As ovelhas (parte 2)

 

Nasci e fui criado no seio de uma enorme família católica. Embora aqui e ali alguém enveredasse pelos caminhos assombrados do espiritismo, ou acabasse perdendo a alma em algum terreiro de macumba, ou dez por cento da renda para o Deus pidão dos evangélicos, éramos uma família essencialmente católica. “Não praticantes”, é verdade, mas isso era o de menos. Felizmente, para mim, estavam todos eles tão ocupados em ganhar seu sustento e pagar suas contas sem qualquer ajuda divina, que mal tiveram tempo de estuprar minha frágil mente infantil (como orienta a sagrada cartilha), motivo pelo qual eu acabei desenvolvendo um cérebro perfeitamente sadio, livre das neuroses, culpas, medos e toda sorte de lixo intelectual com o qual pais católicos têm entupido as cabeças de cada nova geração, pelos últimos dois mil anos.

Serei eternamente grato à minha endividada família por essa chance de ter me tornado uma pessoa normal. “Eternamente grato” é força de expressão, claro, pois a eternidade é apenas mais um sonho ridículo inventado para ser a recompensa oferecida por um Deus ridículo, no caso de seguirmos suas vontades ridículas.

Uma coisa que sempre me chamou a atenção, desde que me entendo por gente, era como meus parentes podiam ser completamente tapados acerca da própria religião à qual diziam pertencer, e sobre o próprio Deus que diziam venerar. Quando entrei para o catecismo, achei que a irmã que dava as aulas teria as respostas para todas aquelas perguntas que meus pais, tias e avós não sabiam responder. Mas estava errado. Já muito tempo depois, eu mesmo consegui me explicar essa ignorância toda através da definição que cunhei para designar esse tipo de pessoa: crente de manada. Diferentemente do Crente de Programa (outra expressão cunhada por mim, segundo o Google), o crente de manada não se vende, não troca amor e bajulação por presentinhos e favores celestes, nem se interessa muito em se aprofundar na doutrina que supostamente rege sua vida terrena, de acordo com a qual receberá sua recompensa ou punição numa vida além-túmulo. O crente de manada é apenas um maria-vai-com-as-outras que se junta ao rebanho por conveniência, e segue o fluxo por puro comodismo. Como já escrevi aqui,

“eles vão à missa, fazem suas orações, entram na fila da hóstia, batizam seus filhos, compram suas bíblias… mas não creem…”.   

Pois foi graças ao fato de ter sido criado no meio desses crentes de manada que, quando chegou a hora, eu pude contar a boa-nova do meu ateísmo para toda minha família, sem que ninguém se desfizesse em lágrimas, nem ameaçasse me deserdar, nem me condenasse ao fogo do Inferno. Eu fiquei orgulhoso dessa atitude deles, pois é da minha família o único amor do qual eu realmente dependo para ser feliz. Deus pode enfiar o amor que sente por mim bem lá onde você tá pensando.

O meu problema — especificamente envolvendo meu ateísmo, minha família e as pessoas que me cercam — é que eu não deixo ninguém desfiar suas crenças religiosas perto de mim sem ouvir a minha opinião a respeito. E eu não sou exatamente o que você poderia chamar de “uma pessoa fina”. Não só a desonestidade intelectual dos crentes me irrita, mas também, e principalmente, sua teimosia, que eles rebatizaram com o nome de fé. Quando ficam sem saída num debate acalorado, eles só precisam bater o pé e dizer: “Eu tenho fé, e isso me basta”. E como, geralmente, a discussão finda aí, eles acabam com a certeza de que a fé é tudo de que precisam para calar a boca de um ateu.

E é mesmo: não vale a pena continuar uma discussão com uma pessoa que só lê versículos bíblicos sem se incomodar em perceber quão absurdos, ridículos, sem sentido e perniciosos eles podem ser.

Outro dia, um leitor do blog postou nos comentários uma frase encontrada num campo de concentração: “Se existe um Deus, ele terá que implorar pelo meu perdão”. Toquei no assunto do genocídio do povo escolhido com um vizinho que é um crente empreendedor: está dando duro para abrir sua própria boca de culto e ganhar uma grana fácil salvando as almas de uns tantos pobres-diabos, assalariados e analfabetos, que querem entender o que Deus mandou escrever pra eles. O futuro pastor, altamente versado na Palavra, folheou rapidamente sua Bíblia ensebada e recendendo a catinga de sovaco, e me veio com essa:

    E odiados de todos sereis por causa do Meu nome; mas aquele que perseverar até o fim será salvo.

(Mateus; 10:22)

  — Puta que pariu! — eu exclamei. — Quer dizer que o caralho da nossa vida não passa da porra de uma gincana de merda concebida por um Deus filho da puta?!!

Eu avisei que não sou uma pessoa fina…


As ovelhas (parte 1)

“Se existe um Deus, ele terá que implorar pelo meu perdão.”

Frase encontrada na parede da cela de um prisioneiro judeu num campo de concentração.

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A frase foi postada nos comentários pelo leitor FERNANDO, e me inspirou a escrever sobre o tema. 

 

O Bom Pastor

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Dentre seus muitos nomes, Jesus Cristo é também conhecido como “O Bom Pastor”. Os antigos tinham essa mania de atribuir inúmeros epítetos — que são esses apelidos através dos quais alguém passa a ser conhecido — a certas pessoas excepcionais, governantes ou divindades. Basta consultar o dicionário e procurar pela definição de “Diabo”, que você vai entender direitinho. Mas, enfim, ser chamado por muitos nomes não era um privilégio do deus cristão.

O que me veio à mente, agora há pouco (daí eu estar escrevendo esse texto meio que de improviso), foi que poucas pessoas talvez já tenham parado para considerar o real significado dessa expressão “bom pastor”, o que só confirma que o religioso está sempre mais preocupado em continuar com o seu sonho tolo, do que em de fato tentar entendê-lo.

Um bom pastor é o pastor que cuida bem de suas ovelhas? Certamente.

Um bom pastor é aquele que se preocupa em não perder suas ovelhas para o lobo? Sem dúvida.

Um bom pastor protege seu rebanho? Mas claro que sim!

Você já entendeu…

Agora… Usando a mesma analogia pela qual Jesus é o pastor e nós as suas ovelhas, tente se responder a essa pergunta simplória:

Por que um pastor cria ovelhas?


Deus fazendo bolo

cheiro bolo smell cake fuba

Minha professora de catecismo me odiava. Não lembro o nome dela, mas lembro bem do seu rosto, e mais ainda dos seus olhos fulminantes, que talvez me amaldiçoassem silenciosamente por trás daquelas grossas armações dos seus óculos “fundo de garrafa”, a cada vez que eu interrompia a “aula” com minhas perguntas inconvenientes:

“Irmã, por que Deus teve que descansar no sétimo dia?”

Vendo meus sobrinhos mais velhos saindo pro catecismo, meio que sem querer me veio à mente uma pergunta que, na certa, encheria ainda mais de ódio aquele velho coração cristão:

“Irmã, a senhora consegue imaginar Deus fazendo um bolo?”

Isso mesmo: Deus indo comprar os ingredientes, arrumando os utensílios, seguindo uma receita, untando a forma com margarina, colocando a massa no forno e sentando, calmamente, esperando o tempo necessário para o bolo assar…

Não é um pensamento bem esquisito? Ora se é! Afinal, Deus criou galáxias num estalar de dedos, por que diabos teria ele que se preocupar em preparar um simples bolo de farinha de trigo?

Mas veja você que é exatamente isso que Deus deve estar fazendo agora mesmo: sentado em cima de sua bunda gorda e inútil num trono celeste bem confortável, enquanto espera a massa crescer e seu bolo assar. O bolo, no caso, somos nós.

Quando um crente vem me encher o saco falando do “plano de Deus” ou de como “Jesus me ama”, eu agora costumo, muito educadamente, perguntar: “Vem cá. Onde que tá esse Deus? Que que ele tá fazendo que não aparece?”. Geralmente, a pessoa se surpreende com a minha ignorância acerca desses assuntos etéreos, e me responde com paciência que… Deus está esperando o momento certo.

Foi o que eu disse: ele comprou os ingredientes, seguiu uma receita e, agora, sentado em cima de sua bunda gorda e inútil, está esperando o bolo terminar de assar. Muito mais fácil criar galáxias, não parece?


“To be or not to be” (page two)

J.

Eu li com bastante atenção o seu e-mail e ponderei muito, não sobre qual seria a resposta a te dar, mas se eu saberia responder. Acabei chegando à conclusão de que não, eu não saberia te responder. Talvez seja porque eu nunca precisei dar conselhos a ninguém, talvez seja porque eu sou grosso mesmo, enfim… Motivo não falta. Portanto, fica por sua conta e risco continuar lendo a partir desse ponto.

Bom, a parte mais fácil você já fez sozinho, que é admitir que Deus é um personagem idiota de um livro idiota. A parte difícil seria, no caso, decidir se você deve deixar toda essa idiotice para trás e ir viver sua vida. Isso, claro, é só você que pode resolver. A questão toda aqui é o velho cabo de guerra de custo benefício. Como eu não posso fazer essa conta pra ti, ou seja, como não tenho condição de dizer se os custos de continuar compartilhando essa tolice valem os prazeres que você obtém com ela, vou apenas te passar um pouco da minha própria experiência. Às vezes ajuda saber como uma pessoa se deu bem, ou como ela se fudeu. Desculpe o palavrão, mas, ultimamente, sempre que eu falo sobre religião me tem baixado o espírito da Dercy Gonçalves.

Eu não tive exatamente o mesmo problema que você, porque meus pais são crentes de manada. O crente de manada, diferentemente do crente de programa, tá só seguindo o rebanho. Meio que por curiosidade, meio por estar sendo empurrado, meio porque não tem mesmo mais outro lugar pra ir. Entende?

Pois bem. Quando chegou a hora, eu não passei por esse estresse de falar pros meus pais a verdade: Deus é tão real quanto o Papai Noel. Por falar nisso, quando eu era criança, a gente nunca teve essa de cultuar o Natal, fazer jantar chique, com árvore iluminada, presentes e tudo o mais. Em parte porque a gente era uns fudidos, mas… Ups! Desculpe. De novo.

Mas, enfim. Eu não tive problema pra contar que achava que essa idiotice de Deus, Jesus, Inferno e pecado era exatamente isso: uma idiotice. Mas tive que avaliar, como você, as coisas boas que, eventualmente, eu perderia no processo. Eu coloquei no plural, mas era uma única “coisa boa”: garotas!

Se Deus serve para alguma coisa, eu posso te garantir que é pra fazer um rapaz solteiro encontrar garotas bonitas pra transar. E como mocinhas religiosas acham que Deus perdoa sempre, e perdoa tudo, elas costumavam ser as mais liberais, se é que você me entende…

Então eu estava nessa crise de achar que não teria mais acesso àquele monte de mulher, se começasse a dizer pra todo mundo que era ateu. Mas, felizmente, isso não se revelou um problema.

Eu morei dezessete anos longe da minha família, ora dividindo apartamento com colegas de trabalho, ora morando sozinho mesmo, numa capital do Nordeste que parece que tem uma porra de uma igreja em cada esquina. Menino! Você não faz ideia! Nessa época, eu mesmo me apelidei de vampiro, que era até meu nick nas salas de bate-papo do UOL. E por quê? Porque eu me sentia um predador. Quando estava com “fome”, vestia uma roupa de grife, botava uma Bíblia enorme debaixo do sovaco e entrava no culto mais promissor.

Entrava é modo de dizer, porque, na verdade, eu escolhia um daqueles cultos de subúrbio bem lotados, em que houvesse adolescentes do lado de fora. Acredite ou não, de cada dez tentativas, digamos, uma dava certo e eu acabava levando uma princesinha pro meu apartamento, pra fazer ela estourar a cota de pecados de uma vida em duas horas. Pode parecer muito dez investidas, mas eu vi no Discovery que os guepardos só se dão bem em vinte por cento das vezes, e olha que um guepardo corre pra caralho. Eu não: os cultos eram, como eu disse, quase um por esquina, e eu ia sempre caminhando.

Então, foi isso. Pra mim, me livrar dessa crença em seres invisíveis, ridículos e inúteis, como Deus e Papai Noel, nunca me trouxe problemas. Mas como sempre cada caso é um caso, você vai precisar pôr na balança se os benefícios compensarão os custos. Se não compensarem, no seu caso, aí você pode continuar vivendo sua vida confortavelmente ajustando a sua mentira pessoal a todas as mentiras inventadas, ensinadas e cultuadas pela religião.

Boa sorte, amado. 

guepardo

Eu, prolixo

É preciso ter fé”.

Essa frase é o carimbo que autentica, valida, chancela, endossa, incentiva, justifica e abençoa toda e qualquer loucura concebida por um cérebro humano.

Sim, você precisa mesmo ter fé; do contrário, a razão assumiria o comando e você se daria conta de quão prejudicial, ridícula, infundada, preconceituosa, maníaca, retrógrada, malévola, sanguinária, opressora e mesquinha é essa causa que você resolveu abraçar e chamar de religião.

É preciso fé para aceitar tudo o que é feito em nome de um Deus criado à nossa imagem e semelhança, e não conseguir enxergar nenhum objetivo ofuscantemente humano por trás de cada genocídio, execução, guerra, coerção, chantagem, suicídio, extermínio, mentira, tirania e tudo o mais com que a História humana está inundada desde quando começou a ser escrita.

Só mesmo tendo fé para acreditar que toda essa loucura vale a pena.


Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.

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Eu tinha uma professora de filosofia que sempre chegava uns 20, 25 minutos atrasada. Como as aulas dela eram sempre nos primeiros horários, os alunos iam chegando e se deixando ficar fora do prédio, onde havia um jardim, muita sombra de árvore e banquinhos de praça. A gente ficava ali, das 8 às 8:30 da manhã, rindo de um monte de besteira que a gente mesmo produzia, e sem sentir um pingo de sono. O sono só vinha quando a dita cuja finalmente chegava, e a gente emburacava na sala, atrás dela, com cara de vaca que chegou no lugar do abate. Aquela infeliz me fez odiar filosofia… Sorte que o curso não se propunha a formar filósofos, e sorte minha que, tempos depois, já tendo conhecido o País das Maravilhas de Alice, eu fui visitar O Mundo de Sofia. Mas, enfim… Ponto; parágrafo.

Foi numa dessas esperas de quase meia hora que um colega de classe, militante do PC do B, interrompeu a animada conversa do grupo com o famigerado grito de guerra de “O povo! Unido! Jamais será vencido!”, e começou a distribuir a propaganda política do partido dele. Eu me recusei a receber os panfletos, porque nunca soube de nenhum cidadão norte-americano que tivesse improvisado uma balsa e enfrentado um mar repleto de tubarões para ir tentar a vida em Cuba. E, por conta disso, ele me chamou de alienado. “Você é um alienado!”, ele disse. Foi quando eu fiz, então, a pergunta fatídica; aquela que assusta os despreparados e enfurece os imbecis: “Por quê?”. 

Ele me respondeu, já alteando a voz num arremedo de discurso, que eu era alienado por “não querer me envolver com política; não querer conhecer as propostas, nem conhecer os ideais do comunismo”. E aí você já percebe como é poderoso o dom da retórica e da eloquência, pois mesmo um completo imbecil, pois mesmo um padre molestador de criancinhas ainda pode enganar a muitos e se passar por “entendido” ou por “santo”, conforme o caso. Basta saber falar bem e com uma fluência que disfarce a sua total falta de conteúdo, de moral, e de argumentos.

Quando ele, enfim, terminou o discurso-miolo-de-pote que tinha improvisado para uma dúzia de universitários alienados — eu incluso —, resolvi perguntar se ele sabia alguma coisa sobre o homem cuja imagem estampava sua camiseta vermelha. 

— É Che Guevara, porra! 

Foi a resposta.

Aí eu perguntei se ele sabia alguma coisa além do nome do cabeludo de boina que ele trazia no peito. Sim, ele sabia: “Che Guevara foi um herói da revolução cubana; foi um guerrilheiro que liderou a rebelião que libertou Cuba de um ditador filho da puta!”

Não só pelo fato da professora de filosofia já ter chegado, mas, também, porque o cara tinha duas vezes o meu tamanho, eu resolvi encerrar a conversa por ali mesmo, e não quis saber qual era a definição de “liberdade” que ele tinha lido no dicionário.

Mas você veja como a cabeça dos jovens são sugestionáveis, e como os mitos se aproveitam disso para se eternizarem. Um universitário de classe média, em pleno gozo de suas faculdades mentais, abraça uma causa já falida no mundo todo e se veste propagandeando numa camiseta um mito que ele desconhece completamente. 

Che Guevara não foi um herói: foi um guerrilheiro desmiolado, um assassino covarde, um líder militar desastrado e incompetente, que se não fosse a admiração indevida que despertou em Fidel Castro, teria sido executado antes mesmo do fim da revolução. Esta, por sua vez, propunha-se a depor um ditador e instalar uma democracia, mas, como mostrou a História, havia um golpe dentro do golpe. Quando os líderes da revolução que depôs o ditador cubano Fulgêncio Batista, em 1959, souberam que haviam lutado não para livrar Cuba de um ditador, mas apenas para substituí-lo por outro, foram presos ou exterminados por heróis como Che Guevara.

