrar um argumento que mesmo de longe acenasse com a justificativa de que Maria, de algum modo, concordou em fazer parte do plano divino, o cristão se obriga a ler nessas linhas uma exultante aquiescência da Virgem, quando não passa, na verdade, de uma triste resignação ao destino que assim se lhe apresentava. Primeiro, porque as palavras do anjo não lhe deixaram dúvidas de que ele estava ali apenas para lhe comunicar o que Deus já havia decidido, à revelia de sua própria vontade. Segundo, Maria pertencia a um povo que via suas mulheres como um ser de segunda categoria, uma criatura eternamente subjugada, seja à família, ao marido, aos homens, e à sociedade em geral, que, por sua vez, assim agia orientada por sua divindade que, se não se apresentava como essencialmente masculina, era, ao menos, marcadamente sexista — a favor dos homens, entenda-se.

Mesmo que tivesse tido tempo para ponderar as consequências da situação, para avaliar se desejaria ou não participar daquilo tudo — opção que ela nunca teve —, certamente Maria não tinha a mesma condição moral de uma mulher de hoje para dar uma resposta que correspondesse aos seus desejos verdadeiramente mais profundos. Simplesmente ela não se via como um ser humano livre para decidir sobre o seu próprio futuro.

    Eis aqui a escrava do Senhor.”

Ora, onde já se viu um escravo ir contra as vontades do seu dono?

Eu fico imaginando se eu fosse uma mulher, e Deus, hoje, chegasse pra mim e dissesse que eu iria engravidar dele. Isso, veja só, sem eu precisar me preocupar em ser apedrejada por uma sociedade que se considerasse dona da minha vagina. Eu poderia criar Jesus como mãe solteira sem problema algum. Mas a questão não é essa. Hoje, sem me ver como um ser humano inferior, sem achar que sou uma escrava de quem quer que seja e, por conseguinte, sem ter que me sujeitar aos caprichos sexuais (sobrenaturais ou não) de quem quer que fosse, eu poderia olhar nos olhos de Deus e fazer algumas perguntas bem pertinentes. E a primeira delas seria:

 – Vem cá! Por que você acha que eu deveria servir de barriga de aluguel pra você?

 – Ora, mas você vai estar gerando o filho de Deus!

 – Foda-se! Levando só isso em consideração, o Eike Batista também poderia querer me comer soltando uma cantada desse tipo: “Ora, você vai transar com o cara mais rico do Brasil!”.

Aqui, uma pausa pra Deus pensar como me convencer a “dar” pra ele.

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<< Texto inicial: O Estupro Sagrado da Virgem Maria.

Um estupro versículo a versículo (parte 1)

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Deus estuprou a Virgem Maria. Ponto.

O fato de a “nossa” definição de estupro não se enquadrar perfeitamente bem no caso é um mero detalhe. Muito crente que me ouviu dizer a frase acima me olhou com ódio mortal, mas não pôde rebater meus argumentos. No mais das vezes, eles se limitam a me dizer que Deus me ama assim mesmo como eu sou (?), ou a dizer que Deus vai me mandar para o Inferno (??). Ou seja, os crentes nunca conseguem chegar a um acordo sobre sua divindade no que quer que seja.

Até hoje não apareceu um que me dissesse onde eu errei na minha declaração; onde está meu equívoco; que versículo eu li errado.

E por falar em versículo, voltemos à cena do crime.

     Entrando pois o anjo onde ela estava, disse-lhe: “Deus te salve, cheia de graça! O Senhor é contigo! Bendita és tu entre as mulheres”.

Primeira coisa: por que a porra do anjo teve que dar o recado a ela em particular? Por que não abordar a Virgem Maria no meio de um shopping center lotado para anunciar que ela iria ter um filho do Criador do Universo? E daí se mais pessoas iriam ficar sabendo? Pra que esse segredinho se, segundo os planos do próprio Deus, essa história teria que ser conhecida pelo mundo todo? Mas não! O anjo invadiu a alcova da virgem e lhe deu a notícia que, desde o começo, já lhe valeu o risco de ser apedrejada por adultério.

     Ela quando o ouviu, turbou-se do seu falar, e discorria pensativa que saudação seria esta.

O canalha chegou de sopetão e pegou a pobre desprevenida; típica atitude de um estuprador. Mariazinha, recém-entrada na adolescência, vê-se diante de uma figura celestial que chega sem prévio aviso com um comunicado daqueles! Claro que ela tinha que ficar sem palavras! Não pôde nem gritar por socorro, a coitada.

