Por que Deus é uma ilusão?

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Por que o Deus cristão é impossível

Autor: Chad Docterman

Tradução: André Díspore Cancian

[Ortografia original. Fonte: ateus.net]

Introdução

Os cristãos consideram que a existência de seu Deus é uma verdade óbvia. Esta assunção é falsa, não apenas porque falta qualquer evidência para a existência deste Deus – que, apesar de onipresente, é invisível –, mas porque a própria natureza que os cristãos atribuem a este Deus é autocontraditória.

Provando uma negativa universal

Muitos cristãos, assim como muitos ateus, alegam que é impossível provar uma negativa universal. Por exemplo, apesar de não haver evidências de que unicórnios ou dragões existem, não podemos provar sua inexistência. A não ser que tenhamos um conhecimento completo do Universo, precisamos a admitir a possibilidade de que, em algum lugar do Universo, talvez existam tais seres.

Mas a alegação de que a onisciência é necessária para provar uma negativa universal presume que o conceito que estamos discutindo é logicamente coerente. Se os atributos que conferimos a um objeto ou ser hipotéticos são autocontraditórios, então podemos concluir que este não pode existir e, portanto, não existe.

Não é necessário todo o conhecimento do universo para provar que esferas cúbicas não existem. Tais objetos têm atributos mutuamente exclusivos que tornam sua existência impossível. Um cubo, por definição, tem oito vértices, enquanto a esfera não tem nenhum. Tais propriedades são completamente incompatíveis – não podem estar contidas simultaneamente no mesmo objeto.  Pretendo demonstrar que as supostas propriedades do Deus cristão Iavé, assim como as de uma esfera cúbica, são incompatíveis, e, ao fazê-lo, demonstrar que a existência de Iavé é impossível.

Definindo Iavé

Os cristãos dotaram seu Deus de todos os seguintes atributos: ele é eterno, todo-poderoso e criou todas as coisas; criou todas as leis da natureza e pode mudar qualquer coisa por meio de um ato de sua vontade; é todo-bondade, todo-amor e perfeitamente justo; é um Deus pessoal que experimenta todas as emoções de um ser humano; é todo-sabedoria; vê todo o passado e todo o futuro.

A criação de Deus era originalmente perfeita, mas, os humanos, ao desobedecê-lo, trouxeram a imperfeição ao mundo. Humanos são maus e pecadores, e precisam sofrer neste mundo devido à sua pecaminosidade. Deus dá aos humanos a oportunidade de aceitar o perdão de seu pecado, e todos que o fizerem serão recompensados com a bem-aventurança no céu, mas, enquanto estiverem na Terra, devem sofrer por sua causa. Todos os humanos que decidirem não aceitar este perdão serão enviados ao inferno para sofrer o tormento eterno.

Tais atributos de Deus são relatados pela Bíblia, que os cristãos acreditam ser a palavra perfeita e verdadeira de Deus. Um verso que muitos cristãos gostam de citar diz que ateus são tolos (Cf. Salmos 14:1). Pretendo demonstrar que os conceitos divinos mencionados acima são completamente incompatíveis, e revelar a impossibilidade de todos eles co-existirem simultaneamente no mesmo ser. Não há qualquer tolice em negar o impossível; tolice é adorar um Deus impossível.

A perfeição busca ainda mais perfeição

O que Deus fez durante aquela eternidade anterior à criação de todas as coisas? Se Deus era tudo que existia naquele tempo, o que perturbou o equilíbrio eterno e o induziu à criação? Estava entediado? Etava solitário? Deus supostamente é perfeito. Se algo é perfeito, este algo é completo – não precisa de qualquer outra coisa. Nós, humanos, nos engajamos em atividades porque estamos buscando uma perfeição elusiva, pois há um desequilíbrio causado pela diferença entre o que somos e o que queremos ser. Se Deus é perfeito, então não pode haver desequilíbrio. Não há qualquer coisa de que ele necessite, qualquer coisa que deseje ou qualquer coisa que deva ou irá fazer. Um Deus que é perfeito não faz qualquer coisa senão existir. Um criador perfeito é impossível.

A perfeição gera imperfeição

Entretanto, por mero exercício intelectual, continuemos. Suponhamos que este Deus perfeito tenha realmente criado o Universo. Os humanos foram a coroa de sua criação, visto que foram criados à sua imagem e têm a habilidade da tomar decisões. Entretanto, esses humanos destruíram a perfeição original escolhendo desobedecer a Deus.  Como!? Se algo é perfeito, nada imperfeito pode vir dele. Uma vez alguém disse que um mau fruto não pode vir de uma boa árvore; entretanto, este Deus “perfeito” criou um Universo “perfeito” que foi tornado imperfeito pelos humanos “perfeitos”.  A fonte última da imperfeição é Deus. O que é perfeito não pode fazer-se imperfeito, assim, os humanos devem ter sido criados imperfeitos. Tudo que é perfeito não pode criar coisas imperfeitas, então Deus deve ser imperfeito para ter criado seres humanos imperfeitos. Um Deus perfeito que cria seres humanos imperfeitos é impossível.

O argumento do livre-arbítrio

A objeção dos cristãos a este argumento envolve o livre-arbítrio. Eles dizem que um ser precisa possuir livre-arbítrio para ser feliz. O Deus todo-bondade não queria criar robôs, então deu aos humanos o livre-arbítrio para possibilitar a eles experimentar o amor e a felicidade. Mas os humanos usaram este livre-arbítrio para escolher o mal, e introduziram a imperfeição ao Universo originalmente perfeito de Deus. Deus não tinha controle sobre esta decisão, assim a culpa por nosso Universo imperfeito é dos humanos, não de Deus.

Há vários motivos pelos quais este argumento é fraco. Em primeiro lugar, se Deus é onipotente, então a assunção de que o livre-arbítrio é necessário para a felicidade é falsa. Se Deus pôde fazer a regra de que apenas seres com livre-arbítrio poderiam experimentar a felicidade, então poderia, tão facilmente quanto, ter feito a regra de que apenas robôs poderiam experimentar a felicidade. A última opção é claramente superior, visto que robôs perfeitos nunca poderiam tomar decisões que tornassem eles ou seu criador infelizes, enquanto seres com livre-arbítrio poderiam. Um Deus perfeito e onipotente que cria seres capazes de arruinar sua própria felicidade é impossível.

Em segundo lugar, mesmo se admitirmos a necessidade do livre-arbítrio para a felicidade, Deus poderia ter criado humanos com livre-arbítrio que não tivessem a habilidade de escolher o mal, mas apenas entre várias opções boas.

Em terceiro lugar, Deus supostamente possui livre-arbítrio, e mesmo assim ele não toma decisões imperfeitas. Se humanos são imagens miniaturizadas de Deus, nossas decisões deveriam ser similarmente perfeitas. Ademais, os ocupantes do céu, que presumivelmente precisam possuir livre-arbítrio para serem felizes, nunca usarão este livre-arbítrio para tomar decisões imperfeitas. Por que os humanos originalmente perfeitos fariam diferente?

O problema continua: a presença de imperfeição no Universo refuta a suposta perfeição de seu criador.

O Deus todo-bondade cria sofrimento futuro premeditado

Deus é onisciente. Quando criou o Universo, viu os sofrimentos que humanos suportariam como resultado do pecado daqueles humanos originais. Ele ouviu os gritos dos condenados. Certamente ele sabia que seria melhor para esses seres humanos que nunca tivessem nascido – e a Bíblia, de fato, diz exatamente isso –, e certamente esta divindade toda-compaixão teria antevisto a criação de um Universo destinado à perfeição no qual muitos dos humanos estavam condenados ao sofrimento eterno. Um Deus perfeitamente compassivo que deliberadamente cria seres condenados ao sofrimento é impossível.

Punição infinita por pecados finitos

Deus é perfeitamente justo, e ainda assim sentencia os imperfeitos humanos que criou ao sofrimento infinito no inferno por pecados finitos. Claramente, uma ofensa limitada não justifica uma punição ilimitada. A sentenciação divina dos seres humanos imperfeitos a uma eternidade no inferno por um pecado com a duração de uma mera vida mortal é infinitamente injusta. O caráter absurdo desta punição infinita mostra-se ainda maior quando consideramos que a fonte última da imperfeição humana é o Deus que os criou. Um Deus perfeitamente justo que sentencia sua criação imperfeita à punição infinita por pecados finitos é impossível.

Crença mais importante que ação

Consideremos todas as pessoas que vivem em regiões remotas do mundo e que jamais ouviram o “evangelho” de Jesus Cristo. Consideremos as pessoas que aderiram naturalmente à religião de seus pais e nação – como foram ensinados a fazer desde seu nascimento. Se acreditarmos no que os cristãos dizem, todas essas pessoas irão perecer no fogo eterno por não acreditarem em Jesus. Não importa quão justos, bondosos e generosos eles foram com seus semelhantes durante sua vida: se não aceitarem o evangelho de Jesus, estão condenados. Nenhum Deus justo jamais julgaria um homem por suas crenças em vez de suas ações.

Revelação imperfeita da perfeição

A Bíblia supostamente é a palavra perfeita de Deus. Ela contém instruções para que a humanidade evite as eternas chamas do inferno. Quão maravilhoso e bondoso da parte deste Deus é proporcionar a nós meios de superar os problemas pelos quais ele, em última instância, é responsável! O Deus todo-poderoso poderia, por um simples ato de sua vontade, eliminar todos os problemas que nós, humanos, precisamos enfrentar; mas, em vez disso, com sua sabedoria infinita, ele optou por oferecer este indecifrável amálgama de livros denominado Bíblia como meio para evitaremos o inferno que ele preparou para nós. O Deus perfeito decidiu revelar sua vontade através desta obra imperfeita, escrita na linguagem imperfeita dos humanos imperfeitos, traduzida, copiada, interpretada e narrada por homens imperfeitos. Dois homens nunca irão concordar sobre o que a palavra de Deus realmente significa, visto que grande parte dela é autocontraditória ou obscurecida por enigmas. E ainda assim o Deus perfeito espera que nós, imperfeitos humanos, entendamos este enigma paradoxal utilizando as mentes imperfeitas com as quais ele nos equipou. Certamente o Deus todo-sabedoria e todo-poderoso sabia que teria sido melhor revelar sua vontade perfeita diretamente a cada um de nós em vez de permitir ela fosse distorcida e pervertida pela imperfeita linguagem e pelas ruinosas interpretações do homem.

Justiça contraditória

Não se precisa olhar em qualquer lugar senão própria na Bíblia para descobrir suas imperfeições, pois ela se contradiz, e assim expõe sua própria imperfeição. Ela se contradiz em questões de justiça, pois o mesmo Deus que assegura seu povo de que os filhos não serão punidos pelos pecados de seus pais acaba por destruir uma família inteira pelo pecado de um homem (ele havia roubado um pouco do saqueio de guerra de Iavé). Foi o mesmo Iavé que afligiu milhares de inocentes com praga e morte para punir o maldoso rei Davi por tomar um censo. Foi o mesmo Iavé que permitiu que humanos matassem seu filho porque o perfeito Iavé tinha fracassado em sua própria criação. Consideremos quantos foram apedrejados, queimados, assassinados, estuprados e escravizados devido ao distorcido senso de justiça de Iavé. O sangue de bebês inocentes está nas mãos perfeitas, justas e compassivas de Iavé.

História contraditória

A Bíblia contradiz-se em questões históricas. Uma pessoa que lê e compara os conteúdos da Bíblia ficará confuso sobre quem eram exatamente as esposas de Esaú, se Timná era uma concubina ou um filho e se a linhagem terrena de Jesus vem de Salomão ou de seu irmão Natã. Há centenas de contradições históricas documentadas. Se a Bíblia não pode confirmar a si própria em questões mundanas, como poderemos confiá-la em questões morais e espirituais?

Profecias falhadas

A Bíblia interpreta mal suas próprias profecias. Compare-se Isaías 7 com Mateus 1 para se encontrar apenas uma das muitas profecias mal interpretadas das quais os cristãos são passivamente ou deliberadamente ignorantes. O sinal dado por Isaías ao rei Ahaz visava assegurá-lo de que seus inimigos, Rei Rezim e Rei Remalia, seriam derrotados. Essa profecia foi cumprida exatamente no capítulo seguinte. Ainda assim, Mateus 1 não apenas interpreta erradamente a palavra “donzela” como “virgem”, mas também alega que esta profecia já cumprida na realidade cumpriu-se com o nascimento virginal de Jesus!

O cumprimento de profecias na Bíblia é citado como prova de sua inspiração divina, entretanto, aqui está um bom exemplo de uma profecia cujo significado original foi e continua sendo distorcido para sustentar doutrinas absurdas e falsas. Não há limites para o que um indivíduo crédulo fará para sustentar suas crenças febris quando confrontado com evidências contundentes.

A Bíblia é imperfeita. Apenas uma imperfeição é necessária para destruir a suposta perfeição da palavra de Deus. Muitas foram encontradas. Um Deus perfeito que revela sua vontade perfeita através de um livro imperfeito é impossível.

O onisciente altera o futuro

Um Deus que conhece o futuro é impotente para mudá-lo. Um Deus onisciente que é todo-poderoso e dotado de livre-arbítrio é impossível.

O onisciente é surpreendido

Um Deus que sabe tudo não pode ter emoções. A Bíblia diz que Deus experimenta todas as emoções humanas, incluindo ódio, tristeza e felicidade. Nós, humanos, experimentamos emoções como resultado de um novo conhecimento. Um homem que desconhece a infidelidade de sua esposa irá experimentar as emoções de ódio e tristeza apenas após descobrir o que anteriormente, para ele, estava oculto. Em contraste, o Deus onisciente não é ignorante em relação a qualquer coisa. Nada é oculto para ele, nada novo pode lhe ser revelado – assim não há como adquirir um conhecimento ao qual possa reagir emocionalmente.

Nós, humanos, experimentamos ódio e frustração quando algo está errado e somos impotentes para consertá-lo. O Deus perfeito e onipotente pode, entretanto, consertar qualquer coisa. Humanos sentem desejo daquilo que lhes falta. Para o Deus perfeito nada falta. Um Deus onisciente, onipotente e perfeito que experimenta emoções é impossível.

Conclusão

Ofereci argumentos para a impossibilidade – e, portanto, para a inexistência – do Deus cristão Iavé. Nenhum indivíduo racional e livre-pensador pode aceitar a existência de um ser cuja natureza é tão contraditória quanto a de Iavé, o “perfeito” criador de nosso imperfeito Universo. A existência de Iavé é tão impossível quanto a existência de esferas cúbicas ou unicórnios róseos invisíveis. Apesar de que crentes podem encontrar conforto em serem fiéis a impossibilidades, não há maior satisfação que a de possuir uma mente lúcida. Eles podem escolher servir um Deus impossível. Eu escolho a realidade.

O ateu e o agnóstico (Parte 2)

T. H. Huxley

T. H. Huxley

Foi o biólogo inglês Thomas Henry Huxley que, em 1869, nos seus Collected Essays (Ensaios Reunidos), usou pela primeira vez a palavra “agnóstico”, forjada do adjetivo grego ágnostos (ignorante). Huxley pretendia que ela definisse aquele que estava no extremo oposto em relação aos que apregoavam um conhecimento acerca da existência de Deus. Se o crente tinha esse conhecimento e ele não, isso certamente fazia dele um ignorante, ou seja — um agnóstico.

Ao longo do tempo, o vocábulo foi ficando cada vez mais famoso e encorpado, a ponto de perder a simplicidade e ironia da sua definição original. Se você conseguiu inferir o significado de agnóstico só lendo o parágrafo acima, não se espante ao perceber que deixou de entendê-lo depois de procurar por uma definição mais aprofundada.

Acredito que a explicação que o próprio Huxley deu sobre o termo, em 1889, complicou mais do que pôde esclarecer. E é essa explicação, citada no tópico A pobreza do agnosticismo, que, talvez, tenha levado Dawkins a discorrer sobre a ideia presente em Deus, um delírio de que o agnóstico é alguém que está em cima do muro. Uma pessoa que, não vendo nenhum motivo válido para acreditar em Deus, também não se sente capaz de usar sua razão para concluir que não existe Deus algum, recusando-se, assim, a declarar-se religioso ou ateu, respectivamente.

Talvez seja esse o entendimento que as pessoas têm hoje do que seja um agnóstico, razão pela qual aqueles que assim se definem têm de lidar com a pecha de “indeciso”, ou mesmo a de “covarde”, intelectualmente falando. Aparentemente, a sociedade parece assumir que, enquanto o ateu é aquele que compra briga e defende “seus ideais” com unhas e dentes — arcando com as consequências de manifestar tal posição numa sociedade sabidamente contrária a ela — , o agnóstico seria aquele que, não vendo motivos para defender nem o “sim” nem o “não”, prefere viver no conforto de sua indiferença.

Thomas Huxley estava apenas sendo tremendamente irônico quando considerou que seus contemporâneos possuíam o conhecimento da existência de Deus. Não havia, nem há, tal conhecimento. Se houvesse, ele poderia ser facilmente compartilhado, e a crença não teria razão de ser. O religioso também é um ignorante. Um agnóstico que usa do subterfúgio de preencher sua falta de conhecimento com fé.

O ateu é tão somente o agnóstico que se recusou a fazer isso.

 

O ateu e o agnóstico (Parte 1)

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Pergunte a um padre da igreja Católica, ou a um obreiro da Universal, ou a uma testemunha de Jeová que apareça no seu portão se eles sabem a definição da palavra “ateu”. Eu quero que a alma da minha mãe vá tostar no Inferno se não souberem!

  Ateu é aquele que não acredita em Deus.

E ainda arrisco dizer que alguns estarão aptos a dar uma aula de etimologia:

  “Ateu” vem do latim atheus.

   Esse a significa negação, ou ausência.

   E theus significa Deus.

O ateu seria, portanto, uma pessoa que nega Deus; uma pessoa sem Deus, certo?

Errado.

A palavra latina atheus deriva da palavra grega átheos, e os gregos que a conceberam não faziam a menor ideia de quem era Deus, pelo simples fato de que Deus não compunha o seu panteão de deuses. Theos, em grego antigo, significava “divindades”. 

As primeiras civilizações sempre tinham várias divindades às quais se atribuía o controle de diferentes coisas no mundo. Havia um deus responsável pelas boas colheitas, outro pelas pestes, outro pelo clima, e assim por diante. Pela época em que os gregos chamavam os seus descrentes de ateus, Deus atendia por outro nome e ainda fazia parte de um grupo de divindades cultuadas pela sociedade hebraica politeísta de então. Durante os longos períodos de escravidão, o subjugado povo hebreu passou a venerar mais especificamente o único deus ao qual poderia dirigir suas preces, o único que lhe poderia ser útil numa batalha pela libertação e na luta pela conquista de um novo território: seu deus da guerra, Jeová. Não é à toa que a Bíblia descreve Deus como sendo tão propenso a matar pessoas, tão irascível e tão belicoso. Ele era, de fato, o senhor dos exércitos, e sua função era exterminar os inimigos de seus devotos. Mas foi por uma combinação de acaso e força política que Jeová acabou se tornando o único deus digno de culto, quando seus mais fervorosos crentes assumiram definitivamente o poder e, por força de lei, transformaram os hebreus num povo monoteísta.

Também na Grécia antiga cultuavam-se inúmeros deuses. Zeus era o mais poderoso, o senhor de todos eles; Crono, pai de Zeus, era o deus do tempo; Afrodite, a deusa do amor; Hades, o deus do mundo dos mortos; Ares, o correspondente grego de Jeová, era o deus da guerra; e muitos muitos outros. Na civilização onde a palavra foi criada, ateu seria aquela pessoa que não venerava nenhum desses deuses. Se um cristão, um hindu, um judeu e um muçulmano fossem transportados no tempo para aquela época e lugar, todos eles seriam considerados ateus, porque certamente não iriam se dispor a adorar nenhum dos deuses gregos de então.

Resgatando a definição original, ateu seria aquele que não crê em nenhuma das divindades cultuadas pela sociedade na qual está inserido, visto que os gregos que cunharam o termo estavam considerando apenas os seus próprios deuses. Assim, um judeu seria ateu numa sociedade hindu; um hindu seria ateu numa sociedade islâmica; um muçulmano, numa sociedade cristã; e um cristão, numa sociedade judaica, porque, esperneiem o quanto quiserem, Alá, o Deus cristão e o Deus judaico não são a mesma divindade, apesar da origem comum. Dizer o contrário só seria possível se você conseguisse imaginar um mundo onde sua mãe pariu você, e, ao mesmo tempo, ela não pariu você. Diferentemente do Deus cristão, o Deus judaico nunca estuprou uma virgem para ter um filho mortal. E mesmo o Alcorão, segundo Christopher Hitchens, traz duas suras que advertem ao muçulmano que ele irá para o Inferno se considerar que Jesus é filho de Alá.

