Religião e Longevidade [Republicação]

Essa semana, as páginas amarelas da revista Veja trouxeram uma entrevista com um psiquiatra americano, autor de 40 livros que relacionam crença religiosa com saúde, o professor Harold Koenig. Sua apresentação pela jornalista que o entrevistou não poderia ser mais instigante: “nasceu em uma família católica, mas hoje, por influência da mulher, frequenta a igreja protestante”.

Selecionei alguns trechos para comentar, porque eu tenho mesmo uma certa antipatia por pessoas “influenciáveis”, e gosto de externar essa antipatia, mesmo que não possa ser diretamente para a fonte dela.

Perguntado como havia chegado à conclusão de que a religiosidade aumenta a sobrevida das pessoas em até 29%, ele respondeu que “Há uma relação significativa entre frequência da prática religiosa e longevidade. Acredito que o impacto na sobrevida seja até maior, algo em torno de 35%”.

“Acredita”? Aparentemente as conclusões do entrevistado não são baseadas em pesquisas científicas sérias, como a que divulguei no texto O Falso Poder da Oração. Quando você “faz ciência”, você não “acredita” nos dados obtidos: você os calcula.

Outra coisa, na mesma resposta, ele afirmou que “tanto os mandamentos religiosos quanto a vida em comunidade estimulam a boa saúde”. Eu gostaria que ele tivesse dito exatamente a que mandamento(s) ele estaria se referindo. Quando à vida em comunidade, divulguei também outro estudo a respeito em Eis o Mistério da Fé.

Mais à frente na entrevista, ele diz que:

As crenças religiosas precisam influenciar sua vida para que elas influenciem também sua saúde.

Quanto mais uma pessoa fosse influenciada pela sua religião, mais ela deveria acreditar que sua fé seria suficiente para manter sua saúde, ou lhe curar de doenças, e menos procurar assistência médica especializada. Isso não faz parte do mundo em que eu vivo. No mundo em que eu vivo, as pessoas religiosas vão dar depoimentos chorosos em programas de tevê com pilhas de papéis de exames clínicos na mão, que mostram como Deus as curou, através dos seus respectivos planos de saúde…

Quando a entrevistadora quis saber se havia alguma evidência que mostrasse se uma determinada religião teria mais efeitos positivos do que outra, quando se considerava os fatores saúde e longevidade, ele disse que não havia “estudos confiáveis” sobre o tema, e ainda veio com essa:

Um credo cujos benefícios são óbvios no Brasil pode não ter o mesmo efeito positivo sobre as pessoas nos países árabes.

Donde se infere o motivo que o levou a mudar para a religião da esposa: não é o sistema de crenças que importa, mas o fato de você estar “conectado” ao mesmo sistema de crenças das pessoas que o cercam. Não é à toa que sociedades diferentes, em épocas diferentes, inventaram deuses diferentes…

O senhor diz que quem vê Deus como uma entidade distante e punitiva tem menos benefícios para a saúde do que quem o vê como um ser compreensivo e que perdoa. Por quê?

A religião pode virar uma fonte de stress se aumentar o sentimento de culpa ou gerar um mal-estar na pessoa (…). Por isso, acho que faz bastante diferença acreditar em um Deus amoroso e misericordioso.

Donde se conclui que Deus é aquilo que você quer que ele seja.

Falando sobre o comportamento de pacientes em estado terminal, ele diz que aqueles que são religiosos “toleram melhor o processo da morte. Eles acreditam que não é o fim e, por isso, não ficam tão ansiosos. Sabem que vão para um lugar melhor”.

Não, eles não sabem, porque não há como “saber”. Eles têm fé; eles acreditam; eles esperam que seja como sua crença sempre lhes disse que será. E uma coisa que Richard Dawkins disse e que nunca me saiu da cabeça foi que, se esse pensamento tivesse um mínimo fundo de verdade, um mínimo de vínculo com a realidade à nossa volta, seria fácil descobrir, num velório, quais dos presentes seriam ateus e quais seriam os crentes.

Quando a jornalista quis saber o que ele pensava de ateus e agnósticos, o crente que havia nele não aguentou mais ficar escondido por trás do escritor, do professor, do pesquisador, e se revelou em toda sua idiotice:

Apenas uma fração do mundo pode ser explicada pela ciência.

Claro, em tudo mais, você enfia o seu Deus e resolve o problema.

Noventa por cento da população mundial acredita em Deus e, se você faz parte dos 10% que não creem ou não têm certeza, ao menos mantenha a mente aberta.

Eu acho que alguém deve ter dito isso para o primeiro grego que começou a desconfiar que a Terra era redonda. E incrível como o fato de 100% das pessoas não concordar com ele não foi suficiente para mudar a forma do nosso planeta.

Mantenha sua mente aberta pra isso também. 

A fila dos ignorantes

O que mais lhe vem à memória, além da figura acima e do rosto barbudo de Charles Darwin, quando alguém toca no assunto Teoria da Evolução?