     Não temas, Maria,

Um pouco tarde para um pedido desses! Imagina só se o anjo Gabriel tivesse tido o cuidado de enviar um estafeta humano para entregar um bilhete à Maria, digamos, um mês antes de ter invadido o quarto dela. O bilhete seria para explicar que, dali a tantos dias, ele, Anjo, iria aparecer no quarto dela para tratar de um assunto delicado, que envolveria, de cara, a ameaça de execução sumária dela mesma, se José resolvesse denunciá-la ao povo por estar grávida sem que ele nunca antes tivesse encostado nela. Além disso, ele versaria um pouco sobre todo o sofrimento que ela teria que passar, criando um filho meio que perturbado das ideias, que se meteria numa encrenca das boas e teria que ser morto por tortura, sendo que ela precisaria participar de tudo, e bem de perto. Se Maria tivesse tido tempo para avaliar a situação… duvido que estivesse no quarto esperando o anjo no dia marcado.

     pois achaste graça diante de Deus.

Não, Maria não riu de alguma cantada que Deus soltou pra ela, não. Isso aí quer dizer que Deus “se agradou” dela… Entende? Outra típica atitude de um estuprador. Ele, todo gostosão, lá das alturas, só vasculhando… só escolhendo… e: “Ôpa! Gostei daquela ali!”.

     Eis que conceberás no teu ventre e darás à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus.

Eita! Será que eu pulei algum versículo? Um em que o anjo tenha perguntado algo como “Você aceita, Maria?”. Não, pulei não. O troço foi assim mesmo: o anjo invadiu o quarto sem convite e sem aviso, deixou a moça embasbacada, meio sem entender direito o que tava acontecendo, disse que ela iria ser mãe, e até já trouxe o nome do bruguelo!

Credo em Cruz!, nem o nome da criança Deus deixou ela escolher!

     Como se fará isso, pois eu não conheço varão?

Será que só eu que percebi que essa pergunta não faz o menor sentido na boca de Maria? Ora, se eu estou desposada de um homem que seguramente será o único homem com quem farei sexo, qualquer filho que eu venha a ter será, pois, obrigatoriamente dele. Se um anjo me aparece e me diz que eu vou engravidar e que o filho que nascerá de mim deverá receber o nome de Jesus, minha única suposição seria a de que o nome do bebê deveria ter uma grande influência nos planos divinos, para que um anjo viesse me visitar e exigir isso. A pergunta do texto não faz o menor sentido, e só pode ser explicada como um elo que o escritor dessa lenda fez para a fala seguinte do anjo

     O Espírito Santo descerá sobre ti, e a virtude do Altíssimo te cobrirá da Sua sombra. E por isso mesmo o Santo, que há de nascer de ti, será chamado Filho de Deus.”

A comunicação da violência iminente que ela iria sofrer, e que só não é vista como tal por um motivo bem simples. Deus, o Deus do Antigo Testamento, já fora devidamente arquivado pelos cristãos. O deus novo que essa nova religião inventou, Jesus, o Cristo, não teria transformado o cristianismo no que é hoje se constasse, da sua biografia, que ele havia sido o fruto de um estupro.

Ave Maria, estuprada por Deus, rogai por nós!  

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O Estupro Sagrado da Virgem Maria

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Bendito é o fruto do vosso ventre: Jesus!

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O Evangelho de Mateus passa meio que por cima do assunto, sem querer entrar muito em detalhes, o que é bem compreensível, visto a natureza deveras escabrosa do ocorrido. Mas o livro de Lucas, segundo o meu ponto de vista, descreve uma recatada moça de família, virgem e maritalmente comprometida sendo vítima de assédio sexual seguido de estupro.

Na verdade, e a bem da verdade, o termo “estupro” não se ajusta perfeitamente nesse caso específico. É que, tecnicamente falando, o nosso Código Penal não abrange a situação em que o intercurso sexual se dá sem a presença do estuprador, mesmo que, como prova do crime, tenha resultado uma gravidez indesejada, como foi a de Jesus Cristo. Uma vez que o meliante autor do delito estava presente apenas em Espírito, esse crime hediondo meio que escapuliu do devido enquadramento legal, visto que um princípio jurídico determina que nenhum ato pode ser considerado criminoso sem uma lei prévia que o estabeleça como tal.

Explica-se, então, que a atitude divina para com aquela plebeia judia só não pode ser considerada adequadamente um estupro por conta de nossa ferrenha atenção às normas que nós mesmos criamos. Mas se não foi aquilo um estupro, teria sido o quê? Um contato imediato do sexto grau? Para quem não sabe, um CI-VI é aquele em que um humano tem relações sexuais com extraterrestres. (No caso em questão, o E.T. seria Deus; ele “não é terreno”, logo, a terminologia se aplica.)