Esclarecido o significado original da palavra ateu, fica fácil perceber que ela atualmente foi sobrescrita em duas novas e diferentes acepções. Por um lado, para os ateus, ela ficou mais abrangente e passou a englobar a descrença em todos os deuses de todas as civilizações e de todas as épocas. Já a definição de ateu como sendo “aquele que não crê em Deus” só seria válida em sociedades com o mesmo tipo de fé religiosa que a nossa. Entretanto, a onipresente força de marketing das religiões cristãs ao redor do mundo, de acordo com seus interesses e sua peculiar desonestidade, sequestrou o termo para uso exclusivo, de forma a fazer parecer que a palavra se refere tão somente ao Deus bíblico, como se ele fosse a única divindade em que as pessoas poderiam acreditar.

Ou não.

Nós todos casamos com a pessoa errada

Sobre outro tipo de desILUSÃO: minha tradução de “We all married the wrong person“.

Casais em crise frequentemente atingem o ponto em que se convencem de que não foram feitos um pro outro. Isso precede a decisão de terminar a relação e sair em busca da “pessoa certa”. Infelizmente, as chances de um casamento bem-sucedido diminuem a cada nova tentativa. Psiquiatra e autor de The Secrets of Happily Married Men [Os segredos dos homens bem casados], The Secrets of Happily Married Women [Os segredos das mulheres bem casadas], e The Secrets of Happy Families [Os segredos das famílias felizes], o doutor Scott Haltzman diz que aqueles casais estão corretos; nós todos casamos com a pessoa errada. Eu achei seus comentários em entrevistas na tevê tão intrigantes que pedi para entrevistá-lo e me aprofundar no assunto.

O doutor Haltzman diz que, mesmo que achemos que conhecemos bem uma pessoa quando casamos com ela, nós somos temporariamente cegos pelo nosso amor, o que tende a minimizar ou ignorar atributos que podem tornar a relação complicada ou completamente difícil. Adicionalmente, ambos os indivíduos trazem diferentes expectativas em relação ao casamento, e nós mudamos tanto individualmente quanto como casal ao longo do tempo. Ninguém tem uma garantia de que se casou com a pessoa certa, diz Dr. Haltzman, portanto você tem que assumir que casou com a pessoa errada. Isso não significa necessariamente que seu casamento não possa ser bem-sucedido.

“A maioria de nós perde um tempo enorme escolhendo através de possíveis parceiros na esperança de terminarmos com a pessoa certa. Algumas pessoas acreditam que isso é uma procura pela alma gêmea… o único e verdadeiro amor. Se você entra ou não num casamento acreditando que o seu par é A pessoa certa, você certamente acredita que ele ou ela é UMA pessoa certa para você”, diz Dr. Haltzman.

Ele explica que se o sucesso de um casamento fosse baseado em fazer a escolha certa, então aqueles que cuidadosamente escolhem um bom par continuariam sustentando sentimentos positivos na maior parte do tempo, e por um longo período. A teoria de que escolher bem leva ao sucesso estaria comprovada. “Mas as taxas de divórcio em si e por si mesmas dão um grande testemunho da falácia dessa teoria”, diz Dr. Haltzman. Mesmo os casais que permanecem casados não se descrevem completamente felizes um com o outro, ele acrescenta, mas, sim, bem comprometidos um com o outro.

“Se acreditamos que temos que encontrar a pessoa certa para casar, então o desenrolar do nosso casamento se torna um constante teste para ver se fomos corretos naquela escolha”, diz Dr. Haltzman, acrescentando que a cultura moderna não apoia manter promessas. Em vez disso, ele diz que nós recebemos a repetida mensagem, “Você merece o melhor”. Segundo ele, essas atitudes contribuem para a insatisfação conjugal.

Dr. Haltzman compartilhou algumas pesquisas comigo sobre os efeitos negativos na nossa sociedade de consumo, em que sempre se tem uma grande quantidade de opções — o que pode levar ao aumento de expectativas e baixa satisfação. Um livro chamado The Choice Paradox [O paradoxo da escolha], de Barry Schwartz, apresenta pesquisas que vão de encontro ao senso comum. (Farei outro post* sobre isso em breve, porque esse assunto dá muito pano pra manga.) Eu vou direto ao ponto e revelo que as pessoas são mais felizes com as escolhas que fazem quando existe pouca coisa para escolher. Com muitas opções, nós podemos ficar sobrecarregados e arrependidos, e constantemente questionando nossas decisões. Hoje, as pessoas sentem que têm muitas opções de parceiros e temem perder oportunidades com parceiros “certos” em potencial. Isso pode acontecer mesmo após a pessoa já ter se casado, quando começa a questionar a toda hora a decisão que tomou.

“Minha filosofia básica é a de que, quando escolhemos um par, temos que começar com a premissa de que não estamos escolhendo baseado em todo o conhecimento e informação sobre ele ou ela”, diz Dr. Haltzman. “Contudo, fora dos extremos cenários de violência doméstica, drogas, infidelidade — que são de longe bons argumentos para se admitir que se casou com a pessoa errada, e onde é inseguro ou insalubre continuar casado — nós precisamos dizer, “Essa é a pessoa que eu escolhi, e eu preciso encontrar um jeito de desenvolver um senso de proximidade com ela pelo que ela é, e não pelo que eu fantasiei que seria”.

Esse jeito de trabalhar a relação pode levar a uma experiência a dois mais profunda e significativa. Dr. Haltzman dá as seguintes dicas para nos ajudar a reconectar ou melhorar nossos laços:

- Respeite o seu par por suas qualidades positivas, mesmo quando ele tenha algumas importantes qualidades negativas.

- Seja a pessoa certa, em vez de ficar procurando pela pessoa certa.

- Seja uma pessoa amável, em vez de ficar esperando para ser amada.

- Seja atencioso, em vez de esperar receber atenção.

Para frisar os últimos pontos, Dr. Haltzman diz que muitas pessoas que se esforçaram para manter uma relação acabam dizendo, “Eu fiz o bastante”. Mas muito poucos de nós dizem isso de nossas próprias crianças. “Em vez disso, nós dizemos que, apesar de suas imperfeições, não iríamos querer outras no lugar delas; e, contudo, nossos filhos podem ser muito mais insuportáveis do que nossos companheiros.”

Finalmente, ele adverte, “Tenha a atitude de que essa é a pessoa com a qual você vai passar o resto da sua vida, então você precisa encontrar um jeito de fazer isso dar certo, em vez de viver procurando por uma rota de fuga”.

*O “outro” post Aqui .


Eis o mistério da Fé

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Estudo revela ingrediente secreto na religião que torna as pessoas mais felizes

Por Josh Rhoten

Link para o texto original

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Um artigo publicado no começo do mês, na American Sociological Review, confirma aquilo que muitos na comunidade religiosa já sabiam faz tempo: a participação em organizações religiosas pode levar a uma vida mais realizada.

Os cristãos ativos (aqueles que vão regularmente à igreja) reportam que estão mais satisfeitos com suas vidas do que aqueles que não vão à igreja com tanta frequência.

Este senso de satisfação vem mais das interações que os frequentadores de igreja compartilham, do que das atividades e discussões teológicas que ocorrem nas igrejas de fato, diz o estudo.

O artigo, intitulado Religião, Rede Social e Vida Realizada, usou dados de uma pesquisa com americanos adultos, feita em 2006 e 2007, como parte do Estudo ‘A Fé Conta’. Essa pesquisa traçou a relação entre religião e capital social nos Estados Unidos.

“Nosso estudo oferece evidências convincentes de que são os aspectos sociais da religião, em vez de teologia ou espiritualidade, que levam a uma vida realizada”, diz Chaeyoon Lim, que conduziu os estudos e é professor assistente de sociologia na Universidade de Wisconsin-Madison.

“Em particular, descobrimos que amizades feitas em congregações religiosas são o ingrediente secreto da religião que torna as pessoas mais felizes.”

De acordo com o estudo, 33% das pessoas que iam semanalmente à igreja, e que tinham de três a cinco amigos íntimos naquela congregação, reportaram que estavam “extremamente satisfeitos” com suas vidas.

Em comparação, somente 19% das pessoas que iam semanalmente à igreja, mas que não tinham amigos íntimos na congregação, disseram que estavam “extremamente satisfeitos”. Este número foi o mesmo para os que não frequentavam igrejas, com apenas 19% desse grupo dizendo que estavam “extremamente satisfeitos”.

Embora o estudo tenha focado na fé cristã, Lim também notou que havia um padrão semelhante entre outros grupos religiosos, apesar das amostras terem sido de tamanho bem mais reduzido.

“Eu diria que a maior razão das pessoas frequentarem igrejas não é por seu pastor, mas por causa das relações que elas têm lá”, disse o Reverendo Max Janzen, pastor sênior da Igreja Batista Lado Ensolarado, em Cheyenne. “Por causa disso, eu concordaria totalmente com esse estudo, baseado na experiência que tenho na minha igreja”.

Lim disse, “Para mim, a evidência fundamenta que não é mesmo o fato de ir a uma igreja e ouvir sermões, ou rezar, que torna as pessoas mais felizes, mas fazer amigos através da igreja, e construir lá uma rede social íntima”.

Lim observou que o estudo não está dizendo que as pessoas que não frequentam igrejas não podem levar uma vida satisfatória. Mas que os que frequentam igrejas e têm um mesmo sistema de crenças e conexões sociais podem ser mais felizes devido a essas conexões.

O pastor Billy Minder, da Igreja Batista Ribeirão do Prado, em Cheyenne, disse que os dados [do estudo] condizem com sua experiência em sua igreja:

“Eu encontrei alguma informação, um tempo atrás, quando uma socióloga falou sobre os três lugares em que as pessoas se conectam umas com as outras, e ganham um senso de identidade e realização. Os dois primeiros são o lar e o trabalho, e eu sempre pensei no terceiro como sendo a igreja, onde você pode se ligar a pessoas com a mente parecida com a sua, e ter uma sensação de pertencer àquele lugar.”

Bíblia: literatura de sovaco

Editora especializada em Bíblias tem até uma para surfistas

Funcionários trabalhando na produção de livros religiosos na gráfica da Sociedade Bíblica do Brasil, em Barueri

Na tarde da última quinta-feira, reverendos e funcionários de uma gráfica em Barueri se reuniram para um evento sacroempresarial: a encadernação da Bíblia de número 100 milhões da Sociedade Bíblica do Brasil.

Para o presidente da organização filantrópica, o reverendo Adail Sandoval, a marca teve gosto de superavit.

Sucursal brasileira da United Bible Societes [sociedades bíblicas unidas], a Sociedade Bíblica do Brasil imprime de 30 mil a 40 mil livros sagrados por dia –ou uma Bíblia a cada três segundos.

Além da Indonésia, é aúnica das 147 sociedades internacionais com gráfica própria, em Barueri, município da Grande São Paulo. Abastece mais de cem países com salmos em português, inglês, espanhol, árabe, hebraico, latim e outras línguas.

O sucesso se deve, em parte, ao trabalho do pastor presbiteriano Rudi Zimmer, 63, teólogo com MBA em administração de empresas e, desde 2005, diretor executivo da entidade.

Funcionário de carreira, com 20 anos de casa, Zimmer situa na década de 1990 o boom do mercado editorial sacro. “A segmentação aconteceu em todas as áreas, chegando à igreja. Até lá, se fazia bíblia de qualquer cor, desde que fosse preta”, brinca.

Hoje, a Sociedade Bíblica lança 40 títulos inéditos por ano, como a “Bíblia da Família”, a “Bíblia da Mulher” e a “Bíblia do Surfista”, cuja página de abertura explica: “É para você que deseja experimentar a pura vida na presença de Deus. Boas ondas!”.

Alguns títulos são criados pela equipe do gerenteeditorial Dennis Timm, 40. Outros, comprados na International Christian Retail Show [mostra internacional do varejo cristão], feira religiosa que ocorre uma vez ao ano, nos Estados Unidos.

No site da Sociedade Bíblica, são vendidos por valores que vão de R$ 2 (“Bíblia Sagrada”) a R$ 133,90 (“Bíblia Shedd”, com capa de couro, mapas e 10 mil notas de rodapé). Em 2010, coube à “Bíblia de Estudo Despertar” (R$ 44,90) liderar o comércio, com ensinamentos baseados na terapia de 12 passos dos Alcoólicos Anônimos.

Zimmer explica que o texto sacro jamais é modificado: “A Bíblia é a mesma para qualquer público. A apresentação gráfica e os comentários é que diferem”. Edições recentes obedecem às regras do novo acordo ortográfico. Variam na tradução, que pode seguir quatro padrões.

Ainda que tenha a Igreja Católica como principal cliente, a Sociedade Bíblica não discrimina. Por ser uma organização de cunho ecumênico, produz sob encomenda para as evangélicas Renascer, Universal e Assembleia de Deus.

DIREITO AUTORAL

“Nunca entramos em política eclesiástica. Queremos apenas que o povo receba a Bíblia”, diz Zimmer.

A concorrência –que inclui as editoras Vozes, Ave Maria, Vida, Esperança e GeoGráfica, entre outras– é farta, posto que Deus não cobra direito autoral. Ainda assim, nenhum rival atingiu a marca dos 100 milhões de livros produzidos.

Fundada em 1948, a Sociedade Bíblica do Brasil se fez ampliar com farto apoio eclesiástico, sob o argumento de tornar a palavra de Deus acessível. “Pedimos empréstimos e doações às igrejas”, diz Zimmer.

Das editoras nacionais, é a única que participa da Assembleia Geral da United Bible Societies.

A última reunião ocorreu em setembro de 2010, data em que padres e pastores debateram a posição da Bíblia na era digital.

O assunto, em princípio espinhento, foi recebido com tranquilidade pelos diretores da Sociedade Bíblica do Brasil. Desde meados daquele ano, eles já vendiam a “Bíblia Digital Glow”, em três DVDs.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/921815-editora-especializada-em-biblias-tem-ate-uma-para-surfistas.shtml

Homem invade igreja na Paraíba, destrói imagens sacras, sofre infarto e morre!

Publicado em 11.05.2011, às 08h20  NE10 notícias  e Folha da Paraíba

http://www.folhapb.com.br/?p=84

Um homem invadiu uma igreja na cidade de Catingueira, no Sertão da Paraíba, destruiu as imagens sacras e depois teve um infarto e morreu. O crime ocorreu nessa terça-feira (10). Edmílson Jovino também agrediu o padre. As informações são do jornal Folha da Paraíba. Segundo informações do padre Fabrício Dias Timóteo, o Círio Pascal e as imagens sacras do Cristo Crucificado e de Nossa Senhora de Fátima foram destruídas após a novena. “Ele estraçalhou logo de imediato um ventilador de pé. Ele pegou a haste desse ventilador e veio em minha direção quando me reconheceu como padre. Ele tentou me agredir com esta haste, eu me defendi, mas ele ainda conseguiu me dar um soco”, disse o padre. Após invadir e destruir imagens sacras, Edmílson foi até a Praça da Matriz, onde foi capturado por populares e, em seguida, entregue à Polícia. Logo em seguida, ele começou a passar mal e morreu. “Segundo o parecer de alguns médicos, houve um infarto, um problema cardíaco fulminante”, disse o padre Fabrício Dias. Por enquanto, a igreja permanece fechada até que seja feito o ato de desagravo que também pode ser chamada de ato de reparação. Ainda não se sabe se as imagens sacras vão ser restauradas ou subtituídas.

A gente não sabe o motivo, devido ao iníco das invetigações, mas, talvez possa tratar-se de mais um fundamentalista cristão, que não aceita os rituais de outra religião, um alucinado por algum culto. Pode-se supor que o indivíduo ficou deslumbrado com  uma eventual guerra às imagens, proferidas em algum sermão. É possível, pelas características da atitude.Vamos ver o resultado disso! Percebe-se sua abominação pelas estátutas! he!he!he!. Posso até vislumbrar, como é de fato comum, algum católico aparecer, para afirmar que deus o puniu com a morte, por vilipendiar as estátuas! O que é trágico,porque o homem morreu de enfarte, causado pelo acesso de ira, raiva das imagens. Ou você leitor acha que tem chance de ser um Ateu louco?Vamos ver o que vai dar!

Abração, saracura do brejo.

A Bíblia como ela é

E se Moisés morasse em Nova York? Um jornalista americano decidiu passar um ano inteiro seguindo as leis bíblicas ao pé da letra

por Texto Marcos Nogueira

http://super.abril.com.br/religiao/biblia-como-ela-e-447269.shtml

 

Jesus respondeu, e disse-lhe: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus”.

Disse-lhe Nicodemos: “Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer”?

João, 3:3-4

Nicodemos não era burro nem ignorante. São Nicodemos, aliás, era um homem letrado, um rabino do sinédrio de Jerusalém – algo como o Supremo Tribunal da Judéia nos tempos bíblicos. Jesus falava de renascimento espiritual, mas o sábio tomou demasiado literalmente Suas palavras, como mostra o Evangelho de São João. Se até os contemporâneos de Jesus tinham problemas com tantas parábolas, metáforas e alegorias, imagine o que não ocorre às pessoas do século 21, desacostumadas ao estilo empolado em que os livros da Bíblia foram escritos, milhares de anos atrás.

Aqueles que interpretam a Bíblia ao pé da letra não apenas existem, como têm voz no gabinete presidencial dos EUA. São os fundamentalistas bíblicos. Eles crêem que o Universo foi criado em 7 dias de 24 horas e não duvidam que Matusalém tenha morrido aos 969 anos (e concebido um filho aos 187 anos). Mais: a palavra é a lei. Se os livros mandam dar o dízimo, lá se vão 10% da renda da pessoa; se os textos sagrados condenam a luxúria, é dever zelar pela castidade – a própria e a alheia.

O jornalista americano A.J. Jacobs fez uma lista de 72 páginas com mais de 700 regras, do Gênesis ao Apocalipse, que arbitram a conduta do homem comum. Decidiu que passaria um ano vivendo de acordo com os preceitos bíblicos, interpretando sozinho as escrituras. E encarnou o “fundamentalista máximo”, como ele define na introdução do livro que resultou desse projeto, The Year of Living Biblically (“O Ano em Que Vivi Biblicamente”, ainda sem previsão de lançamento no Brasil).

Jacobs, um judeu que se define como agnóstico no início do livro, dividiu sua missão da seguinte forma: apenas os 3 últimos meses seriam dedicados ao Novo Testamento, exclusivo dos cristãos; os 9 primeiros abordariam o Velho Testamento, que cobre um período histórico muito mais extenso e também é adotado pelo judaísmo. Muitos dos ditames dos livros mais antigos já são observados pelos judeus de correntes ortodoxas.

No decorrer do tal ano bíblico, Jacobs foi se metamorfoseando numa espécie de Moisés a perambular pelas ruas de Nova York. Parou de aparar a barba (Levítico, 19:27), usou azeite como condicionador capilar e passou a vestir uma túnica branca (Eclesiastes, 9:8). Ainda no quesito vestuário, livrou-se das peças cujo tecido misturava lã e linho, pois a lei sagrada proíbe tal combinação (Levítico, 19:19). Jacobs esperava ser o único americano do século 21 a cumprir tal norma, mas encontrou um inspetor religioso especializado em examinar as roupas alheias ao microscópio, para detectar as fibras proibidas.

Julie, a mulher de A.J., não ficou lá muito contente com o novo visual do marido, mas foi outra regra bíblica que balançou a casa dos Jacobs: a proibição de tocar mulheres durante o período menstrual (Levítico, 15:19). Da porta para fora, tudo era uma maravilha para Julie. Ele não encostaria em nenhuma outra mulher, sequer apertaria sua mão, já que não poderia saber se ela estava ou não naqueles dias – exceção feita para uma colega da redação da revista Esquire, que lhe enviou as datas por e-mail. Dentro de casa, porém, a coisa ficou feia. A regra é clara e diz que a impureza da mulher menstruada se transmite para onde ela repousar o traseiro. Para contagiar o marido com sua irritação, Julie passou a sentar em todas as cadeiras do apartamento. Nosso herói não teve outra saída senão comprar um banquinho portátil que, quando dobrado, vira um cajado. Nada mais bíblico.