Ernesto Rafael Guevara de la Serna era filho da alta burguesia argentina, e, por algum motivo, tomou como hobby sair por aí se envolvendo em guerrilhas, com carta branca para matar quem não estivesse de acordo com sua visão de mundo. No caso dele, a visão política. Estivesse lutando por ideais religiosos, certamente teria aplaudido de pé os mártires que pilotaram os aviões até às torres gêmeas de Nova Iorque. Porque só há uma coisa que os fanáticos veneram mais do que morrer por um ideal: é matar por ele. 

A imagem de Che Guevara é um ícone. Mas pergunte a alguém que a esteja exibindo na camiseta, ou num pôster colado na porta do quarto, ou numa tatuagem no peito: um ícone “de quê?”; e as chances são de que você tenha comprovada a teoria de quão imbecilizantes podem ser os cultos cegos a pessoas que, por força de marketing, ganharam fama mundial, sem que ninguém se desse ao trabalho de conhecer quase nada além dos seus nomes e do que “os outros” disseram que essas pessoas foram, ou fizeram. E, às vezes, sem que tenham sequer existido.

E pra não dizer que não falei das flores…

O tema central do meu texto acima era o de chamar a atenção para o fato de que é bem comum as pessoas defenderem ideologias que ignoram completamente. O argumento era esse: um jovem militante do PC do B pode, orgulhosamente, exibir a imagem do Che Guevara em sua camiseta, sem saber patavina sobre quem ele realmente foi, ou sobre o que ele realmente fez. Com base nisso, argumentei que os crentes de programa* fazem o mesmo com relação a Jesus Cristo: estampam em suas camisetas declarações de amor a um mito que sequer conhecem direito, e saem por aí, satisfeitíssimos com o orgulho que essa ignorância lhes proporciona.

   *Eu os batizei de ‘crentes de programa’ porque eles caíram na vida fácil de trocar amor por presentinhos, favores e recompensas celestiais…

Pois bem. Não me propus, com aquele texto, a tomar partido nem de direita, nem de esquerda, embora não precise fazer segredo de que jamais iria querer morar num país comunista, pensamento este compartilhado por muitos comunistas que eu conheci.

Se alguém se sentiu ofendido com meu texto, eu gostaria de lembrar que nada lhe impede de expressar, aqui mesmo, esse seu descontentamento, nem de divulgar seus próprios contra-argumentos que deverão mostrar onde eu me equivoquei escrevendo o que escrevi. Felizmente, vivemos num Estado em que é possível esse tipo de discordância, e o debate só traz benefícios para os dois lados. Em “certos” lugares, você não poderia dizer abertamente que não concorda com “certas” coisas, se é que você me entende.

Mas eu preciso dizer que não sou um anticomunista. Eu só acho que o comunismo “não funciona”.

Se o comunismo funcionasse, na prática, um homem não seria levado ao desespero de colocar toda a família num bote improvisado com câmaras de ar de pneus de caminhão, para se lançar num mar repleto de tubarões, na esperança de aportar com vida no país-símbolo do capitalismo. Se o comunismo fosse o que seus partidários acham que é, as pessoas não precisariam ser vigiadas dia e noite, como forma de o Regime garantir que não sofrerá um motim; não teriam restrições de acesso à internet, nem seriam privadas do direito de receber informação jornalística de outras fontes que não o próprio Estado. Se o comunismo fosse esse paraíso descrito nos panfletos de campanha, as pessoas não precisariam ser tratadas como crianças, com seus governantes desempenhando o papel de pais que atuam como um filtro poderoso e onipresente, pelo qual não passaria nada que o Estado julgasse inadequado aos seus filhos-cidadãos, ou apenas a ele próprio.

Acho que os camaradas têm uma vaga suspeita de que o comunismo, na prática, não bate com a teoria. Como ideologia, ele é até bem sedutor. Mas ideologias costumam produzir mais mártires do que soluções.

John Lennon nos pediu para imaginarmos um mundo sem posses, um mundo compartilhado por todos. Mas ele era mesmo um sonhador! Nada nos impede de sonharmos nossos sonhos, mas seria bom estarmos imunes à tentação de acreditar que qualquer sonho é realizável. Muitos — na verdade, quase todos — não são. Precisamos aprender a identificar e descartar sonhos impossíveis, e fazer o melhor que pudermos com a realidade que nos cerca, que é tudo o que nos sobra, afinal, quando estamos acordados.

Talvez, em teoria, o comunismo fosse a ideologia política que, uma vez adotada pelo mundo todo, tornaria real o sonho da canção: não haveria posses; nada pelo que matar ou morrer; e o mundo seria um só. Talvez o comunismo fosse mesmo capaz de fazer todas as pessoas felizes, trabalhando pelo bem comum, cada uma satisfeita com sua condição, como os Betas, Gamas, Deltas e Ypsilones do Admirável Mundo Novo de Huxley. Quem sabe só um pouco menos felizes do que os Alfas, que estariam no controle de tudo…

Talvez, em teoria, o comunismo fizesse surgir uma sociedade mais justa, menos violenta e bem mais humana. Mas, em teoria, também dá pra você manter um elefante suspenso sobre um abismo, preso pelo rabo ao ramo de uma flor.   

 

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Brincando de Deus (fim)

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Um mundo melhor

Se eu estivesse prestes a criar um mundo para os meus filhos, como ele seria? Bem que poderia ser muito parecido com esse; mas esqueça os terremotos, vulcões, furacões, tornados, tsunamis, tempestades solares, meteoritos, efeito estufa, secas, pragas, enchentes, eras glaciais. Num mundo criado de acordo com a minha vontade, essas coisas só existiriam no cinema, que era para onde as pessoas iriam se quisessem ver como seria um mundo sem um ser supremo que as amasse.

Valendo-me da minha perfeição, eu teria criado o ser humano perfeito. E de uma vez só, como, aliás, era o que se achava que Deus tinha feito. Nada de deixar tudo à mercê de um processo evolutivo que levaria bilhões de anos e infestaria seu DNA de erros e mutações sem fim, que teriam como consequência previsível o surgimento de todo tipo de doenças e disfunções que só causariam sofrimento desnecessário. Não que haja sofrimentos necessários, mas, talvez, sofrimentos inevitáveis, como o da rejeição de um amor não correspondido, ou o provocado pela ausência de alguém que foi embora ou faleceu. 

No meu mundo as pessoas viveriam duzentos anos, e só morreriam de velhice. Recorrendo aos meus poderes supremos, eu jamais permitiria que ninguém sofresse um acidente, um machucado, um arranhão que fosse. Ninguém se afogaria, ninguém seria atropelado ou assassinado. Todas as pessoas do mundo me conheceriam e saberiam da minha presença, porque eu estaria dentro da mente de cada uma, fazendo com que elas se enxergassem como um todo, como parte de algo infinitamente maior chamado humanidade, vendo a si mesmos em cada um de seus semelhantes.

E se, por algum motivo impensado, uma pessoa levantasse a mão para outra, eu apareceria a tempo de impedir que essa mão baixasse. Quando um carro perdesse os freios, ou um avião perdesse a força das turbinas, eu surgiria do nada para evitar uma catástrofe. E se um vaso despencasse de um prédio, eu o conduziria suavemente até a calçada, ante os olhares agradecidos dos transeuntes, já tão acostumados a me ver apelar para a minha onipresença e onipotência de forma a nunca deixar que nada de mal acontecesse a ninguém. 

Eu não iria interferir no livre-arbítrio da minha criação, exceto se essa prerrogativa fosse usada para ferir ou prejudicar seu semelhante. Mas isso seria uma raríssima exceção. Como eles veriam o outro como a si mesmos, não haveria crimes nem ofensas, nem motivo algum pelo qual matar ou morrer, como diz uma certa canção. Ninguém em sã consciência usaria de seu livre-arbítrio para ferir-se ou prejudicar a si mesmo. E eles teriam suas consciências sãs, porque seria a consciência herdada de seu Criador. Além do mais, eles seriam todos sãos. Nada de câncer, AVC, epilepsia, Alzheimer, cegueira, surdez, loucura, autismo, gripe, infarto, AIDS, cáries, torcicolo, dor de barriga, bicho-de-pé.

Abolidos a dor, o sofrimento, as doenças do corpo e da mente, a indiferença e o desamor de cada um por seu semelhante, todos os hospitais, presídios, quartéis, delegacias e manicômios seriam transformados em praças; cada farmácia, numa sorveteria. As pessoas se importariam umas com as outras, e se ajudariam mutuamente como um irmão ajuda outro irmão. E todos cuidariam do planeta e do seu futuro coletivo como quem cuida de um jardim.

Um jardim livre de pecados, de serpentes, e de qualquer maldição.  

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Brincando de Deus (parte 6)

Mas eis que pessoas extremamente mal resolvidas quanto à sua religiosidade me propuseram o desafio de imaginar como seria o mundo se eu mesmo o tivesse criado. Espicaçadas em sua fé enrustida a ponto de se proclamarem “ateus de verdade” (os ateus de mentira seriam os neoateus, aqueles que só leem Richard Dawkins e querem pegar em armas para exterminar todos os crentes do mundo), elas não aceitaram me ler falando mal da “Criação”, pois, para elas, eu não poderia conceber nada melhor. Eu ainda argumentei que ninguém precisa ser um exímio pizzaiolo para poder decretar que uma determinada pizza está mal feita, mas não entenderam a figura de linguagem que usei e me responderam algo mais ou menos como “ninguém aqui está falando de pizza!”. Daí eu aceitei o desafio de criar um mundo melhor do que o do Deus deles.

Como eu sou infinitamente imperfeito, acredito que qualquer — eu disse “qualquer” — melhoria que eu venha a implementar no mundo à nossa volta já seria o suficiente pra ganhar o desafio, visto que o autor original seria um ser perfeito, eterno, sabe-tudo e tal. Eu comecei, então, abolindo o Inferno, porque eu, se tivesse filhos, tenho certeza que poderia educá-los bem o suficiente sem precisar recorrer a ameaças de tortura eterna.

Várias outras coisas que eu mudaria me foram sugeridas por anjos:

  

Brincando de Deus (parte 5)

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A maior e melhor prova de que Deus é um personagem de ficção é justamente o livro em que ele “se revela” à humanidade. Na Bíblia, todas as limitações dos seus diversos coautores humanos são repassadas para Deus e para o mundo que ele criou. É somente essa constatação que permite entender não só por que a infinitamente poderosa divindade cristã precisou limitar seu poder supremo de criação e nos deixar um mundo tão mal acabado, como ter ela resolvido “se revelar” através de um meio tão prosaico quanto o da narrativa de suas façanhas, cósmicas e terrenas, que era o mesmo expediente adotado por várias outras divindades de povos muito mais antigos do que aquele que ela escolheu para editar seus livros.

O artifício usado pelo crente para não encarar essa verdade nos olhos é até bastante eficaz. Ele lê a palavra do seu Deus da maneira que lhe é mais conveniente. O problema é que, como o que é conveniente pra mim pode não ser conveniente pra você, esse subterfúgio acabou gerando, ao longo dos últimos séculos, cópias e mais cópias de Deus, cada uma com sua parcela de seguidores, cuja prioridade maior parece ser a de convencer os outros de que são os detentores do Deus original. Só isso já bastaria para transformar qualquer paraíso num inferno.

E por falar em Inferno, esse seria o primeiro retoque que eu faria na obra dessa criatura perfeita, eterna, imutável, onipotente, onisciente e onipresente que quer posar de “boazinha”, mas que ameaça com a possibilidade de castigos indizíveis, durante toda a eternidade, aqueles que, nesse jogo de esconde-esconde, não fingirem que sabem onde ele se meteu. Sim, porque Deus, na sua infinita perfeição e sabedoria, achou que se esconder seria a melhor maneira de convencer as pessoas de que ele não é uma invenção da cabeça delas.

O crente, mais uma vez, precisa recorrer a um estratagema para manter sua ilusão. Quando alguém manda um e-mail mostrando uma paisagem belíssima, com montanhas nevadas e um céu azul ao fundo; ou um grupo de crianças brincando num gramado verde com animaizinhos fofinhos; ou uma família feliz e bem de vida lendo a Bíblia no seu amplo apartamento de classe média-alta, em tudo isso ele vê a presença de Deus, e com esses exemplos ele endossa as invejáveis qualidades do seu Criador.

Mas é fato que nem tudo serve como exemplo, e é sempre necessário pensar numa desculpa para as guerras, fome, pestes, injustiças e toda sorte de desgraças que circundam tão de perto aquela paisagem belíssima, as crianças na grama e a família feliz em seu prédio de apenas um apartamento por andar.

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Quando Deus cagava no mato

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Longe de ser uma prova de amor (“Deus amou tanto o mundo que deu seu filho unigênito…”, blah!), o suposto sacrifício de Jesus teria sido uma indiscutível prova de idiotice. Se Deus existisse, essa sua ideia de “salvar” a humanidade (dele mesmo, só lembrando…) através de um sacrifício humano já seria, por si só, ridícula. E seria tanto mais ridícula quanto mais poderoso fosse esse Deus. Ou isso, ou estaríamos todos nós vivendo num universo governado por uma divindade extremamente sádica.

Pense bem. Deus, uma criatura que é capaz de construir de átomos a galáxias, teria bolado um plano para nós escaparmos de sua ira. Isso porque, em algum momento, parece que nós o deixamos puto por não seguirmos as suas regras imbecis. O fato de um bando de macaquinhos arteiros feito nós termos tido a capacidade de enfurecer um Deus não é tão revelador quanto o fato de um Deus criador de universos ter-se enfurecido conosco. Mas, mesmo deixando isso de lado, e o crente faz questão de deixar isso de lado, considere-se apenas a solução que esse ser superior arranjou para o problema.

Ele teve um filho com uma mortal.

Ora, mas se não era um expediente muito em voga nas várias mitologias da época! Parece que, depois do descanso do Sétimo Dia, Deus ficou sem inspiração nenhuma e resolveu tirar algumas ideias das estorinhas que esses macacões aqui costumavam contar para ninar seus macaquinhos…

Esse filho, na verdade, seria ele mesmo disfarçado de gente. Nessa condição, ele se deu uma missão suicida, pela qual deveria ser executado após promover umas tantas badernas, e criar inimizades com os sacerdotes do seu povo, por transgredir as leis sagradas que ele mesmo, como Deus, lhes havia imposto. Uma vez morto e ressuscitado, ele iria querer que as pessoas acreditassem que ele, como Jesus, era Deus, e que a sua tortura e morte na cruz serviria para apaziguá-lo, como Deus, de estar puto porque nós não seguíamos as suas regras (as mesmas que ele também não seguiu enquanto estava aqui embaixo cagando no mato como todo mundo), mas ele continuaria puto se nós não acreditássemos que ele fez isso, assim como eu estou dizendo.

Não se envergonhe de ler o parágrafo acima de novo. A coisa é assim tão ridícula a ponto de deixar a gente zonzo. Isso parece mesmo, pra você, um plano concebido por um ser que sabe construir átomos e galáxias? Você só pode tá de sacanagem! Até o pessoal do SEBRAE teria inventado uma solução melhor! Isso pra mim tá mais parecendo um plano bolado por um bando de velhotes ignorantes que limpavam a bunda com areia quente.

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3 frases imbecis

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Cristão que é cristão costuma dizer frases imbecis a torto e a direito, simplesmente porque faz parte da sua rotina não racionalizar nada referente à sua própria fé. Ele ouve e repete; lê e acredita; ora e espera. É assim que funciona e sempre funcionou. Mas, de todas as frases imbecis que se pode ouvir de um religioso, “Deus é fiel” ganha o primeiro lugar, à frente até da surrada “Jesus te ama”, segunda colocada, e “Deus é amor”, a terceira.

Deus é fiel, crente? Claro que ele vai dizer que sim, e, como sempre, não vai querer seguir com a conversa. Porque a conversa acabaria por revelar que ele está equivocado. Equivocado no seu entendimento do que seja ser fiel, ou equivocado no que venha a ser o Deus que ele diz que ama. Na verdade, na verdade, o crente só é crente porque ele ignora um sem-número de coisas, dentre elas, sua própria divindade.

Se eu dissesse, crente, que ser fiel é ser leal, eu poderia perguntar: Deus é/foi leal a quem exatamente? Eu sei que você pode tirar alguns bons exemplos do seu livrinho de fábulas, mas, ainda assim, a coisa fica feia pro seu lado, porque você vai precisar admitir que Deus foi leal a certas pessoas, e a outras não. Se ele apoiou um lado num campo de batalha, porque era o lado cujo comandante babava seu ovo sagrado, não demonstrou um pingo de lealdade para com Jó, por exemplo, que também era seu devoto. Se Deus é leal, às vezes, quando lhe convém, você não pode transformar isso num tipo de “descrição” dele. A menos que queira aumentar aquela frase campeã de imbecilidade para “Deus é fiel, quando quer”.