Quando Testemunhas de Jeová vêm bater na minha porta nas manhãs de domingo, eu sempre tenho curiosidade de saber o que elas pensam a respeito do tema. E é constrangedor perceber que tudo o que aquelas pessoas conhecem sobre a Teoria da Evolução das Espécies é o que lhes sugere a figura de alguns seres, em fila, com a silhueta de um macaco agachado numa ponta e, na outra, a de um homem caminhando.

Eu estou no extremo oposto ao que se poderia chamar de “especialista”, mas arrisco dizer que entendo a essência da Evolução, talvez com a mesma arrogância com que os religiosos alegam entender a essência de Deus. É essa arrogância, aliada a um certo preconceito, que me faz acreditar que os crentes de programa só sabem uma coisa sobre o assunto: que “o homem veio do macaco”. Chamo atenção para o meu preconceito, porque imagino que aqueles que fazem da ida semanal às suas bocas de culto sua principal atividade de lazer, não teriam mesmo de onde tirar tempo ou motivação para se inteirar acerca de uma teoria científica. Há, é claro, pessoas de fé que podem, sim, ter a exata noção do que se trata, mas estas não querem entendê-la, e preferem ficar com a versão sagrada do livro sagrado que elas, estranhamente, não encontraram tempo nem motivação para ler. Esses dois tipos de crentes farão questão de rir na sua cara — como já riram na minha — por você acreditar em tamanha tolice; a de que, como lhes ensina a imagem que se tornou uma famosa estampa de camiseta, um macaquinho começou a caminhar sobre as patas traseiras e virou gente.

A propaganda que foi ardilosamente disseminada  pela Igreja Católica, desde a publicação do livro que dispensou a Bíblia para dizer de onde viemos, acabou beneficiando todas as demais religiões, ao sugerir que essa teoria ridícula de Charles Darwin não só merece mesmo o escárnio do crente, como serve também de fortalecimento (se não de orgulho) de sua própria fé naquele que o criou à sua imagem e semelhança. Afinal, você prefere ter uma ascendência divina, ou ser descendente de um macaco?

No imaginário daqueles que têm a Bíblia como “fonte de informação”, a Teoria da Evolução diz que, num belo dia, uma macaca emprenhou de um macaco e pariu o primeiro ser humano. O que, sem dúvida, merece mesmo umas risadas. Só não entendo por que eles não acham graça quando se conta uma certa estória em que uma cobra tenta convencer uma mulher a comer uma maçã; ou a de um ser que é todo bondade fazendo a Terra, digo, fazendo o Sol parar seu giro em volta do nosso planeta e, assim, ajudar um apadrinhado a exterminar seus inimigos; ou aqueloutra que fala de um cara que sobreviveu por três dias no estômago de uma baleia. Pois não, eles não riem dessas. E como se fosse o suficiente, eles apenas fazem questão de nos lembrar (ou de nos corrigir) que não, a Bíblia não diz que é uma maçã, mas um “fruto”; e não, a Bíblia não diz que era uma baleia, mas um “peixe grande”. Mas nenhum crente consegue fazer aquela ideia — a de uma macaquinha sendo mãe de um bebê humano — parecer mais inverossímil do que a de um sol que para no céu por algumas horas e nenhum outro povo na Terra ter percebido o evento.

Para os que quiserem ter uma noção um pouco mais aprofundada do que vem a ser a Teoria da Evolução, eu indico o vídeo abaixo, em que Yuri Grecco expõe, de uma forma brilhantemente concisa e bem-humorada, os conceitos básicos que você precisa ter sobre o tema, mas que vão muito além do que se poderia inferir de uma estampa de camiseta. Assista e saia da fila dos ignorantes.

E, se interessa saber, nós não “viemos” dos macacos. Nós “somos” macacos!

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Foi-se o tempo dos milagres…

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Certa vez, num daqueles cultos ao ar livre que atraem uma multidão para ouvir a “palavra”, o “apóstolo” Valdemiro Santiago recebeu no palco (porque aquilo é mesmo um show) uma mãe e suas três filhinhas gêmeas de sete anos de idade, para dar o testemunho de um milagre incrível: elas eram cegas e, ali mesmo, durante o culto, as três crianças haviam voltado a enxergar.

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— As três, irmã?!

— As três, apóstolo!

— Assim… ao mesmo tempo?! Na mesma hora?!

— Isso mesmo. Para honra e glória de Nosso Senhor Jesus Cristo!

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Depois de ter feito um “teste” com cada uma das garotas, para comprovar o milagre — “Você tá me vendo? E você, meu anjo, tá vendo aquele cartaz lá na frente? E você, tá vendo a câmera ali no meio do povo?” —, e como criança não mente (claro que elas estavam vendo!), o apóstolo virou-se emocionado para a plateia e concluiu:

— Jesus não é maravilhoso, gente?