A esta altura, você já deve ter notado que uma boa parte das citações deste texto tem origem no Levítico. Esse é o livro que descreve o episódio em que Deus chama Moisés para o topo do monte Sinai e lhe dita os 10 mandamentos. Mas a coisa não acabou aí: Moisés passou 40 dias escutando as leis que o Senhor tinha a passar para o povo de Israel. Algumas diziam respeito à alimentação. Porco não pode (11:7). Coelho não pode (11:5). Escargot não pode (11:30). Camarão não pode (11:12), independentemente do tamanho – por acreditar que existam crustáceos microscópicos na água encanada de Nova York, alguns rabinos de lá recomendam o uso exclusivo de água mineral.

Jacobs obedeceu a todas as proibições. Mas o que de fato chamou sua atenção foi um alimento permitido: insetos saltadores (Levítico, 11:22). E por que diabos (ops!) comer grilos e gafanhotos? “A única referência a esse hábito na Bíblia é a história de são João Batista, que sobreviveu à base de gafanhotos e mel”, diz Jacobs no livro. O autor, então, agiu como o santo: encomendou uma caixa de bombons de grilo e, mui biblicamente, repartiu a refeição com um relutante amigo. Nojento? Talvez, mas nada mais que isso.

Já a ordem bíblica para apedrejar adúlteros (Levítico, 20:10) induz ao crime de assassinato. O sagaz Jacobs encontrou um jeito para obedecer à lei divina sem cair nas malhas da lei mundana. “A Bíblia não especifica o tamanho das pedras”, afirma. O que ele fez, então? Encheu o bolso com pedregulhos e foi à cata de uma vítima, o que deveria ser a parte mais difícil da tarefa. Eis que um desconhecido de 70 anos ou mais agrediu verbalmente nosso aspirante a beato, perguntando por que ele “se vestia como uma bicha”. Jacobs explicou que estava lá para apedrejar adúlteros. “Eu sou um adúltero”, disse o homem – e levou uma pedrada de leve no peito. Ponto para o vingador bíblico.

Manter escravos também não pega muito bem no Ocidente do século 21, mas era  prática corrente em todo o mundo na Antiguidade. O Velho Testamento, inclusive, traz instruções para espancar o servo sem causar sua morte imediata (Êxodo, 21:21) e recomenda não arrancar seu olho (Êxodo, 21:26), sob pena de ter de libertá-lo. Jacobs já havia desistido do personal escravo quando recebeu o seguinte e-mail: um universitário se oferecia como estagiário particular. “Qual é a coisa mais próxima da escravidão nos EUA?”, pergunta o autor. “Estágio não remunerado”, responde ele mesmo. “Caiu do céu.” O rapaz aceitou a condição do escritor – que exigiu chamá-lo de “escravo” –, mas o pior castigo que recebeu foi tirar algumas cópias xerox.

Para que fazer tudo isso, afinal? O apedrejamento e o escravo foram apenas brincadeiras – embora o estagiário tenha realmente caído do céu. De resto, Jacobs não se ocupou somente de costumes exóticos e bizarros para faturar com o livro (a honestidade bíblica o obrigou a dizer que esse era, sim, um dos motivos de seu projeto). Ele impôs a si mesmo uma rotina de rezas (Salmos, 105:1), de caridade (Lucas, 11:41), de respeito às tradições de seu povo e aos idosos (Levítico, 19:32). Até palavrão ele parou de falar (Efésios, 5:4).

Essa parte menos espetacular do ano bíblico de Jacobs foi justamente a mais difícil. Para reprimir a luxúria (Oséias, 4:10), o autor cobriu com fita adesiva as imagens de potencial apelo sexual de sua casa – inclusive a foto de uma mulher vestida de gueixa numa caixa de chá. Não funcionou. O método mais eficiente de resistir à tentação, segundo ele, era pensar na própria mãe (aqui temos um claro abuso do voto de honestidade do autor).

Também a cobiça (Êxodo, 20:17) foi dura de controlar. Um dia, Jacobs listou as coisas que cobiçara desde a manhã: o cachê que outro escritor cobra por palestra, um computador PDA, a paz mental do fulano da loja de Bíblias, o jardim da vizinha, George Clooney e o roteiro do filme Como Enlouquecer Seu Chefe, de Mike Judd. E isso ele escreveu às 2 horas da tarde.

O maior desafio de A.J. Jacobs, contudo, foi a fé – que, convenhamos, é um requisito e tanto para ser plenamente bíblico. O escritor do início do livro é um homem de 38 anos, com um filho de 2 anos e uma enorme vontade de aumentar a família (Gênesis, 1:22). Ele não tem fé, mas sente falta de um alicerce moral para o próprio lar e mergulha na religião, um terreno desconhecido. Nos primeiros meses, sente-se desconfortável ao rezar; perto do fim do projeto, experimenta o êxtase místico – dançando feito um rabino louco ao som de Beyoncé, na festa de 12 anos (bat mitzvah) de uma sobrinha. Mas ainda se declara agnóstico.

Aparentemente, o cara conseguiu encontrar o sentido que buscava. E uma explicação, embora nem sempre convincente, para cada uma das regras bíblicas. A enorme barba, por exemplo, serve para indicar que se trata de um homem de paz. Um guerreiro nunca a usaria, pois o inimigo se agarraria aos seus pêlos – assim lhe disse um líder religioso em Jerusalém.

Jacobs encontra sentido até no mais estapafúrdio dos mandamentos, que ordena decepar as mãos da mulher que agarrar “as vergonhas” do oponente de seu marido em uma briga (Deuteronômio, 25:11-12). Aqui, a mensagem oculta é: a mulher causou vergonha tanto ao próprio marido (que venceu a luta injustamente) quanto ao inimigo dele. A interpretação rabínica das escrituras diz que a mulher que envergonha o marido deve pagar uma multa – a mutilação é metafórica.

Se os judeus aceitam como metáfora uma ordem divina e os cristãos ignoram muito do Velho Testamento – a vinda de Cristo teria anulado a necessidade de circuncisão, entre outras coisas –, quem segue a Bíblia ao pé da letra, de cabo a rabo? “Ninguém”, conclui Jacobs, “nem os fundamentalistas”. Quem se propõe a fazer uma leitura literal da Bíblia acaba sempre escolhendo o que vai obedecer.


O que oprime mais pessoas no mundo?

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Cruz: o símbolo macabro do cristianismo

 

Crucificação vem do latin crucifixio [crux = cruz + o verbo figere = fixar, prender].*  Foi o método de execução adotado pelo império romano, para punir crimes cometidos pelos escravos, desde o século seis antes de Cristo até o ano de 337 da era cristã, quando o imperador Constantino I aboliu esse tipo de execução, justamente por causa da veneração bizarra que um número crescente de seguidores de uma nova seita passaram a demonstrar por esse horripilante instrumento de tortura.

A pena de morte por crucificação era uma punição duríssima, pois a sentença antecipava ao réu não só que ele perderia a vida, mas que a sentiria se esvair lentamente, até o ponto em que seu corpo não conseguisse mais suportar justamente aquilo que todo organismo mais evita: a dor. E não seria uma dor inesperada e letal, mas uma dor agendada, que, uma vez tendo início, seria constante, inimaginavelmente intensa e deliberadamente infligida por mãos adestradas na técnica de impor o máximo de sofrimento pelo maior tempo possível.

O processo de execução começava com o criminoso sendo despojado de suas vestes e preso a uma coluna, para ser submetido ao flagelo, que era o açoite feito com um chicote especialmente confeccionado para esse fim. Depois o condenado era amarrado de braços abertos a uma cruz de madeira (ou a uma árvore), onde era deixado para morrer. Ali, enquanto sentia por todo o corpo a dor excruciante que o flagelo lhe havia causado, o enfraquecimento provocado pela perda de sangue e pelo sofrimento prolongado fazia o crucificado esmorecer sobre suas pernas presas e, não mais podendo suster-se de pé na cruz, ficar completamente pendurado pelos braços, com o peso do corpo a comprimir-lhe o diafragma, até não mais conseguir manter a respiração e morrer por asfixia.

As execuções tinham início no meio da tarde e se estendiam até o pôr-do-sol, uma vez que, como ditava a tradição, o executado não poderia permanecer na cruz durante a noite, pois acreditava-se que isso contaminaria a terra com a maldição que havia caído sobre o morto. Quando ocorria do crucificado ainda estar vivo pela hora do crepúsculo, os soldados romanos lhe quebravam as pernas para acelerar o processo.

A crucificação raramente era feita pregando-se o réu à cruz, mas quando esse sofrimento adicional lhe era imposto, fazia-se necessário providenciar um apoio em que o crucificado pudesse se manter sentado. Não fosse esse artifício, a morte viria rápida demais e a punição seria considerada branda. Tendo o peso do corpo sustentado por esse tipo de banquinho, o expediente de quebrar as pernas do criminoso para acelerar a morte por asfixia não surtia efeito. Assim, no caso de chegar a noite, o condenado que ainda resistisse vivo era violentamente espetado por espadas e lanças, ali mesmo na cruz, até que parasse de se estrebuchar a cada nova estocada, o que atestaria a sua morte.

Se Jesus Cristo foi mesmo executado por crucificação há dois mil anos, três coisas podem ser ditas seguramente sobre ele.

A primeira, que ele deve ter cometido um crime compatível com a sentença de morte recebida, o que, obviamente, foi omitido dos textos sagrados do cristianismo. Blasfêmia, por dizer-se filho de Deus ou por ameaçar o poder e posição dos sacerdotes e fariseus, não seria motivo suficiente para ser morto por crucificação, visto que Jesus estaria afrontando a lei dos hebreus, não a de Roma; e o governador local não iria querer gastar o seu latin com um bando de arruaceiros de um povo subjugado reclamando que alguém havia blasfemado contra o Deus deles. Os romanos, que tinham dezenas e dezenas de deuses, talvez mesmo só tivessem ficado perplexos ante a falta de fé que aquela gente demonstrava em relação ao seu próprio Deus, não deixando nas mãos dele a vingança pela blasfêmia recebida, como eles, certamente, teriam deixado.

A segunda, que ele sofreu de uma forma inimaginável antes de morrer. Eu, particularmente, lamento muito por ele e pelo fato de nossa espécie ter cometido, como ainda comete, tantos atos de barbárie contra si, e mesmo contra outras formas de vida.

E a terceira, que, independentemente do que Jesus achava que era, ou do que as pessoas que escreveram os Evangelhos achavam que ele era; independentemente do que tenham escrito, dezenas de anos depois, sobre o que ocorreu após sua morte, Jesus de Nazaré morreu naquela cruz e ainda continua morto.

É certo, também, que é impossível ignorar a multidão que diz esperar a volta do mais famoso finado de que se tem notícia. A esses eu só tenho uma coisa a dizer: vão continuar esperando.



*Fonte: Wikipedia.

Mais uma de Amor

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Amor – O Início

Você  perde o sono, a fome, sobe às nuvens e sente a vida virar de ponta-cabeça. Mas o que, afinal, faz com que uma pessoa se apaixone por outra?

por Jeanne Callegari


“Quer viver um grande amor? Pergunte-me como.” Parece uma promessa de charlatão – afinal, não existe nada mais imprevisível que a paixão, certo? Milhões de palavras foram gastas, ao longo dos séculos, para descrever os mistérios dela. Do matemático Blaise Pascal (“o coração tem razões que a própria razão desconhece”) ao físico Albert Einstein (“como a ciência poderia explicar um fenômeno tão importante como o amor?”), todas as maiores mentes da humanidade se declararam impotentes frente aos mistérios e caprichos da paixão. Elas estavam erradas. A ciência está começando a descobrir que existe, sim, lógica no amor. E, quem sabe, até uma fórmula. Matemáticos da Universidade de Genebra estudaram 1 074 casamentos, analisando diversas características dos cônjuges, e chegaram a uma fórmula do que seria o par ideal – com maior taxa de felicidade e menor risco de separação. A mulher deve ser 5 anos mais jovem e 27% mais inteligente do que o homem (o ideal é que ela tenha um diploma universitário, e ele não). E é preciso experimentar bastante antes de decidir: uma análise feita pelos estatísticos John Gilbert e Frederick Mosteller, da Universidade Harvard, apontou que, se você se relacionar com 100 pessoas durante a vida, suas chances de encontrar o par ideal só chegam ao auge na 38ª relação. Faça tudo isso e você será premiado com 57% mais chance de ser feliz. Mas, se você achou essas condições meio sem sentido, ou no mínimo difíceis de seguir, acertou. As conclusões são puramente estatísticas, ou seja, projetam um cenário ideal e não levam em conta as decisões que as pessoas realmente tomam: praticamente todos os casais estudados pelos cientistas suíços (para ser mais exato, 99,81%) não viviam seguindo à risca a fórmula. Afinal, as pessoas não são equações. São uma pilha de neurotransmissores, hormônios – e experiências.

Imagine que você está numa festa. Muita gente interessante, troca de olhares, azaração. Na dança do acasalamento humano, os homens dão mais valor à beleza e à juventude – e as mulheres estão mais preocupadas com o nível socioeconômico do parceiro (sim, isso inclui dinheiro). Você provavelmente já sabe disso. É universal. “Num levantamento que fizemos com 10 mil pessoas, em 37 países, essas diferenças sempre se mantiveram – independentemente de local, habitat, sistema cultural ou tipo de casamento”, afirma o psicólogo evolutivo David Buss, da Universidade do Texas, em seu livro A Evolução do Desejo. O que você não sabe é que essa diferença não é um clichê sexista – tem uma explicação cerebral. Quando o homem olha uma foto de sua mulher ou namorada, sua atividade cerebral se concentra nas áreas de processamento visual – como a área fusiforme, que processa as imagens de rostos. Já quando a mulher vê o homem, aciona circuitos relacionados a memória, atenção e motivação – como o corpo do núcleo caudato e do septo. Conclusão: para as mulheres, a beleza realmente não é o principal.

Ela é importante. Mas não é um objetivo em si; é um instrumento que a mulher usa para descobrir mais sobre o homem. Um estudo da Universidade de Michigan comprovou que, quando estão cogitando ficar ou ter um caso passageiro, as mulheres costumam preferir homens de traços bem marcados, masculinos. Mas, na hora de pensar numa relação séria, optam pelos que têm traços mais delicados. Isso acontece porque os homens de traços duros costumam ser saudáveis e passar genes de boa qualidade para os descendentes – e por isso são considerados instintivamente atraentes pela mulher. Mas eles também geralmente têm mais testosterona – hormônio que aumenta a propensão à violência e à infidelidade.

OS SEMELHANTES SE ATRAEM

Em 68% dos relacionamentos sérios (e 53% dos passageiros), as pessoas são apresentadas por um conhecido. Cerca de 60% dos romances surgem em ambientes semiprivados, como escola, trabalho ou uma festa – lugares onde a afinidade entre as pessoas é naturalmente maior. Só 10% dos romances se originam em bares e baladas.

COISA DE PELE

Homens e mulheres preferem o odor de pessoas cujo sistema imunológico seja complementar ao deles (o que ajuda a gerar descendentes saudáveis). Mas cuidado com a pílula anticoncepcional: ela pode distorcer essa comunicação olfativa, fazendo a mulher perder a capacidade de reconhecer o que a atrai.

PAIXÃO = AVENTURA

Quer fazer o romance engatar? Procure fazer coisas novas e/ou excitantes junto com a outra pessoa – como viajar ou andar de montanha- russa. É sério. Esse tipo de atividade eleva o nível de dopamina no cérebro, ativando os mecanismos relacionados à paixão.

Ou seja: os machões não são bons pares. E parecem estar saindo de moda. Pesquisadores da Universidade de Stirling, na Escócia, apresentaram uma série de fotos de homens para 4 791 mulheres de 30 países, entre eles o Brasil. E descobriram o seguinte: quanto melhor o sistema de saúde de um país, mais as mulheres preferem homens com traços femininos. Isso acontece porque, existindo menos doenças, as mulheres não dependem tanto de genes superfortes (presentes nos machões) para gerar descendentes saudáveis. E passam a preferir homens com rosto delicado. Mas o Brasil, caso você esteja se perguntando, ficou em último lugar no estudo – nossas mulheres, junto com as mexicanas, são as que mais preferem homens com cara de machão (Bélgica e Suécia, por outro lado, são o paraíso para os homens delicados). “Homens muito atraentes costumam ir atrás da estratégia de reprodução mais conveniente para eles: as relações de curto prazo. Já os mais femininos tendem a ser melhores provedores”, afirmou a psicóloga Lise DeBruine, autora do estudo, ao jornal inglês Guardian.

Seja como for, um pouquinho de feiura pode até ajudar o homem. Um estudo feito em 2008 pela Universidade do Tennessee avaliou 82 casais e descobriu que, quando a mulher é linda e o homem apenas razoável, o casal se comporta de forma mais positiva, com mais harmonia e companheirismo. A tese é que, como o homem está recebendo algo que valoriza muito, a beleza, ele dá duro para manter o relacionamento – o que acaba melhorando seu convívio com a mulher.

CHEGUE MAIS PERTO

Vocês se olharam, se interessaram, alguém tomou a iniciativa de ir falar com o outro. Antes mesmo de abrirem a boca, seus corpos já começaram a se comunicar. Sabe quando as pessoas dizem que “bateu uma coisa de pele”? Isso realmente existe. E tem fundamento científico. Preferimos pessoas cujo sistema imunológico seja complementar ao nosso, com quem possamos gerar descendentes geneticamente mais variados, com maior capacidade de resistir a doenças. E, como ninguém tem placa na testa dizendo qual tipo de sistema imunológico tem, o jeito que o corpo inventou de perceber e comunicar isso foi o cheiro.

Ok, o cheiro combinou e vocês partiram para a conversa – que pode ou não dar certo. O que precisa acontecer para que ela não acabe num silêncio constrangedor depois de 10 minutos? Sua história pessoal, os valores da família, da comunidade, as relações que já viveu, tudo isso ajuda a moldar o que você espera das pessoas – principalmente aquelas com as quais pretende ter algum tipo de relacionamento amoroso. “Enquanto crescemos, vamos criando um conceito da pessoa por quem iremos nos apaixonar, baseado nos exemplos que encontramos por aí. E os parceiros que encontramos podem corresponder a essa expectativa ou não”, explica Semir Zeki, neurologista da University College London e autor de estudos sobre o cérebro das pessoas apaixonadas. Existem muitos testes que ajudam a descobrir qual é o seu tipo de personalidade e saber quais outros combinam com ele (em super.abril.com.br/revista/teste-do-amor você encontra um teste baseado nas conclusões da americana Helen Fisher, antropóloga da Universidade Rutgers e uma das maiores especialistas do mundo nas relações entre amor e cérebro).

Mas o que vai acontecer daqui para a frente no relacionamento tem mais a ver com a dança de hormônios dentro da sua cabeça. Ou você já viu alguém tomar racionalmente a decisão de se apaixonar? A natureza criou 3 mecanismos cerebrais que controlam o amor nos seres humanos: luxúria, paixão/romance e ligação. O mecanismo da luxúria (desejo sexual) está ligado à quantidade do hormônio testosterona – tanto em homens quanto em mulheres. Já o impulso da paixão e do romance é alimentado pela dopamina. E o terceiro sistema, da ligação e do companheirismo, é alimentado pela ocitocina (na mulher) e pela vasopressina (no homem). Os 3 sistemas são independentes. Ou seja: uma mulher pode amar o marido, estar apaixonada pelo vizinho e sentir atração pelo Johnny Depp, tudo ao mesmo tempo. Uma confusão só. “É como se houvesse uma reunião de comitê na sua cabeça”, brinca Helen Fisher. E, para complicar ainda mais as coisas, esses sistemas interferem uns com os outros. Uma coisa leva a outra, principalmente quando as pessoas vão para a cama. O sexo pode aumentar os níveis de dopamina – que provoca paixão e romance. E o orgasmo provoca a descarga de ocitocina e vasopressina – os hormônios da ligação. É por isso que, biologicamente, não existe sexo 100% sem compromisso. Você sempre corre o risco de acabar se apaixonando por alguém com quem não tinha intenção de se envolver.

E assim foi para vocês. A noite foi incrível, e parece que a paixão está começando a rolar. Como ter certeza? É fácil. Você vai ficar meio aéreo, passar a comer e dormir menos e ficar horas e horas pensando na pessoa amada – um comportamento compulsivo, similar ao dos viciados em drogas. É isso mesmo: o neurotransmissor da paixão, a dopamina, é o mesmo envolvido nos casos de dependência química. E mexe com uma parte muito profunda do cérebro: o núcleo accumbens, que controla o sistema de recompensa – mecanismo que faz o indivíduo buscar coisas prazerosas (como comida, sexo ou amor). Ele tem uma influência incrivelmente forte sobre nós. “O sistema de recompensa avisa o cérebro sempre que uma coisa boa está para acontecer. Ficamos altamente motivados, antecipando o prazer que virá”, diz Suzana Herculano-Houzel, neurologista da UFRJ e autora do livro Sexo, Drogas, Rock`n`roll… & Chocolate – O Cérebro e os Prazeres da Vida Cotidiana.