Outra: ser fiel é ser constante. E taí uma coisa que o Deus bíblico não é. Muito ao contrário, ele é bastante volúvel, para não dizer bipolar. Se não acredita em mim, faça uma coisa que você nunca fez (embora sua alma eterna dependa disso): leia a sua Bíblia. Você vai ver que Jesus e Deus têm personalidades bem diferentes. Só pra não me estender, lembro que Deus queria ser o deus dos hebreus, seu povo escolhido — e só. Jesus queria ser o deus de todo mundo.

Outras definições de fiel? Seguro. Que não falha. Você acha que Deus se encaixa? O mesmo Deus que vem tentando há milênios ser o único deus digno de adoração? Que criou a humanidade e se arrependeu? Que veio à Terra em carne e osso deixar uma mensagem que explicasse como a gente poderia se salvar de sua fúria e só complicou tudo mais ainda?

Quando alguém, inadvertidamente, me diz que Deus é amor, eu invariavelmente respondo “Ou você não entende porra nenhuma de Deus, ou não entende porra nenhuma de amor”. Já quando um religioso me diz que Deus é fiel, eu pego mais pesado ainda.

Eu pergunto “Por quê? Por que você acha que Deus é fiel?”. E termino por fazer um crente infeliz.

Porque, por um segundo, eu o obrigo a considerar a imbecilidade que acabou de proferir.

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Fé. Essa palavra pequenininha é, na sua essência, pura desonestidade intelectual em ação, potencializada, compartilhada e aplicada a certos temas, sob certas circunstâncias e durante um certo tempo, com um determinado fim individual ou coletivo.

Exemplificando:

Um evangélico, digamos, recebe o diagnóstico de que tem um tumor no cérebro que irá matá-lo em poucos meses. As chances são de que ele use sua “fé” mais ou menos nos seguintes termos e na seguinte ordem:

O diagnóstico deve estar errado: Deus não permitiria que tal coisa ocorresse comigo.

Quando vários outros médicos confirmam o mesmo diagnóstico:

Uma operação para a extirpação do tumor vai resolver o problema. Deus vai ouvir meus pedidos de cura e vai interceder.

Quando a operação não ajuda em nada e só debilita a condição física geral:

A medicina não pode me curar, mas minha fé no meu Deus pode. Vou melhorar e me recuperar mesmo que os prognósticos sejam todos contra; não vou morrer por conta desse tumor e os médicos vão ficar boquiabertos com minha cura milagrosa. Deus vai me usar para mostrar seu poder ao mundo.

Quando isso não se confirma e o fim se aproxima:

Não há por que me rebelar contra a vontade de Deus. Se minha hora chegou, eu vou partir e vou morar no Paraíso ao lado desse Deus que me ama. Se vou morrer tão jovem, de uma forma tão sofrida e lenta, é apenas porque assim Deus quer, e mesmo que eu não entenda o motivo, “existe um motivo”.

É inegável que, entre um estágio e outro, a fé em que algo de bom vá (ou possa) acontecer para mudar uma situação assim tão nefasta seja, de fato, de grande conforto para o crente em questão, bem como é inegável que umas doses a mais de qualquer bebida alcoólica nos deixe bem alegres, desinibidos, autoconfiantes, esperançosos, etc., mesmo sem nenhum motivo aparente para tais sentimentos, ou, o que é mais comum, mesmo com motivos para estarmos tristes, tímidos, com baixa autoestima, etc.

Mas ter fé é uma condição de desonestidade intelectual que não pode ser atingida por qualquer um. É preciso uma doutrinação eficaz, suficientemente longa, que permita que essa desonestidade seja subconsciente, inacessível à razão e protegida dela pela vontade consciente de não afrontá-la.

Não se pode negar que a fé pode ser útil em muitos casos, assim como, pra mim, dois copos de caipiroska podem ser úteis se eu não encontro coragem para abordar uma fadinha loira que sentou bem do meu lado num bar. Mas o Barros desinibido, articulado, galanteador, divertido, autoconfiante que ela vai conhecer não é o mesmo Barros que eu conheço. Eu estou, no fim das contas, vendendo gato por lebre. Estou sendo desonesto com uma outra pessoa.

Ter fé em Deus é ser desonesto consigo mesmo.


As flores do mal

Chamava-se Margarida. Era natural de Itabuna, Bahia; loira, muito bonita, e ganhava a vida como prostituta. Isso é tudo o que eu sei sobre a minha mãe.

Desde que me entendo por gente, sempre soube da história. Pelo menos do modo como ela me chegou aos ouvidos.

Minha mãe, já  comigo na barriga, embarcou na boleia do caminhão do meu “pai adotivo”, para ir morar com ele na cidade de Castanhal, no Pará. Como meu “pai” vivia viajando, depois que eu nasci, minha mãe também não parava em casa (certamente ganhando seu próprio dinheiro com seu ofício) e, mui provavelmente, quem tomava conta de mim era a minha “avó”, D. Rosa.

Por conta de desentendimentos entre a minha mãe e a minha “avó”, que era viúva e morava na casa de meu “pai” também, D. Rosa, um belo dia, quando só estávamos os dois em casa, arrumou as trouxas e me levou no colo até a BR, onde fomos de carona até Belém. Lá ela pegou um ônibus até Sobral, no Ceará, de onde seguimos para Coreaú, uma cidadezinha minúscula onde moravam alguns dos seus parentes mais próximos.

Eu devia ter, então, uns 2 anos de idade e havia sido raptado. Mas eram os últimos anos da década de 70 e, ao que parece, a coisa ficou por isso mesmo.

Nós fomos morar na casa de um irmão da minha “avó”, que era um tipo de açougue: uma vendinha malcheirosa com peças de carne espalhadas por todo canto, penduradas em ganchos no teto e em cima de uma bancada de mármore repleta de moscas. Dizem que minha “avó” foi solicitada a ajudar na venda, ou nas tarefas da casa, que eram muitas, visto que, contando com nós dois, éramos oito pessoas dividindo uma casa de seis cômodos, e era preciso cuidar da venda, da casa e das crianças; eu incluso.

Minha “avó” não quis fazer nem uma coisa nem outra e, menos de um ano depois, voltou para Castanhal, com um peso a menos na bagagem: eu.


Morei na casa do açougue até os meus nove anos. Muito cedo fui engajado nos serviços domésticos e, quando já mais grandinho, o açougueiro encontrou em mim uma excelente serventia: ele me mandava ir até a casa da dona fulana saber se ela iria querer carne para o almoço; eu ia correndo, perguntava, e voltava correndo. Se a freguesa fazia o seu pedido, eu levava a encomenda e trazia o dinheiro. Quando o serviço de entregas findava, eu tinha a incumbência de ficar no açougue ajudando o homem e, no fim do dia, cabia a mim limpar a venda.

Passei a minha infância trabalhando como um escravo, mas embora levasse umas palmadas às vezes, não lembro de ter sofrido violência física. Pelo menos até quando o açougueiro descobriu que a sua filha mais velha estava me usando para um sem-número de brincadeirinhas sexuais. E ele só descobriu porque a segunda mais velha deu com a língua nos dentes, provavelmente porque a outra não queria que ela participasse dos folguedos… Levei a maior surra da minha vida. O homem só parou de me bater quando estava já sem forças. Sorte minha que era um gordo velho e asmático.

Depois disso, minha presença na casa ficou impossível. O homem queria me jogar na rua, sem eira nem beira, e a mulher queria que eu fosse levado de volta para a casa do meu “pai adotivo”, no Pará. Como não havia quem pudesse me levar, muito menos dinheiro disponível para a empreita, acabaram me despachando para ir morar com uma parenta da mulher do açougueiro, que era amigada com um pedreiro e morava numa casinha de dois cômodos no meio do nada. Como também não havia nada para fazer, a minha nova “mãe” resolveu me ensinar a ler e a escrever para passar o tempo. Ela conseguiu me alfabetizar antes que eu completasse onze anos e me deu o primeiro livro que li na vida: O Príncipe, de Maquiavel.

Mas logo estavam os dois discutindo o que fazer comigo, pois o pedreiro havia resolvido ir tentar a vida em São Paulo. Ele queria levar minha tutora junto, mas sem o pupilo. Acabou por se resolver que, no caminho para o sul do país, eles me deixariam com a mãe dela, na cidadezinha de Pacatuba, região metropolitana de Fortaleza, no Ceará.

Antes de fazer doze anos, numa noite de chuva forte, fui entregue aos cuidados de uma quarta família: a mãe da minha antiga tutora, seus dois filhos com suas respectivas esposas, e sua neta, filha de um dos casais, uma moreninha linda, uns dois anos mais velha do que eu, com cabelos castanhos longos que se desmanchavam em ondas cintilantes pelas suas costas e pelos seus seios voluptuosamente precoces de menina-moça.

Naquela primeira noite na minha nova casa, lembro de ter sentado na minha rede antes de dormir e de ter agradecido longa e fervorosamente a Deus, não pela sorte de ter encontrado um novo lar, mas por minha antiga tutora não ter tido tempo de contar para a minha nova família o episódio ocorrido com a filha do açougueiro, o motivo de eu ter estado sob a sua guarda.

Lembro da certeza que tinha de que Deus havia ouvido os meus sussurros por entre os trovões que ribombavam nos céus acima, e lembro de que fiz o sinal da cruz sorrindo, enquanto me acomodava na minha rede armada a menos de um metro da entrada do quarto sem porta da minha doce e linda Hortência.

Hydrangea macrophylla (Hortênsia)


Os trabalhos braçais a que sempre fui submetido desde pequeno me garantiram uma compleição física acima da média para a minha idade e, como já disse, minha mãe era uma mulher bem bonita e acho que herdei um pouco dos seus traços. Se por isso ou porque ela nunca havia tido por perto nenhum rapazinho loiro de olhos verdes tão afoito, eu nunca vou saber, mas Hortência se entregou a mim em menos de uma semana. Conhecemos o sexo um com o outro numa madrugada friorenta, na terceira ou quarta vez em que, sorrateiramente, eu deslizei da minha rede para dentro do seu quarto desprotegido. E ela precisou sufocar a dor da despedida da sua inocência em lençóis de retalho que cheiravam a sabão em barra.

Durante o dia, mal nos víamos e sequer nos falávamos, mas à noite, eu tinha sempre a oportunidade de deslumbrá-la com os truques que a filha do açougueiro havia me ensinado. Ela passava as manhãs na escola e as tardes na casa de uma tia, mais para o centro da pequena cidade. Voltava no começo da noite, de carona com o pai, e fingia que eu nem existia. Mas quando eu a despertava nas madrugadas, ela me abraçava em silêncio e me beijava longamente.

Nossos encontros clandestinos eram perigosamente ameaçados por qualquer barulho que houvesse, dentro ou fora da casa. Se ela, alguma vez, disse que me amava ou que gostava de mim enquanto eu a tinha em meus braços, eu nunca ouvi. Seus sussurros eram sempre mais fracos que o vento de inverno que soprava forte por entre as telhas da casa, ou eram abafados pelo pulsar violento do sangue nas minhas têmporas.

E assim se passavam os dias e eles eram sempre os mesmos: uma luta constante contra o sono e uma ânsia desesperada para que o sol logo sumisse no horizonte. As noites, por sua vez, nunca eram iguais. Às vezes a família estava muito estressada fosse com o que fosse, e as pessoas acordavam com frequência para tomar água, ou ir ao banheiro, ou mesmo para conversar de madrugada fumando cigarros intermináveis. Às vezes Hortência passava quase uma semana menstruada e não me deixava chegar perto. E as noites de lua cheia eram proibidas para nós, porque o interior da casa ficava por demais iluminado, e a consumação do nosso delito carecia do manto perfumado das trevas. Não fossem esses intervalos, eu provavelmente a teria engravidado e as coisas teriam sido diferentes. Pra pior, com certeza.

Desnecessário dizer que eu me apaixonei. Desnecessário dizer, também, que eu não sabia nada da vida; muito menos de mulheres.

Uns seis meses depois da minha chegada, a avó de Hortência, D. Dália, achou que minha ajuda nos serviços da casa e na lida com os animais era um luxo que ela podia dispensar, e me conseguiu um emprego com um vizinho dono de uma leiteria. Eu iria limpar o curral das vacas, todos os dias, e vender o esterco na cidade.

Não sei por que, mas não me pareceu a pior coisa do mundo à primeira vista. Mas quando, por acaso, passando pela rua do colégio dela, Hortência me viu empurrando meu carrinho carregado de bosta, a noção do mundo em que eu vivia desmoronou sobre mim, como um prédio desmorona ao ser implodido.

Enquanto eu passava na frente da escola, dificultosamente desencalhando o carro de estrume do atoleiro da rua de barro, vi e ouvi as garotas rindo alto enquanto me encaravam. Apesar de me acompanhar com os olhos surpresos enquanto eu desfilava a minha indigência à sua frente, percebi que Hortência não ria com as outras, nem tinha a menor expressão que denunciasse que pretendia fazê-lo.

Seu rosto era pura decepção. Ou vergonha. Ou as duas coisas juntas.

Era semana de lua cheia. Na lua nova seguinte, eu ouvi, pela primeira e última vez, a voz dela se elevar acima do vento que zunia por sob as telhas do quarto escuro. Ela disse apenas um “Sai daqui”, como se falasse a um cachorro, e nunca mais permitiu que eu a tocasse de novo.

Dahlia pinnata


Tudo bem, paremos por aqui. Essa biografia é falsa.

Por que eu estaria escrevendo uma relato fictício sobre a minha própria vida? Ah, essa resposta só eu tenho. Já dizia o poeta que “até nas flores se nota a diferença de sorte: umas enfeitam a vida, outras enfeitam a morte”. Mas como há o jardineiro que não conhece o destino de suas flores, também há o que as cultiva para um determinado fim.

Ainda que eu continuasse com a farsa e postasse toda a minha “biografia” aqui no site, não é difícil de imaginar que, se fosse do interesse de alguém, eu poderia ser desmascarado fácil, fácil. Um detetivezinho de subúrbio não passaria mais do que uma semana pesquisando meus rastros, reais e virtuais, até achar, pelo menos, algum documento meu que contivesse minha filiação, ou encontrasse um conhecido, um parente, um colega de trabalho, que pudesse, enfim, dizer-lhe que minha vida não tem nada a ver com essa história. Isso sem contar que ele não precisaria fuçar muito se tivesse escolhido investigar aqui mesmo no blog, uma vez que três ou quatro leitores já perceberam o embuste.

Agora, imagine que o Barros, com tempo e alguns rolos de pergaminho de sobra, tivesse tido a mesma ideia uns dois milênios atrás. Eu iria mostrar meus escritos a uma meia dúzia de pessoas (era uma época em que apenas uns poucos sabiam ler e escrever) e só. A brincadeira parava por aí. Entretanto, meus pergaminhos iriam, certamente, sobreviver a mim e seriam guardados com carinho, visto que toda produção literária naqueles tempos era um luxo, um sinal de status, e dali a pouco, numa sociedade em que a expectativa de vida era de três décadas e as pessoas sequer tinham sobrenome, tudo o que o mundo teria sobre mim seria justamente o que eu mesmo escrevi.

Algum leitor que tomasse meus textos para ler, nos séculos seguintes, não teria a quem recorrer, nem ao que recorrer, para se certificar se o que estava ali escrito seria ou não a verdade sobre o autor. Se ninguém mais havia escrito sobre o Barros, aquele leitor chegaria à conclusão de que o Barros teria sido uma figura bem comum de sua sociedade, sem absolutamente nada de extraordinário, e que teria que se conformar com a única coisa que havia sobrevivido a ele: sua autobiografia.

“ — Ora, por que uma pessoa deixaria para a posteridade uma história fictícia sobre sua própria vida? O mais provável é que esse Barros tenha relatado fielmente o que lhe aconteceu nos seus tristes dias sobre a terra…”

E a partir daí, se, por acaso, eu ganhasse a fama que nunca havia tido, tudo o que se escreveria sobre mim seria baseado naquele texto inicial, que só eu e os defuntos que me conheceram em vida sabiam se tratar de uma história inventada.

Quando um crente rechear seus argumentos e exaltar sua própria moral duvidosa com versículos de uns certos textos escritos há vinte séculos, tente pensar nas minhas Flores do Mal, uma história que eu criei e na qual você  se veria tentado a acreditar se a tivesse lido 2 mil anos após a minha morte. Acho que essa lembrança vai te inspirar a conduzir a discussão. E, sobre os Evangelhos, vale a pena dar uma lida nessa tradução que fiz, em que uma avaliação minuciosa revela que os seus autores eram apenas dois, e que não viveram na mesma época de Jesus.

Será que o que esses dois escreveram era a descrição fiel da realidade que foi presenciada por terceiros? Ou será que poderia ser apenas um história inventada com intenções que supomos, mas não podemos provar?

O resultado do trabalho deles está aí nas ruas, em cada esquina. Mas não se esqueça de lembrar a todos quantos puder: não há nada que não nos permita pensar que tudo isso não passa de uma grande mentira.

Publicado originalmente Aqui, em março de 2010, em quatro partes.

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Quando publicou, em 1857, As Flores do Mal (Lês fleurs du mal), o poeta francês Charles Baudelaire fincou o marco a partir do qual se estabelecia a poesia moderna e simbolista. Entretanto, sua obra-prima escandalizou a sociedade parisiense de então, despertou hostilidades na imprensa e foi considerada imoral, sendo, por fim, proibida de circular.