Assim, por falta de uma nomenclatura vigente; por o caso em apreço não ter se configurado uma conjunção carnal propriamente dita — segundo nossas próprias definições — , eu passarei a adotar uma expressão própria para me referir ao ato da concepção do Salvador, daquele que é a Luz do mundo e sem o qual ninguém chegará ao Pai.

Segundo a Bíblia, embora não esteja lá assim tão claramente posto, Deus assediou sexualmente e violentou de uma forma sobrenatural a Virgem Maria. Um caso clássico, portanto, de “estupro sagrado”.  

E é isso que passo a analisar agora, dando início com a transcrição do B.O., digo, das Escrituras:

E estando Isabel no sexto mês, foi enviado por Deus o anjo Gabriel a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada de um varão chamado José, da casa de Davi, e o nome da virgem era Maria.

Entrando pois o anjo onde ela estava, disse-lhe:

“Deus te salve, cheia de graça! O Senhor é contigo! Bendita és tu entre as mulheres.”

Ela quando o ouviu, turbou-se do seu falar, e discorria pensativa que saudação seria esta. Então o anjo lhe disse:

“Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás no teu ventre e darás à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus.” (…)

E disse Maria ao anjo:

“Como se fará isso, pois eu não conheço varão?” 

E respondendo, o anjo lhe disse:

“O Espírito Santo descerá sobre ti, e a virtude do Altíssimo te cobrirá da Sua sombra. E por isso mesmo o Santo, que há de nascer de ti, será chamado Filho de Deus.” (…)

Então, disse Maria:

“Eis aqui a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.”

E o anjo se apartou dela.

(Lucas, 1:26-38)

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CONTINUAÇÃO:

- Um estupro versículo a versículo (parte 1)

- Um estupro versículo a versículo (parte 2)

Não deixe de ler, também:      A Cobiçada Vagina de Nossa Senhora

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O fruto

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Meu pai me deu a Bíblia dele de presente e ficou com a minha velha.

Interpretação de texto é uma habilidade impressionante, não é? Faz até a gente consertar frases mal redigidas… O que eu quis dizer é que eu tinha uma Bíblia surrada, de médio porte, com encadernação de luxo e páginas bem resistentes; enquanto que meu pai tinha uma Bíblia monstruosamente grande, de capa dura e folhas de papel jornal. Hoje meu pai resolveu pegar a minha pra ele, porque fica mais fácil de ler e de manusear, e me deu a dele em troca. Uma troca do tipo “Fica com essa aí e cala a boca, porque, se não fosse eu, você nem estaria aqui”.

Meu pai não tem no banco dinheiro suficiente nem pra despachar um cego; portanto, não é por interesse em uma possível herança que eu o obedeço, faço suas vontades e atendo seus pedidos. Também ele nunca me ameaçou com nenhum tipo de castigo ou tortura se eu não o amasse e, vê que coisa!, eu o amo assim mesmo. Vai entender… Um ser imperfeito e limitado, que não sabe fazer mágica nem com cartas de baralho, e tem um filho que o ama a ponto de não reclamar quando ele surrupia sua Bíblia bonitinha, e lhe dá em troca uma merda daquelas!

Aconteceu que, enquanto eu folheava meu novo mastodonte sagrado, acabei por acaso tropeçando nuns versículos que me chamaram a atenção para um tenebroso relato bíblico que ninguém talvez nunca tenha interpretado adequadamente. Interpretação de texto também é uma habilidade traiçoeira, você sabe. Depende das coisas que o seu cérebro já se acostumou a entender, a perceber, a aceitar, etc…  Não é uma ciência de foguetes, portanto. Daí que deve ter sido por isso mesmo que ninguém deu ao caso a evidência merecida. Até agora.

O tema é polêmico e aqui vai uma dica: foi o primeiro crime que Deus cometeu no Novo Testamento.

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Cientista prova a existência de Deus e ganha prêmio

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Por Redação Gospel+ em 26 de março de 2008

Através de leis da física e da filosofia, pesquisador polonês Michael Heller mostra que Deus existe e ganha um dos mais cobiçados prêmios. Ele montou a sua metodologia a partir do chamado “Deus dos cientistas”: o big bang, a grande explosão de um átomo primordial que teria originado tudo aquilo que compõe o universo.