A partir de agora, sua felicidade depende da outra pessoa. Se ela telefona ou manda um e-mail, você vai ao paraíso. Quando ela some, você vive uma agonia lenta, desesperada. Se você está sentindo tudo isso, comemore. Está apaixonado.

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Amor – O Meio

Amor – O Fim

Religião influencia decisões médicas, diz pesquisa

Veja Saúde – 26/08/2010

Médicos ateus e religiosos agem de forma diferente em relação a pacientes em fase terminal

BBC
médicos

Mais de 12% dos médicos pesquisados se descreveram como “muito ou extremamente religiosos”

A fé religiosa de um médico tem “forte influência” nas decisões que toma em relação a pacientes terminais. Os médicos ateus ou agnósticos – afirma estudo publicado no Journal of Medical Ethics – têm mais probabilidade de tomar decisões que acelerem o fim da vida de um paciente terminal que médicos profundamente religiosos. E é menos provável que os últimos discutam com seus pacientes muito graves as opções de tratamentos paliativos, revelou a pesquisa, conduzida pela Universidade de Londres.

Os especialistas afirmam que os resultados são “preocupantes” e revelam que é necessário dar mais atenção em como as crenças religiosas influem no cuidado médico. Os investigadores levaram a cabo uma pesquisa com mais de 8.500 médicos do Reino Unido, respondida por menos da metade.

Ainda que os entrevistados praticassem uma ampla gama de especialidades, a pesquisa foi centrada em particular nos que estavam envolvidos em tomadas de decisão de fim de vida, por exemplo, e em cuidados paliativos e com idosos. Foi perguntado aos médicos sobre o tratamento aplicado a seu último paciente falecido, se haviam oferecido uma sedação profunda contínua – ou sedação terminal – até a morte e se haviam discutido com seu paciente decisões que, em seu juízo, poderiam encurtar a vida. Também foram perguntados sobre suas crenças religiosas, origem étnica e opinião sobre a eutanásia e morte assistida.

No Reino Unido, é ilegal ministrar medicamentos com a intenção deliberada de por fim à vida de uma pessoa, mas os médicos podem oferecer morfina e outros fármacos para aliviar a dor ou o sofrimento. Esse procedimento – chamado sedação profunda terminal – pode ter o efeito de encurtar a vida.

Ateus x religiosos — O Conselho Médico Geral (GMC, na sigla em inglês), que regula a profissão no país, recomenda que as discussões com o paciente terminal sobre seu cuidado paliativo, que inclui a alimentação por sonda, hidratação e ressuscitação (os quais podem causar sofrimento desnecessário), devem começar o mais cedo possível. O GMC estabelece que ainda que os médicos partam da premissa que a vida deve ser prolongada, não deve perseguir o objetivo a qualquer preço.

Os resultados mostraram que os médicos que se qualificam como muito ou extremamente não religiosos mostraram 40% mais probabilidades de praticar a sedação que os médicos religiosos. Por outro lado, os que se descreveram como muito ou extremamente religiosos mostraram menos probabilidade de discutir com seus pacientes sobre decisões sobre seu tratamento paliativo.

Mais de 12% dos médicos pesquisados se descreveram como “muito ou extremamente religiosos”. Os médicos dedicados ao cuidado de idosos tinham mais probabilidade de serem hindus ou muçulmanos, e os médicos dedicados aos cuidados paliativos mostraram mais probabilidade de serem cristãos, brancos e de descreverem-se como “religiosos”. Um em cada cinco se revelou “muito ou extremamente não religioso”. Em geral, os médicos brancos, que representam o maior grupo étnico da pesquisa, mostraram menos probabilidade de identificar-se com fortes crenças religiosas.

O Pai, o Filho e o Espírito Santo


A Santíssima Trindade é uma crença básica do cristianismo, mas só tornou-se dogma a partir do concílio de Nicéia (325 d.C.) que, oficialmente, reconheceu a natureza trinitária de Deus. À primeira vista, trata-se de algo bastante original, único: um só Deus, porém constituído por três Pessoas distintas, Pai, Filho, Espírito Santo. Na teoria, isto representa um mistério insondável, inacessível pela razão, somente concebível através da fé. No entanto, um exame rápido e superficial da história das religiões revela que não há nada de original neste conceito. Demonstra-se, através da história que, na verdade, o conceito de “Trindades Sagradas” aparece em várias culturas, em diferentes épocas da história da humanidade. De tal modo que se pode afirmar, sem exageros, que a Trindade cristã foi engendrada a partir de mitologias e teofanias pagãs anteriores e não da revelação divina, como advogam teólogos sectários.

Ou seja, surgiu antes e totalmente independente do credo de Nicéia, já que o conceito era corrente em toda a região mediterrânea, bem antes do surgimento do cristianismo.

Considerando-se a humanidade como um todo, nota-se que, quase sem exceção, toda religião antiga baseava-se na estrutura de uma trinca celeste, a grande maioria constituída por membros do sexo masculino, solteiros. A presença feminina em trindades sagradas é excepcional. Exemplos de trindades sagradas são encontrados entre assírios, caldeus, egípcios, fenícios e gregos. Na história mais recente, a presença de tais trindades pode ser detectada entre druidas, chineses, japoneses, siberianos, peruanos, escandinavos, índios meso-americanos, etc.

Uma das mais antigas formas de trindade sagrada é encontrada no Bramanismo, cerca de dois mil anos a.C. Brahma representa o deus supremo, o Pai, Vishnu, a Palavra Encarnada ou Criador, enquanto que Siva ou Mahesa representa o Espírito de Deus. Chineses e japoneses antigos adoravam FO, nome que davam ao seu Buda. Sua doutrina ensina que FO é único, mas tem três formas.

No Egito, uma trindade sagrada era constituída por Atmu (ou Temu), Xu e Tefnut. Esta trindade é sexualmente mista, pois Tefnut é  irmã gêmea de Xu. A certa altura de um discurso, Temu declara: “Assim, sendo eu um deus, tornei-me três”. Temu e sua irmã gêmea formam uma curiosa unidade: Xu é o olho direito da divindade e Tefnut, o esquerdo.

O filósofo ateniense Platão (c.428- c.348 a.C.) na obra Fedro apresenta outro exemplo de trindade santa, constituída por Agathon, o deus supremo ou Pai, que idealizou a criação, Logos, a Palavra e realizador da criação (Criador) e Psiqué, a alma ou Espírito. Segundo Platão, Psiqué movia-se sobre a superfície das águas e infundia vida nas profundezas da criação. A semelhança desta imagem com certa passagem do Gênesis não pode ser mera coincidência: “…e um sopro de Deus agitava a superfície das águas” (Gen 1:2).

Existem inúmeras outras referências gregas a esta concepção trinitária da divindade, algumas encontradas até em Roma, como uma que fala do deus supremo, do filho do deus e de Apolo, o Espírito [criador].  Um oráculo romano declarava que primeiro existia Deus, depois a Palavra (Logos) e com eles coexistia o Espírito. O famoso templo de Júpiter Capitulino na Roma antiga era dedicado a três divindades, porém adoradas como divindade triuna.

Os primeiros Padres da Igreja, conhecedores dessas tradições clássicas, foram rápidos no gatilho e se apossaram desse conceito pré-existente, desenvolveram-no, e regurgitaram-no como novidade recém revelada pela Providência Divina. Quando algum opositor trazia suas bases históricas à baila, eles justificavam dizendo que os conceitos antigos simplesmente antecipavam a grande revelação que o cristianismo expunha agora de maneira renovada, repaginada e “clara”. Ou seja, o mistério da Santíssima Trindade cristã: Pai, Filho (Logos encarnado), Espírito Santo.

Como dogma cristão, o conceito parece ter sido originalmente formulado pelo apologista Tertuliano (c.155-c. 220), fortemente influenciado pelo neoplatonismo vigente na época. Em seguida, foi ferozmente defendido pelo patriarca de Alexandria, Atanásio (c. 295-373) e, finalmente, decretado e imposto pelo imperador romano Constantino I, o grande (c.288-337). Com a ajuda desse trio poderoso (Tertuliano, Atanásio, Constantino) a Igreja implantou na nova religião que se formava a idéia de um Deus uno e trino. Desta maneira, conformava-se com a cultura religiosa vigente. Santo Agostinho (354-430) elevou a doutrina a um patamar mais alto ao afirmar, sem titubear, que o início do evangelho de João (Jo 1:1-4) pode ser encontrado no Fedro de Platão!

Para muitos filósofos, o sentimento de que tudo existe em tríades permeia muitos aspectos de nossas vidas, especialmente os mais transcendentais, tanto no espaço quanto no tempo como, aliás, já dizia um oráculo romano. Porém este dado pertence à humanidade, desde as épocas mais remotas. Por exemplo: passado, presente, futuro; aqui, lá e o que existe entre os dois; começo, meio, fim; espírito, mente, corpo. Isto pode levar o homem à percepção de que o indescritível, o inatingível é, em última análise, constituído de três partes, embora em essência seja uma única, indivisível realidade.


Autor: Tarciso S. Filgueiras

Fonte: http://www.mphp.org/jesus-historico/trindades-sagradas.html

Países menos religiosos são socialmente mais avançados

Excelente leitura para o fim de semana…


O que seria de nossas sociedades se Deus simplesmente não existisse para grande parte da população?

Essa foi uma das perguntas que o sociólogo norte-americano Phil Zuckerman certamente tinha em mente ao dar início à sua mais recente pesquisa, que o levou a morar por mais de um ano na Escandinávia, especificamente na Dinamarca e na Suécia. Na bagagem, levava uma pergunta desafiante: como esses dois países, considerados os menos religiosos do mundo em todas as pesquisas prévias, podiam ser os que possuíam os mais altos índices de qualidade de vida, com economias fortes, baixas taxas de criminalidade, alto padrão de vida e igualdade social (em resumo, “contentment”, contentamento, satisfação, como ele chamou no subtítulo de seu livro)?

Zuckerman tinha ainda outro objetivo, mais localizado. Segundo ele, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, a maioria de seus conterrâneos norte-americanos “pensa que qualquer sociedade que deixa de louvar a Deus ou de colocá-Lo no centro de sua cultura será condenada”, ou que “sem uma religião forte, um país se desintegrará no caos, no crime e na imoralidade”. Assim, entrevistando 150 cidadãos dinamarqueses e suecos, ele quis mostrar que, mesmo sem Deus, “é possível que uma sociedade seja forte, saudável, moral e próspera”.

O resultado de sua viagem foi recém publicado em livro, pela New York University Press, intitulado “Society Without God – What the Least Religious Nations Can Tell Us About Contentment” [Sociedade sem Deus – O que as nações menos religiosas podem nos dizer a respeito da satisfação].

Phil Zuckerman é sociólogo, com mestrado e Ph.D. em Sociologia pela Universidade do Oregon. Atualmente, é professor do Pitzer College, em Claremont, no sul da Califórnia.

Também é autor de “Sex and Religion” (Wadsworth, 2005), “Invitation to the Sociology of Religion” (Routledge, 2003), “Du Bois on Religion” (Alta Mira Press, 2000) e “Strife in the Sanctuary: Religious Schism in a Jewish Community” (Alta Mira Press, 1999), dentre outros.

Em sua página no site do Pitzer, está publicado um dos principais artigos de Zuckerman, intitulado Ateísmo: Taxas e Padrões em que ele analisa detalhadamente diversos dados sobre o ateísmo contemporâneo (em inglês). Esse texto faz parte do livro “The Cambridge Companion to Atheism“, organizado por Michael Martin (Cambridge University Press, 2007).

A entrevista:

IHU On-Line – Como você realizou a sua pesquisa na Escandinávia? Qual foi a sua intenção e as suas principais descobertas?

Phil Zuckerman – A maioria dos norte-americanos pensa que qualquer sociedade que deixa de louvar a Deus ou de colocá-Lo no centro de sua cultura será condenada – e que, sem uma religião forte, um país se desintegrará no caos, no crime e na imoralidade. Eu quis mostrar que isso não é necessariamente verdade. Eu quis mostrar aos meus conterrâneos norte-americanos que é possível que uma sociedade seja relativamente irreligiosa e, ainda assim, forte, saudável, moral e próspera.

Há mais ou menos quatro anos, a Cambridge University Press [editora universitária] me pediu para escrever um capítulo de um livro a respeito de quantos ateus existem no mundo. Então, eu passei cerca de seis meses procurando por todas as pesquisas nacionais e internacionais que eu pudesse encontrar. No fim, as pesquisas mostraram que a Dinamarca e a Suécia são, talvez, os países mais irreligiosos do mundo. Muitas pessoas, na Dinamarca e na Suécia, dizem acreditar em Deus, mas muito poucas dão importância a essa crença. Muito poucas pessoas rezam a Deus, ou acreditam que o Deus literal da Bíblia é real, ou acreditam que a Bíblia é divina.

Esses países têm os menores índices de crença na vida após a morte, na ressurreição de Jesus, no céu e no inferno etc. Além disso, têm os menores índices do mundo em termos de participação semanal na igreja. E mesmo assim, apesar de tudo isso, estão entre as sociedades mais prósperas, igualitárias, civilizadas e humanas da Terra. Quando olhamos os níveis de sucesso social, da alfabetização à expectativa de vida, da igualdade de gênero aos padrões ambientais, da saúde à democracia, da criminalidade aos cuidados com os mais velhos e com as crianças, as nações da Dinamarca e da Suécia estão no topo da lista.

Em resumo, a Dinamarca e a Suécia provam que é possível que as sociedades sejam relativamente não-religiosas e ainda assim muito honestas e boas. Eu quis que os meus conterrâneos norte-americanos soubessem disso.

Para entender melhor a falta de religião na Escandinávia, assim como melhor compreender a cultura de lá, eu vivi na Dinamarca durante 14 meses, em 2005-2006. E, durante esse tempo, eu realizei 149 entrevistas em profundidade com dinamarqueses e suecos de todas as classes sociais. Essas entrevistas me permitiram ir mais fundo do que os dados das pesquisas e realmente tentar entender o secularismo escandinavo.

Minhas descobertas principais: dinamarqueses e suecos são, de fato, muito seculares. E, mesmo que eles não tenham crenças religiosas fortes, geralmente são muito satisfeitos. Não acreditam na vida após a morte, mas mesmo assim eles ainda levam vidas repletas e valiosas. E não acham que exista um “significado religioso último” para a vida, e mesmo assim eles ainda aproveitam o seu tempo aqui na Terra e fazem o melhor que podem com ele. Finalmente, eu tentei entender por que essas nações são tão contrárias à religião e em que sentido elas são diferentes dos Estados Unidos no que se refere à religião e à cultura política.

IHU On-Line – Em que sentido a falta de religião está ligada à satisfação das sociedades da Dinamarca e da Suécia?

Phil Zuckerman – A Dinamarca está no topo de todas as pesquisas internacionais que se referem à felicidade. A Suécia também está bem lá em cima. Os dinamarqueses e os suecos parecem ser pessoas razoavelmente satisfeitas. Isso está ligado à falta de religião deles? É difícil dizê-lo. É ainda mais difícil prová-lo. Eu não acho que uma falta de religião, por si só, faça com que os dinamarqueses e os suecos se sintam felizes ou satisfeitos. Pelo contrário, nós só temos que notar que a falta de religião ou a falta de uma conexão forte com Deus parece não levar ao desespero, à depressão, à tristeza ou à apatia. Em outras palavras, a falta de uma fé forte não causa necessariamente a felicidade, mas também não é uma barreira ou um impedimento.

IHU On-Line – Você não concorda que, de certa forma, essas sociedades alcançaram esse bem-estar social por um substrato cristão de raízes antiqüíssimas? O inconsciente coletivo cristão que acompanhou o desenvolvimento dessas sociedades não teve importância nesse sentido?

Phil Zuckerman – Definitivamente. Não se questiona que certos valores cristão, ao longo dos séculos, ajudaram a dar forma a esses estados de bem-estar social. Não se questiona que os ensinamentos de Lutero tiveram o seu papel, assim como a visão religiosa de Grundtvig [1]. Entretanto, devemos ser cuidadosos por diversas razões.

Primeiro, aqueles que construíram o estado de bem-estar social tendiam a ser democratas sociais seculares, que eram, muitas vezes, anti-religiosos. Não foram os dinamarqueses e suecos fortemente religiosos que construíram o estado de bem-estar social. Então, parece um pouco injusto dar muito crédito ao cristianismo, quando foram os dinamarqueses e suecos seculares que verdadeiramente criaram as nações modernas e prósperas da Dinamarca e da Suécia que nós hoje admiramos.

IHU On-Line – Em uma sociedade religiosa, os valores humanos estão baseados em uma concepção que vai além do próprio humano, chegando a Deus. Em que estão baseados os valores humanos em uma sociedade irreligiosa?

Phil Zuckerman – Simples: no valor fundamental da vida humana. Os dinamarqueses e os suecos têm um respeito muito forte pela dignidade humana. Eles criaram sociedades com as menores taxas de pobreza do mundo, as menores taxas de crimes violentos do mundo e o melhor sistema de educação e de saúde do mundo. Eles fizeram isso não como uma tentativa de agradar ou alcançar Deus, mas porque vêem um valor manifesto na vida humana e acreditam que o sofrimento é um mal em e além de si mesmo.

Não é necessário acreditar em Deus para acreditar na justiça. De fato, se poderia argumentar que aqueles que acreditam fortemente em Deus podem ser mais indiferentes e assumir que “tudo está nas mãos de Deus”, enquanto que os seculares sabem que a possibilidade de construir uma vida e um mundo melhores está nas mãos deles e apenas deles. Então, os dinamarqueses e os suecos contaram apenas com o seu próprio esforço – não com orações a Deus.

IHU On-Line – Podemos assumir que uma sociedade irreligiosa não é a garantia do inferno na terra. Porém, quais seriam suas principais limitações e problemas sociais? Quais seriam suas causas?

Phil Zuckerman – Nenhum país é livre de problemas. Nenhuma sociedade é livre de quaisquer erros ou fraquezas. Sim, existem problemas na Dinamarca e na Suécia. Mas eu diria que, independentemente de quais sejam esses problemas, eles comumente são piores em qualquer outro lugar. Quais limitações ou problemas podem surgir em sociedades seculares? Eu não posso dizer com certeza. Eu não tenho resposta.

IHU On-Line – Em seu livro, você afirma que uma “sociedade sem Deus não é apenas possível, como também pode ser moral, próspera e completamente agradável”. Essa é apenas uma constatação ou também uma sugestão? Sua intenção é defender e propor uma sociedade ateísta?

Phil Zuckerman – Eu não tenho nenhum desejo de propor uma sociedade ateísta. Eu acho que a religião pode ser uma coisa boa e moral. Eu acho que a religião oferece histórias e rituais maravilhosos, que os líderes religiosos ajudam as pessoas durante tempos difíceis ou nos ritos de passagem e que a religião – como qualquer criação humana – pode, às vezes, ser uma força potencial do bem no mundo. Eu não estou recomendando que as sociedades se tornem seculares. Eu estou simplesmente tentando mostrar ao mundo que o secularismo não é um mal em ou além de si mesmo, que a religião não é o ÚNICO [sic] caminho para se criar uma sociedade saudável e que precisamos reconhecer que as nações mais religiosas hoje são as mais caóticas, miseráveis e corruptas, e a tendência é que as sociedades menos religiosas hoje sejam as mais estáveis, seguras e humanas. As pessoas podem fazer o que quiserem com essas informações.

IHU On-Line – Na sua opinião, qual a explicação para a grande maioria da população que se considera religiosa em países como o Brasil? Seríamos menos “satisfeitos”?

Phil Zuckerman – Eu não sei se as pessoas são menos satisfeitas e contentes no Brasil por si sós (todo brasileiro que eu já conheci era muito feliz e satisfeito!). O que eu sei é que, no Brasil, vocês têm taxas de pobreza e de criminalidade mais altas, níveis muito altos de desigualdade, de corrupção política, um sistema de saúde mais pobre, uma igualdade de gênero mais fraca etc. Vocês têm centenas de milhares de desabrigados vivendo nas ruas, dezenas de milhares de crianças pedindo comida etc. Claro, vocês também têm Milton Nascimento e Os Mutantes. Então, quem pode reclamar?

IHU On-Line – E nos EUA mesmo, país plenamente “satisfeito” em termos sociais, como o senhor explica a grande expansão de seitas cristãs?

