Aborto: a batalha entre fé, moral e razão (parte final)

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Depois do ato sexual, o espermatozoide vai levar de 8 a 12 horas para chegar até o óvulo e penetrá-lo, e mais 24 até se fundir com ele numa célula única. As divisões sucessivas que darão origem a um novo ser só vão começar dali a mais 40 horas, e o óvulo ainda precisará de 2 semanas para chegar no útero e tentar se fixar nele. Tudo dando certo até aqui, só em mais 2 meses o embrião ganhará sua primeira rede de neurônios, num total de três células. Os primeiros 3 neurônios dos seus futuros 86 bilhões.

Eu, particularmente, não vejo o menor problema em uma gestação ser interrompida no dia seguinte à fecundação, ou na sua primeira quinzena, por exemplo. Mas até que ponto eu continuaria sem “ver o menor problema”? Minha resposta mais sincera: eu não sei.

Por isso é tão importante a opinião dos meus pares, cidadãos iguais a mim, que compartilhem o mesmo código moral que eu; pessoas que tivessem aversão a sacrifícios humanos, a chantagens e genocídios, por exemplo. Mas o que eu não posso aceitar deles, é que seus argumentos venham embrulhados na sua fé religiosa. E por dois motivos bem simples.

O primeiro, é que eles não poderiam me convencer de que eu deveria dar ouvidos ao seu Deus específico, descartando todos os outros dos quais já ouvi falar. Além da vontade de estarem adorando o deus certo, além do desejo de que esse um seja o  deus verdadeiro e os demais, todos falsos, eles não têm mais nada a oferecer.

O segundo motivo, é que eles precisariam me mostrar que seus padrões morais são os mesmos do deus da sua preferência, caso contrário, não haveria justificativa para usar sua fé como argumento.

A “questão do aborto” se nos apresenta como um problema que precisa de uma solução. E a solução não vai cair do céu. Ela terá que vir de nós mesmos, mas só quando nos dermos o trabalho de parar para discutirmos o assunto, com responsabilidade, com inteligência, com discernimento, e, acima de tudo, sem recorrer a nenhum desses conjuntos de certezas hipócritas chamados de religião.

Não é a crença em um ser habitante de uma dimensão mágica que torna uma pessoa boa e suas decisões acertadas. Pessoas religiosas já fizeram muitas coisas boas não porque eram religiosas, mas porque eram boas. Não é uma religião que vai nos dizer o que é ser “humano”, nem é o que nos tornará melhores. O que nos tornará melhores é a fé que devemos ter em nós mesmos, como seres racionais capazes de diferenciar o que é certo do que é errado; aquilo que nos prejudica, daquilo que nos engrandece; o que pode nos levar a viver mais como indivíduos e melhor como sociedade, daquilo que pode nos aniquilar, ou nos fazer envergonhar a própria Evolução por nos ter permitido um cérebro tão maravilhoso, mas que não soubemos como usar.

O aborto, assim como a eutanásia e a pena de morte, são questões para se discutir até que a nossa sociedade global lhes dê uma resposta única, porque eu não conheço mais de uma humanidade habitando este planeta. O que há são pessoas em diferentes lugares cultuando diferentes criadores do universo, com diferentes regras, cada um dizendo uma coisa diferente sobre os nossos mesmos problemas, e ensinando a nós todos que a fé deve suplantar a nossa moral, e que nos é mais útil do que a nossa razão.

Para chegarmos a um consenso sobre o que é melhor para nós, é preciso parar de argumentar em nome de Deus, e tentar eliminar as nossas dúvidas, usando toda a nossa “humanidade”, em nome da Vida.

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Consultei: Vida: o primeiro instante.

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