As Flores do Mal reuniam uma série de temas de toda a obra do poeta: a queda, a expulsão do Paraíso, o amor, o erotismo, a decadência, a morte, o tempo, o exílio e o tédio. A primeira edição era constituída por 1300 exemplares em papel Angoulème e 10 em papel Vergé. Os editores tinham guardados 200 exemplares da obra original e, para não terem que destruir os livros, condenados em sentença judicial, limitaram-se a destacar todos os poemas proibidos de todos os volumes. Nasciam assim os “exemplares amputados”, que valem uma fortuna atualmente.

Em 1992, As Flores do Mal foi, pela primeira vez, publicado com texto integral.

Neste livro atroz, pus todo o meu pensamento, todo o meu coração, toda a minha religião (travestida), todo o meu ódio.”

(Baudelaire)

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TRATADO DAS ILUSÕES – Introdução

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Depois que eu morrer, espero que meu corpo seja cremado. Digo “espero” porque meus familiares mais próximos já foram comunicados a respeito, mas, embora haja uma grande probabilidade de eles seguirem essa funérea instrução, eu, obviamente, não poderei fazer nada se decidirem me enterrar, ou coisa pior, como me empalhar.

Mas, se eu não fosse ser cremado, que epitáfio iria querer que as pessoas lessem na minha lápide? 

“Enfim, eu estava mesmo certo!” ?; ou

“Nenhum Inferno, nenhuma virgem… aliás, não tem nada aqui!” ?

Foi, então, que eu me dei conta de duas coisas. A primeira. De quão imbecil é a pessoa que perde tempo de vida tentando bolar uma inscrição para ser posta sobre o seu próprio túmulo. A segunda. Que aquela era a pergunta errada a ser feita. E é a resposta à pergunta certa que vai dar origem a esse Tratado das Ilusões:

Para que serve um epitáfio?

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 CONTINUAÇÃO:

 Parte 1 – Epitáfios 

 Parte 2 – Os mortos apodrecem

 Parte 3 – O Deus impossível 

 Parte 4 – A perspectiva do engano

 Parte 5  - A fé vista de cima

 Parte 6 – Como não enxergar o óbvio

 Parte 7 – O compromisso de acreditar

 Parte 8 – O Fim 

Deus e o “complexo de Baby”

VOCÊ  TEM  QUE  ME  AMAR!!!

VOCÊ TEM QUE ME AMAR!!!

Se eu acreditasse em Deus, haveria uma pergunta que certamente iria me incomodar muito antes de conciliar o sono, logo após ter feito as minhas orações noturnas… Uma pergunta que, por algum motivo, não incomoda os crentes que eu conheço: “Por que Deus precisa assim tão desesperadamente ser amado?”.

Eu andei pensando nisso ultimamente, enquanto apanho cocô de gato do jardim da minha mãe. É uma pergunta até filosófica, eu acho, e eu tenho filosofado muito esses dias, até porque tem muita merda de gato pra apanhar todo dia de manhã.

A primeira coisa que me ocorreu, como resposta, foi que a necessidade de ser amado talvez seja diretamente proporcional à nossa vaidade. Daí eu considerei esse modelo aí do anúncio.

Pois bem. Eu pensei “Como um cara bonitão desse jeito iria se sentir se nenhuma mulher se interessasse por ele? Se não tivesse nem mesmo nenhum amigo ou amiga? Se ninguém gostasse dele?”. Na certa o cara ia ter que fazer terapia. Entretanto, seria preciso admitir que, se esse modelo fosse um rapaz interessante, inteligente, divertido, educado, afetuoso, não tivesse mal hálito e coisa do tipo…, ele não teria nenhuma dificuldade em fazer amigos(as), muito menos em despertar interesse (sexual/afetivo) no sexo oposto.

Aí desmoronou minha tese. Ora, mesmo que ele fosse extremamente vaidoso (e com motivos para isso), não haveria por que cultivar uma necessidade doentia de despertar interesse nas pessoas, porque tal interesse seria apenas uma consequência de uma realidade inegável: ele é bonito, charmoso, boa-praça, inteligente, engraçado, gentil, etc. Sendo assim, ele já teria há muito se acostumado com o “amor voluntário” que as pessoas demonstrariam ter por ele, nos mais diversos níveis em que o amor pode se apresentar.

Será que eu seria capaz de imaginar que esse modelo da Ralph Lauren só conseguiria ser aceito numa turminha de faculdade se vivesse rastejando em volta das pessoas, pedindo companhia e se humilhando por um pouco de atenção? Será que dá pra imaginar esse cara bajulando as pessoas para obter afeto e as ameaçando com algum tipo de punição caso não fossem capazes disso? Não. Não dá.

Fui, então, meio que obrigado a inverter a lógica da minha proposição inicial: quanto menor a vaidade, quanto mais estilhaçada a autoestima, maior será a necessidade de se sentir amado; maior será o desejo de ser aceito. Seria como um bálsamo para uma ferida purulenta; um alívio para uma dor insuportável; um remédio para uma doença terrível.

Foi então que percebi que Deus teria que ser uma criatura muito, muito doente. Uma divindade com um perigosíssimo distúrbio mental, talvez tratável apenas com medicação pesada. E isso seria suficiente para me fazer perder o sono, todas as noites depois das minhas orações, se eu acreditasse que ele existe.

Como me sentir feliz num universo criado e governado por um ser assim tão carente, cuja primeira lei é a de que as pessoas devem amá-lo acima de tudo? Que deus em sã consciência exigiria ser amado por decreto? Que divindade é essa que dá-se ao trabalho de criar um universo para nele pôr uma raça cujo único propósito seria o de adorá-lo incondicionalmente? Como eu seria capaz de viver em paz num mundo em que seu Criador ameaça expressa e subliminarmente aqueles que não lhe devotem amor? Como eu iria poder dormir à noite, tendo acabado de orar a um tirano cósmico carente de afeto? Um ser todo-poderoso com sérios problemas mentais? Um Deus tarja-preta digno de pena?

 

 

Deus, Jesus, Satanás e o Papai Noel

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Um ateu é como se fosse um ex-detento: um cara que conhece o presídio por dentro e por fora, mas que — por motivos óbvios — acha o lado de fora muito mais… interessante.

Hoje eu sou ateu, mas já fui católico “não praticante”, embora a coisa mais difícil do mundo seja encontrar um católico praticando os poucos bons ensinamentos de Cristo, a começar pelo papa. Talvez isso se deva ao fato do filho de Deus ter deixado apenas instruções muito confusas, ora falando como se fosse o Mestre dos Magos, ora ensinando coisas absurdamente contraditórias, como amar ao próximo e seguir as absurdas e saguinárias leis divinas ao mesmo tempo.

Um católico não praticante é aquela pessoa que foi visitar um parente preso e resolveu ficar morando no presídio, porque acabou descobrindo que toda a sua família, todos os seus amigos e todo mundo que ela conhecia já estavam lá dentro.

Sendo ateu e ex-católico, eu posso assegurar que sei praticamente tudo o que se precisa saber sobre Deus e sobre Jesus Cristo. Sério. E, hoje em dia, graças à internet, mesmo que você não esteja seguro de alguma coisa sobre Deus ou Jesus, basta dar umas três ou quatro dedadas no seu tablet, que a informação que você precisa lhe chega às mãos, em qualquer lugar e a qualquer momento. Informação de onde? Da Bíblia. Procure em qualquer outra fonte que você estará cometendo um pecado digital.

Agora, se você estiver procurando informações sobre Satanás ou sobre o Papai Noel… Aí é bom consultar em outro lugar. O livro sagrado do cristianismo não trata desses assuntos. E deveria! Não com relação ao Papai Noel, mas a Satanás.

Se não fosse por Satanás a gente estaria numa boa! Não teria havido nenhum despejo do Paraíso, nenhum dilúvio, nem caça às bruxas, nem Inquisição, nem Cruzadas, nem 11 de setembro… Nem as Testemunhas de Jeová viriam me encher o saco todo domingo de manhã… É: sem Satanás, a gente já estaria no Paraíso. Ou, melhor dizendo, a gente AINDA estaria no Paraíso.

  Pausa para algumas reflexões preocupantes… Se não fosse por Satanás, a gente nem mesmo estaria aqui. Deus teria ficado brincando de casinha só com Adão e Eva. Mas, como consequência desse pensamento, me ocorre que não há qualquer dica no relato bíblico de que aquela serpente era o Diabo. Lá só diz que a serpente era “o mais astuto dos animais…”. Talvez fosse “o único” animal astuto, na verdade. Em todo caso, não é seguro dizer que era o Cão.

Mas a questão é que a Bíblia não fala nada de aproveitável sobre o arqui-inimigo do Criador. E não quero nem entrar agora no mérito de um ser todo-poderoso ter um arqui-inimigo a lhe atrapalhar os planos o tempo todo… Mas, enfim… Tá querendo saber alguma coisa sobre Satanás? Vai lá na Wikipédia.

A essa altura, o cristão já deve estar fazendo força para lembrar do livro, capítulo e versículo da Bíblia em que leu alguma coisa sobre uma revolta das criaturas celestiais comandadas por Lúcifer, que culminou na expulsão do Céu da terça parte dos anjos e tal… Será que tem algo parecido em Apocalipse? Algo parecido, sim; mas esse livro supostamente trata do fim das coisas e não do seu início. O Anjo Caído é uma fábula hebraica que fazia parte de uma coleção de estórias contidas num livro reconhecidamente literário — leia-se: não divino — chamado Livro de Enoch.

Satanás não era o “Diabo” até Jesus Cristo ter vindo fofocar dele aqui na Terra. Antes de ter sido difamado pelo Filho do Homem, o Coisa Ruim era descrito na Bíblia como sendo um dos anjos que frequentavam o gabinete divino; quase um assessor, como bem demonstra o livro de Jó.

Nossa, mas por que Jesus teria feito isso?, você pergunta. E eu respondo. Quem escreveu as falas de Jesus Cristo, estava, na verdade, corrigindo um problema — um bug — que fatalmente não passaria desapercebido pelas gerações futuras: o Deus do Antigo Testamento, sendo único, fazia tudo sozinho: coisas ruins, principalmente. Foi Deus quem “tentou” Davi e Samuel, por exemplo; e foi Deus quem disse:

    Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas. (Isaías, 45:7)

Ah, Deus… Que feio!!

Por isso que tiveram que inventar um… um… um o que, meu Deus?… Um negativo, um opositor, um rival, um desafiante, um oponente, um adversário, um bandido, um vilão. Enfim: uma desculpa.

Foi quando pegaram emprestado esse Satanás das fábulas que os hebreus já conheciam.

Nós, ateus, entendemos que o Jesus que andava sobre as águas é um personagem fictício. Os cristãos, por seu lado, entendem que Jesus foi realmente quem a Bíblia diz que ele foi. Mas como a Bíblia não diz que o Diabo é o que os cristãos achavam que era, eles acabaram se vendo diante de outro bug, só que esse impossível de se corrigir: toda a doutrina de “Salvação” sobre a qual se baseia a mensagem do Homem de Nazaré teria como objetivo nos livrar das garras de um ser tão mitológico quanto o Papai Noel.

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Deus não existe

— Seu Deus não existe. É uma invenção. Uma lenda. Por que você acha que eu estaria disposto a conversar sobre lendas?

Vai ser assim que eu vou atender às Testemunhas de Jeová de agora em diante, quando aparecerem no meu portão. Eu gosto de fazer esse tipo de experiência; gosto de ver a reação das pessoas e ouvir as tolices que elas dizem, só porque acham que precisam falar alguma coisa em resposta.

Entretanto, acho que a quase totalidade dos ateus considera um contrassenso essa afirmação; a de que Deus não existe. Parece que o argumento é o de que, como não é possível ter uma “certeza matemática” sobre o que se está afirmando, então a afirmação não tem lógica.

Agora vê se eu tenho cara de quem vai se preocupar com lógica enquanto despacho, do meu portão, pessoas que acreditam que uma burra resolveu falar para seu dono que não merecia os açoites que ele estava lhe desferindo. E outra: pergunte a um deles se existe algum outro deus além do Deus que eles cultuam. Sua resposta vai ser “Não, não existe nenhum outro deus”. Quem tá preocupado com lógica aqui, não é, irmã? Ô Glória!!!

Mas como é estranho você me dizer que Deus existe, que te ama e te protege, que atende aos teus pedidos e te enche de bênçãos, se você age exatamente como eu, que não acredito em deus algum.

Ora, Deus concedeu a graça do seu filho ter feito uma excelente prova no último ENEM, fofa? E sem ter estudado absolutamente nada?!! Que ótimo! Que maravilha! Que milag… O quê? Ah, então ele se matou de estudar o ano todo, igualzinho ao meu amigo ateu aqui… Ah, tá…

Sim, mas Deus te livrou daquela doença terrível, não foi? (Não vem ao caso mencionar que foi ele mesmo quem criou a doença e permitiu que você a contraísse.) E tudo o que você precisou fazer foi orar, suplicar de mãos postas, rogar para que… Hein? Foi tudo pelo plano de saúde?

Mas, pelo menos, nenhum mal te atinge, né, amiga? Mil vão cair à tua direita, e dez mil à tua esquerda antes que… Mas, peraí… Isso também é uma mentira: você está sujeita aos mesmos perigos que eu, um descrente, e, exatamente como eu, você faz tudo ao seu alcance para se proteger deles, às vezes se dando bem, às vezes se dando mal. Que coisa interessante, não acha? É tudo como se… como se…

Como se Deus não existisse.

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Deus de Elite

Triângulo: o medo vem em ondas.


Vi esse filme aí, outro dia. Muito bom. É um suspense que, sem você perceber, te leva pra dentro duma espiral e te faz achar que ela não tem saída. Só quando o filme termina é que você vai tentar encontrar um meio pra sair daquela prisão intelectual em que ele te trancou.

Ficamos eu, meus dois irmãos, minhas duas irmãs e meu sobrinho de 12 anos discutindo uma maneira de fugir dali, enquanto os créditos subiam na tela.

Teve uma hora em que meu irmão caçula insistiu nessa pergunta:

— Mas e por que ela não faz X quando acontece Y?

A gente não conseguiu responder. Até que meu sobrinho disse algo que, de tão óbvio, só podia ser a única resposta:

— Porque, aí, não haveria filme.

É como se os humanos chegassem lá em Pandora e dissessem para o povo na’vi:

— É o seguinte, smurfs. Debaixo dessa árvore aí tem uma fonte imensa de unobtanium, um minério muito mais valioso pra nós, humanos, do que o ouro. Então, vocês vão ter que procurar outro lugar onde armar suas redes!

E o chefe deles respondesse:

— Ah, tudo bem! Eu tava mesmo pensando em mudar daqui. Você tá com pressa, ou a gente pode desocupar tudo amanhã?

E aí? Ora, e aí que adeus, Avatar!

Já imaginou se, no ato da Criação, um anjo tivesse olhado assim por cima do ombro de Deus e falado:

— Mas, Senhor, o senhor não acha melhor tirar aquela árvore dali do meio do jardim? E colocar a serpente bem longe de Adão e Eva?

E Deus:

— Caralho, anjo!! Quer me fuder, me beija, pô! Se eu fizer isso, não vai acontecer nada, seu animal! “Não vai ter filme”!

— Aaaaah… quer dizer que, com o fruto proibido… Eva e a serpente… o Senhor acha que assim vai dar um roteiro legal? Cheio de reviravoltas e com muitos pontos onde o Senhor vai poder brilhar para o estrelato? Entendi… Mas é certeza dar certo, Altíssimo?

— É 100%, anjo!

— Então senta o dedo nessa porra!!!


A Sociedade Torturadora de Bebês

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Felizmente, vivemos numa sociedade em que “ser religioso” não implica em cumprir à risca as vontades que Deus deixou manifestas no livro sagrado que mandou escrever para o seu povo escolhido. Eu duvido que, num sábado qualquer, você fosse capaz de liderar uma multidão para sair por aí apedrejando pessoas que estivessem trabalhando. E acredito que você deve ter um bom motivo para não fazer isso, visto que foi o próprio Deus que deu tal orientação [Números, 15:32-36].

Recentemente ouvi essa desculpa de um teólogo:

Os autores sagrados não psicografaram a Bíblia. Foram inspirados por Deus a escrever os textos, daí terem colocado neles suas limitações intelectuais, seus costumes e sua moral.

Num concurso de “desculpas”, essa ganharia o primeiro lugar, porque, sem dúvida, é uma obra de arte.  Ela permite que o crente siga os versículos bíblicos que bem quiser, como se fossem a verdade incontestável, a letra fria da lei, a palavra viva do seu Deus. Ou, quando calhar, permite que se declare certas passagens — quando não livros inteiros, como o de Jó — como sendo alegóricas, simbólicas, carecendo de uma interpretação. E, quando é o caso também, permite que se entenda que tal e tal versículo está apenas relacionado à época em que foi escrito, sem efeito, portanto, nos dias de hoje.

— A cobra falante?

— Ah!, aquilo é só uma alegoria…

— É pra apedrejar a mulher que trai o marido?

— Claro que não! Isso era um costume daquela época.