Phil Zuckerman – Explicar a religião nos EUA é um assunto de grande importância – e eu abordo isso no meu livro. Em poucas palavras, os altos índices de religiosidade nos EUA têm a ver com o seguinte: a religião é pesadamente comercializada e agressivamente “vendida” aqui. Nós também temos altas taxas de pobreza, de criminalidade e de desigualdade, nós também temos altos índices de diversidade racial e étnica e um excesso de comunidades imigrantes – tudo isso contribui com a nossa forte religiosidade aqui nos EUA.

IHU On-Line – Em seu livro, você diferencia o ateísmo ditatorial e o democrático, assim como a religiosidade ditatorial e a democrática. Em que se fundamenta essa diferenciação?

Phil Zuckerman – Simples: o ateísmo é forçado sobre a população ou não? Na antiga URSS, a religião se tornou virtualmente ilegal, e as pessoas que eram fortemente religiosas enfrentaram todos os tipos de punições possíveis, incluindo a tortura e a prisão. Esse também foi o caso da Albânia. E da Coréia do Norte. Se uma sociedade é regida por fascistas que impõem o ateísmo sobre uma população relutante, ele não é orgânico. É forçado. Entretanto, se olharmos os países democráticos onde a religião é simplesmente abandonada pelas pessoas livremente ao longo do tempo e sem nenhuma coerção governamental (como na Grã-Bretanha, nos Países Baixos, na Escandinávia etc.), então podemos dizer que esse é um secularismo mais orgânico, verdadeiro, livre e honesto.

IHU On-Line – Não se poderia ler em seu livro um pouco de “preconceito” com os ateus, afirmando que eles são “bons”, e um pouco de “obviedade” com os religiosos, por mostrar que eles também são humanos e têm o direito de errar, inclusive socialmente?

Phil Zuckerman – Eu não tenho certeza do que você quer dizer com essa questão. Eu não sei se os ateus são “bons”. Tudo o que eu sei é que as sociedades menos religiosas da Terra hoje tendem a ser as mais saudáveis, mais morais, mais igualitárias e mais livres – e as nações mais religiosas da Terra hoje tendem a ser as mais corruptas, pobres, dominadas pelo crime e caóticas. Os leitores podem fazer o que quiserem com essa informação. E eu sei que as pessoas relativamente não-religiosas que eu conheci e/ou entrevistei na Escandinávia estavam entre as pessoas mais gentis e mais humanas que eu já conheci – e tudo sem muita fé em Deus.

Notas

1. Nikolai Frederik Severin Grundtvig (1783-1782) é uma das personalidades mais importantes na história da Dinamarca. Professor, escritor, poeta, filósofo, historiador, pastor e político, Grundtvig teve grande influência na história dinamarquesa. Os escritos de Grundtvig contribuíram para o surgimento do nacionalismo dinamarquês, a formação de cultura democrática e o desenvolvimento econômico. Convertido ao luteranismo em 1810, publicou “Kort Begreb af Verdens Krønike i Sammenhæng” [A crônica do primeiro mundo], de 1812, uma apresentação da história européia em que tenta explicar como Deus se faz presente na história humana e no qual critica a ideologia de diversos expoentes dinamarqueses.  Em 1825, publicou “Kirkens Gienmæle” [A réplica da igreja], uma resposta à obra de H. N. Clausen sobre o protestantismo e o catolicismo. Para Clausen, apesar de a Bíblia ser a principal base do cristianismo, ela era uma expressão inadequada de seu sentido global. Grundtvig chamou Clausen de professor anticristão e defendeu que o cristianismo não era uma teoria para ser derivada da Bíblia e elaborada por estudiosos, questionando o direito dos teólogos de interpretar a Bíblia. Por causa disso, foi proibido de pregar pela Igreja Luterana durante sete anos. Entre 1837 e 1841, publicou “Sang-Værk til den Danske Kirke” [Obra musical para a Igreja dinamarquesa], uma rica coleção de poesia sacra. No total, Grundtvig escreveu ou traduziu cerca de 1.500 hinos. A partir de 1830, deu origem ao movimento “Folkehøjskole” [alta escola popular] da Dinamarca, que influenciou a educação de adultos nos EUA na primeira metade do século XX, por meio de um tipo singular de escola, do e para o povo. As reflexões de Grundtvig sobre educação eram norteadas por cinco idéias centrais: a palavra viva (det levende ord), iuminação para a vida (livsoplysning), iluminação do Povo (folkeoplysning), dialógo equilibrado (Vekselvirkning) e as pessoas comuns acima das educadas (folket overfor de dannede).

Mais detalhes sobre o assunto em Demografia do Ateísmo

Para copiar, ler e guardar – texto 4

 

A improbabilidade de Deus
Richar Dawkins

Muito do que as pessoas fazem é em nome de Deus.  
 
Irlandeses explodem uns aos outros em nome de Deus. Árabes explodem-se a si mesmos em seu nome. Imames e aiatolás oprimem mulheres em seu nome. Papas e padres celibatários interferem na vida sexual das pessoas em seu nome. Judeus shohets cortam a garganta de animais em seu nome. As conquistas históricas da religião – cruzadas sangrentas, inquisições torturantes, conquistadores genocidas, missionários destruidores de culturas e toda resistência possível contra o progresso científico – são ainda mais impressionantes. E qual é a parte positiva? Fica cada vez mais evidente que a resposta é “absolutamente nenhuma”. Não há motivos para acreditar na existência de quaisquer tipos de deuses, mas razões bastante boas para concluir que não existem e nunca existiram. Tudo foi apenas um gigantesco desperdício de tempo e vidas. Uma verdadeira piada de proporções cósmicas, se não fosse tão trágico. 
 
Por que as pessoas acreditam em Deus? Para a maioria, a resposta ainda é alguma versão do antigo argumento do “design inteligente”. Nós olhamos a beleza e complexidade do mundo, a forma aerodinâmica da asa de uma andorinha, a delicadeza das flores e das borboletas que as fertilizam; através de um microscópio, vemos vida pulular numa pequena gota d’água, através de um telescópio, vemos a imensidão do Universo. Nós refletimos sobre a complexidade eletrônica e sobre a própria perfeição óptica de nossos olhos. Se possuirmos um pouco de imaginação, tais coisas geram um senso de espanto e reverência. Ademais, não podemos deixar de perceber a óbvia semelhança entre nossos órgãos e os designs cuidadosamente planejados pelos engenheiros humanos. A versão mais célebre desse argumento é a analogia com um “relojoeiro” feita pelo padre William Paley no século XVIII. Mesmo se não soubéssemos o que é um relógio, o caráter de suas engrenagens e molas e como elas se organizam com uma única finalidade nos levaria a concluir “que o relógio forçosamente teve um criador: assim, deve ter existido, em algum tempo e em algum lugar, um artífice, que o construiu com uma finalidade, que compreendeu seu funcionamento, que o projetou”. Se isso é verdade para um relógio relativamente simples, então imagine para um olho, ouvido, rim, fígado, cérebro. Essas lindas, complexas, intrincadas e obviamente pré-planejadas estruturas tiveram um designer, tiveram seu “relojoeiro” – Deus.
 
Esse é um argumento que praticamente todas pessoas pensativas e sensíveis descobrem elas próprias em algum estágio de suas infâncias. Ao longo da maior parte da história ele provavelmente foi muito convincente, pois se auto-evidencia. No entanto, devido a uma das mais surpreendentes revoluções intelectuais da história, agora sabemos que é falso, ou ao menos supérfluo. Sabemos agora que o aparente “pré-planejamento” dos seres vivos deu-se através de processos inteiramente distintos, um mecanismo que prescinde de qualquer designer e que é fruto de leis físicas muito simples: o processo da evolução das espécies através da seleção natural, descoberto por Charles Darwin e, independentemente, também por Alfred Russel Wallace.
 
O que todos esses objetos aparentemente projetados têm em comum? Improbabilidade estatística. Se encontrássemos um cristal transparente com o formato de uma lente rudimentar, não concluiríamos que foi projetado por um opticista: as leis da física por si mesmas são capazes de tal feito; não é muito improvável que esse cristal tenha apenas “acontecido”. Mas caso encontrássemos lentes compostas, cuidadosamente constituídas de modo a evitar aberrações esféricas e cromáticas, com proteção anti-reflexo e com as palavras “Carl Zeis” gravadas em sua lateral, saberíamos que elas não podem ser fruto do acaso. Pegando todos os átomos de tal objeto e jogando-os ao acaso sob influência das forças naturais da física, é teoricamente possível que, por pura sorte, os átomos venham a organizar-se no padrão das lentes compostas Zeiss. Mas o número de outras combinações atômicas igualmente possíveis seria tão absurdamente maior que podemos descartar totalmente a hipótese. O acaso está fora de questão como explicação. 

Esse argumento não é circular. Entretanto, talvez pareça ser porque, poder-se-ia argumentar, todos os possíveis arranjos dos átomos são igualmente improváveis. Analogamente ao exemplo anterior, se uma bola de golfe cai especificamente sobre uma folha de gramínea, seria tolo dizer: “entre os bilhões de folhas sobre as quais ela poderia ter caído, acabou caindo justamente nesta. Que coincidência incrível!” 

A falácia é, obviamente, que a bola obrigatoriamente precisa cair em algum lugar. Um evento desse tipo apenas seria surpreendentemente improvável se o especificássemos antes dele ocorrer: por exemplo, um homem vendado, sem referencial de direção, dá uma tacada a esmo e acerta o buraco de prima. Isso seria verdadeiramente admirável, pois a trajetória da bola foi definida a priori. Entre todos os trilhões de modos diferentes de organizar os átomos de um telescópio, apenas uma minoria teria alguma utilidade. Apenas uma minúscula minoria possuiria as palavras “Carl Zeiss” gravadas, ou quaisquer outras palavras conhecidas pelo homem. O mesmo vale para o relógio: de todos s bilhões de possíveis combinações, apenas uma reduzidíssima quantidade mediria o tempo precisamente ou teria alguma outra utilidade. Isso se aplica, a fortiori, para nossos órgãos. Dentre todas as possíveis formas de organizar um corpo, apenas uma quantidade infinitesimal sobreviveria, lutaria por alimento e se reproduziria. Pode-se viver de muitas formas, é verdade: pelo menos dez milhões (se considerarmos o número de espécies distintas atualmente existentes). O fato é que, apesar de haver uma grande quantidade de formas através das quais podemos viver, certamente há uma quantidade esmagadoramente maior de formas através das quais não há vida alguma!
 
Podemos seguramente concluir que nossos corpos são demasiado complexos para terem surgido do acaso. Então como vieram a existir? A resposta é que o “acaso” entra na história, mas não apenas como um acaso simples e isolado. Em vez disso, incontáveis séries de pequenos acasos, minúsculas mudanças pequenas o suficiente para serem passíveis de ocorrência casual, foram ocorrendo uma após a outra em seqüência. Essas pequenas alterações casuais são advindas de mutações genéticas, mudanças aleatórias – erros de fato – no material genético. Elas dão origem às mudanças na forma corporal existente. Entretanto, a maioria dessas mudanças é prejudicial e acarreta a morte do indivíduo; uma minoria delas, contudo, é positiva, gerando um leve aperfeiçoamento, o que implica aumento na taxa de sobrevivência e reprodução. Através desse processo de seleção natural, as mudanças aleatórias que forem benéficas eventualmente tornar-se-ão predominantes. Agora o cenário está novamente pronto para outra mudança sutil. Após, digamos, mil dessas pequenas mudanças, cada uma servindo de base para a outra, o resultado final torna-se, pelo processo de acumulação, excessivamente complexo para surgir de uma só vez.
 
Por exemplo, é teoricamente possível que um olho tenha surgido do nada, num único golpe de sorte. É teoricamente possível que uma “receita” tenha sido “escrita” por uma grande quantidade de mutações gênicas. Se todas essas mutações ocorressem simultaneamente, um olho completo surgiria literalmente do nada. Apesar disso ser possível em teoria, na prática é inconcebível. A quantidade de sorte necessária é muito grande. A “receita correta” envolve uma enorme quantidade de genes concomitantemente, é uma combinação em particular entre trilhões de outras. Podemos, certamente, descartar a possibilidade de tal coincidência milagrosa. Mas é perfeitamente plausível que o olho moderno tenha surgido de algo parecido com ele, mas não igual: um olho levemente menos elaborado. Através do mesmo processo, esse “olho menos elaborado” surgiu de outro ainda menos sofisticado, e assim por diante. Admitindo uma quantidade suficiente de pequenas diferenças entre cada estágio evolucionário e seu predecessor, seria possível derivar o olho moderno do nada, simplesmente da pele.
 
Quantos estágios intermediários podemos postular? Isso depende da quantidade de tempo disponível. Houve tempo suficiente para que os olhos evoluíssem passo a passo a partir do nada? Os fósseis nos dizem que a vida vem evoluindo na Terra há mais de três bilhões de anos. É praticamente impossível à mente humana imaginar tal quantidade de tempo. Nós, naturalmente e felizmente, tendemos a achar que nossas vidas são bastante longas, apesar de provavelmente nãovivermos nem um século. Nestes 2000 anos desde que Jesus viveu, o lapso de tempo foi grande o suficiente para obscurecer a distinção entre história e mito. Você pode imaginar uma quantidade de tempo um milhão de vezes maior? Suponha que desejássemos escrever toda a história num único pergaminho. Colocando toda a história depois de Cristo em um metro de pergaminho, quão longa seria a parte correspondente à era pré-cristã, desde o começo da evolução? A resposta seria a distância entre Milão e Moscou.
 
Pense nas implicações disso em relação à quantidade de possíveis mudanças evolucionárias. Todas as raças de cachorros domésticos – pequineses, poodles, são bernardos e chiuauas – originaram-se dos lobos há uma quantidade de tempo que pode ser medida em centenas ou no máximo milhares de anos: não mais que dois metros na estrada entre Milão e Moscou. Pense na quantidade de diferenças entre um lobo e um pequinês, agora multiplique essa quantidade por um milhão. Vendo por esse prisma, fica fácil acreditar que o olho moderno poderia ter surgido gradualmente, passo a passo.
 
Continua sendo necessário, para que tal explicação seja plausível, que todos os intermediários do processo evolucionário, digamos, da pele até o olho moderno, tenham sido favorecidos pela seleção natural; haveria uma sofisticação gradual sobre seu predecessor, ou ao menos ele teria sobrevivido. Não teria muito valor provar apenas em teoria que houve uma cadeia de intermediários levemente distintos que desembocou no olho moderno, se muitos desses intermediários acabassem morrendo. Alguns argumentam que todas as partes do olho precisariam estar juntas e organizadas ou ele não funcionaria em absoluto. Meio olho, segundo esse argumento, é tão útil quanto nenhum. Não se voa com meia asa; não se ouve com meio ouvido. Assim sendo, não poderia haver uma série gradual de intermediários que resultaria no olho, asa ou ouvido modernos. 

Esse argumento é tão ingênuo que apenas fico a imaginar quais são os motivos subconscientes que levam uma pessoa a defendê-lo. Meio olho, obviamente, não é inútil. Indivíduos com catarata que tiveram seus cristalinos removidos cirurgicamente não podem enxergar bem sem óculos, mas se estivessem cegos seria muito pior. Sem o cristalino é impossível focalizar uma imagem detalhadamente, mas ainda assim pode-se evitar colisões com obstáculos e também detectar a sombra de um possível predador.

O argumento de que não se pode voar com meia asa é contestado pelo grande número de animais planadores muito bem-sucedidos, incluindo muitos tipos de mamíferos, lagartos, sapos, cobras e lulas. Muitos animais que vivem em copas de árvores têm membranas entre suas juntas que realmente funcionam como semi-asas. Quando caem de uma árvore, o aumento da superfície de contado proporcionado pelas membranas pode significar a diferença entre a vida e a morte. Sejam as membranas grandes ou pequenas, sempre haverá uma altura crítica na qual elas podem salvar-lhes a vida. Assim, quando seus descendentes desenvolveram essa “superfície extra”, passou a haver um menor índice de mortes, pois sobreviviam mesmo se caíssem de alturas maiores. Desse modo, através de incontáveis mudanças quase imperceptíveis, chegamos-se às asas atuais.
 
Olhos e asas não “brotam” de uma só vez. Isso seria tão improvável quanto acertar a combinação de um grande cofre bancário. Mas, se formos girando o painel do cofre ao acaso, e a cada vez que acertássemos a posição, a porta se abrisse um pouco mais, rapidamente conseguiríamos destrancá-lo. É esse o “mecanismo secreto” através do qual evolução pela seleção natural alcança o que, a princípio,
parecia impossível. Coisas que não podem ser plausivelmente derivadas de predecessores muito distantes podem plausivelmente ser derivadas de predecessores levemente diferentes. Se houver uma série longa o suficiente dessas mudanças sutis, uma coisa pode dar origem a qualquer outra. A evolução, então, é teoricamente capaz de fazer o que, a princípio, parecia uma prerrogativa de Deus. Mas há evidências de que a evolução ocorreu? A resposta é sim; as evidências são esmagadoras. Milhões de fósseis são encontrados exatamente nos locais e profundidades calculadas caso a evolução tivesse ocorrido. Jamais foi encontrado um fóssil que serviu de evidência contra a teoria da evolução: a descoberta de um mamífero incrustado em rochas mais antigas que os peixes, por exemplo, seria suficiente para refutar o evolucionismo. 

Os padrões de distribuição dos animais e plantas nos continentes e ilhas são exatamente os previstos caso houvessem evoluído de um ancestral comum através de um processo lento e gradual. Padrões de semelhança entre animais e plantas são exatamente os esperados caso tivessem parentesco próximo a alguns e distante a outros. O fato de o código genético ser o mesmo em todas as criaturas sugere fortemente que descendemos de um ancestral comum. As evidências da evolução são tão contundentes que o único modo de “salvar” a teoria criacionista seria argumentar que Deus, deliberadamente, plantou enormes quantidades de evidências para nos enganar, fazendo com que a evolução apenas parecesse ter acontecido. Em outras palavras, os fósseis, a distribuição geográfica dos animais e assim por diante, são apenas um grande truque. Alguém gostaria de adorar um Deus capaz de tal feito? É certamente mais sensato, além de cientificamente coerente, aceitar as evidências: todas as criaturas possuem parentesco e descendem de um ancestral remoto que viveu há mais de três bilhões de anos.

O argumento do design foi destruído como justificativa para a crença em Deus. Há outros argumentos? Algumas pessoas crêem em Deus devido ao que julgam ser uma “revelação interna”. Tais revelações não são sempre edificantes, mas indubitavelmente parecem reais. Muitos pacientes de manicômios crêem efetivamente que são Napoleão Bonaparte ou Deus em pessoa. Não há dúvida quanto ao poder que tais convicções exercem sobre eles, mas não existem motivos para que o resto de nós acredite nisso. Na verdade, se várias crenças se contradizem mutuamente, não podemos aceita-las em absoluto.
 
Um pouco mais precisa ser dito. A evolução através da seleção natural explica muitas coisas, mas não pode ter surgido do nada. A evolução não poderia existir até que houvesse algum tipo, mesmo que rudimentar, de reprodução e hereditariedade. A hereditariedade moderna baseia-se no DNA, o qual é excessivamente complexo para ter surgido espontaneamente. Isso indica que provavelmente deve ter existido algum tipo de sistema hereditário – agora extinto – simples o suficiente para surgir do acaso e de leis químicas, que proporcionou o meio no qual a forma primitiva da seleção natural cumulativa poderia iniciar-se. O DNA foi apenas um produto de tal seleção.
 
Antes dessa “seleção natural primitiva”, houve um período no qual compostos químicos complexos eram formados a partir de compostos simples e, antes disso, os elementos químicos foram construídos de outros ainda mais simples; tudo muito bem explicado por leis físicas. E ainda antes disso, logo após o big-bang – que deu início ao Universo –, praticamente tudo era formado por hidrogênio. Há uma tentação para argumentar que, apesar de Deus não ser necessário para explicar como a intrincada organização do Universo – que se deve fundamentalmente a leis físicas – começou, precisamos de Deus para explicar a origem de todas as coisas. Tal visão não deixa para Deus muitas funções: ele apenas daria início ao big-bang e esperaria tudo acontecer.
 
O físico-químico Peter Atkins, em seu maravilhoso livro “A Criação”, postula que o “Deus indolente” esforçou-se para fazer o mínimo de trabalho possível na criação do Universo. Atkins explica como cada passo na história do Universo prosseguiu, através de simples leis físicas, de seu predecessor. E assim demonstrou que a quantidade de esforço que o “criador preguiçoso” precisaria ter despendido seria, de fato, zero. Os detalhes sobre as fases iniciais do Universo concernem ao âmbito da física, e já que sou biólogo, estou mais preocupado com fases subseqüentes da complexidade evolucionária. Para mim, o importante é que, mesmo sendo necessário postular um mínimo irredutível que precisaria estar presente no começo de tudo para que as coisas se iniciassem, esse mínimo irredutível, com certeza, seria extremamente simples.
 