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É sim. É tão maravilhoso que nenhum dos fiéis pareceu querer pedir explicações sobre de quem seriam aqueles três óculos de grau bonitinhos (lentes transparentes e armações coloridas: uma verde, uma rosa, uma branca) que a mãe das meninas segurava o tempo todo enquanto dava seu depoimento no palco, e que as câmeras não tiveram como não filmar. Para que diabos três crianças cegas precisariam de óculos de grau? 

Fraude. É o outro nome da palavra “milagre”.

Eu não pude deixar de reparar: Deus perdeu potência nesses últimos dois mil anos e, agora, só produz milagres intracorpóreos.

É certo que, com a excessiva quantidade de câmeras de vídeo circulando por aí, ninguém poderia se dar ao luxo de caminhar sobre as águas sem ir parar no YouTube. O Chris Angel fez isso, andou sobre as águas, mas o Mister M quis aparecer também e revelou a fraude. Talvez seja por isso que os milagres deixaram de ser o que eram nos templos bíblicos: se hoje algum abençoado divulga um milagre divino, logo aparece um sacana para desmascarar a palhaçada.

Depois que a farsa de imagens chorando sangue foi revelada; depois que os exorcismos se tornaram tão comuns nas igrejas evangélicas quanto crianças fazendo malabarismos nos semáforos; depois que ninguém mais vai acreditar que você viu Nossa Senhora flutuando em cima de uma moita se você não tiver tirado uma foto do seu celular, qualquer milagre hoje envolve, obrigatoriamente, o binômio doença-cura.

O papa João Paulo II, por exemplo, tá na fila pra ser santo porque uma freira se curou de leucemia; a irmã Dulce, porque uma mulher que recebeu dos médicos a notícia de que estava à beira da morte não morreu.

Eu, claro, não consigo enxergar assim tão facilmente os milagres. Onde os religiosos veem a competência de Deus, eu só consigo ver a incompetência humana. No caso do “milagre” da irmã Dulce, a mulher desenganada, após ter recebido tratamento hospitalar intensivo e prolongado, em vez de estar muito contente com o milagre de Deus, poderia muito bem ter processado os médicos por danos morais, porque eles lhe deram um prognóstico terrível equivocadamente. Na verdade, foram eles, os médicos, os mais beneficiados com a crença da paciente num suposto milagre.

Já a freira do “milagre” do papa João Paulo II poderia nunca ter estado doente, como pode, também, não estar curada. Se não me admira nada os médicos terem errado na avaliação do tempo de vida da mulher do suposto milagre da irmã Dulce, também não iria me espantar se alguém tiver errado no diagnóstico de leucemia do milagre do papa, ou no seu diagnóstico de cura

Mas é assim que funciona a coisa nos dias de hoje: crentes na fila dos testemunhos das igrejas evangélicas dizendo-se milagrosamente curados de uma doença. Geralmente eles trazem exames e fotos do tipo “Antes e Depois” para comprovar o milagre. Só que o Mister M e a mamãe das trigêmeas “cegas” vêm sempre nos lembrar que alguém poderia ter fraudado uma coisa ou outra.


Religião e Longevidade

Essa semana, as páginas amarelas da revista Veja trouxeram uma entrevista com um psiquiatra americano, autor de 40 livros que relacionam crença religiosa com saúde, o professor Harold Koenig. Sua apresentação pela jornalista que o entrevistou não poderia ser mais instigante: “nasceu em uma família católica, mas hoje, por influência da mulher, frequenta a igreja protestante”.

Selecionei alguns trechos para comentar, porque eu tenho mesmo uma certa antipatia por pessoas “influenciáveis”, e gosto de externar essa antipatia, mesmo que não possa ser diretamente para a fonte dela.

Perguntado como havia chegado à conclusão de que a religiosidade aumenta a sobrevida das pessoas em até 29%, ele respondeu que “Há uma relação significativa entre frequência da prática religiosa e longevidade. Acredito que o impacto na sobrevida seja até maior, algo em torno de 35%”.

“Acredita”? Aparentemente as conclusões do entrevistado não são baseadas em pesquisas científicas sérias, como a que divulguei no texto O Falso Poder da Oração. Quando você “faz ciência”, você não “acredita” nos dados obtidos: você os calcula.

Outra coisa, na mesma resposta, ele afirmou que “tanto os mandamentos religiosos quanto a vida em comunidade estimulam a boa saúde”. Eu gostaria que ele tivesse dito exatamente a que mandamento(s) ele estaria se referindo. Quando à vida em comunidade, divulguei também outro estudo a respeito em Eis o Mistério da Fé.

Mais à frente na entrevista, ele diz que:

As crenças religiosas precisam influenciar sua vida para que elas influenciem também sua saúde.