— O dízimo…

— Tem que dar o dízimo sim. É sagrado. Está na Bíblia. E a Bíblia é a palavra de Deus.

 

Alguém deveria sugerir ao Vaticano reimprimir o livro sagrado católico com o texto indicando, em itálico, o que é apenas uma alegoria; em vermelho, o que não deve mais ser aplicado atualmente; e, em negrito, a palavra imutável de Deus. Mas talvez o Vaticano ache que, se o próprio Deus não viu problema em deixar tudo misturado assim, sem a menor dica de qual é qual, por que eles deveriam ver?

Isso traz de volta uma questão que vi ser formulada pela primeira vez por Richard Dawkins: se um religioso é capaz de discernir na Bíblia o que é e o que não é moralmente aceitável, então a moral dele deve vir, obrigatoriamente, de outra fonte que não a palavra do Deus dele, e deve estar acessível a todo mundo; ateus inclusos.

Sabe aquela frase famosa do livro russo?* “Se Deus não existe e a alma é mortal, então tudo é permitido”.  Ela me foi endereçada, numa versão mais específica, por alguém que me escreveu dizendo que, se não fosse por Deus existir, nós poderíamos fazer qualquer coisa, até torturar bebês, pois não haveria um padrão de moral a nos guiar que pudesse nos dizer que torturar bebês é uma coisa errada.

Pessoas com esse pensamento têm que achar que nós seríamos monstros sobre a Terra se não fosse o Deus particular deles. Seríamos canibais, estupraríamos nossas mães, torturaríamos bebês. Mas isso graças ao equívoco de atribuírem a nossa moral à sua divindade sagrada. Elas entendem que as coisas se nos apresentam certas ou erradas porque Deus nos inspira a vê-las como ele as vê. O problema, parece, é que Deus é um tanto quanto… digamos… volúvel demais para ser considerado um padrão.

Houve um tempo em que Deus achava certo punir com a morte por apedrejamento quem trabalhasse no sábado. Depois ele veio com essa de que “O sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado”, que, sejamos sinceros, parece mais uma das frases enigmáticas do Mestre dos Magos. Se ele teve o trabalho de armar todo aquele circo para descer à Terra na forma humana e deixar sua “Boa-Nova”, bem que poderia ter sido mais claro.

Deus também era escravocrata, o que era uma coisa muito conveniente para o seu povo escolhido, que adorava ter escravos, e não só porque eles poderiam trabalhar durante o sábado**, fazendo o que não lhes era lícito fazer. E, então, Deus deve ter mudado de opinião de novo, porque ninguém no mundo civilizado considera a escravidão algo moralmente aceitável.

Deus ordenava, também, a morte dos que tentassem desviar um judeu para adorar outros deuses. Hoje ele é bem mais tolerante quanto a isso, e nem ateus como eu correm perigo. E por aí vai… Se é a isso que os cristãos chamam de padrão de moral, eu gostaria de saber o que, então, eles considerariam como “falta de padrão” moral.

Nossa moral não vem de Deus, nem de nenhuma outra divindade. Ela vem de nós mesmos. Cada sociedade determina o que deve ser considerado como “certo” e como “errado”. Mas existe uma “moral comum”, intrínseca à humanidade, através da qual nós consideramos não só corretas, mas esperadas, atitudes que denotem respeito à vida, à família, à propriedade, por exemplo. E foi essa moral comum que nos impediu de nos autoaniquilarmos como espécie.

Se, alguma vez, existiu uma sociedade em que era moralmente aceito o assassinato, ou a tortura de bebês, ela foi extinta, levando consigo seu senso de moral inviável. Tão inviável que não restou nenhum deles para contar a história.

 

*O leitor Dimitri esclareceu que essa frase não aparece no livro Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski, sendo uma paráfrase resumida de um trecho do livro. Mais informações Aqui.

**O leitor Dimitri também me chamou a atenção para o fato de que era proibido aos escravos de judeus trabalharem no sábado (Deuteronômio 5:14). Ainda assim, um Deus escravocrata.

Efeito borboleta

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Uma leitora escreveu no seu comentário a um dos meus primeiros posts, que “é cômico (sic) as consequências da minha produção”, sendo a minha “produção” os textos que escrevo para o blog. Acho que ela quis dizer que eu estava (e ainda estou) perdendo o meu tempo. 

Eu discordo, claro.

Apresentei os motivos iniciais que me levaram a criar um blog nesse texto: 2 perguntas, 3 respostas. Hoje, entretanto, percebo o quanto a internet pode maximizar as coisas.

Antes do blog, eu já escrevia sobre a minha visão ateísta do mundo em e-mails endereçados aos meus contatos: alguns poucos parentes e colegas de trabalho. Assim, os “meus leitores” se resumiam a umas 30 pessoas, se tanto. Minha família é toda composta de católicos e evangélicos, e quase todas as pessoas com quem trabalho são religiosas. Nunca recebi nenhuma resposta daqueles e-mails que escrevi, com uma exceção: um colega muito religioso e muito inteligente. Uma única pessoa.

Eu me sentia como aquela velhinha do Titanic contando que, dos 500 barcos salva-vidas que saíram do navio antes do naufrágio, só um havia voltado para procurar por sobreviventes… 

Só um voltou. De quinhentos.

Minhas opiniões tinham pernas curtas, vida curta, e curto alcance. Depois do DeusILUSÃO, eu posso contar outra história.

Minha página já foi visitada quase 650 mil vezes. (O que é muito pouco em termos de internet, mas é um número bastante expressivo quando eu humildemente considero o meu próprio umbigo.)

O site mantém uma média estável de 500 visitas por dia, mais 200 assinantes que recebem meus textos por e-mail.

Tenho um post sobre o Inferno com mais de 500 comentários; um outro sobre doutrinação infantil com quase 700; sendo que todos os meus textos juntos tiveram mais de 32 mil comentários.

Já recebi e-mail de leitores do outro lado do Atlântico, e um, em espanhol, de outro país da América do Sul, em que um leitor me parabenizava por algum texto que escrevi. Uma ferramenta de rastreamento de acesso me mostra que, com exceção da Antártida, o blog recebe visitas de internautas de todos os outros continentes.  

Já inspirei pessoas a criarem seus próprios blogs para expressarem suas opiniões sobre o mesmo tema.

Já vi meus textos, postados na íntegra ou cotados, em outros sites.

Dependendo do termo de busca, qualquer pessoa poderá ter uma sugestão do Google para ler um texto de minha autoria. Infelizmente (ou não; vai saber…), as estatísticas do site informam que são estes os termos de busca que mais trazem visitantes ao DeusILUSÃO: 1. “sexo”, 2. “os dez mandamentos da lei de deus”, e 3. “sexo anal”. Como diabos as pessoas encontraram meu blog pesquisando os Mandamentos eu não sei, mas se você digitar “sexo” ou “sexo anal”  no Google, e selecionar “Imagens”, verá uma foto da Myrian Rios que usei como propaganda do texto O Ânus de Deus. A Myrian Rios acredita que Deus existe, e não acredita que eu exista, portanto, até agora, não estou respondendo a nenhum processo na Justiça.

Recentemente, eu até encontrei um fórum sobre o meu texto Deus, Alice e a Matrix. Um debate nos moldes do Orkut, em 19 páginas, transcorrido durante todo um mês de 2009.

Alguns dos meus posts podem já ter sido impressos e xerocados, salvos em algum HD, postados em outras páginas da internet, repassados por e-mail, divulgados, guardados, distribuídos, ou simplesmente deixaram retida na mente de quem alguma vez os leu a ideia principal que eu quis transmitir. Enfim, existe uma chance de eles transcenderem o seu autor em tempo de existência.

Tudo isso sendo “consequência da minha produção”. Não acho que foi perda de tempo. O que eu faço hoje, talvez, um dia, em algum lugar, dê origem a algo muito mais forte, como na lenda do furacão que teve seu início no deslocamento de ar provocado pelo bater de asas de uma borboleta.

Eu não vou ter filhos. Mas já plantei algumas árvores que serão, junto com os meus textos e as minhas ideias, a única herança que vou deixar para o mundo, depois que todos os átomos que se juntaram para me compor tiverem retornado à terra de onde saíram. O testemunho que, no futuro, esses textos, essas árvores e essas ideias darão da minha passagem sobre a Terra será a única fração da eternidade a que eu terei direito; e o mais perto do céu que eu vou poder chegar.

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Texto originalmente publicado em 2010.

A Teoria do Barro(s) – última parte

<< 1ª Parte

cientistasocialnerd.blogspot.com.br

Nossa espécie domina o mundo. Evoluímos a um patamar jamais alcançado por nenhum outro ser vivo neste planeta. Não só nos adaptamos ao meio ambiente, como adaptamos o meio ambiente aos nossos propósitos. Dominamos o fogo, sobrevivemos na água, somos senhores da terra, e a espécie mais rápida e mais perigosa que já voou nos céus. Fabricamos nossa própria energia, produzimos nosso próprio alimento. Somos capazes de corrigir nossos defeitos físicos, reparar nossos ossos, substituir nossos órgãos. Subjugamos a gravidade, os vírus e as feras. Somos escravos apenas do tempo. Desvendamos os segredos do átomo, e aprendemos a ler o código da vida. Não temos predadores naturais, e somos virtualmente onipresentes em quase todo o globo. Já não dependemos mais inteiramente do processo evolutivo, e, hoje, somos nós que levamos outras espécies à extinção. Inventamos a civilização, e a civilização inventou o conhecimento. E foi o conhecimento que nos permitiu chegar aonde chegamos. Para o bem, ou para o mal.

Um antigo comercial de tevê dizia que a ciência nos ensinou a voar no céu como pássaros, e a nadar na água como peixes; arrematando que talvez, um dia, ela também nos ensinasse a andar na terra… como homens. Descontada essa pequena gafe, obviamente motivada pela tradição de se adorar um Deus não só machista, mas sexista, eu faço coro a essa esperança.

Mas eu também tenho uma teoria. Acredito que nos tornaremos completamente humanos somente quando — e somente “se” — nós conseguirmos nos libertar desse pesado cordão umbilical que arrastamos, que nos prende desnecessariamente a um passado de sangue e de ignorância, e que nos estorva o caminho para um futuro mais condizente com o nosso nível de inteligência: a religião. 

É a religião que, para continuar a existir e a controlar nossas vidas, exige que nós abdiquemos do uso integral e irrestrito justamente daquilo que nos distanciou dos animais que nos deram origem, e nos deixou próximo de nos tornarmos um tipo de deus que mesmo ela jamais teria sido capaz de inventar.

Religiosos acham que ciência e fé não são incompatíveis, e se esforçam para nos lembrar que vários cientistas acreditavam em Deus, como o próprio Darwin acreditou durante boa parte da vida. Mas isso é só mais uma ilusão, como tantas outras às quais eles têm de recorrer para manterem de pé um sonho tosco, que não só lhes diz que todo o universo foi criado por causa deles, mas que eles são tão especiais a ponto de precisar que sejam eternos.

A busca do conhecimento foi, durante muito tempo, vista pela religião católica como uma doença instilada por Satanás; o fruto proibido que acabou se tornando a nossa maldição. O saber sempre foi tido pela Igreja como uma ameaça ao seu domínio, e no passado era propagandeado como uma blasfêmia contra Deus, de forma que os representantes dele na Terra pudessem punir severamente, em vida, aqueles que já seriam punidos com o Inferno, após a morte.

Não seria, portanto, muito sensato esperar que houvesse um grande número de cientistas não religiosos fazendo parte da nossa história. E mesmo assim, os que eram, de fato, religiosos não levaram Deus em conta nos seus cálculos, nas suas teses, nas suas pesquisas. Por mais que se devesse esperar o contrário, nenhum Criador apareceu nas hipóteses nem nos resultados de nenhum trabalho científico, por mais religioso que fosse o seu autor.

Isso porque ciência é sobre o mundo real. No mundo real não há milagres, nem mágica. E o que mais se aproxima disso é fruto do nosso conhecimento, do nosso trabalho, e, muitas vezes, do amor que nós devotamos à nossa espécie como um todo, sem distinção. Algo que Deus jamais ousou fazer.    

A Teoria do Barro (quinta parte)

<< 1ª Parte


Pesquisas científicas indicam que os hominídeos que deram origem à espécie humana divergiram de um ancestral comum com os chimpanzés há cerca de 5 ou 7 milhões de anos. Nesse tempo, nós evoluímos de um animal irracional primitivo, feio e peludo, para nos tornarmos a coisa mais fofa que existe sobre a Terra.

Alguém poderia desejar saber por que um tubarão, por exemplo, que teve entre 420 e 450 milhões de anos para evoluir, não está por aí lançando satélites e desenvolvendo aplicativos para tabletsEsse raciocínio — o de que quanto mais tempo uma espécie tivesse dentro do processo evolutivo, mais inteligente ela seria — é um raciocínio completamente equivocado. Se um tubarão, nos últimos 450 milhões de anos, não teve nenhum problema para se alimentar nem para se reproduzir, não teve, também, qualquer pressão evolutiva atuando sobre ele. Caso contrário, ou nós estaríamos convivendo com tubarões bem diferentes do que os que estamos acostumados, ou não estaríamos convivendo com tubarão nenhum. 

Adquirir inteligência não está diretamente vinculado ao que realmente importa, do ponto de vista de um gene: estar presente na geração seguinte. E também não é um fator condicionante para a sobrevivência de uma espécie. Ser imune aos efeitos nocivos da radiação solar num ambiente em que isso é uma questão de vida ou morte, sim, é um fator condicionante. E, nesses casos, a seleção natural sempre fez o seu trabalho divinamente bem, desde os primórdios da vida.  

O livro A Mente Seletiva explica o desenvolvimento da nossa inteligência como um atrativo sexual. Assim como a cauda dos pavões e o canto dos pássaros, a inteligência humana foi usada pelos nossos ancestrais para conseguir uma garota para transar. Uma não; várias. E é disso que trata esse texto de seis partes que escrevi baseado no livro: Nada a ver com Deus

Mas só o pavão exibe cauda intrincadamente elaborada, e só os pássaros machos cantam para atrair as fêmeas. Sendo o princípio o mesmo, não seria o caso de se esperar que só o macho da nossa espécie tivesse desenvolvido inteligência? Acontece que, para a fêmea poder julgar a “performance” dos seus pretendentes, teria que ela mesma ter uma inteligência desenvolvida à altura. Isso permitiu que a capacidade intelectual do homem e da mulher se desenvolvesse por espelhamento, o que imprimiu uma velocidade avassaladora ao processo.

E é justamente essa capacidade única e exclusiva da espécie humana que aprisiona os crentes detratores do processo evolutivo num paradoxo desconcertante. Se, por um lado, eles consideram a nossa inteligência complexa demais para ter surgido sozinha; por outro, eles abdicam do uso dessa mesma inteligência para poder continuar vivendo sua fantasia antiga de ser a razão de tudo o mais existir. A coisa mais fofa do Universo.


A Teoria do Barro (quarta parte)

<< 1ª Parte

Então: lá está você no meio de uma floresta numa noite sem lua, e ouve (mais do que vê) um tigre se aproximando. O que você acha que faria para escapar da morte? Antes de responder, pense um minuto ou dois, afinal, você é a criatura maaaaais inteligente que existe sobre a Terra.

Você tentaria fugir correndo?, subiria no topo de uma árvore?, tentaria se enfiar em algum canto onde o tigre não pudesse entrar? Se sua resposta tendeu para esse lado, eu preciso dizer que as chances de você sobreviver seriam mínimas, porque um tigre quase sempre só é percebido pela presa quando já está correndo para atacá-la, e você, querido leitor, querida leitora, não conseguiria ser mais rápido, apesar de ser bem mais inteligente do que ele.

Se sua resposta foi que tentaria enfrentar o tigre, ou que se ajoelharia e rezaria para que Deus lhe salvasse (lembrando, certamente, do Daniel na cova dos leões), significaria que você teria abdicado das suas chances mínimas de não ser devorado, em prol do questionável prazer de servir de alimento a um animal tão majestoso.

Considerando-se a situação proposta, dá para perceber que o fato de ser a criatura mais inteligente que existe no planeta não teria tido muita serventia, visto que você teria pensado em fazer justamente o que teria feito um macaco, ou um pavão, para salvar a própria vida. Claro que eu iria te considerar menos inteligente do que qualquer um desses dois se você me dissesse que tentaria enfrentar o tigre, ou rezar a Deus. Mas nós dois sabemos que isso jamais passaria pela sua cabeça, não é? Provavelmente você chamaria pelo nome de Deus, bem alto e repetidas vezes durante os cinco segundos que teria de corrida à frente do bicho, mas isso seria apenas o que se conhece pelo nome de “resposta condicionada”, que é uma coisa que um bom treinador consegue de praticamente qualquer animal. E você, que também é um “animal”, foi treinado durante boa parte da sua vida a agir exatamente assim, quando, num susto, fosse confrontado com uma ameaça de morte. Nada a ver com fé, portanto.

Quando o assunto é Teoria da Evolução, o equívoco mais comum do leigo é achar que o “objetivo” do processo evolutivo é tornar os seres inteligentes. Ou, em outras palavras, que “inteligência” seria a melhor coisa que um animal poderia ter.