Por definição, explicações fundamentadas em premissas simples são mais plausíveis e satisfatórias que teorias segundo as quais é necessário postular eventos complexos e estatisticamente improváveis, e certamente não se pode pensar em nada muito mais complexo e improvável que um Deus todo-poderoso.

Para copiar, ler e guardar – texto 5

Os Horrores da Bíblia  

Autor: Huascar Terra do Valle

[Ortografia original]

 

Para quem gosta de histórias de horror, a Bíblia é um prato cheio. Escondido no meio de milhares de versículos, podemos topar com cenas de arrepiar os cabelos.

Em Gênesis, por exemplo, encontramos um episódio, no mínimo, bizarro. Como todos sabem, Abraão foi o patriarca dos Hebreus. Com seu pai, sua mulher e seu sobrinho Lot, Abraão saiu da cidade de Ur, no baixo Eufrates. Encaminharam-se para Harrã, nas cabeceiras do mesmo rio, uma cidade santa dedicada ao culto de Sin, o deus-lua, o mais importante do panteão sumeriano. Depois, Lot se separou de Abraão e foi morar em Sodoma, a cidade do pecado.

Conta a Bíblia que, certa vez, Lot hospedou dois anjos em sua casa. À noite, alguns homens de Somorra bateram à porta de Lot e disseram-lhe que sabiam que ele tinha dois hóspedes e que eles, os homens de Sodoma, queriam ter relações sexuais com os visitantes. Quem duvidar que confira: Gênesis 19.

Lot ficou apavorado. Para acalmar os tarados, disse que tinha duas filhas virgens e que as daria para os homens, a fim de poupar seus hóspedes. Poderiam fazer o que quisessem com suas filhas.

Os homens de Sodoma não aceitaram a proposta e invadiram a casa. Então, os anjos cegaram os homens e mandaram Lot fugir de Sodoma, que seria destruída por Deus.

Os horrores continuam. Depois que fugiram de Sodoma, as filhas de Lot disfarçaram-se de prostitutas, embebedaram o pai com vinho e tiveram relações sexuais com ele, a fim de “preservar sua raça”. Das relações incestuosas nasceram Moab e Amon, patriarcas dos moabitas e dos amonitas, tribos árabes vizinhas de Israel.

Antes deste espetáculo grotesco, encontramos outra cena curiosa. O Deus bíblico de então, que ainda não tinha revelado seu nome aos hebreus (Iavé), disse a Abraão que iria destruir Sodoma. Assustado com a ameaça divina, Abraão pergunta a Deus o que faria se houvesse em Sodoma cinqüenta homens de bem. Deus disse que não destruiria a cidade, em respeito aos cinqüenta homens de bem. Abraão anima-se e começa a pechinchar com Deus. Pergunta o que Deus faria se houvesse apenas quarenta e cinco homens de bem. Deus atende à pechincha e diz que pouparia a cidade. Depois Abraão baixa para quarenta, e Deus concorda. No fim, Deus concorda em não destruir a cidade se encontrasse apenas dez homens de bem.

O que é assustador nesta conversa é a noção antropomórfica do Deus do Antigo Testamento. O Deus dos primeiros capítulos da Bíblia, embora seja todo-poderoso, criador dos céus e da terra, é uma figura humana, com pernas e braços, cabeça, e certamente uma respeitável barba. Possivelmente tem uma esposa e até uma residência que, de acordo com o velho testamento, é o Templo de Salomão, que, aliás, foi destruído por Tito Flávio Vesásiano há quase dois milênios.

Em outro local, depois que Adão e Eva cometeram o pecado original, sentem vergonha de Deus. Quando pressentem que Deus se aproxima, escondem-se dele atrás de um arbusto. Diz o texto sagrado que Deus estava aproveitando “a fresca da manhã”.

Este é o livro mais vendido no mundo, e o mais respeitado. Consta que foi escrito sob inspiração divina, como se o próprio Deus o tivesse escrito. Ele é tão respeitado que, em alguns tribunais, as pessoas fazem juramento com as mãos sobre a Bíblia. A explicação é simples. Embora a Bíblia seja livro mais vendido de todos os tempos, é também o menos lido.

“Não matarás”, reza o sexto mandamento de Jeová (Êxodo 20:13). Segundo a tradição, a Bíblia foi escrita sob inspiração divina, como se o próprio Deus a tivesse escrito.

Se Deus é infinitamente bondoso, é inconcebível que ele cometa a mínima crueldade com qualquer ser humano. Assim pensam os que veneram a Bíblia. Veneram porque não a leram.

Este Deus, criador dos céus e da terra, não poderia ser bom para uns e mau para outros. No entanto, podemos encontrar na Bíblia um desfile de horrores, que nada fica a dever aos filmes de Frankenstein. Quem não acreditar, que confira.

No começo do segundo milênio AC, Jeová, o deus do Antigo Testamento, retira Abraão e sua família da cidade de Ur, na baixa Mesopotâmia, e dá-lhes de presente uma terra “onde corre leite e mel”, a lendária Canaã (Palestina).

Jeová, o mesmo que disse “não matarás”, diz, com todas as letras que, para se apossarem da terra que lhes foi ofertada, eles têm que aniquilar sete nações (Deuteronômio, 7:1-6): “Quando o senhor teu Deus te introduzir na terra à qual passará a possuir, e tiver lançado muitas nações diante de ti, os heteus, os girgaseus, os amorreus, os cananeus, os ferezeus, os heveus, os jebuseus, sete nações mais numerosas e mais poderosas do que tu; e o Senhor Deus as tiver dado diante de ti, para as ferir, totalmente as destruirá; não farás com elas aliança, nem terás piedade delas… Derribareis os seus altares, quebrareis suas colunas, cortareis os seus postes-ídolos e queimareis suas imagens de escultura”.

As ordens de Jeová são claras, como em Deuteronômio 7:16: “E tens que consumir todos os povos que Jeová, teu Deus, te dá. Teu olho não deve ter pena deles…”.

Em Deuteronômio 13:15-16, o rol de barbaridades atinge o clímax: “Então, certamente, ferirás a fio de espada os moradores daquela cidade, destruindo-a completamente e tudo o que nela houver, inclusive os animais domésticos. Ajuntarás os despojos no meio da praça e a cidade e todo o seu despojo queimarás por oferta total ao Senhor, teu Deus, e será montão perpétuo de ruínas, e nunca mais se edificará”.

Estas barbaridades são apenas uma amostra do verdadeiro festival de horrores do Antigo Testamento. No entanto, mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo – católicos, protestantes, evangélicos e judeus – consideram este livro a voz de um Deus justo, bondoso, misericordioso, criador dos céus e da terra, que oferece aos homens a oportunidade de salvação eterna em um céu ou um paraíso.

Quantas pessoas foram mortas obedecendo as ordens de Jeová? Qual a quantidade de sofrimento causada pelo aniquilamento dessas nações?

Este mesmo Deus, tão misericordioso, não só pregou as barbaridades que são encontradas na Bíblia como, por meio de seus auto-designados representantes, ainda ameaça com a crueldade infinita do inferno àqueles que, embora tenham levado uma vida santa, esqueceram-se de ir à missa aos domingos ou deixaram de confessar o último pecado.

 

Fote: Ateus.net

O que você diz para as crianças?


“Querida Juliet,   

Agora que você completou dez anos, quero lhe falar a respeito de algo que é muito importante para mim. Você já se perguntou alguma vez como é que sabemos as coisas que sabemos? Como é que sabemos, por exemplo, que as estrelas, que parecem minúsculos furinhos de alfinete no céu, são na verdade enormes bolas de fogo como o sol e se encontram muito, muito distantes? E de que modo sabemos que a Terra é uma esfera de menor tamanho, girando ao redor de uma dessas estrelas, o Sol?

A resposta a essas perguntas se dá ‘pelas evidências’. Às vezes, ‘evidência’ significa simplesmente ver (ou ouvir, perceber pelo tato, pelo olfato…) que algo é verdadeiro. Os astronautas viajaram até muito longe da Terra para ver com os próprios olhos que ela é redonda. Às vezes, os nossos olhos precisam de auxílio. A ‘estrela d’alva’ parece um brilho cintilante no céu, mas com a ajuda de um telescópio podemos ver que ela é uma linda esfera — o planeta que chamamos Vênus. Quando descobrimos algo pela visão direta (ou pela audição, pelo tato…), chamamos isso de ‘observação’.

Muitas vezes, as evidências não nascem da observação pura e simples, mas a observação está sempre na base delas. Quando ocorre um assassinato, geralmente ele não é observado por ninguém (exceto pelo assassino e pela vítima!). Porém os detetives podem reunir um grande número de observações de outro tipo que podem apontar na direção de um suspeito em particular. Se as impressões digitais de uma pessoa são iguais àquelas encontradas num punhal, isso é uma prova de que essa pessoa tocou nele. Não se trata de uma prova de que ela cometeu o crime, mas pode representar uma ajuda ao ser reunida a um conjunto de outras provas. Às vezes um detetive trabalha com uma série de observações, e de repente se dá conta de que todas elas se encaixam e fazem sentido se Fulano-de-tal tiver cometido o crime.

Os cientistas — os especialistas em descobrir o que é verdadeiro em relação ao mundo e ao universo — quase sempre agem como detetives. Eles têm uma intuição (que chamamos de ‘hipótese’) de que uma certa coisa seja verdadeira. Eles então dizem para si mesmos: se isso fosse realmente verdade, deveríamos observar tal e tal coisa. Isso é chamado de ‘predição’. Por exemplo, se o mundo é realmente redondo, podemos predizer que um viajante, indo sempre adiante numa mesma direção, deverá chegar, por fim, ao mesmo lugar de onde partiu. Quando um médico nos diz que estamos com sarampo, ele não olha para nós e prontamente vê o sarampo. Sua primeira olhada o faz pensar na hipótese de que estejamos com sarampo. Então ele diz a si mesmo: se essa pessoa estiver realmente com sarampo, eu deveria observar… Ele então examina sua lista de predições e as testa com seus olhos (o paciente tem manchas?), com suas mãos (a testa está quente?) e com seus ouvidos (o peito apresenta aquele chiado característico dos pacientes com sarampo?). Só depois disso ele chega a uma decisão e diz: ‘Meu diagnóstico é de que essa criança está com sarampo.’ Há ocasiões em que os médicos necessitam fazer outros testes, como exames de sangue e raios X, que ajudam os olhos, as mãos e os ouvidos deles a fazer observações.

O modo como os cientistas usam as evidências para fazer descobertas sobre o mundo é muito mais engenhoso e mais complicado do que eu poderia explicar numa pequena carta com esta. Mas agora que já lhe falei das evidências, que são uma boa razão para acreditarmos em alguma coisa, quero alertá-la contra três razões indevidas para acreditar no que quer que seja. Elas são chamadas de ‘tradição’, ‘autoridade’ e ‘revelação’.

Primeiro, a tradição. Alguns meses atrás, fui à tv para um debate com aproximadamente 50 crianças. Elas haviam sido convidadas pelo fato de terem sido criadas em várias religiões diferentes. Algumas haviam sido criadas na religião cristã, outras na religião judaica, muçulmana, hindu, sique, etc. O entrevistador foi de uma criança à outra, perguntando em que elas acreditavam. As respostas mostram exatamente o que eu quero dizer por ‘tradição’. Aquilo em que elas acreditavam não tinha nenhuma relação com algum tipo de evidência. As crianças simplesmente apresentaram as crenças de seus pais e avós, que por sua vez também não se basearam em evidências de nenhum tipo. Elas disseram coisas como: ‘Nós, os hindus, acreditamos nisso e naquilo.’ ‘Nós, os muçulmanos, acreditamos nisso e naquilo.’ ‘Nós, os cristãos, acreditamos em outras coisas.’

É claro que, uma vez que elas acreditavam em coisas diferentes, não é possível supor que todas estivessem certas. O entrevistador pareceu considerar muito adequado que isso fosse assim, já que nem ao menos tentou levá-las a debater suas diferenças umas em relação às outras. Mas não é esse o x da questão, na minha opinião. Eu simplesmente gostaria de perguntar de onde vieram suas crenças. Elas vieram da tradição. Ou seja, foram transmitidas dos avós para os pais, e então para os filhos, e assim por diante. Ou ainda por intermédio de livros herdados, de uma geração a outra, ao longo de séculos. As crenças tradicionais em geral se iniciam a partir de quase nada; talvez alguém simplesmente as invente, como as histórias sobre Zeus e Thor. Mas depois de terem sido transmitidas durante alguns séculos, o mero fato de serem tão antigas faz com que pareçam especiais. As pessoas acreditam em certas coisas somente porque as pessoas acreditaram nelas durante séculos. Isso é tradição.

O problema com a tradição é que, não importa há quanto tempo uma história tenha sido inventada, ela permanece, ainda assim, tão falsa quanto era de início. Se inventarmos uma história e a transmitirmos ao longo dos séculos não a tornará nem um pouquinho mais verdadeira!

A maior parte das pessoas na Inglaterra foi batizada na Igreja Anglicana, mas esse é somente um dos muitos ramos da religião cristã. Há uma série de outros, como a Igreja Ortodoxa Russa, os católicos romanos e as Igrejas Metodistas. Todos eles têm crenças diferentes. A religião judaica e a religião muçulmana são ainda mais distintas, e há diversos tipos de judeus e de muçulmanos. As pessoas que acreditam em coisas diferentes uma das outras, mesmo que se trate de diferenças muito pequenas, não raro entram em guerra por causa dessas discordâncias. Isso poderia levá-la a supor que elas tenham razões muito boas — evidências — para acreditar naquilo em que acreditam. Mas, na realidade, suas crenças resultam inteiramente de tradições diferentes.

Vamos falar sobre uma tradição em particular. Os católicos romanos acreditam que Maria, a mãe de Jesus, era tão especial que ela não morreu; em vez disso foi conduzida, na sua forma corpórea, ao Céu. Outras tradições cristãs discordam disso, e afirmam que Maria na verdade morreu como morrem as outras pessoas. Essas religiões não falam muito sobre Maria e, à diferença dos católicos romanos, não a chamam de ‘Nossa Senhora’. A tradição de que o corpo de Maria ascendeu ao Céu não é muito antiga. A Bíblia nada diz sobre como ela morreu ou sobre o momento em que isso se deu; na verdade, a pobre mulher mal é mencionada na Bíblia. A crença de que seu corpo ascendeu ao Céu só foi inventada aproximadamente seis séculos depois do nascimento de Jesus. De início, alguém criou essa história, exatamente do mesmo modo como qualquer outra história do tipo Branca de Neve foi criada. Contudo, ao longo dos séculos, ela se transformou numa tradição e as pessoas começaram a levá-la a sério apenas porque a história havia sido transmitida ao longo de tantas gerações. Quanto mais antiga a tradição se tornava, mais as pessoas a tomavam com seriedade. Finalmente, ela foi considerada uma crença oficial do Catolicismo Romano, o que ocorreu há muito pouco tempo, em 1950. Mas a história não era mais verdadeira em 1950 do que quando foi contada pela primeira vez, seiscentos anos após a morte de Maria.

Voltarei a falar da tradição ao final da minha carta, para examiná-la de outra maneira. Antes disso, porém, preciso falar das duas outras razões impróprias para acreditar em alguma coisa: a autoridade e a revelação.

A autoridade, como uma ração para se acreditar em algo, significa que acreditamos numa coisa porque alguma pessoa importante nos disse para fazê-lo. Na Igreja Católica Romana, o papa é a pessoa mais importante, e as pessoas acreditam que ele está certo porque ele é o papa. Há um ramo da religião muçulmana em que as pessoas importantes são os velhos de barbas chamados de aiatolás. Centenas de jovens muçulmanos são preparados para cometer assassinatos, unicamente porque os aiatolás num país distante lhes dizem para fazê-lo.

Ao mencionar que foi somente em 1950 que finalmente se disse aos católicos romanos que eles deveriam acreditar que o corpo de Maria subiu ao Céu, o que eu quis apontar é que em 1950 o papa disse às pessoas que elas tinham que acreditar nisso. E pronto. O papa disse que era verdade, então só podia ser verdade! Ora, provavelmente uma parte daquilo que o papa disse durante sua vida era verdade e outra parte não era. Não há nenhuma boa razão para que, apenas pelo fato de se tratar do papa, alguém devesse acreditar em tudo o que ele dizia, do mesmo modo como não acreditamos em tudo o que um grande número de pessoas diz. O papa atual recomendou às pessoas que não limitassem o número de filhos que teriam. Se as pessoas seguirem o que ele recomenda de maneira tão servil quanto ele gostaria, os resultados talvez sejam terríveis explosões de fome, doenças e guerras, ocasionadas pela superpopulação.

É claro que, mesmo na ciência, algumas vezes não é possível que vejamos as evidências nós mesmos e, nesse caso, temos que acreditar na palavra de alguém. Eu não vi com meus próprios olhos as evidências de que a luz viaja a 300.000 km/s. No lugar disso, eu acredito em livros que me informaram a velocidade da luz. Isso pode soar parecido com a ‘autoridade’. Mas, na realidade, trata-se de algo bem melhor, porque as pessoas que escreveram os livros viram as evidências e qualquer pessoa tem a liberdade de examiná-las a qualquer momento em que quiser fazê-lo. Isso é muito confortador. Mas nem mesmo os padres afirmam que existem evidências para a história sobre o corpo de Maria voando em direção ao Céu. 

O terceiro tipo de razão indevida para se acreditar em algo é chamado de ‘revelação’. Se tivéssemos perguntado ao papa, em 1950, como ele sabia que o corpo de Maria tinha desaparecido céu adentro, ele provavelmente teria respondido que isso fora ‘revelado’ a ele. Ele se recolheu em seu quarto e rezou, pedindo orientação. Sozinho, o papa pensou e pensou, e sua certeza interior foi se tornando cada vez maior. Quando as pessoas religiosas sentem, no interior delas, que alguma coisa deve ser verdade, muito embora não tenham evidência alguma disso, elas chamam esse sentimento de ‘revelação’. Não são somente os papas que afirmam ter revelações. Um grande número de pessoas religiosas faz o mesmo tipo de afirmação. Essa é uma das principais razões que as levam a acreditar naquilo em que acreditam. Mas, será que essa é mesmo uma boa razão? 

Suponha que eu lhe dissesse que seu cachorro morreu. Você ficaria muito triste, e provavelmente perguntaria: ‘Como isso aconteceu?’ Agora, imagine que eu respondesse: ‘Na realidade, eu não tenho evidências disso. Apenas tenho esse curioso sentimento, bem dentro de mim, de que Pepe está morto.Você ficaria muito zangada comigo por eu ter lhe pregado um susto, pois saberia que um ‘sentimento’ interior não é em si mesmo uma boa razão para se acreditar que um cachorrinho esteja morto. Para isso, necessita-se de evidências. Todos nós temos sentimentos dentro de nós de tempos em tempos; às vezes eles se mostram corretos e outras vezes não. De todo modo, pessoas diferentes podem ter sentimentos opostos e, nesse caso, como faremos para descobrir quais são os sentimentos corretos? A única maneira de saber que um cão está morto é vê-lo morto, ou verificar que seu coração parou de bater, ou ouvir isso de alguém que tenha tido algum tipo de comprovação de que ele está morto.

Às vezes as pessoa dizem que devemos acreditar em sentimentos profundos dentro de nós, caso contrário nunca poderíamos ter certeza de coisas como ‘Minha esposa me ama?’. Mas esse é um argumento ruim. Podemos ter um grande número de indicações de que uma pessoa nos ama. Durante todo o tempo que passamos com ela, vemos e ouvimos uma infinidade de pequenos sinais disso, e eles todos se somam. Não se trata de um puro sentimento interior, à maneira do sentimento que os padres chamam de revelação. Há acontecimentos externos que sustentam o sentimento interior: a troca de olhares, um tom carinhoso na voz, pequenos favores e gentilezas; tudo isso são evidências reais.

Algumas vezes as pessoas têm um forte sentimento interior de que alguém as ama, se que tenham nenhuma evidência disso e, nesses casos, é muito provável que elas estejam completamente enganadas. Há pessoas que têm um forte sentimento de que uma famosa estrela de cinema as ama, quando, na realidade, a estrela de cinema nem sequer sabe quem elas são. Pessoas como essas têm a mente doente. Sentimentos interiores precisam ser sustentados por evidências, caso contrário simplesmente não devemos acreditar neles.