Como um seminarista adolescente que se sente culpado quando sua mente se divide, por exemplo, entre o chamamento para o prazer da carne e a vocação para o prazer do espírito, o polonês Michael Heller se amargurava quando tentava responder à questão da origem do universo através de um ou de outro ramo de seu conhecimento – ou seja, sentia culpa.

Ocorre, porém, que Heller não é um menino, mas sim um dos mais conceituados cientistas no campo da cosmologia e, igualmente, um dos mais renomados teólogos de seu país. Entre o pragmatismo científico e a devoção pela religião, ele decidiu fixar esses seus dois olhares sobre a questão da origem de todas as coisas: pôs a ciência a serviço de Deus e Deus a serviço da ciência. Desse no que desse, ele fez isso.

O resultado intelectual é que ele se tornou o pioneiro na formulação de uma nova teoria que começa a ganhar corpo em toda a Europa: a “Teologia da Ciência”. O resultado material é que na semana passada Heller recebeu um dos maiores prêmios em dinheiro já dados em Nova York pela Fundação Templeton, instituição que reúne pesquisadores de todo o mundo: US$ 1,6 milhão.

O que é a “Teologia da Ciência”? Em poucas palavras, ela se define assim: a ciência encontrou Deus. E a isso Heller chegou, fazendo- se aqui uma comparação com a medicina, valendo-se do que se chama diagnóstico por exclusão: quando uma doença não preenche os requisitos para as mais diversas enfermidades já conhecidas, não é por isso que ela deixa de ser uma doença. De volta agora à questão da formação do universo, há perguntas que a ciência não responde, mas o universo está aqui e nós, nele. Nesse “buraco negro” entra Deus.

Segundo Heller, apesar dos nítidos avanços no campo da pesquisa sobre a existência humana, continua-se sem saber o principal: quem seria o responsável pela criação do cosmo? Com repercussão no mundo inteiro, o seu estudo e sua coragem em dizer que Deus rege a ciência naquilo que a ciência ainda tateia abrem novos campos de pesquisa. “Por que as leis na natureza são dessa forma? Heller incentivou esse tipo de discussão”, disse a ISTOÉ Eduardo Rodrigues da Cruz, físico e professor de teologia da PUC de São Paulo.

Heller montou a sua metodologia a partir do chamado “Deus dos cientistas”: o big bang, a grande explosão de um átomo primordial que teria originado tudo aquilo que compõe o universo. “Em todo processo físico há uma seqüência de estados. Um estado precedente é uma causa para outro estado que é seu efeito. E há sempre uma lei física que descreva esse processo”, diz ele. E, em seguida, fustiga de novo o pensamento: “Mas o que existia antes desse átomo primordial?”

Essas questões, sem respostas pela física, encontram um ponto final na religião – ou seja, encontram Deus. Valendo-se também das ferramentas da física quântica (que estuda, entre outros pontos, a formação de cadeias de átomos) e inspirando-se em questões levantadas no século XVII pelo filósofo Gottfried Wilhelm Leibniz, o cosmólogo Heller mergulha na metáfora desse pensador: imagine, por exemplo, um livro de geometria perpetuamente reproduzido.

Embora a ciência possa explicar que uma cópia do livro se originou de outra, ela não chega à existência completa, à razão de existir daquele livro ou à razão de ele ter sido escrito. Heller “apazigua” o filósofo: “A ciência nos dá o conhecimento do mundo e a religião nos dá o significado”. Com o prêmio que recebeu, ele anunciou a criação de um instituto de pesquisas. E já escolheu o nome: Centro Copérnico, em homenagem ao filósofo polonês que, sem abrir mão da religião, provou que o Sol é o centro do sistema solar.

A caminho do céu

Michael Heller usou algumas ferramentas fundamentais para ganhar o tão cobiçado prêmio científico da Fundação Templeton. Tendo como base principal a Teoria da Relatividade, de Albert Einstein, ele mergulhou nos mistérios das condições cósmicas, como a ausência de gravidade que interfere nas leis da física. Como explicar a massa negra que envolve o universo e faz nossos astronautas flutuarem? Como explicar a formação de algo que está além da compreensão do homem? Jogando com essas questões, que abrem lacunas na ciência, Heller afirma a possibilidade de encontrarmos Deus nos conceitos da física quântica, onde se estuda a relação dos átomos. Dependendo do pólo de atração, um determinado átomo pode atrair outro e, assim, Deus e ciência também se atraem. “E, se a ciência tem a capacidade de atrair algo, esse algo inexoravelmente existe”, diz Heller.