Ora, mas quando tudo se resume a sobreviver e procriar durante uma vida inteira num certo meio ambiente, inteligência apenas não se torna assim tão vantajoso. Ou você teria pensado em fazer algo inteligente para escapar de um tigre que um macaco jamais faria.

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A Teoria do Barro (terceira parte)

<< 1ª Parte

A Origem das Espécies — por meio da seleção natural é o cérebro e a espinha dorsal da Teoria da Evolução. Muita gente acha que o livro (ou a Teoria) pretende explicar a origem da vida na Terra, mas esse é um pensamento equivocado. Simplificando as coisas, os trabalhos de Darwin pretendiam explicar a diversidade biológica no nosso planeta. Embora ainda fosse religioso, pela época em que começou suas pesquisas — e concordasse com o argumento de William Paley, segundo o qual a perfeição da natureza era uma prova cabal da existência de Deus — , Darwin não acreditava no relato da Criação. Como Deus, aparentemente, não quis deixar registrado esse assunto na Bíblia, ele achou que não seria pecado tentar se informar por sua própria conta.

A proposição que chocou o mundo científico e o religioso em 1859 foi, resumidamente, essa: as várias espécies que povoam a Terra se originaram de uma espécie anterior comum. Em outras palavras, nenhum animal (nós inclusos) foi “criado” pronto. Ou eu muito me engano, ou um livro bem mais famoso do que o dele dizia justamente o contrário…

Muito bem. Além do fato de querer pôr em dúvida um texto sagrado, por que os religiosos, até os dias de hoje, contestam tanto o Evolucionismo? O motivo mais óbvio é porque essa explicação invalidaria o Criacionismo, que é como eles “creem” que tudo aconteceu. Mas eu enxergo mais alguns outros motivos.

A Teoria da Evolução precisou “ajustar” as conclusões de Darwin à genética, ciência que só veio a nascer com a publicação dos estudos de Gregor Mendel sobre hereditariedade, em 1865, seis anos depois da publicação d‘A Origem das Espécies. Para os religiosos, o fato de os cientistas refazerem suas proposições baseados em novos conhecimentos e novas evidências é, perdoem-me a palavra, uma heresia. Acostumados que estão a dogmas imutáveis que regem um mundo de faz de conta, eles acham que a ciência, que tenta entender o mundo real, deveria seguir a mesma cartilha.  

A Teoria da Evolução apresenta algumas falhas, lacunas, contradições internas pontuais; perguntas que não puderam ainda ser respondidas, e respostas que não respondem a tudo que se esperava. Mas você pode não querer comprar um carro porque ele tem arranhões na pintura, uma batida esquisita na caixa de direção e tá vazando óleo. Mas ele continuará sendo um carro.

A meu ver, entretanto, os principais motivos que fazem os religiosos rejeitarem o processo evolutivo são a sua ignorância sobre o tema, quando são, de fato, ignorantes; e a sua desonestidade intelectual, quando conhecem o assunto a fundo.

A questão mais comum que me propõem é um bom exemplo desses dois últimos motivos combinados: “Por que não há outros animais tão inteligentes quanto nós humanos?”. Eu vou deixar aqui a resposta que costumo dar, mas em duas partes. A primeira é a que segue.

Imagine-se despido de toda sua civilidade, de suas roupas, de seus calçados, de suas ferramentas, de seus utensílios, de suas armas, etc. Imagine-se, assim, pelado, descalço e sozinho, numa noite sem lua numa floresta da Ásia, e tente descobrir como ser tão inteligente iria impedir que você fosse o jantar de um tigre    

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A Teoria do Barro (segunda parte)

<< 1ª Parte

Mutações genéticas não precisam estar obrigatoriamente vinculadas à extinção de uma espécie (ou parte dela), como descrevi no meu texto anterior. O que eu quis ressaltar foi o conceito de “seleção natural”. No meu exemplo extremo, os humanos que sobreviveram foram aqueles que tinham mais resistência aos efeitos danosos das radiações solares: uma parcela ínfima da população, composta pelos descendentes de uma tribo do Saara onde se espalhou uma mutação genética. Aqueles que não estavam perfeitamente adaptados às novas condições foram sendo gradativamente “exterminados”. Isso dá a ilusão de que o próprio meio ambiente está “selecionando” quem é melhor adaptado para viver nele. É esse processo que se denomina seleção natural.   

O exemplo que dei também serve para ilustrar o que se resolveu chamar de “sobrevivência do mais adaptado” (ou do “mais apto”). É, mais ou menos, como a “lei do mais forte”, em que o conceito de “força” deve ser substituído por “adaptação ao meio ambiente”. Na minha estória, os membros da tribo do Saara estavam mais adaptados ao meio do que o resto da humanidade, e por isso não foram extintos. Argumenta-se que essa ideia de “sobrevivência do mais adaptado” não esteja completamente correta, porque mutações genéticas podem trazer vantagens não relacionadas exclusivamente à sobrevivência, mas à reprodução.  

A ilustração clássica é a do pavão, que vi pela primeira vez no livro A Mente Seletiva. Acompanhe o raciocínio. Um pavão nas florestas asiáticas teria muito mais chances de ter uma vida longa se pudesse mais facilmente escapar do seu predador: o tigre. Quanto mais vivesse, mais tempo teria para acasalar e gerar descendentes. Uma cauda curta permitiria que o pavão fugisse do tigre mais eficientemente. Logo, os pavões mais adaptados ao meio deveriam ter caudas curtas. Se houve, no passado, pavões com caudas enormes, vistosas e pesadas, certamente tiveram menos condição de escapar dos tigres; viveram menos; geraram cada vez menos descendentes, e acabaram sendo extintos.

Mas a realidade é bem outra. Os pavões têm cauda longa, vistosa e pesada, que demanda uma quantidade enorme de energia para desenvolver e para manter, e que ainda é um estorvo durante uma fuga de um tigre faminto. E eles não foram extintos. Por quê? Porque embora possivelmente vivendo menos tempo do que pavões que tinham caudas curtas, os pavões com caudas grandes e bonitas conquistavam mais fêmeas, acasalavam com mais frequência, e geravam mais descendentes. Esses descendentes, por sua vez, herdavam dos pais a cauda longa, se machos; ou a preferência por acasalar com pavões de caudas longas, se fêmeas. Isso corresponde exatamente à mutação genética sendo passada adiante. Daí que os pavões de caudas mais curtas podiam até viver mais, só que, em compensação, tiveram menos parceiras sexuais ao longo da vida, deixaram cada vez menos descendentes e, com o passar do tempo, acabaram extintos. Esse é o princípio da “seleção sexual”, pelo qual vantagens reprodutivas são tão importantes para uma espécie quanto as vantagens adaptativas.

Agora que estamos por dentro dos conceitos básicos, já dá para entender o que se pode esperar de um livro cujo título é A Origem das Espécies — por meio da seleção natural, e por que os religiosos têm tanta birra dele.     

 

A Teoria do Barro (primeira parte)

Não aparece na capa, mas há um subtítulo para esse livro: “por meio da seleção natural”. Eu menciono isso para poder explicar, de uma forma bastante superficial, o que é mutação, o que é seleção natural, e o que quer dizer, de fato, o título da obra que foi o “Gênesis” de uma das mais brilhantes teorias científicas do nosso tempo: A Origem das Espécies, de Charles Darwin.

Chama-se de “mutação” a mudança nas características genéticas de um indivíduo que pode ser repassada aos seus descendentes. “Seleção natural” é o resultado da interação entre os indivíduos que sofreram aquela mudança e o meio ambiente ao qual pertencem.

Tome o seguinte exemplo, irresponsavelmente concebido por mim mesmo. Digamos que, há muito, muito tempo, um indivíduo de uma tribo do deserto do Saara tenha sofrido uma alteração genética que lhe tornou praticamente imune aos danos causados pelos raios do Sol. Esse indivíduo teve filhos, e eles herdaram aquela “mutação”, bem como os filhos dos seus filhos, e assim por diante, de forma que, com o passar do tempo, quase todos os membros da tribo tinham incorporado aquela mutação aos seus próprios genes.

Lado a lado comigo ou com você, qualquer pessoa daquela tribo em particular não teria, hoje, nada de diferente de nós, além das muitas características que distinguem, por exemplo, um japonês de um indiano, um esquimó de um pescador de lagostas no litoral do Nordeste, ou um carioca de outro carioca. A mutação genética sofrida, portanto, não teria feito nem bem nem mal.

Agora imagine que, nos séculos por vir, além da diminuição da proteção atmosférica da Terra, o Sol passasse a disparar uma quantidade mais intensa de raios nocivos ao ser humano. O que poderia acontecer?

Ora, à medida que as gerações se sucedessem, mais e mais pessoas morreriam vítimas dos mais variados tipos de câncer; mais e mais pessoas teriam descendentes com mutações genéticas terríveis que lhes impossibilitariam a sobrevivência; e mais e mais pessoas morreriam cada vez mais cedo na vida, até mesmo antes de terem seus próprios filhos.

Em alguns milênios, se tanto, o nosso planeta não teria mais, em nenhum lugar, seres humanos iguais a mim e a você, com a nossa mesma “carga genética”. Por infelicidade, no caso, nossos corpos não poderiam contar com uma resistência extraordinária aos raios do Sol, exibida apenas por umas poucas centenas de indivíduos de uma certa tribo do Saara. Esses sortudos, mesmo sem precisar se dar conta disso, teriam sido favorecidos por uma mutação genética que, embora aleatória, possibilitou que eles adquirissem a condição necessária para sobreviver no ambiente em que se encontravam, e, mais importante ainda, passar essa característica para as gerações futuras.

Os que não tinham a mesma condição, como eu, você e os seus descendentes, teriam sido extintos.   

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O que é Religião?

Muito frequentemente nós somos enganados pelos nossos sentidos. E muito frequentemente, também, nós nos deliciamos com isso, a ponto de pagarmos para sermos vítimas de uma ilusão. De truques de mágica à indústria cinematográfica, esse aspecto da nossa condição humana nos tem feito enriquecer, ao longo dos séculos, aqueles que descobriram como nos fazer bem ao nos iludir. A religião, porém, é um exemplo claro de como uma ilusão pode se tornar danosa. 

Danosa, obviamente, para o lado que não está ficando milionário com a fé alheia. 

Pessoas religiosas costumam argumentar, baseadas em pesquisas científicas, que a crença em uma divindade é algo bastante benéfico para o indivíduo; seja para sua vida social ou para sua saúde física e emocional, por exemplo. Essa declaração, apesar de correta, não torna a fé religiosa menos prejudicial à nossa sociedade, à nossa civilização, e mesmo até à nossa espécie. Se for para analisar os prós e os contras, pode-se acabar chegando à conclusão de que é possível se adquirir, por outros meios, os mesmos benefícios atribuídos à crença em deuses, sem precisar trazer a reboque tudo de ruim que está, sempre esteve, e sempre estará vinculado à Religião. Tentar negar essa proposição é uma reação natural, fruto de um afundamento excessivamente longo dentro de uma sociedade doutrinada a pensar exatamente isso: que acreditar em deuses faz bem, sob todos os pontos de vista. Mas isso depende. E depende muito. E essa dependência é demasiadamente perigosa. 

Se, acometidos de uma mesma e gravíssima enfermidade, um crente e um ateu são submetidos a idênticos cuidados médicos, os resultados dessa atenção devem ser semelhantes. Entretanto, se por motivos diversos (e, na esmagadora maioria dos casos, perfeitamente explicáveis), o tratamento surtir efeito apenas em um deles, e o outro vier a morrer, a mente religiosa irá se apegar a uma das duas seguintes conjecturas, para sua própria conveniência. A primeira, se morrer o ateu, que a fé salvou o crente. A segunda, se morrer o crente, que foi a vontade de Deus, e devemos todos nos conformar com ela. 

Nos dois casos, o religioso está aplicando em si mesmo a ilusão que lhe rende aqueles supostos benefícios, e que engorda as contas bancárias daqueles que lhe incentivam a continuar acreditando que ele está se beneficiando de alguma coisa.

Acreditar que o ser supremo que criou todo o universo está tão preocupado com você a ponto de “auxiliar” na sua recuperação durante um tratamento médico intenso pode, sim, de alguma forma, contribuir para sua melhora, uma vez que, provavelmente, vai deixar você mais otimista, mais calmo, etc. Mas acreditar que o Todo-Poderoso vai curar você sem ajuda extra pode te levar à morte. Tão longe que estamos dos tempos bíblicos, Deus hoje só cura através de um bom plano de saúde.

O mais que passa nos shows de horrores dos programas religiosos que você assiste na tevê, e a que tantos olhos chorosos e desesperados veem como milagre divino, é tão somente um engodo; um embuste amalamanhado, quase sempre tão mal feito que só mesmo a vontade de ser iludido pra justificar a crença numa coisa tão explicitamente forjada.

Mas, no fim das contas, religião é apenas isso mesmo: a consumação de uma fraude aliada ao desejo de ser enganado por ela.

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Cristãogimento: constrangimento cristão

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Dia desses uma pessoa quis “falar de Jesus pra mim”. Eu, geralmente, costumo ser bem educado, mas, quando o assunto é religião, eu me obrigo a aplicar o método que eu mesmo inventei para tratar com esses sonâmbulos, e ele, o método, não é lá nenhum modelo de educação; geralmente acaba por constranger o meu interlocutor. A conversa começou com a lenga-lenga de sempre:

— Barros, mesmo que você não creia, Jesus te ama e vai querer te salvar.

— Salvar de quê?

— Do Inferno… A Bíblia diz que… 

— Ôpa!, êpa!, ôpa, êpa, ôpa…

Como eu sabia que ele tinha três filhos pequenos, eu resolvi contar uma parábola também:

— Você ama seus filhos?

— Mas é claro!

— Que bom. Digamos que você, um dia, reúna seus filhos para uma conversa sobre o “futuro” deles. E você diria: “Crianças, papai ama vocês. Muito, muito, muito. E por amar vocês, por querer o melhor para vocês, eu não vou medir esforços nem capital para que tenham a melhor educação possível. Vocês vão estudar nas melhores escolas; vou comprar todos os livros que precisarem; todo o material de suporte necessário para que se preparem adequadamente e possam ser admitidos nas melhores faculdades do país. Depois, papai vai querer que vocês prestem concurso público, e vão trabalhar para o Governo, ganhando um salário excepcional. Isso, como veem, é para o seu próprio bem. Aquele que não seguir por esse caminho vai ser severamente castigado… Se você, Mariana, por exemplo, resolver ser uma dona de casa, apenas se ocupando em parir e trabalhar 12 horas por dia, sem remuneração, para um marido assalariado, eu vou torturá-la por semanas a fio, a ponto de fazer você ranger os dentes de tanta dor”.

— Você está equivocado, Barros! Rsrsrsrss Jesus nos deu o livre-arbítrio para — 

— Não estamos falando de Jesus aqui. Estamos falando de você e de seus filhos. Você faria isso ou não?

— Claro que não! Nenhum pai faria, e Deus não faz esse tipo de ameaça. Você só está interpretando errado a Bíblia. Deus não quer que sejamos condenados. Ele amou tanto o mundo que mandou seu fi —

— Se você terminar a porra dessa frase eu vou vomitar em você igual à menina do Exorcista! Vocês repetem tanto isso que chega a dar náuseas! Por que você acha que eu estou interpretando errado?

— Porque Deus quer que você se livre do Inferno; não quer que você vá pra lá.

— Mas se eu não aceitar Jesus como meu salvador? O que acontece comigo?

— Mas Jesus te ama, Barros; ele quer que você —

— Jesus que se foda! Eu quero saber o que você acha que vai acontecer comigo se eu não aceitar Jesus como meu salvador, não amar a Deus sobre todas as coisas, não guardar o dia de sábado, renegar o Espírito Santo! O que vai acontecer comigo depois que eu morrer?

— Você iria pro Inferno, mas, aí, seria uma escolha sua, porque Deus quis que você fosse —

— Errado!!!!! Ninguém é doido para escolher ir para um lugar onde será torturado eternamente! O que eu realmente escolhi foi renegar o Espírito Santo, não aceitar Jesus como meu salvador, não amar a Deus! Foi essa a minha escolha. E é essa escolha que me lançará no Fogo Eterno! Como a escolha por ser dona de casa, e não funcionária pública, iria condenar Mariana a uma sessão de torturas aplicada por você mesmo!

— Mas Deus não vai torturar ninguém, Barros. O Inferno existe porque o Diabo —

— Êpa! Ôpa!, êpa, ôpa, êpa… Então, talvez você dissesse para Mariana: “E se você não seguir os conselhos de papai, querida, um cara mau que mora ali no outro bairro virá para te torturar por semanas a fio, até você ranger os dentes de tanta dor. Eu poderia impedir isso, mas, você sabe: não gosto de interferir no livre-arbítrio das pessoas…”.

— Não, Barros, você não entende… 

— Me explica, então… 

Ele não explicou. O constrangimento era evidente no seu rosto. As pessoas tendem a ficar constrangidas quando eu aplico meu método. E constrangimento, a palavra, tem a ver com “embaraço”, com “tolhimento”. E quando o assunto é religião, o constrangimento ocorre porque o cérebro do crente se enlinha no emaranhado das suas próprias mentiras.