Sentimentos interiores são valiosos na ciência também, mas apenas para nos fornecer idéias que serão testadas mais tarde, por meio da procura de evidências. Um cientista pode ter uma ‘intuição’ a respeito de uma idéia que ele ‘sente’ que esteja correta. Essa não é, em sim mesma, uma boa razão para se acreditar em alguma coisa. Mas pode ser uma boa ração para dedicarmos algum tempo a um experimento específico, ou para olharmos numa direção particular em busca de evidências. Os cientistas usam os sentimentos interiores a todo momento para terem idéias. Entretanto, tais sentimentos não têm valor algum até que encontrem sustentação nas evidências.

Prometi que voltaria a falar da tradição, e que a olharia de outra maneira. Quero tentar explicar por que a tradição é tão importante para nós. Todos os animais são construídos (por um processo que é chamado de evolução) para sobreviver no ambiente normal em que sua espécie vive. Os leões são construídos para se saírem bem nas planícies da África onde vivem. Os camarões-de-água-doce são construídos para serem bons em sobreviver na água fresca, ao passo que as lagostas são construídas para se saírem bem em sua vida na água salgada do mar. As pessoas também são animais, e somos construídos para nos sairmos bem na tarefa de sobreviver num mundo cheio de… outras pessoas. A maioria de nós não caça o próprio alimento como fazem os leões e as lagostas, nós os compramos de outras pessoas que, por sua vez, o compraram de outras pessoas. Nós ‘nadamos’ em meio a um ‘mar de pessoas’. Assim como os peixes necessitam de guelras para sobreviver na água, as pessoas necessitam de cérebros que as tornem capazes de lidar com outras pessoas. Assim como o mar é cheio de água salgada, o mar de pessoas é cheio de coisas difíceis de aprender. Como as línguas.

Você fala inglês, mas sua amiga Ann-Kathrin fala alemão. Cada uma de vocês fala a língua adequada para ‘nadar para lá e para cá’ em seu próprio e diferente ‘mar de pessoas’. A língua é transmitida pela tradição. Não há nenhuma outra forma. Na Inglaterra, Pepe, seu cãozinho, é ‘a dog’. Na Alemanha ele é ‘ein Hund’. Nenhuma dessas duas expressões é mais correta ou mais verdadeira do que a outra. Ambas são simplesmente transmitidas. Para que possam tornar-se capazes de ‘nadar por aí no mar de pessoas’, as crianças têm que aprender a língua de seu próprio país, assim como um grande número de outras coisas a respeito de seu povo, e isso significa que elas têm que absorver, como um mata-borrão, um volume amplo de tradições. (Lembre-se de que tradição significa simplesmente coisas que são transmitidas dos avós para os pais e, destes, para os filhos.) O cérebro da criança tem que ser um sugador de informação tradicional. E não se pode esperar que ela saiba separar a informação tradicional que é boa e útil, como as palavras de uma língua, da informação tradicional que é nociva e tola, como a crença em bruxas e demônios e virgens que vivem para todo o sempre.

É uma pena, mas não é possível evitar que, visto que as crianças necessitam ser sugadoras de informação tradicional, elas acabem acreditando em tudo aquilo que os adultos lhes dizem, seja verdadeiro ou falso, seja correto ou errado. Muito do que os adultos dizem a elas é verdadeiro e baseado em evidências, ou é ao menos algo que faz sentido. Mas, se uma parcela do que eles dizem é falsa, tola ou mesmo nociva, não há nada que as impeça de acreditar nisso igualmente. Ora, quando as crianças crescem, o que elas fazem? Bem, como seria de esperar, elas dizem as mesmas coisas à geração de crianças seguinte. Assim, uma vez que algo se transforme numa forte crença — mesmo que se trate de algo completamente falso e que, desde o início, nunca tenha havido razões para se acreditar nisso –, pode perdurar para sempre.

Será que foi isso o que aconteceu com as religiões? A crença de que há um deus ou deuses, a crença no paraíso, a crença de que Maria nunca morreu, a crença de que Jesus nunca teve um pai humano, a crença de que as preces são respondidas, a crença de que o vinho se transforma em sangue — nenhuma dessas crenças é sustentada por nenhum tipo de evidência satisfatória. E, no entanto, milhões de pessoas acreditam nelas. Talvez seja porque se disse a essas pessoas que deveriam acreditar nessas coisas quando elas ainda eram tão jovens que acreditavam em qualquer coisa.

Milhões de pessoas acreditam em coisas inteiramente diferentes, porque outras coisas foram ditas a elas quando eram crianças. Coisas distintas são ditas às crianças muçulmanas e às crianças cristãs, e nos dois casos elas crescem absolutamente convencidas de que estão certas e de que as outras estão erradas. Mesmo entre os cristãos, os católicos romanos acreditam em coisas diferentes do que se acredita entre os presbiterianos ou entre os episcopais, entre os shakers ou os quakers, entre os mórmons ou os holly rollers, e todos se mostram absolutamente convencidos de que estão certos e de que os outros estão errados. Eles acreditam em coisas diferentes, exatamente pelo mesmo tipo de razão pela qual você fala inglês e Ann-Kathrin fala alemão. Ambas as línguas são, em seu próprio país, a língua correta. Mas não pode ser verdade que religiões diferentes estejam certas em seus próprios países, pois as diferentes religiões afirmam que coisas opostas são verdade. Maria não pode estar viva na Irlanda católica ao mesmo tempo que está morta na Irlanda do Norte protestante.

O que podemos fazer a respeito de tudo isso? Não é fácil para você fazer alguma coisa, pois tem apenas dez anos de idade. Mas você pode tentar o seguinte. A próxima vez que alguém lhe disser algo que soe importante, pense consigo mesma: ‘Será que esse é o tipo de coisa que as pessoas provavelmente sabem porque há evidência? Ou será que é o tipo de coisa em que as pessoas só acreditam por causa da tradição, da autoridade, ou da revelação?’. E, quando alguém lhe disser que uma coisa é verdade, por que não dizer a ela: ‘Que tipo de evidência há para isso?’ E se ela não puder lhe dar uma boa resposta, espero que você pense com muito cuidado antes de acreditar numa só palavra.

Com amor, seu pai.


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Autor: RICHARD DAWKINS

Este texto está publicado no último capítulo do livro “O capelão do Diabo”.


 

Para copiar, ler e guardar – texto 2

Por que o Deus cristão é impossível

Autor: Chad Docterman

Tradução: André Díspore Cancian

[Ortografia original. Fonte: ateus.net]

Introdução

Os cristãos consideram que a existência de seu Deus é uma verdade óbvia. Esta assunção é falsa, não apenas porque falta qualquer evidência para a existência deste Deus – que, apesar de onipresente, é invisível –, mas porque a própria natureza que os cristãos atribuem a este Deus é autocontraditória.

Provando uma negativa universal

Muitos cristãos, assim como muitos ateus, alegam que é impossível provar uma negativa universal. Por exemplo, apesar de não haver evidências de que unicórnios ou dragões existem, não podemos provar sua inexistência. A não ser que tenhamos um conhecimento completo do Universo, precisamos a admitir a possibilidade de que, em algum lugar do Universo, talvez existam tais seres.

Mas a alegação de que a onisciência é necessária para provar uma negativa universal presume que o conceito que estamos discutindo é logicamente coerente. Se os atributos que conferimos a um objeto ou ser hipotéticos são autocontraditórios, então podemos concluir que este não pode existir e, portanto, não existe.

Não é necessário todo o conhecimento do universo para provar que esferas cúbicas não existem. Tais objetos têm atributos mutuamente exclusivos que tornam sua existência impossível. Um cubo, por definição, tem oito vértices, enquanto a esfera não tem nenhum. Tais propriedades são completamente incompatíveis – não podem estar contidas simultaneamente no mesmo objeto.  Pretendo demonstrar que as supostas propriedades do Deus cristão Iavé, assim como as de uma esfera cúbica, são incompatíveis, e, ao fazê-lo, demonstrar que a existência de Iavé é impossível.

Definindo Iavé

Os cristãos dotaram seu Deus de todos os seguintes atributos: ele é eterno, todo-poderoso e criou todas as coisas; criou todas as leis da natureza e pode mudar qualquer coisa por meio de um ato de sua vontade; é todo-bondade, todo-amor e perfeitamente justo; é um Deus pessoal que experimenta todas as emoções de um ser humano; é todo-sabedoria; vê todo o passado e todo o futuro.

A criação de Deus era originalmente perfeita, mas, os humanos, ao desobedecê-lo, trouxeram a imperfeição ao mundo. Humanos são maus e pecadores, e precisam sofrer neste mundo devido à sua pecaminosidade. Deus dá aos humanos a oportunidade de aceitar o perdão de seu pecado, e todos que o fizerem serão recompensados com a bem-aventurança no céu, mas, enquanto estiverem na Terra, devem sofrer por sua causa. Todos os humanos que decidirem não aceitar este perdão serão enviados ao inferno para sofrer o tormento eterno.

Tais atributos de Deus são relatados pela Bíblia, que os cristãos acreditam ser a palavra perfeita e verdadeira de Deus. Um verso que muitos cristãos gostam de citar diz que ateus são tolos (Cf. Salmos 14:1). Pretendo demonstrar que os conceitos divinos mencionados acima são completamente incompatíveis, e revelar a impossibilidade de todos eles co-existirem simultaneamente no mesmo ser. Não há qualquer tolice em negar o impossível; tolice é adorar um Deus impossível.

A perfeição busca ainda mais perfeição

O que Deus fez durante aquela eternidade anterior à criação de todas as coisas? Se Deus era tudo que existia naquele tempo, o que perturbou o equilíbrio eterno e o induziu à criação? Estava entediado? Etava solitário? Deus supostamente é perfeito. Se algo é perfeito, este algo é completo – não precisa de qualquer outra coisa. Nós, humanos, nos engajamos em atividades porque estamos buscando uma perfeição elusiva, pois há um desequilíbrio causado pela diferença entre o que somos e o que queremos ser. Se Deus é perfeito, então não pode haver desequilíbrio. Não há qualquer coisa de que ele necessite, qualquer coisa que deseje ou qualquer coisa que deva ou irá fazer. Um Deus que é perfeito não faz qualquer coisa senão existir. Um criador perfeito é impossível.

A perfeição gera imperfeição

Entretanto, por mero exercício intelectual, continuemos. Suponhamos que este Deus perfeito tenha realmente criado o Universo. Os humanos foram a coroa de sua criação, visto que foram criados à sua imagem e têm a habilidade da tomar decisões. Entretanto, esses humanos destruíram a perfeição original escolhendo desobedecer a Deus.  Como!? Se algo é perfeito, nada imperfeito pode vir dele. Uma vez alguém disse que um mau fruto não pode vir de uma boa árvore; entretanto, este Deus “perfeito” criou um Universo “perfeito” que foi tornado imperfeito pelos humanos “perfeitos”.  A fonte última da imperfeição é Deus. O que é perfeito não pode fazer-se imperfeito, assim, os humanos devem ter sido criados imperfeitos. Tudo que é perfeito não pode criar coisas imperfeitas, então Deus deve ser imperfeito para ter criado seres humanos imperfeitos. Um Deus perfeito que cria seres humanos imperfeitos é impossível.

O argumento do livre-arbítrio

A objeção dos cristãos a este argumento envolve o livre-arbítrio. Eles dizem que um ser precisa possuir livre-arbítrio para ser feliz. O Deus todo-bondade não queria criar robôs, então deu aos humanos o livre-arbítrio para possibilitar a eles experimentar o amor e a felicidade. Mas os humanos usaram este livre-arbítrio para escolher o mal, e introduziram a imperfeição ao Universo originalmente perfeito de Deus. Deus não tinha controle sobre esta decisão, assim a culpa por nosso Universo imperfeito é dos humanos, não de Deus.

Há vários motivos pelos quais este argumento é fraco. Em primeiro lugar, se Deus é onipotente, então a assunção de que o livre-arbítrio é necessário para a felicidade é falsa. Se Deus pôde fazer a regra de que apenas seres com livre-arbítrio poderiam experimentar a felicidade, então poderia, tão facilmente quanto, ter feito a regra de que apenas robôs poderiam experimentar a felicidade. A última opção é claramente superior, visto que robôs perfeitos nunca poderiam tomar decisões que tornassem eles ou seu criador infelizes, enquanto seres com livre-arbítrio poderiam. Um Deus perfeito e onipotente que cria seres capazes de arruinar sua própria felicidade é impossível.

Em segundo lugar, mesmo se admitirmos a necessidade do livre-arbítrio para a felicidade, Deus poderia ter criado humanos com livre-arbítrio que não tivessem a habilidade de escolher o mal, mas apenas entre várias opções boas.

Em terceiro lugar, Deus supostamente possui livre-arbítrio, e mesmo assim ele não toma decisões imperfeitas. Se humanos são imagens miniaturizadas de Deus, nossas decisões deveriam ser similarmente perfeitas. Ademais, os ocupantes do céu, que presumivelmente precisam possuir livre-arbítrio para serem felizes, nunca usarão este livre-arbítrio para tomar decisões imperfeitas. Por que os humanos originalmente perfeitos fariam diferente?

O problema continua: a presença de imperfeição no Universo refuta a suposta perfeição de seu criador.

O Deus todo-bondade cria sofrimento futuro premeditado

Deus é onisciente. Quando criou o Universo, viu os sofrimentos que humanos suportariam como resultado do pecado daqueles humanos originais. Ele ouviu os gritos dos condenados. Certamente ele sabia que seria melhor para esses seres humanos que nunca tivessem nascido – e a Bíblia, de fato, diz exatamente isso –, e certamente esta divindade toda-compaixão teria antevisto a criação de um Universo destinado à perfeição no qual muitos dos humanos estavam condenados ao sofrimento eterno. Um Deus perfeitamente compassivo que deliberadamente cria seres condenados ao sofrimento é impossível.

Punição infinita por pecados finitos

Deus é perfeitamente justo, e ainda assim sentencia os imperfeitos humanos que criou ao sofrimento infinito no inferno por pecados finitos. Claramente, uma ofensa limitada não justifica uma punição ilimitada. A sentenciação divina dos seres humanos imperfeitos a uma eternidade no inferno por um pecado com a duração de uma mera vida mortal é infinitamente injusta. O caráter absurdo desta punição infinita mostra-se ainda maior quando consideramos que a fonte última da imperfeição humana é o Deus que os criou. Um Deus perfeitamente justo que sentencia sua criação imperfeita à punição infinita por pecados finitos é impossível.

Crença mais importante que ação

Consideremos todas as pessoas que vivem em regiões remotas do mundo e que jamais ouviram o “evangelho” de Jesus Cristo. Consideremos as pessoas que aderiram naturalmente à religião de seus pais e nação – como foram ensinados a fazer desde seu nascimento. Se acreditarmos no que os cristãos dizem, todas essas pessoas irão perecer no fogo eterno por não acreditarem em Jesus. Não importa quão justos, bondosos e generosos eles foram com seus semelhantes durante sua vida: se não aceitarem o evangelho de Jesus, estão condenados. Nenhum Deus justo jamais julgaria um homem por suas crenças em vez de suas ações.

Revelação imperfeita da perfeição

A Bíblia supostamente é a palavra perfeita de Deus. Ela contém instruções para que a humanidade evite as eternas chamas do inferno. Quão maravilhoso e bondoso da parte deste Deus é proporcionar a nós meios de superar os problemas pelos quais ele, em última instância, é responsável! O Deus todo-poderoso poderia, por um simples ato de sua vontade, eliminar todos os problemas que nós, humanos, precisamos enfrentar; mas, em vez disso, com sua sabedoria infinita, ele optou por oferecer este indecifrável amálgama de livros denominado Bíblia como meio para evitaremos o inferno que ele preparou para nós. O Deus perfeito decidiu revelar sua vontade através desta obra imperfeita, escrita na linguagem imperfeita dos humanos imperfeitos, traduzida, copiada, interpretada e narrada por homens imperfeitos. Dois homens nunca irão concordar sobre o que a palavra de Deus realmente significa, visto que grande parte dela é autocontraditória ou obscurecida por enigmas. E ainda assim o Deus perfeito espera que nós, imperfeitos humanos, entendamos este enigma paradoxal utilizando as mentes imperfeitas com as quais ele nos equipou. Certamente o Deus todo-sabedoria e todo-poderoso sabia que teria sido melhor revelar sua vontade perfeita diretamente a cada um de nós em vez de permitir ela fosse distorcida e pervertida pela imperfeita linguagem e pelas ruinosas interpretações do homem.

Justiça contraditória

Não se precisa olhar em qualquer lugar senão própria na Bíblia para descobrir suas imperfeições, pois ela se contradiz, e assim expõe sua própria imperfeição. Ela se contradiz em questões de justiça, pois o mesmo Deus que assegura seu povo de que os filhos não serão punidos pelos pecados de seus pais acaba por destruir uma família inteira pelo pecado de um homem (ele havia roubado um pouco do saqueio de guerra de Iavé). Foi o mesmo Iavé que afligiu milhares de inocentes com praga e morte para punir o maldoso rei Davi por tomar um censo. Foi o mesmo Iavé que permitiu que humanos matassem seu filho porque o perfeito Iavé tinha fracassado em sua própria criação. Consideremos quantos foram apedrejados, queimados, assassinados, estuprados e escravizados devido ao distorcido senso de justiça de Iavé. O sangue de bebês inocentes está nas mãos perfeitas, justas e compassivas de Iavé.

História contraditória

A Bíblia contradiz-se em questões históricas. Uma pessoa que lê e compara os conteúdos da Bíblia ficará confuso sobre quem eram exatamente as esposas de Esaú, se Timná era uma concubina ou um filho e se a linhagem terrena de Jesus vem de Salomão ou de seu irmão Natã. Há centenas de contradições históricas documentadas. Se a Bíblia não pode confirmar a si própria em questões mundanas, como poderemos confiá-la em questões morais e espirituais?

Profecias falhadas

A Bíblia interpreta mal suas próprias profecias. Compare-se Isaías 7 com Mateus 1 para se encontrar apenas uma das muitas profecias mal interpretadas das quais os cristãos são passivamente ou deliberadamente ignorantes. O sinal dado por Isaías ao rei Ahaz visava assegurá-lo de que seus inimigos, Rei Rezim e Rei Remalia, seriam derrotados. Essa profecia foi cumprida exatamente no capítulo seguinte. Ainda assim, Mateus 1 não apenas interpreta erradamente a palavra “donzela” como “virgem”, mas também alega que esta profecia já cumprida na realidade cumpriu-se com o nascimento virginal de Jesus!

O cumprimento de profecias na Bíblia é citado como prova de sua inspiração divina, entretanto, aqui está um bom exemplo de uma profecia cujo significado original foi e continua sendo distorcido para sustentar doutrinas absurdas e falsas. Não há limites para o que um indivíduo crédulo fará para sustentar suas crenças febris quando confrontado com evidências contundentes.

A Bíblia é imperfeita. Apenas uma imperfeição é necessária para destruir a suposta perfeição da palavra de Deus. Muitas foram encontradas. Um Deus perfeito que revela sua vontade perfeita através de um livro imperfeito é impossível.

O onisciente altera o futuro

Um Deus que conhece o futuro é impotente para mudá-lo. Um Deus onisciente que é todo-poderoso e dotado de livre-arbítrio é impossível.

O onisciente é surpreendido

Um Deus que sabe tudo não pode ter emoções. A Bíblia diz que Deus experimenta todas as emoções humanas, incluindo ódio, tristeza e felicidade. Nós, humanos, experimentamos emoções como resultado de um novo conhecimento. Um homem que desconhece a infidelidade de sua esposa irá experimentar as emoções de ódio e tristeza apenas após descobrir o que anteriormente, para ele, estava oculto. Em contraste, o Deus onisciente não é ignorante em relação a qualquer coisa. Nada é oculto para ele, nada novo pode lhe ser revelado – assim não há como adquirir um conhecimento ao qual possa reagir emocionalmente.

Nós, humanos, experimentamos ódio e frustração quando algo está errado e somos impotentes para consertá-lo. O Deus perfeito e onipotente pode, entretanto, consertar qualquer coisa. Humanos sentem desejo daquilo que lhes falta. Para o Deus perfeito nada falta. Um Deus onisciente, onipotente e perfeito que experimenta emoções é impossível.