Quanto mais uma pessoa fosse influenciada pela sua religião, mais ela deveria acreditar que sua fé seria suficiente para manter sua saúde, ou lhe curar de doenças, e menos procurar assistência médica especializada. Isso não faz parte do mundo em que eu vivo. No mundo em que eu vivo, as pessoas religiosas vão dar depoimentos chorosos em programas de tevê com pilhas de papéis de exames clínicos na mão, que mostram como Deus as curou, através dos seus respectivos planos de saúde…

Quando a entrevistadora quis saber se havia alguma evidência que mostrasse se uma determinada religião teria mais efeitos positivos do que outra, quando se considerava os fatores saúde e longevidade, ele disse que não havia “estudos confiáveis” sobre o tema, e ainda veio com essa:

Um credo cujos benefícios são óbvios no Brasil pode não ter o mesmo efeito positivo sobre as pessoas nos países árabes.

Donde se infere o motivo que o levou a mudar para a religião da esposa: não é o sistema de crenças que importa, mas o fato de você estar “conectado” ao mesmo sistema de crenças das pessoas que o cercam. Não é à toa que sociedades diferentes, em épocas diferentes, inventaram deuses diferentes…

O senhor diz que quem vê Deus como uma entidade distante e punitiva tem menos benefícios para a saúde do que quem o vê como um ser compreensivo e que perdoa. Por quê?

A religião pode virar uma fonte de stress se aumentar o sentimento de culpa ou gerar um mal-estar na pessoa (…). Por isso, acho que faz bastante diferença acreditar em um Deus amoroso e misericordioso.

Donde se conclui que Deus é aquilo que você quer que ele seja.

Falando sobre o comportamento de pacientes em estado terminal, ele diz que aqueles que são religiosos “toleram melhor o processo da morte. Eles acreditam que não é o fim e, por isso, não ficam tão ansiosos. Sabem que vão para um lugar melhor”.

Não, eles não sabem, porque não há como “saber”. Eles têm fé; eles acreditam; eles esperam que seja como sua crença sempre lhes disse que será. E uma coisa que Richard Dawkins disse e que nunca me saiu da cabeça foi que, se esse pensamento tivesse um mínimo fundo de verdade, um mínimo de vínculo com a realidade à nossa volta, seria fácil descobrir, num velório, quais dos presentes seriam ateus e quais seriam os crentes.

Quando a jornalista quis saber o que ele pensava de ateus e agnósticos, o crente que havia nele não aguentou mais ficar escondido por trás do escritor, do professor, do pesquisador, e se revelou em toda sua idiotice:

Apenas uma fração do mundo pode ser explicada pela ciência.

Claro, em tudo mais, você enfia o seu Deus e resolve o problema.

Noventa por cento da população mundial acredita em Deus e, se você faz parte dos 10% que não creem ou não têm certeza, ao menos mantenha a mente aberta.

Eu acho que alguém deve ter dito isso para o primeiro grego que começou a desconfiar que a Terra era redonda. E incrível como o fato de 100% das pessoas não concordar com ele não foi suficiente para mudar a forma do nosso planeta.

Mantenha sua mente aberta pra isso também. 

A fila dos ignorantes

O que mais lhe vem à memória, além da figura acima e do rosto barbudo de Charles Darwin, quando alguém toca no assunto Teoria da Evolução?

Quando Testemunhas de Jeová vêm bater na minha porta nas manhãs de domingo, eu sempre tenho curiosidade de saber o que elas pensam a respeito do tema. E é constrangedor perceber que tudo o que aquelas pessoas conhecem sobre a Teoria da Evolução das Espécies é o que lhes sugere a figura de alguns seres, em fila, com a silhueta de um macaco agachado numa ponta e, na outra, a de um homem caminhando.

Eu estou no extremo oposto ao que se poderia chamar de “especialista”, mas arrisco dizer que entendo a essência da Evolução, talvez com a mesma arrogância com que os religiosos alegam entender a essência de Deus. É essa arrogância, aliada a um certo preconceito, que me faz acreditar que os crentes de programa só sabem uma coisa sobre o assunto: que “o homem veio do macaco”. Chamo atenção para o meu preconceito, porque imagino que aqueles que fazem da ida semanal às suas bocas de culto sua principal atividade de lazer, não teriam mesmo de onde tirar tempo ou motivação para se inteirar acerca de uma teoria científica. Há, é claro, pessoas de fé que podem, sim, ter a exata noção do que se trata, mas estas não querem entendê-la, e preferem ficar com a versão sagrada do livro sagrado que elas, estranhamente, não encontraram tempo nem motivação para ler. Esses dois tipos de crentes farão questão de rir na sua cara — como já riram na minha — por você acreditar em tamanha tolice; a de que, como lhes ensina a imagem que se tornou uma famosa estampa de camiseta, um macaquinho começou a caminhar sobre as patas traseiras e virou gente.

A propaganda que foi ardilosamente disseminada  pela Igreja Católica, desde a publicação do livro que dispensou a Bíblia para dizer de onde viemos, acabou beneficiando todas as demais religiões, ao sugerir que essa teoria ridícula de Charles Darwin não só merece mesmo o escárnio do crente, como serve também de fortalecimento (se não de orgulho) de sua própria fé naquele que o criou à sua imagem e semelhança. Afinal, você prefere ter uma ascendência divina, ou ser descendente de um macaco?