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Sobra fé, quando falta dinheiro

Essa mulher entrou na “fila dos milagres” da Igreja Mundial do Poder de Deus para prestar um depoimento. Um B.O.* divino:

FULANA DE TAL, 32 anos, brasileira, solteira, semialfabetizada, diarista, relatou que trabalha durante todo o dia fazendo serviços domésticos em três residências diferentes; QUE sai de casa de manhã bem cedo e QUE só retorna à casa já bem tarde da noite; QUE deixa a filha M*, de três anos de idade, aos cuidados da mãe; QUE uma semana antes havia chegado em casa, por volta da uma da manhã, e encontrado a filha vomitando e com diarreia intensa; QUE a avó da criança informara que a menor tinha estado assim desde a hora do almoço; QUE ficou desesperada ao ser informada de que a menor não havia se alimentado nas últimas 12 horas; QUE verificou que a menor vomitava até após ingerir água; QUE a menor continuava com diarreia e que reclamava de intensas cólicas abdominais; QUE a menor não tinha plano de saúde; QUE não dispunha de nenhum dinheiro consigo para pagar uma corrida de táxi até o hospital mais próximo; QUE não tinha a quem recorrer para pedir dinheiro emprestado àquela hora da madrugada; QUE desesperou-se e, desesperada, ligou a tevê; QUE assistiu a um programa religioso da IMPD; QUE, no referido programa, o bisbo TAL disse que Deus era misericordioso e bom; QUE o tal do bisbo havia dito que Deus cuida dos seus filhos, etc., etc., etc.; QUE, por conta disso, a depoente fez uma fervorosa oração a Deus para que curasse a filha;  QUE, após a oração, dirigiu-se à cama da filha e encontrou a menor desmai…, digo, dormindo; QUE agradeceu imensamente a Deus pelo milagre de ter curado sua filha; QUE foi trabalhar na manhã seguinte, como sempre fazia; QUE deixou a menor aos cuidados da avó, como sempre fazia; QUE deixou a menor, também, aos cuidados de Deus, como passou a fazer; QUE deixou, adicionalmente, uma recomendação para que sua mãe assistisse ao programa tal, da IMPD, tendo o cuidado de deixar um copo com água em cima da tevê; QUE administrasse doses regulares daquela água à menor, caso a mesma voltasse a apresentar sinais de vômito ou diarreia; QUE recomendou à própria mãe que tivesse fé em Deus.”

É isso, coleguinhas. Ao que se pode concluir pelo depoimento dessa mãe, Deus curou sua filhinha após receber uma única oração de pedido de socorro. Só quero lembrar que, fosse ela uma mulher provida de recursos financeiros, mesmo com muito mais fé em Deus do que tem agora, ela teria tirado seu carro da garagem e levado a criança ao melhor hospital que o seu plano de saúde “top de linha” pudesse cobrir. Desvalida que era, coitada, ela precisou mesmo depositar toda sua esperança numa ilusão. Há os que chamam a isso de fé.

Mas existe um nome mais adequado: desespero.


*B.O.: boletim de ocorrência.

Deus, ninguém me ama também

Eu lembro que, logo no início do filme A Bela e a Fera, o narrador fecha a introdução dada à estória com essa pergunta: “Pois quem seria capaz de amar um monstro?”. Um ótimo começo, porque resume bem o excelente enredo e a moral dessa fábula, uma vez que o bom-senso nos leva a pensar que um amor entre uma mocinha linda e uma criatura horripilante seja mesmo impossível. A expectativa, então, é a de que o conto de fadas venha a nos mostrar que estamos errados, e nos surpreenda com um final maravilhosamente inesperado.

Mas o mundo real não é assim tão surpreendente. Não fui eu que fiz essa lei, mas quando uma coisa tem chance de dar errado, ela vai dar errado. Se você quer namorar uma princesa, ajuda mais ser o príncipe do que ser o sapo. E se você é um Deus carente que precisa muito de amor… então é melhor fazer por onde.  

Veja os cristãos, por exemplo: depois de se darem conta de quão monstruoso era o Deus hebraico, resolveram acorrentá-lo às páginas do Antigo Testamento, e lá o esqueceram. Já tendo feito o que lhe cabia — criar o mundo e lançar sobre ele sua maldição — Deus agora é convenientemente usado apenas como ameaça: um pitbull raivoso que eles prometem soltar nas fuças de quem não simpatizar com o deus do Novo Testamento — Jesus Cristo —, em tudo e por tudo diferente do Deus-monstro que eles se viram incapazes de amar. 

Pelo dogma da Santíssima Trindade (em que entra, também, o Espírito Santo, que nem fede nem cheira), admite-se que Deus e Jesus sejam uma e a mesma “pessoa”. Mas isso é só mais outra das incontáveis e embaraçosas contradições da doutrina católica, porque as diferenças não poderiam ser maiores. 

Deus era o deus dos hebreus, o deus do “povo escolhido” (escolhido por ele, Deus); Jesus é o deus de qualquer um que se disponha a trocar demonstrações carnavalescas de amor fingido por um salvo-conduto que o livre do castigo de ser torturado por toda a eternidade (ameaça feita por ele, Jesus). 

Deus cuidava exclusivamente dos hebreus e estava sempre do lado deles nas trincheiras; Jesus não tem nada de belicoso e, aparentemente, não faz distinção étnica.

Deus afogou quase todo mundo na Terra, incitava guerras, matava e mandava matar; Jesus não é afeito a genocídios e sempre foi infinitamente mais diplomático.

Deus criou o universo todo, junto com tudo que há nele; Jesus se contentou em fazer apenas alguns truques de circo.

Mas se o Pai era o Verbo, o Filho do Homem foi o Discurso. E graças a uma conversa mole sobre recompensa em outra vida; graças à ameaça de entregar os dissidentes aos cuidados do Deus do Antigo Testamento, dois mil anos depois, Jesus é o único deus dos cristãos. Eles veneram sua imagem; eles fazem músicas em seu louvor; eles divulgam suas ideias e pregam em seu nome; eles o bajulam; eles recontam suas aventuras para as crianças; eles comemoram o dia do seu aniversário.

De hoje em diante, quando baterem à sua porta nas manhãs de domingo, nos sermões das igrejas, nos shows de horrores dos programas religiosos na tevê; e sempre que vierem falar de “Deus” para você, tente perceber a que deus eles estarão se referindo, a que deus eles estarão dirigindo suas lamúrias, a que deus eles invocam para agradecer e para suplicar, a que deus eles dizem que amam. Eu sou capaz de apostar que será o deus do Novo Testamento.

O outro, o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, permanecerá acorrentado e esquecido na solidão daqueles milênios longínquos, até o fim dos tempos.

Pois quem seria capaz de amar um monstro?

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O deus que há em mim

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Nemastê é a pronúncia de uma palavra em sânscrito que designa um cumprimento cotidiano feito por religiosos de países do sul da Ásia. Utilizado também na escrita, é posto no início ou no fim da mensagem, e, nesses casos, pode ser equiparado, talvez, ao nosso Salve!. Entretanto, quando se está frente a frente com o interlocutor, a palavra é substituída pelo cumprimento em si: em silêncio, juntam-se as palmas das mãos em frente ao rosto, ou na altura do peito, ao mesmo tempo em que se inclina o corpo para frente, e se direciona o olhar para os pés da pessoa cumprimentada. 

Confundido por nós, ocidentais, com uma atitude de deferência, o gesto de saudação de hindus, sikhs e budistas é, em vez disso, um sinal de humildade. Em sânscrito, nemastê significa exatamente isso: “curvo-me perante ti”.

Desde que ganhou o mundo, porém, o termo se dissociou de sua raiz etmológica e acabou sendo indevidamente correlacionado a significados outros, em nada semelhantes ao original. O mais comum talvez seja o do título: “o deus que há em mim saúda o deus que há em você”. 

Ocorreu-me, então, que esse gesto — com essa acepção — bem que poderia ser adotado como a saudação oficial entre cristãos ao redor do mundo. E a explicação para isso é a que segue.

Graças à Santíssima Trindade, os católicos perceberam que Deus tinha essa conveniente habilidade de se dividir — ou de se multiplicar; como queiram. Quando converso com crentes de diferentes denominações religiosas, a impressão que tenho é a de que eles cultuam deuses bem diferentes entre si. Ali, o padre só menciona um Deus fofinho, selecionando trechos bíblicos dignos de apreciação bem do meio de outros que provocariam pesadelos. Acolá, o pároco fala de um Jesus que não pode ser encontrado em parte nenhuma da Bíblia, um que ama todo mundo de igual maneira, sem querer nada em troca — nem dinheiro! Já o pastor prega um Jesus (meu segundo trocadilho em mais de 3 anos de blog…) que só quer que nós prosperemos financeiramente, pelo que exige uma quantia mensal para permitir que isso aconteça. E assim por diante. Os nomes são parecidos, as origens são praticamente as mesmas, mas esses deuses não se bicam.

Só aparentemente os católicos cultuam o mesmo Deus. Pra começar a confusão, eles cultuam mesmo, de fato e de direito, é a Jesus Cristo, que foi o deus novo que a Igreja inventou para substituir o intragável Deus psicótico do Antigo Testamento. Só que o Jesus que eles veneram, bem como o Deus por quem eles alegam morrer de amores, não estão na Bíblia, mas foram criados em suas próprias cabeças, a partir da ideia que eles fazem de como um deus deveria ser. Daí a necessidade de uma Igreja Católica Apostólica Romana, uma Igreja Ortodoxa Russa, uma Igreja Católica Bizantina, uma Igreja Anglicana, as igrejas protestantes e por aí vai. Se toda essa gente estivesse de acordo em adorar o mesmo Deus, ou se esse Deus fosse o mesmo que se revelou através da Bíblia a todos eles, essas divisões não fariam o menor sentido.

No catolicismo a coisa não é tão evidente, entretanto, como no meio evangélico. Entre em dois daqueles galpões de culto de denominações diferentes e você vai perceber que estão adorando deuses diferentes. Em um, por exemplo, as pessoas estarão falando com Deus através de línguas estranhas; em outro, estarão tendo demônios expulsos de seus corpos. Na que expulsa demônios, o falatório angelical não é ouvido; na que as pessoas recebem o dom de Deus de falar coisas incompreensíveis (um dom completamente inútil, aliás), os demônios não têm poder pra invadir o corpo de ninguém.   

Acredito eu que, no futuro, as pessoas continuarão frequentando as mesmas congregações, mas cada crente cristão terá a sua própria versão de Deus, a sua cópia autenticada e exclusiva de Jesus Cristo. Cada deus será único, pessoal e intransferível, como um cartão de crédito. E se eles aceitarem a minha humilde sugestão, quando se encontrarem nas portas de suas bocas de culto, para venerarem juntos deuses separados, poderão fazer uma solene reverência uns para os outros, cada um saudando o deus do seu semelhante. 

Quem sabe, por essa época, finalmente as pessoas tenham desistido de tentar converter os outros à sua própria fé, e se contentem em adorar seu deus interior, seu deus de estimação. Talvez, então, e finalmente, a humanidade comece a aprender a viver em paz. Sem precisar fazer guerras em nome de amigos imaginários; sem ter que viver em busca de ser aceito em mundos mágicos; sem infernos a temer; sem nenhum Deus que nos inspirasse os mais diversos motivos pelos quais matar ou morrer. 

Nemastê!!

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O imbecilionismo (parte 2)

Rodrigo Silva é doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. Assunção (SP).

<< Ler do início

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Imbecilionismo foi a palavra que inventei para definir o processo de se defender uma ideia imbecil usando argumentos imbecis. O termo é formado pela fusão de duas palavras bem conhecidas — imbecil e ilusionismo — , mas de forma alguma se refere, por exemplo, a quem seja vítima de um truque de circo. No imbecilionismo, você é o mágico e a plateia ao mesmo tempo. É aí que entra o “imbecil” na história.

Toda a fé cristã se baseia numa ideia fundamental que é uma tolice constrangedora: um ser perfeito, todo- poderoso, eterno, etc. que, ao que tudo indica, ficou entediado de sua existência monótona e resolveu nos criar, a nós e ao universo, de forma que tivesse alguma coisa pra fazer. Como essa bobagem infantiloide não encontra o mínimo respaldo no mundo real, fora das páginas do livro de fábulas através do qual ela se popularizou, o crente se vê forçado a recorrer constantemente ao imbecilionismo, para que a vida e as coisas não estraguem a sua fantasia, e o obriguem a viver num universo onde ele está, como todo mundo, por sua própria conta e risco.

Nada de padrinhos mágicos!

Para muita gente essa constatação seria um fardo insuportável; algo terrível demais para ser verdade. Portanto, o Deus deles, e não o dos outros, precisa existir. E se esse Deus existe, é óbvio que deve haver por aí um sem-número de coisas que alguém poderia usar para comprovar sua existência.

O problema é que não há. Então é preciso fazer o que o senhor Rodrigo Silva faz. É ele que apresenta um programa na TV Novo Tempo, cujo objetivo é sustentar com “evidências” os relatos bíblicos e, por tabela, a fé que as pessoas têm de que a Bíblia seja mesmo o que acham que ela é.

Para sustentar sua crença, o cristão se obriga a fazer mágica com as informações disponíveis, prestidigitação semântica com os textos do seu livro sagrado, e malabarismos com a realidade à sua volta, até se convencer de que aquela ideia inicial, aquela tolice constrangedora, é mesmo verdade.

Vou analisar os argumentos usados no vídeo do senhor Rodrigo Silva, para que você possa fixar bem a definição de imbecilionismo. Fica o convite para os crentes de plantão acompanharem os próximos textos e me desmoralizarem, apontando os inúmeros erros que certamente eu irei cometer, afinal, eu estou me propondo a refutar os argumentos de um doutor em teologia bíblica, cuja intenção é provar que nós somos mesmo o passatempo de Deus. 

O crente de programa

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O religioso cristão se comporta como uma prostituta em relação à sua divindade. Aparentemente, Deus precisa muito de amor e de atenção, e dizem que ele costuma encher de mimos seus crentes de programa, em troca desses favores. Em virtude disso, o devoto reserva algumas horas da sua semana para seu encontro amoroso com Deus. No resto do tempo, ele procura apregoar aos quatro ventos a natureza desse vínculo, e, de quebra, ainda dá-se ao desplante de atribuir ao seu cliente qualidades que ele não tem. É um tal de “Deus é amor”, “Deus é maravilhoso”, “Deus é bom”, que dá até pra desconfiar.

De fato, é tudo da boca pra fora. Se o cristão se desse ao trabalho de analisar o que diz, e confrontar com as atitudes do ser para o qual ele supostamente se dirige, ou se tornaria um descrente, como eu, ou se enojaria dessa sua condição de prostituto, vendendo seu amor para um ser tão desprezível.

O que eu tenho notado, nesses meus doze anos de ateísmo, é que qualquer cristão se revolta quando é forçado a encarar as detestáveis qualidades que tem a sua divindade. E não é de admirar. Uma prostituta também deveria se sentir enojada com o seu ofício, se tivesse que fazer sexo com um homem horrível, rude e fedorento. A experiência que adquiri ao longo desse tempo tem me ensinado a lidar com os religiosos — quando o assunto é a religião deles — como se eles tivessem uma capacidade intelectual bem limitada. Quando se trata de religiões não cristãs, a inteligência de católicos, evangélicos, protestantes e a minha são unânimes em classificar as crendices alheias como tolices.

Considerando que o cristão está quase cego pela sua própria fé injustificada e ilusória, eu os forço a enxergar os defeitos ridiculamente humanos do Deus que eles juram que amam acima de tudo e qualquer coisa — Ã-hã —, e com o qual querem viver pela eternidade adentro. Funciona assim: eu apresento uma história hipotética e faço de conta que preciso de uma avaliação deles sobre o personagem principal. E faço de tudo para que não percebam, logo de início, que eles estão diante das “péssimas” qualidades do Deus bíblico.

Segue uma amostra dessa abordagem.

Um homem convive com pessoas bem humildes que moram de graça nas suas terras. São várias famílias que dependem dele pra tudo: só comem, usam e têm o que ele lhes dá para comer, usar e ter. Eles nunca saem da fazenda, mas pode-se dizer que são até bem felizes com a vida que levam lá. O homem não lhes deixa faltar nada. Vestuário, medicamentos, alimentação, entretenimento, instrução; eles têm tudo a seu tempo e em quantidade adequada. 

Aparentemente, trata-se de um cara bem legal e altruísta, mas, por causa dessa situação, o homem se considera “dono” de seus agregados. E tem um comportamento bem estranho para validar essa posse. Ele exige, por exemplo, que eles digam que o adoram, que ele é maravilhoso, que o amam, etc., várias vezes ao dia, mesmo quando ele não está por perto. De vez em quando, também, só para testar se eles são mesmo dignos de viverem sob os seus cuidados, o homem faz um tipo de teste: ele manda um pai espancar seu filho até quase matá-lo, ou ordena que três ou quatro homens se reúnam e torturem um outro, escolhido aleatoriamente. Eles sempre cumprem esse tipo de ordem, tamanha é a vontade de continuar vivendo nas terras do seu Senhor, beneficiando-se da sua caridade e dos seus cuidados. A subserviência dos agregados é tanta que o homem já se acostumou a desvirginar as filhas deles das formas mais humilhantes, sem que se lhe diga uma sílaba sequer em forma de protesto.