Conclusão

Ofereci argumentos para a impossibilidade – e, portanto, para a inexistência – do Deus cristão Iavé. Nenhum indivíduo racional e livre-pensador pode aceitar a existência de um ser cuja natureza é tão contraditória quanto a de Iavé, o “perfeito” criador de nosso imperfeito Universo. A existência de Iavé é tão impossível quanto a existência de esferas cúbicas ou unicórnios róseos invisíveis. Apesar de que crentes podem encontrar conforto em serem fiéis a impossibilidades, não há maior satisfação que a de possuir uma mente lúcida. Eles podem escolher servir um Deus impossível. Eu escolho a realidade.

Para copiar, ler e guardar – texto 1

Refutação de alguns argumentos a favor da existência de Deus

Autor: Dan Baker 

Tradução: João Rodrigues 

[Ortografia original. Fonte: ateus.net] 

 

Os teístas afirmam que existe um deus; os ateus não. Pessoas religiosas desafiam freqüentemente ateus a provarem que não há deus; mas isso revela um equívoco. Os ateus afirmam que a existência de deus não está provada, não afirmam que está provada a inexistência de deus. Em qualquer argumento, o ônus da prova está do lado daquele que faz a afirmação. Se uma pessoa afirma ter inventado um dispositivo anti-gravidade, não cabe a outros provar que tal coisa não existe. O crente tem de provar a sua afirmação. Todas as outras pessoas estão justificadas em recusar acreditar até que a evidência seja apresentada e substanciada. 

Alguns ateus acham que o argumento é confuso até que o termo “deus” seja tornado compreensível. Palavras como “espírito” e “sobrenatural” não têm qualquer coisa que lhes corresponda na realidade, e idéias como “onisciente” e “onipotente” são contraditórias. Por que discutir um conceito sem sentido? No entanto, há muitas linhas de raciocínio teísta e têm sido escritos livros sobre cada uma delas. As seções seguintes resumem brevemente os argumentos e as refutações. O ateísmo é a posição base que permanece quando todas as alegações teístas são rejeitadas. 

 

Design 

“De onde veio tudo? Como é que explica a ordem complexa do universo? Não posso acreditar que a beleza da natureza simplesmente apareceu por acidente. O design requer um projetista.” 

Este argumento limita-se a pressupor que é verdade aquilo que quer provar. Qualquer tentativa de “explicar” algo requer um contexto mais amplo dentro do qual a explicação pode ser compreendida. Pedir uma explicação do “universo natural” é simplesmente pedir um “universo mais amplo”. 

O universo é “tudo que existe”. Não é uma coisa. Um deus certamente seria uma parte de “tudo que existe”, e se o universo requer uma explicação, então deus requer um [outro] deus, ad infinitum

A mente de um deus seria pelo menos tão complexa e ordenada quanto o resto da natureza e estaria sujeita à mesma pergunta: Quem fez deus? Se um deus pode ser encarado como eterno, então o universo também pode ser encarado como eterno. 

Há design no universo, mas falar de design do universo é apenas semântica teísta. O design que observamos na natureza não é necessariamente inteligente. A vida é o resultado do “design” não-consciente da seleção natural. A ordem no cosmos vem do “design” da regularidade natural. Não há qualquer necessidade de uma explicação mais ampla. 

O argumento do design baseia-se na ignorância, não em fatos. O fracasso em solucionar um enigma natural não significa que não há resposta. Durante milênios os humanos têm criado respostas míticas para “mistérios” como o trovão e a fertilidade. Mas quanto mais aprendemos, menos precisamos de deuses. A crença em deus é apenas responder a um mistério com outro mistério e, conseqüentemente, não responde a nada. 

“O universo é governado por leis naturais. Leis requerem um legislador. Tem de existir um Governador Divino.” 

Uma lei natural é uma descrição, não é uma prescrição. O universo não é “governado” por coisa alguma. As leis naturais são meramente concepções humanas sobre o modo como as coisas normalmente reagem, não são mandamentos sobre o comportamento, como no caso de leis sociais. Se o argumento do design fosse válido, a mente de um deus seria igualmente “governada” por algum princípio de ordem, o que requereria um legislador superior. 

“É impossível que a complexidade da vida tenha ocorrido por acidente, e a segunda lei da termodinâmica, que diz que todos os sistemas tendem para a desordem, torna a evolução impossível. Era necessário um Criador.” 

Estas objeções pseudocientíficas baseiam-se em erros. Nenhum biólogo afirma que organismos apareceram subitamente num passo de mutação “acidental”. A evolução é a acumulação gradual de pequenas mudanças ao longo de milhões de gerações de adaptação ao ambiente.

Os humanos, por exemplo, não tinham necessariamente de evoluir – qualquer uma de bilhões de possibilidades viáveis podia ter-se adaptado, tornando muito provável que algo sobreviveria à implacável seleção natural. Usar probabilidades, depois do fato consumado, é como um vencedor da lotaria que dissesse: “É altamente improvável que eu pudesse ganhar esta lotaria, portanto não devo ter ganho”. 

Os criacionistas deturpam muitas vezes a segunda lei da termodinâmica, que diz que a desordem aumenta num sistema fechado. A Terra, atualmente, é parte de um sistema aberto, recebe energia do sol. Conduzida pela entrada de energia solar (e outras formas de energia, como a química), a complexidade comumente aumenta, como no caso do crescimento de um embrião ou um cristal. Claro que por fim o sol arrefecerá e a vida na terra desaparecerá.  

 

Experiência Pessoal 

“Milhões de pessoas conhecem pessoalmente Deus através de uma experiência espiritual interior.” 

A maioria dos teístas afirma que o seu deus particular pode ser conhecido através de meditação e oração, mas essas experiências não apontam para algo exterior à mente. O misticismo pode ser explicado psicologicamente; não é necessário complicar a nossa compreensão do universo com suposições fantasiosas. Sabemos que muitos humanos habitualmente inventam mitos, ouvem vozes, têm alucinações e falam com amigos imaginários. Não sabemos que existe um deus. 

Há milhões de crentes em deus; mas essa é uma declaração sobre a Humanidade, não sobre deus. A verdade não é algo que se alcança através do voto. As religiões surgiram para lidar com a morte, fraqueza, sonhos e medo do desconhecido. São mecanismos poderosos para dar sentido à vida e identidade pessoal/cultural. Mas as religiões diferem radicalmente umas das outras, e apelos à experiência interior apenas pioram o conflito. 

“Os ateus não têm discernimento espiritual e dificilmente poderiam criticar a experiência teísta de Deus. Isso seria como uma pessoa cega negando a existência das cores.” 

Muitos teístas afirmam que deus é conhecido através de uma sensibilidade “espiritual”. Mas será que a fé é um “sexto sentido” que detecta outro mundo? Céticos negam que tal coisa exista. 

A analogia com o cego não é apropriada porque as pessoas cegas não negam o sentido da visão, nem negam que as cores existam. Os cegos e os que vêem vivem no mesmo mundo, e ambos podem compreender os princípios naturais envolvidos. O caminho da luz pode ser traçado através de um olho normal até ao cérebro. As freqüências podem ser explicadas e o espectro pode ser experimentado independentemente da visão. A existência da cor não precisa ser aceita através da fé. 

O teísta, porém, não apresenta qualquer meio independente de testar o discernimento “espiritual”, portanto temos de duvidar disso. O cético não nega a realidade de experiências religiosas subjetivas, mas sabe que podem ser explicadas psicologicamente sem referência a um domínio supostamente transcendente. 

A afirmação implícita de que os teístas são os únicos seres humanos “completos” é infundada e arrogante.  

 

Moralidade 

“Todos nós temos um sentido do certo e do errado, uma consciência que nos coloca sob uma lei superior. Este apelo moral universal aponta para fora da Humanidade. É consistente que Deus, um ser não-físico, se relacionasse conosco através de tal meio sublime.” 

Aqui está outro argumento baseado na ignorância. Os sistemas éticos baseiam-se no valor que os humanos atribuíram à vida: “bem” é aquilo que melhora a vida, e “mal” é aquilo que a ameaça. Não precisamos de uma divindade para nos dizer que é errado matar, mentir ou roubar. Os humanos sempre tiveram o potencial para usar as suas mentes para determinar o que é bondoso e razoável. 

Não existe um “apelo moral universal” e nem todos os sistemas éticos concordam entre si. Poligamia, sacrifícios humanos, canibalismo (eucaristia), espancamento da esposa, auto-mutilação, guerra, circuncisão, castração e incesto são ações perfeitamente “morais” em algumas culturas. Será que deus está confuso? É contraditório chamar a deus “ser não-físico”. Um ser tem de existir como alguma forma de massa no espaço e no tempo. Os valores residem no interior dos cérebros físicos, portanto se a moralidade aponta para “deus”, então nós somos deus: o conceito de deus é simplesmente uma projeção de ideais humanos. 

“Se não existe um padrão moral absoluto, então não existe certo e errado absolutos. Sem Deus, não há base ética e a ordem social desintegrar-se-ia. As nossas leis baseiam-se na Bíblia.” 

Este é um argumento a favor da crença num deus, não é um argumento a favor da existência de um deus. A exigência de uma moralidade “absoluta” só vem de religiosos inseguros. (Voltaire ironizou: “Se deus não existisse, seria preciso inventá-lo”.) Pessoas maduras sentem-se confortáveis com o caráter relativo do humanismo, visto que este fornece um quadro de referência consistente, racional e flexível para o comportamento humano ético – sem uma divindade. 

As leis americanas baseiam-se numa constituição secular, não se baseiam na Bíblia. Quaisquer textos bíblicos que apóiem uma boa lei só fazem isso porque passaram no teste dos valores humanos, que são muito anteriores aos ineficazes Dez Mandamentos. 

Não há evidência de que os teístas são mais morais que os ateus. De fato, o contrário parece ser verdadeiro, conforme evidenciado por séculos de violência religiosa. Em sua maioria, os ateus são pessoas felizes, produtivas e morais. 

Mesmo que este argumento fosse verdadeiro, seria de pouco valor prático. Cristãos devotos e crentes na Bíblia não conseguem concordar entre si quanto ao que a Bíblia diz sobre muitas questões morais cruciais. Crentes comumente adotam posições opostas em assuntos tais como pena de morte, aborto, pacifismo, controle de natalidade, suicídio medicalmente assistido, direitos dos animais, ambiente, separação entre igreja e estado, direitos dos homossexuais e direitos das mulheres. Disso pode concluir-se que ou há uma multiplicidade de deuses distribuindo conselhos morais contraditórios, ou um único deus que está irremediavelmente confuso.  

 

Primeira Causa 

“Tudo teve uma causa, e toda a causa é o efeito de uma causa anterior. Algo deve ter começado tudo. Deus é a primeira causa, o estático que move, o criador e sustentáculo do universo.” 

A premissa maior deste argumento, “tudo teve uma causa”, é contrariada pela conclusão de que “Deus não teve uma causa”. As duas afirmações não podem ser simultaneamente verdadeiras. Se tudo teve uma causa, então não pode ter havido uma primeira causa. Se é possível pensar num deus sem causa, então é possível pensar o mesmo do universo. 

Alguns teístas, vendo que todos os “efeitos” precisam de uma causa, afirmam que deus é uma causa, mas não é um efeito. Mas ninguém jamais observou uma causa não-causada, e inventar simplesmente uma causa não-causada apenas pressupõe o que o argumento quer provar. 

(Para um exame detalhado do moderno “Argumento Cosmológico Kalam”, veja o meu artigo Cosmological Kalamity.) 

 

Aposta de Pascal 

“Não se pode provar que Deus existe. Mas se Deus existe, o crente ganha tudo (céu) e o descrente perde tudo (inferno). Se Deus não existe, o crente nada perde e o descrente nada ganha. Portanto, há tudo a ganhar e nada a perder ao acreditar em Deus.” 

O argumento, formulado originalmente pelo filósofo francês Blaise Pascal, é pura intimidação. Não é um argumento a favor da existência de um deus: é um argumento a favor da crença, baseado em medo irracional. Com este tipo de raciocínio, deveríamos simplesmente escolher a religião que tivesse o pior inferno. 

Não é verdade que o crente nada perde. Diminuímos esta vida ao preferir o mito de uma vida após a morte, e sacrificamos a honestidade à perpetuação de uma mentira. A religião exige tempo, energia e dinheiro, desviando recursos humanos valiosos do melhoramento deste mundo. O conformismo religioso, um instrumento de tiranos, é uma ameaça à liberdade. 

Também não é verdade que o descrente nada ganha. Rejeitar a religião pode ser uma experiência libertadora positiva, ganhando perspectiva e liberdade para questionar. Os livres-pensadores sempre estiveram na linha da frente do progresso social e moral. 

Que tipo de pessoa torturaria eternamente alguém que duvida honestamente? Se o seu deus é tão injusto, então os teístas correm tanto perigo como os ateus. Talvez deus tenha um gozo perverso em mudar de idéias e condenar toda a gente, crentes e descrentes por igual. Ou, invertendo a aposta, talvez deus só salve aqueles que têm coragem suficiente para não crer! Pascal era um católico e supôs que a existência de deus significava o Deus cristão. No entanto, o Alá islâmico poderia ser o verdadeiro deus, o que torna a aposta de Pascal uma aposta mais arriscada do que se pretendia. De qualquer modo, crer numa divindade com base no medo não produz admiração. Não se segue aí que tal ser mereça ser adorado. 

(Veja o Capítulo 12: “What If You’re Wrong?” em Losing Faith In Faith: From Preacher To Atheist para uma resposta mais completa à aposta de Pascal.) 

 

Argumento Ontológico 

“Deus é um ser tal que nenhum ser maior pode ser concebido. Se deus na realidade não existe, então é possível concebê-lo como maior do que é. Portanto, Deus existe.” 

Há dezenas de variantes do argumento ontológico, mas S. Anselmo foi o primeiro a articulá-lo deste modo. A falha neste raciocínio é tratar a existência como um atributo. A existência é um dado adquirido. Nada pode ser grande ou perfeito a menos que exista primeiro, portanto o argumento está invertido. 

Uma boa maneira de refutar este raciocínio é substituir “ser” e “Deus” com outras palavras. (“A Ilha do Paraíso é uma ilha…”) Dessa forma poderíamos provar a existência de um “vácuo” perfeito, o que significaria que nada existe! 

O argumento esmaga-se a si próprio, porque pode conceber-se deus como tendo massa infinita, o que é refutado empiricamente. E está-se a comparar maçãs com laranjas ao se supor que a existência na concepção pode de alguma forma estar relacionada com a existência na realidade. Mesmo que a comparação fosse válida, por que é a existência na realidade “maior” (seja lá o que isso signifique) do que a existência na concepção? Talvez seja ao contrário. 

Não admira que Bertrand Russell tenha dito que todos os argumentos ontológicos são um caso de má gramática!  

 

Revelação 

“A Bíblia é historicamente confiável. Não há razão para duvidar dos testemunhos dignos de confiança que resistiriam em tribunal. Deus existe porque Ele se revelou através da Bíblia.” 

A Bíblia reflete a cultura do seu tempo. Embora boa parte do seu enredo seja histórico, também há uma boa parte que não é. Por exemplo, não há apoio contemporâneo para a história de Jesus fora dos evangelhos, que foram escritos por desconhecidos entre 30 a 80 anos depois da alegada crucificação (dependendo do perito que consultarmos). Muitos relatos, como as histórias da criação, entram em conflito com a ciência. As histórias da Bíblia são apenas isto: histórias. 

A Bíblia é contraditória. Um bom exemplo é a discrepância entre as genealogias de Jesus dadas por Mateus e Lucas. A história da ressurreição de Jesus, contada por pelo menos 5 escritores diferentes, é irremediavelmente irreconciliável. Peritos descobriram centenas de erros bíblicos que não têm sido satisfatoriamente explicados por apologistas. 

A Bíblia, tal como outros escritos religiosos, pode ser explicada em termos puramente naturais. Não há razão para exigir que seja ou completamente verdadeira ou completamente falsa. O cristianismo está repleto de paralelos de mitos pagãos, e a sua emergência como seita messiânica do século II resulta das suas origens sectárias judaicas. Os autores dos evangelhos admitem que estão a escrever propaganda religiosa (João 20:31), o que é uma pista de que devem ser tomados com algumas reservas. 

Thomas Paine, em The Age of Reason (A Idade da Razão), indicou que a Bíblia não pode ser revelação. Revelação (se existe) é uma mensagem divina comunicada diretamente a alguma pessoa. Assim que essa pessoa o relata, isso se torna um rumor em segunda mão. Ninguém está obrigado a acreditar nisso, especialmente se for fantástico. É muito mais provável que relatos sobre o miraculoso sejam devidos a erro honesto, engano deliberado ou interpretação teológica meticulosa de eventos perfeitamente naturais. 

Alegações extraordinárias requerem provas extraordinárias. Um critério da história crítica é a suposição de regularidade natural ao longo do tempo. Isso exclui milagres, que por definição “passam por cima” das leis naturais. Se admitirmos a existência de milagres, então todos os documentos, incluindo a Bíblia, tornam-se inúteis enquanto história. 

 

Ciência 

“Há muitos cientistas que acreditam em Deus. Se muitas das pessoas mais inteligentes do mundo são teístas, então a crença em Deus deve ser sensata.” 

Isto não passa de um apelo à autoridade, que os ateus também poderiam fazer, e até melhor. Os acadêmicos, como grupo, são muito menos religiosos que a população em geral. Embora seja fácil encontrar cientistas que são crentes, nenhum deles consegue demonstrar cientificamente a sua fé. A crença é normalmente um assunto cultural ou pessoal separado da ocupação e ninguém, nem mesmo um cientista, é imune às seduções irracionais da religião. 

“A nova ciência da física quântica está a mostrar que a realidade é incerta e menos concreta. Agora há lugar para milagres. Uma perspectiva teísta do mundo não é inconsistente com a ciência.” 

Isso é um disparate. Um milagre é supostamente uma suspensão das leis naturais que aponta para um domínio transcendente. Se a nova ciência torna os milagres naturalmente possíveis (um conceito contraditório), então não há domínio sobrenatural, nem deus. Na física quântica, o termo “incerteza” não se aplica à realidade, mas antes ao nosso conhecimento da realidade. O teísmo implica um domínio sobrenatural. A ciência limita-se ao mundo natural.

Portanto, o teísmo nunca pode ser consistente com a ciência, por definição. 

 

“A crença em Deus não é intelectual. A razão é limitada. A verdade de Deus só pode ser conhecida através de um salto de fé, que transcende mas não contradiz a razão.” 

Isso não é argumento. Admitir que algo é não-intelectual remove esse assunto do domínio da discussão. Sim, a razão é limitada: é limitada aos fatos. Se você ignorar os fatos, só fica com hipóteses e o desejo de que fossem reais. 

Fé é a aceitação da verdade de uma declaração apesar de evidência insuficiente ou contraditória, o que nunca foi consistente com a razão. A fé, pela sua própria invocação, é uma admissão transparente de que as alegações religiosas não se conseguem manter de pé por si mesmas. 

Mesmo que o teísmo fosse uma hipótese consistente (não é), ainda precisaria de ser provado. É por isso que a maioria dos teístas minimiza a prova e a razão e enfatiza a fé, por vezes afirmando de forma ridícula que a ciência requer fé, ou que o ateísmo é uma religião.  

 

Poderes Psíquicos 

“Há forte evidência de poderes psíquicos, reencarnação e coisas semelhantes. Você tem de admitir que há ali alguma coisa!” 

A maioria dos cientistas discorda que haja forte evidência para alegações “paracientíficas”. Quando cuidadosamente examinadas com controles rígidos, são geralmente expostas como deturpações ou completa fraude. Mesmo que essas alegações fossem legítimas, fenômenos misteriosos podem ter explicações perfeitamente naturais. Nesses casos, os céticos preferem suspender o julgamento em vez de se lançarem em conclusões supersticiosas.  

 

Conclusão 

Deve notar-se que mesmo que estes argumentos teístas fossem válidos, não estabeleceriam o criador como sendo pessoal, singular, perfeito e atualmente vivo (exceto o argumento da “revelação”, que tem a liberdade de criar qualquer tipo de deus que se deseje). E nenhum desses argumentos lida com a presença de caos, maldade e dor no mundo, o que torna uma divindade onipotente responsável pelo mal. 

Muitos teístas, quando se apercebem que os seus argumentos filosóficos falharam, recorrem a ataques pessoais estereotipados. Todos os ateístas são rotulados de infelizes, imorais, encolerizados, arrogantes, demoníacos, vilões insensíveis que não têm razão para viver. Isso é falso e injusto. Mas mesmo que fosse verdade, isso não tornaria o teísmo correto. 

Visto que o exame cuidadoso mostra que todos os argumentos teístas são inválidos, o ateísmo fica como a única posição racional.  

   

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