No imaginário daqueles que têm a Bíblia como “fonte de informação”, a Teoria da Evolução diz que, num belo dia, uma macaca emprenhou de um macaco e pariu o primeiro ser humano. O que, sem dúvida, merece mesmo umas risadas. Só não entendo por que eles não acham graça quando se conta uma certa estória em que uma cobra tenta convencer uma mulher a comer uma maçã; ou a de um ser que é todo bondade fazendo a Terra, digo, fazendo o Sol parar seu giro em volta do nosso planeta e, assim, ajudar um apadrinhado a exterminar seus inimigos; ou aqueloutra que fala de um cara que sobreviveu por três dias no estômago de uma baleia. Pois não, eles não riem dessas. E como se fosse o suficiente, eles apenas fazem questão de nos lembrar (ou de nos corrigir) que não, a Bíblia não diz que é uma maçã, mas um “fruto”; e não, a Bíblia não diz que era uma baleia, mas um “peixe grande”. Mas nenhum crente consegue fazer aquela ideia — a de uma macaquinha sendo mãe de um bebê humano — parecer mais inverossímil do que a de um sol que para no céu por algumas horas e nenhum outro povo na Terra ter percebido o evento.

Para os que quiserem ter uma noção um pouco mais aprofundada do que vem a ser a Teoria da Evolução, eu indico o vídeo abaixo, em que Yuri Grecco expõe, de uma forma brilhantemente concisa e bem-humorada, os conceitos básicos que você precisa ter sobre o tema, mas que vão muito além do que se poderia inferir de uma estampa de camiseta. Assista e saia da fila dos ignorantes.

E, se interessa saber, nós não “viemos” dos macacos. Nós “somos” macacos!

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O imbecilionismo (parte 5)

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<< Ler do início

Se você assistiu ao vídeo inicial, e se vem acompanhando meus textos até aqui, viu como demonstrei que o teólogo apresentador do programa Evidências recorre a uma mágica argumentativa muito comum no imbecilionismo. Funciona basicamente assim: ele usa dados e faz considerações referentes a todas as religiões e a todos os deuses nos quais as pessoas acreditam, para, logo em seguida, usar a força desses dados e o resultado dessas considerações direcionados para a sua própria religião e para o seu próprio Deus, ignorando acintosamente que aqueles dados e considerações que ele precisou angariar, para dar consistência à sua tese, não se referiam exclusivamente à sua divindade específica. Isso se repete explicitamente ao longo de todo o programa.

Aliado a isso, um apelo subliminar para que você, se não crente, passe então a considerar os fenômenos psicossomáticos do efeito placebo como sendo obra e graça do Espírito Santo, como se esses “milagres” não ocorressem em fiéis de outros deuses, e até mesmo em quem não se curva a deus algum.

Para concluir, uma última transcrição da fala do teólogo:

   Mas eu nunca vi título de PhD sendo dado a alguém porque admite a existência de Papai Noel. Mas muitas pessoas que acreditam na historicidade do Gênesis têm os seus títulos conferidos por respeitadas universidades ao redor do mundo.” (20’38″)

Deus e Papai Noel. Para colocar esses dois seres míticos em contraposição, como se um deles fosse real e o outro imaginário, é preciso ser desonesto até com a própria lógica.

O teólogo quer sugerir que Deus é real porque, se não fosse, crentes em Deus não obteriam títulos de PhD de universidades renomadas, assim como nunca se soube de um crente em Papai Noel recebendo tal título. Ora, se as universidades não dão título de PhD a quem crê num mito como o Papai Noel, é de se esperar que façam o mesmo para todos os outros mitos. Logo, Deus não pode ser um mito.

Mas acontece que as “muitas pessoas que acreditam na historicidade do Gênesis” também não obtiveram seus títulos de PhD porque admitem a existência de Deus, que foi a mesma estrutura que ele usou quando se referiu ao Papai Noel, na primeira sentença. Os doutores da ciência, embora certamente muitos deles sejam cristãos, receberam seus títulos por suas descobertas e teses que tratam do mundo real, onde não há espaço para ilusões e fé; onde Deus não existe. O fato deles acreditarem no Deus cristão teve tanto peso para que recebessem seus títulos quanto o fato de muitos serem vegetarianos ou jogadores de xadrez.

Esse artifício chama-se sofisma, e é outra dentre as muitas ferramentas do imbecilionismo. Já tratei dele no meu texto Deus é negro, cego, e toca piano, mas não custa nada repetir a definição aqui, pois ela tem tudo a ver com o processo pelo qual os crentes tentam se convencer, e convencer os outros, de que o Deus que eles criaram dentro de suas cabeças faz parte do mundo que existe fora dela.