Aí eu pergunto: esse homem é digno de louvor ou repúdio?

A resposta que obtenho é, invariavelmente, repúdio. Para o crente de programa, esse tipo de comportamento criminoso só fica bem mesmo em Deus.

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O artifício

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No texto Feto ateu, feto cristão, você leu uma estorinha bem interessante, daquelas bem fofinhas, bem cuti-cuti-cuti mesmo, que os religiosos adoram contar, na qual são feitas as seguintes comparações:

1. o útero materno é, para os fetos, o que o universo é para nós;

2. o parto é, para os fetos, o que a morte é para nós;

3. a nossa vida atual é, para os fetos, o que será o Paraíso para nós, na eterna e agradável companhia de Deus e do Nosso Senhor Jesus Cristo, que a Paz esteja sobre ele (ups! religião errada).

Pois muito bem. Eu propus, naquele texto, que os leitores identificassem a desonestidade intelectual da qual o crente faz uso para achar que esse tipo de tolice pode ser usada para fazer gente como eu entender — isso mesmo, irmãos e irmãs em Cristo — “entender” por que a vida mágica num mundo mágico governado por um ser mágico é assim tão difícil de aceitar como sendo o nosso destino certo.

Na estorinha cuti-cuti-cuti, dois fetos conversam sobre… Ôpa! Para tudo!

Tá. Pra continuar, você, por favor, atenha-se apenas ao argumento principal, ok? Desconsidere tudo o mais, tá bom? Tem problema pra você? Tudo bem? Certo? Beleza, então.

Assim, digamos… os fetos em questão magicamente adquiriram consciência de si mesmos e das coisas ao redor (que também não era lá tanta coisa assim); magicamente adquiriram inteligência e interesse filosófico pelo seu destino fetal; magicamente desenvolveram uma linguagem  comum e, por fim, magicamente encontraram uma forma de se comunicar usando essa linguagem de uma forma, sei lá, telepática.

Como disse, desconsidere esses detalhes e se concentre na raiz do argumento. E a raiz do argumento é a que segue.

Exatamente como os ateus não conseguem entender a lógica da vida após a morte, um daqueles fetos não conseguia conceber uma vida melhor, num lugar maior e repleto de maravilhas após o fim de suas existências intrauterinas. Exatamente como os ateus, um daqueles fetos não conseguia perceber que o seu atual estado era apenas uma preparação para algo maravilhoso que estava por vir, mas que era, então, inacessível ao seu conhecimento e até impossível de ser imaginado. Exatamente como os ateus, um daqueles fetos não conseguia entrar em sintonia com a “Mamãe”, a ponto de ouvir seu coração, ou mesmo o som da sua risada, nos momentos de silêncio e introspecção.

Nós, ateus, somos aquele feto contestador, aquele idiotazinho teimoso que não era capaz de perceber o óbvio: o parto não era o fim.

O problema com essa estória — isso, claro, desconsiderando todos aqueles outros problemas que eu já pedi pra você desconsiderar — o problema com essa estória é que ela não permite que você identifique o motivo daquele idiotazinho teimoso ser tão idiota e tão teimoso. Afinal, tendo a mesma inteligência e a mesma consciência das coisas, num universo do tamanho de um melão, nada a que o seu irmãozinho crente tivesse acesso lhe seria inacessível. E não dá para imaginar a “Mamãe” dos dois se dispondo a fazer contato e revelações a apenas um deles.

Se você achou aquela estorinha dos fetos conversando sobre a vida após o parto uma maneira inteligente de fazer os outros compreenderem a vida após a morte, é só porque você usa o supremo artifício no qual a sua fé se baseia e se sustenta a tantos milênios: a arte de ser desonesto consigo mesmo, a ponto de achar que é possível explicar uma fábula com outra fábula.

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Ridículo, com 4 letras

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Eu sou um empresário. Tenho uma loja de departamentos que ocupa um quarteirão inteiro do meu bairro. De tão grande, a loja parece um labirinto, com suas linhas intermináveis de prateleiras, gôndolas e eletrodomésticos enfileirados, formando corredores longos e perpendiculares entre si.

Eu mandei instalar um sistema de câmeras que cobre toda a área dessa minha loja, e que pode ser acessado pela internet. São 26 câmeras ao todo, mais uma de lente panorâmica, instalada no teto, que me permite ver toda a área como se fosse num mapa. Quando quero tirar um dia de folga, eu posso monitorar tudo de casa mesmo. Se percebo alguma coisa errada, como um cliente sendo deixado sem atendimento, eu ligo para o chefe dos gerentes de departamentos e mando dar uma dura nos vendedores da seção. E, se for preciso, de casa mesmo eu posso acessar o sistema de comunicação e falar o que quiser, que todos lá poderão me ouvir pelos autofalantes. Nunca precisei usar esse recurso. Até ontem.

Veja você: minha filhinha de 7 anos ficou trancada nessa loja imensa, sozinha, e justamente quando começou um grande incêndio lá dentro.

Por sorte, eu estava monitorando as câmeras e vi tudo online. Com os recursos disponíveis, inclusive o de abrir as portas de acesso à rua remotamente pela internet, eu mantive a calma e percebi que poderia guiar minha filha até à saída mais próxima, evitando aquele fogo infernal.

O que eu omiti, até aqui, foi que minha filha é paraplégica, e que a cadeira de rodas que ela estava usando tinha um sistema de motores que poderiam ser acionados remotamente por mim, também via internet, enquanto ela estivesse na loja. Foi um sistema que eu inventei, e que fazia a cadeira de rodas dela virar um brinquedo nas minhas mãos. Sim, eu sou muito inteligente e adoro criar coisas!

Eu poderia, de fato, ter assumido o controle da cadeira de rodas da minha filha em perigo, e tê-la feito deslizar rápida e seguramente para a saída. De onde ela estava, só precisaria seguir em frente, até o fim do corredor, onde havia um extintor de incêndio, dobrar à esquerda e seguir uns dez metros mais, que lá haveria um outro corredor que a levaria a uma porta dando para a rua.

Eu visualizei tão facilmente essa rota porque tinha, pelo menos, três vantagens que a minha filha não tinha: a onisciência bancada pelas minhas câmeras de vigilância; a clarividência de um adulto experiente; e não estar em pânico dentro de uma loja pegando fogo.

O que eu omiti, até aqui, foi que eu comecei a sentir uma enorme curiosidade em ver como a minha filhinha de 7 anos se safaria de uma situação daquelas, sem a ajuda direta de seu papai todo-poderoso. Foi quando me veio essa ideia… Em vez de assumir o comando da cadeira de rodas, eu decidi acionar os autofalantes para transmitir instruções à minha amada filhinha, de modo que ela chegasse até à saída daquela loja em chamas por seu próprio esforço.

O que eu omiti até aqui, também, foi que eu, do nada, bolei um tipo de jogo de vida ou morte pra ela. Eu disse:

“Minha amada filha. Papai está aqui, cuidando de você, como sempre esteve. Papai tudo vê e tudo sabe. Vou te guiar até à salvação. O que você precisa fazer é ouvir minhas instruções e segui-las à risca. Desvie-se delas e você estará condenada. Mas, se você tiver fé em mim, se tiver fé na minha palavra e trilhar o caminho que lhe ditarei, você será salva. E aqui vai a primeira orientação. De onde você está, você vai ter que se deslocar até um determinado ponto; um lugar especial, marcado por um objeto de muito fácil identificação, que tem um uso bem peculiar. Mas eu não vou dar tudo de mão beijada pra você, né, fofa? Vamos combinar uma coisa: eu lanço uma charada e a resposta certa indicará a direção na qual você deve seguir para escapar do fogo. Amém? Então, vamos lá. A primeira dica é: equipamento de proteção coletiva: 8 letras!

Pois foi. Ela conseguiu acertar essa e as outras respostas até chegar à saída. Não se queimou nem um tiquinho, embora tenha inalado muita fumaça. Eu me senti muito orgulhoso da minha filhota.

Espero que você não faça mau juízo de mim, só porque eu não tomei a atitude mais sensata e eficiente, que seria guiar eu mesmo a cadeira de rodas, e salvar sem demora minha filha indefesa em perigo. Acho que isso meio que interferiria no livre-arbítrio da criança, entende? Espero mesmo que você não me considere um canalha por não ter dado a ela as instruções de fuga de uma forma mais direta, sem esse joguinho de adivinhação. E espero, também, que você não me deteste por isso que eu fiz, porque eu não suporto rejeição. Na verdade, eu quero que você se convença e convença a todos a quem contar essa história de que eu sou um pai maravilhoso e bom, digno de honra e adoração.

Ah! E o mais importante que eu omiti, até aqui, foi que eu mesmo tranquei a minha filha lá dentro da loja. E fui eu que provoquei o incêndio… Estranho isso, né? Eu sei… É que eu tava meio sem ter o que fazer, sabe?… Então isso me veio à cabeça. Esse jogo mortal, essa gincana macabra, essa brincadeira imbecil. Mas acredite em mim quando digo que amo minha filha. Muito. Morreria por ela, se fosse preciso. 

Crucificado, de preferência. 

  

Minha linda coroa de brilhantes (3)

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Se você pegasse um daqueles fiéis que concordaram com a visão do Valdemiro Santiago, a de que Deus tem uma coroa de brilhantes para dar de prêmio, depois da morte, aos que fizerem as suas vontades divinas, e o levasse a considerar essa interpretação mais detidamente, até que ele se visse obrigado a finalmente escolher entre uma dessas duas opções:

a) o cristão só faz  as vontades de Deus visando a uma recompensa celeste;

b) Deus acha que os cristãos só farão as suas vontades se forem recompensados;

certamente aquele fiel iria argumentar que a “coroa de brilhantes” é apenas uma metáfora, e que o Valdemiro estava só “enfeitando” mais essa metáfora, quando dizia que Deus mandava um anjo colocar mais uma pedra de brilhante na coroa, sempre que o crente fazia uma boa ação.

Duas coisas com relação a isso.

Uma. O tal do crente só viria a descartar aquela interpretação do Valdemiro depois de tê-la avaliado melhor; até então, a visão de Deus acenando dos Céus com uma coroa de brilhantes nas mãos, para um Paulo prestes a ser executado, parecia completamente aceitável…

A outra. A metáfora da coroa faz sentido apenas se você considerar que ela era um tipo de pagamento, afinal, o que Paulo estaria querendo dizer quando escreveu que a sua coroa da justiça já estava guardada? A “coroa”, mesmo não sendo literalmente uma coroa, seria um prêmio, com certeza; de outro modo a frase não faria sentido algum.

E isso nos levaria de volta às opções “a” e “b” acima. Um beco sem saída, na verdade, que faz dos cristãos um bando de prostitutas (com o devido respeito às prostitutas).

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Minha linda coroa de brilhantes

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“Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.”

Essa conhecida frase de Saulo de Tarso, o “apóstolo” Paulo, na sua segunda carta a Timóteo, foi tema de uma pregação do pastor Valdemiro Santiago, da “Igreja Mundial do Poder de Deus — a mão de Deus está aqui!”, nesse domingo.

A frase serviu de tema, mas o foco do culto foi bem outro: as recompensas que Deus tem pra você, mas que você só terá acesso depois de morto. Segundo o apóstolo Valdemiro, Deus deve ter ido visitar Paulo na sua cela, na noite anterior à sua execução, para lhe mostrar algo verdadeiramente divino: “uma coroa repleta de brilhantes como nenhum rei da Terra jamais usou”. E Deus, certamente, deve ter questionado Paulo:

 – Você já viu uma dessas, meu filho? — E Paulo:

 – Não, Deus, nunca. — E Deus:

 – Pois essa é sua!

Eu acho que mesmo estando a menos de 24 horas de pisar no cadafalso, Paulo deve ter se mijado de alegria. Eu tiro por mim, porque, se eu estivesse prestes a ser decaptado e alguém viesse me dizer que eu iria ganhar uma coroa de brilhantes, eu não ia saber o que fazer com tanta felicidade.

O pastor Valdemiro estava, então, interpretando, essa “passagem” da Bíblia (2Tim, 4:8):

    Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda.”

Esqueçamos o fato de que “justiça”, aqui, é entendida apenas como a alegre expectativa pela volta de um ser superior a essa dimensão. Concentremos nossa atenção em dois pontos apenas:

1. que o Valdemiro entendeu que a coroa mencionada por Paulo, na carta que escreveu ao seu filho, era um presente de Deus, uma recompensa, em forma de coroa mesmo, como as usadas por reis aqui na Terra;

2. que os milhares de pessoas presentes concordaram com essa interpretação e ficaram satisfeitíssimos com ela.

Valdemiro chegou mesmo a dizer — ele, que entende mais do que ninguém dessas coisas celestes — que quando um crente faz uma boa ação, como dar uma esmola, Deus imediatamente manda um anjo colocar mais uma pedrinha de brilhante na coroa do dito cujo. E, nesse ponto, as câmeras mostraram várias e várias pessoas sorrindo na plateia… Na certa pensando “Ah! eu vou fazer um monte de boas ações pra que a minha coroa venha repleta de pedras de brilhante…”.

Já imaginou a cena? O céu repleto de pessoas/almas/corpos glorificados usando coroas de brilhantes que darão a ideia de quão boas elas foram em vida? Mas será que você acha que vai precisar usar essa coroa o tempo todo “lá em cima”, por toda a eternidade? Se você é devoto do Valdemiro Santiago, sua resposta terá que ser “sim”.

Talvez no Paraíso não exista gravidade. Nem senso de ridículo.

CONTINUA

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Deuses de mármore (parte 2)

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Um leitor do blog vez e outra costumava escrever nos comentários dos meus textos:

    Desse Deus em que você acredita, eu também sou ateu.”

Isso como forma de rebater os argumentos em que eu descrevia as incongruências entre o Deus-Papai Noel com o qual os cristãos viciam seus filhos, e o Deus esquizofrênico presente em toda a Bíblia. Para esse meu leitor, aquele Deus a que eu me referia nos posts do blog simplesmente não existia; daí ele se considerar, também, um ateu. Só que todos os meus textos sobre Deus são baseados na Bíblia, que é a única “fonte” original sobre ele. Para acreditar num Deus de amor, justo e bonzinho, o cristão precisa fazer, com o seu livro sagrado, o mesmo que o escultor faz com um bloco de mármore: retirar tudo o que não serve para compor a estátua que ele já imagina estar dentro da pedra. É um processo bastante ineficiente, nesse caso, porque, mantendo a comparação, os pedaços da Bíblia que ele jogou fora para moldar o seu Deus continuam sempre lá.

Eu moro a menos de 500 metros de uma boca de culto de Testemunhas de Jeová. Como se sabe, uma vez por semana eles saem batendo de porta em porta para entregar revistas, panfletos, e falar do amor que uma certa criatura que se esconde numa dimensão mágica tem por você. O engraçado é que, quando o meu pai vai atendê-los, eles costumam demorar uns dez, quinze minutos conversando. Quando sou eu, a conversa não se estende além de uns dois minutos.

– Deus me ama? E se, por acaso, eu não resolver amá-lo de volta ele vai me jogar no Inferno?

– Olha, Deus amou tanto o mundo que enviou seu filho unigênito para que todo aquele que nele crer tenha a vida eterna.

– E Deus amou tanto o mundo a ponto de afogar as pessoas num dilúvio.

Quando a conversa é com meu pai, suponho, eles se detêm falando de amenidades, quando o Deus-Bipolar estava de bom humor, talvez. Quando é comigo, eu descaradamente faço com que eles contemplem os pedaços da Bíblia que não fazem parte do Deus que eles esculpiram pra si mesmos.

CONTINUA…

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Deuses de mármore

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Diz-se que, quando perguntado como era capaz de esculpir estátuas tão perfeitas, Michelângelo costumava responder:

   Ela já estava lá, dentro do bloco de mármore; eu só retirei os excessos.”

Embora fosse um meio de expressar sua indevida modéstia, não se pode dizer que o famoso escultor estivesse errado: todo o seu trabalho se resumiu a retirar pedaços da pedra que não estavam destinados a fazer parte de sua obra. O material que compõe a estátua pronta, como ele bem observou, sempre esteve lá, escondido por trás dos “excessos” de pedra a que ele se referia.

Outro dia me dei conta de que a Bíblia sagrada dos cristãos é, também, um bloco de mármore, a partir do qual cada crente esculpe o seu próprio deus, de acordo com suas preferências pessoais, assim como um escultor tira de uma pedra bruta a figura que bem  quer. Não admira haver tantas denominações religiosas, tantas interpretações diferentes para um mesmo livro sagrado, tantas regras diferentes que, se descumpridas, conduzirão a diferentes infernos…

Dizer que o Deus cristão é único é uma das maiores mentiras do cristianismo, se não a maior, a começar pelo seu próprio dogma da Santíssima Trindade, que obriga o religioso a se entender com dois deuses ao mesmo tempo — Jesus e o Pai dele — , porque o Espírito Santo, a bem da verdade, nem fede nem cheira.

- Parte 2

- Parte 3

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