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Ateísmo para iniciantes

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O deus que há em mim

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“Nemastê” é a pronúncia de uma palavra em sânscrito que designa um cumprimento cotidiano feito por religiosos de países do sul da Ásia. Utilizado também na escrita, é posto no início ou no fim da mensagem, e, nesses casos, pode ser equiparado, talvez, ao nosso “Salve!”. Entretanto, quando se está frente a frente com o interlocutor, a palavra é substituída pelo cumprimento em si: em silêncio, juntam-se as palmas das mãos em frente ao rosto, ou na altura do peito, ao mesmo tempo em que se inclina o corpo para frente e se direciona o olhar para os pés da pessoa cumprimentada. 

Confundido por nós, ocidentais, com uma atitude de deferência, o gesto de saudação de hindus, sikhs e budistas é, em vez disso, um sinal de humildade. Em sânscrito, “nemastê” significa exatamente isso: curvo-me perante ti. Desde que ganhou o mundo, porém, o termo se dissociou de sua raiz etmológica e acabou sendo indevidamente correlacionado a significados outros, em nada semelhantes ao original. O mais comum talvez seja o do título: “o deus que há em mim saúda o deus que há em você”. 

Ocorreu-me, então, que esse gesto — com essa acepção — bem que poderia ser adotado como a saudação oficial entre cristãos ao redor do mundo. E a explicação para isso é a que segue.

Graças à Santíssima Trindade, os católicos perceberam que Deus tinha essa conveniente habilidade de se dividir — ou de se multiplicar; como queiram. Quando converso com crentes de diferentes denominações religiosas, a impressão que tenho é a de que eles cultuam deuses bem diferentes entre si. Ali, o padre só menciona um Deus fofinho, selecionando trechos bíblicos dignos de apreciação bem do meio de outros que provocariam pesadelos. Acolá, o pároco fala de um Jesus que não pode ser encontrado em parte nenhuma da Bíblia, um que ama todo mundo de igual maneira, sem querer nada em troca — nem dinheiro! Já o pastor prega um Jesus (meu segundo trocadilho em 3 anos de blog…) que só quer que nós prosperemos financeiramente, pelo que exige uma quantia mensal para permitir que isso aconteça. E assim por diante. Os nomes são parecidos, as origens são praticamente as mesmas, mas esses deuses não se bicam.

Só aparentemente os católicos cultuam o mesmo Deus. Para começar a confusão, eles cultuam, de fato e de direito, é a Jesus Cristo, que foi o deus novo que a Igreja inventou para substituir o intragável Deus psicótico do Antigo Testamento. Só que o Jesus que eles veneram, bem como o Deus por quem eles alegam morrer de amores, não estão na Bíblia, mas foram criados em suas próprias cabeças, a partir da ideia que eles fazem de como um deus deveria ser. Daí a necessidade de uma Igreja Católica Apostólica Romana, uma Igreja Ortodoxa Russa, uma Igreja Católica Bizantina, uma Igreja Anglicana, as igrejas protestantes e por aí vai. Se toda essa gente estivesse de acordo em adorar o mesmo Deus, ou se esse Deus fosse o mesmo que se revelou através da Bíblia a todos eles, essas divisões não fariam o menor sentido.

No catolicismo a coisa não é tão evidente, entretanto, como no meio evangélico. Entre em dois daqueles galpões de culto de denominações diferentes e você vai perceber que estão adorando deuses diferentes. Em um, por exemplo, as pessoas estarão falando com Deus através de línguas estranhas; em outro, estarão tendo demônios expulsos de seus corpos. Na que expulsa demônios, o falatório angelical não é ouvido; na que as pessoas recebem o dom de Deus de falar coisas incompreensíveis (um dom completamente inútil, aliás), parece que os demônios não invadem o corpo de ninguém.   

Acredito eu que, no futuro, as pessoas continuarão frequentando as mesmas congregações, mas cada crente cristão terá a sua própria versão de Deus, a sua cópia autenticada e exclusiva de Jesus Cristo. Cada deus será único, pessoal e intransferível, como um cartão de crédito. E se eles aceitarem a minha humilde sugestão, quando se encontrarem nas portas de suas bocas de culto, para venerarem juntos deuses separados, poderão fazer uma solene reverência uns para os outros, cada um saudando o deus do seu semelhante. 

Quem sabe, por essa época, finalmente as pessoas tenham desistido de tentar converter os outros à sua própria fé, e se contentem em adorar seu deus interior, seu deus de estimação. Talvez, então, pudéssemos todos viver em paz. Sem guerras em nome de mundos invisíveis, sem infernos a temer, sem nenhum Deus que nos inspirasse os mais diversos motivos pelos quais matar ou morrer. 

Nemastê!!

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