Sofisma — argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade, que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta, na realidade, uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa. 


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O imbecilionismo (parte 2)

Rodrigo Silva é doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. Assunção (SP).

<< Ler do início

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Imbecilionismo foi a palavra que inventei para definir o processo de se defender uma ideia imbecil usando argumentos imbecis. O termo é formado pela fusão de duas palavras bem conhecidas — imbecil e ilusionismo — , mas de forma alguma se refere, por exemplo, a quem seja vítima de um truque de circo. No imbecilionismo, você é o mágico e a plateia ao mesmo tempo. É aí que entra o “imbecil” na história.

Toda a fé cristã se baseia numa ideia fundamental que é uma tolice constrangedora: um ser perfeito, todo- poderoso, eterno, etc. que, ao que tudo indica, ficou entediado de sua existência monótona e resolveu nos criar, a nós e ao universo, de forma que tivesse alguma coisa pra fazer. Como essa bobagem infantiloide não encontra o mínimo respaldo no mundo real, fora das páginas do livro de fábulas através do qual ela se popularizou, o crente se vê forçado a recorrer constantemente ao imbecilionismo, para que a vida e as coisas não estraguem a sua fantasia, e o obriguem a viver num universo onde ele está, como todo mundo, por sua própria conta e risco.

Nada de padrinhos mágicos!

Para muita gente essa constatação seria um fardo insuportável; algo terrível demais para ser verdade. Portanto, o Deus deles, e não o dos outros, precisa existir. E se esse Deus existe, é óbvio que deve haver por aí um sem-número de coisas que alguém poderia usar para comprovar sua existência.

O problema é que não há. Então é preciso fazer o que o senhor Rodrigo Silva faz. É ele que apresenta um programa na TV Novo Tempo, cujo objetivo é sustentar com “evidências” os relatos bíblicos e, por tabela, a fé que as pessoas têm de que a Bíblia seja mesmo o que acham que ela é.

Para sustentar sua crença, o cristão se obriga a fazer mágica com as informações disponíveis, prestidigitação semântica com os textos do seu livro sagrado, e malabarismos com a realidade à sua volta, até se convencer de que aquela ideia inicial, aquela tolice constrangedora, é mesmo verdade.

Vou analisar os argumentos usados no vídeo do senhor Rodrigo Silva, para que você possa fixar bem a definição de imbecilionismo. Fica o convite para os crentes de plantão acompanharem os próximos textos e me desmoralizarem, apontando os inúmeros erros que certamente eu irei cometer, afinal, eu estou me propondo a refutar os argumentos de um doutor em teologia bíblica, cuja intenção é provar que nós somos mesmo o passatempo de Deus. 

Cientista prova a existência de Deus e ganha prêmio

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Por Redação Gospel+ em 26 de março de 2008

Através de leis da física e da filosofia, pesquisador polonês Michael Heller mostra que Deus existe e ganha um dos mais cobiçados prêmios. Ele montou a sua metodologia a partir do chamado “Deus dos cientistas”: o big bang, a grande explosão de um átomo primordial que teria originado tudo aquilo que compõe o universo.

Como um seminarista adolescente que se sente culpado quando sua mente se divide, por exemplo, entre o chamamento para o prazer da carne e a vocação para o prazer do espírito, o polonês Michael Heller se amargurava quando tentava responder à questão da origem do universo através de um ou de outro ramo de seu conhecimento – ou seja, sentia culpa.

Ocorre, porém, que Heller não é um menino, mas sim um dos mais conceituados cientistas no campo da cosmologia e, igualmente, um dos mais renomados teólogos de seu país. Entre o pragmatismo científico e a devoção pela religião, ele decidiu fixar esses seus dois olhares sobre a questão da origem de todas as coisas: pôs a ciência a serviço de Deus e Deus a serviço da ciência. Desse no que desse, ele fez isso.

O resultado intelectual é que ele se tornou o pioneiro na formulação de uma nova teoria que começa a ganhar corpo em toda a Europa: a “Teologia da Ciência”. O resultado material é que na semana passada Heller recebeu um dos maiores prêmios em dinheiro já dados em Nova York pela Fundação Templeton, instituição que reúne pesquisadores de todo o mundo: US$ 1,6 milhão.

O que é a “Teologia da Ciência”? Em poucas palavras, ela se define assim: a ciência encontrou Deus. E a isso Heller chegou, fazendo- se aqui uma comparação com a medicina, valendo-se do que se chama diagnóstico por exclusão: quando uma doença não preenche os requisitos para as mais diversas enfermidades já conhecidas, não é por isso que ela deixa de ser uma doença. De volta agora à questão da formação do universo, há perguntas que a ciência não responde, mas o universo está aqui e nós, nele. Nesse “buraco negro” entra Deus.

Segundo Heller, apesar dos nítidos avanços no campo da pesquisa sobre a existência humana, continua-se sem saber o principal: quem seria o responsável pela criação do cosmo? Com repercussão no mundo inteiro, o seu estudo e sua coragem em dizer que Deus rege a ciência naquilo que a ciência ainda tateia abrem novos campos de pesquisa. “Por que as leis na natureza são dessa forma? Heller incentivou esse tipo de discussão”, disse a ISTOÉ Eduardo Rodrigues da Cruz, físico e professor de teologia da PUC de São Paulo.

Heller montou a sua metodologia a partir do chamado “Deus dos cientistas”: o big bang, a grande explosão de um átomo primordial que teria originado tudo aquilo que compõe o universo. “Em todo processo físico há uma seqüência de estados. Um estado precedente é uma causa para outro estado que é seu efeito. E há sempre uma lei física que descreva esse processo”, diz ele. E, em seguida, fustiga de novo o pensamento: “Mas o que existia antes desse átomo primordial?”

Essas questões, sem respostas pela física, encontram um ponto final na religião – ou seja, encontram Deus. Valendo-se também das ferramentas da física quântica (que estuda, entre outros pontos, a formação de cadeias de átomos) e inspirando-se em questões levantadas no século XVII pelo filósofo Gottfried Wilhelm Leibniz, o cosmólogo Heller mergulha na metáfora desse pensador: imagine, por exemplo, um livro de geometria perpetuamente reproduzido.

Embora a ciência possa explicar que uma cópia do livro se originou de outra, ela não chega à existência completa, à razão de existir daquele livro ou à razão de ele ter sido escrito. Heller “apazigua” o filósofo: “A ciência nos dá o conhecimento do mundo e a religião nos dá o significado”. Com o prêmio que recebeu, ele anunciou a criação de um instituto de pesquisas. E já escolheu o nome: Centro Copérnico, em homenagem ao filósofo polonês que, sem abrir mão da religião, provou que o Sol é o centro do sistema solar.

A caminho do céu

Michael Heller usou algumas ferramentas fundamentais para ganhar o tão cobiçado prêmio científico da Fundação Templeton. Tendo como base principal a Teoria da Relatividade, de Albert Einstein, ele mergulhou nos mistérios das condições cósmicas, como a ausência de gravidade que interfere nas leis da física. Como explicar a massa negra que envolve o universo e faz nossos astronautas flutuarem? Como explicar a formação de algo que está além da compreensão do homem? Jogando com essas questões, que abrem lacunas na ciência, Heller afirma a possibilidade de encontrarmos Deus nos conceitos da física quântica, onde se estuda a relação dos átomos. Dependendo do pólo de atração, um determinado átomo pode atrair outro e, assim, Deus e ciência também se atraem. “E, se a ciência tem a capacidade de atrair algo, esse algo inexoravelmente existe”, diz Heller.

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Oração “em línguas estranhas” — A Fraude (parte 4)

O Departamento de Radiologia do Hospital da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, sob o comando do Dr. Andrew Newberg, realizou um experimento (vídeo abaixo) pelo qual se obteve registros do que acontecia no cérebro em duas situações distintas: quando o religioso orava em inglês; e quando orava em uma “língua estranha”, sob a alegada intercessão do Espírito Santo.

A análise das imagens de mapeamento do cérebro indicou que, quando a oração era feita em inglês, o lóbulo frontal, região responsável pela linguagem, era notadamente ativado; e que, quando a oração era feita “em línguas”, essa região não era solicitada. Ao serem informados disso, os religiosos que serviram de cobaias ficaram bastante satisfeitos, pois isso fazia sentido, uma vez que alegavam “não ter o controle” do que diziam: eles seriam, apenas, emissores de uma mensagem vinda diretamente de Deus. Sendo assim, o lóbulo frontal só precisaria estar ativo no cérebro do Criador; não no deles. E, aqui, parece que o experimento científico marcou um ponto a favor desse fenômeno, certo? 

Errado. Por causa de três pequenos problemas de, digamos… ordem técnica.

O primeiro foi que a análise das imagens também não revelou nada de anormal no cérebro (excetuando-se a já mencionada ausência de atividade no lóbulo frontal), quando a oração era feita “em línguas”. Ou seja, não havia qualquer outra diferença entre as imagens do mesmo cérebro orando em inglês e orando numa “língua estranha”; donde se conclui que, se a oração na língua materna era realizada de uma forma plenamente consciente e intencional, podia-se dizer o mesmo dos balbuceios ridículos de uma suposta “língua dos anjos”.

O segundo problema é o que nos leva a concluir os vídeos postados anteriormente, na Parte 2 e Parte 3: é muito difícil “inventar” uma nova língua, como a usada pelos aliens de Avatar.

A “oração” abaixo foi transcrita do vídeo (5’23″) ao fim do texto. Como não têm mesmo condições de passar 4 anos para “inventar” um novo idioma, é esse o resultado do improviso:

Iasato nobôbôbôbô sotou. Ralatriá satratamidiá seitidiu seitou. Rabababôbô soutoutou madriá satatramadriá satatramediê setetidiê sautaden.

Uma língua, como a portuguesa, por exemplo, embora composta por um conjunto bem pequeno de fonemas, pode gerar uma quantidade absurdamente gigantesca de palavras. E, além disso, as palavras sempre se renovam com notória diferença entre si, formando frases regidas por uma estrutura gramatical fixa, coalhada de verbos, agentes, referentes, dêiticos, locuções, qualificadores, modificadores, etc., que dão, obrigatoriamente, ritmo e entonação específicos para inúmeras situações que vão se sucedendo, e que dependem da mensagem, da eloquência e de um sem-número de fatores relativos àquele que fala, entrando aí até coisas como inteligência, inspiração e empolgação.

Não é preciso ser um linguista para perceber que as “línguas estranhas” não têm esse nome por acaso: elas nos soam muito estranho mesmo, para ser chamadas de “línguas”. O nosso cérebro, tão acostumado com o próprio idioma, não consegue ligar o nome à pessoa, entende?

A suposta “oração em línguas” nada mais é do que um arremedo do idioma nativo do indivíduo; uma sequência monótona de fonemas repetidos (suspeitamente fáceis de se proferir profusamente, de forma a dar ares de fluência), desprovida da entonação e da musicalidade inerentes a qualquer idioma. Uma mágica tola que apenas os tolos encanta.

O terceiro problema fica para o próximo post, e traz como base de refutação para o “dom de orar em línguas” argumentos e constatações retirados de um livro bastante desprezado pelos ateus, e que é quase que totalmente desconhecido dos crentes: a Bíblia.

<< Parte 1 

Religião faz o cérebro encolher

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Fonte: SUPER

O CIÊNCIA MALUCA adora uma boa banalidade – e não vê problema algum nisso. Mas o papo hoje é um pouquinho mais sério.

Tem um milhão de estudos por aí que apontam uma série de benefícios da religião para o cérebro. Mas, na ciência (ainda mais quando a gente inclui o “maluca”  no meio), pouca coisa é unanimidade.

Pesquisadores da Universidade de Duke, nos EUA, observaram os cérebros de 268 homens e mulheres com mais de 58 anos e notaram que o hipocampo – região envolvida, principalmente, na formação de memórias – era significativamente menor naqueles que se identificavam com grupos religiosos específicos ou que tinham passado por experiências religiosas de mudança de vida – aquela coisa de estar quase morrendo e “nascer” de novo, por exemplo.

Por quê? Hum, ninguém tem certeza ainda. Mas a principal hipótese do estudo é que certos aspectos da religião causem, em algumas pessoas, um estado constante de estresse.

Um indivíduo que faz parte de uma minoria religiosa e sofre preconceito por isso vive num estado de nervos mais delicado. Também pode acontecer com o sujeito que vive com o medo de ser punido por Deus por isso ou aquilo, ou então com o que tem ideias conflitantes com certos dogmas da religião. Ao longo do tempo, a liberação constante dos hormônios do estresse diminuiria o volume do hipocampo.

Tenso, né?

Leia também: Sexo faz o cérebro crescer.

Sam Harris – sobre religião

A ciência salvou minha alma

Foi santo Agostinho quem disse que “a razão destrói a fé”? É incrível como só um pouco de conhecimento é suficiente para tornar qualquer ideia de Deus insignificante, quando não completamente desnecessária.

O primeiro vídeo é uma indicação imperdível do leitor Fábio Paiva:  “A ciência salvou minha alma”.

O segundo vídeo é uma comédia: “Midinho e o Dízimo”. Entenda por que você deve dar 10% do seus ganhos para Deus. Aliás, dar, não — devolver! KKKkkkkkkk Eu disse: é uma comédia. Imperdível também.


Religião influencia decisões médicas, diz pesquisa

Veja Saúde – 26/08/2010

Médicos ateus e religiosos agem de forma diferente em relação a pacientes em fase terminal

BBC
médicos

Mais de 12% dos médicos pesquisados se descreveram como “muito ou extremamente religiosos”

A fé religiosa de um médico tem “forte influência” nas decisões que toma em relação a pacientes terminais. Os médicos ateus ou agnósticos – afirma estudo publicado no Journal of Medical Ethics – têm mais probabilidade de tomar decisões que acelerem o fim da vida de um paciente terminal que médicos profundamente religiosos. E é menos provável que os últimos discutam com seus pacientes muito graves as opções de tratamentos paliativos, revelou a pesquisa, conduzida pela Universidade de Londres.

Os especialistas afirmam que os resultados são “preocupantes” e revelam que é necessário dar mais atenção em como as crenças religiosas influem no cuidado médico. Os investigadores levaram a cabo uma pesquisa com mais de 8.500 médicos do Reino Unido, respondida por menos da metade.

Ainda que os entrevistados praticassem uma ampla gama de especialidades, a pesquisa foi centrada em particular nos que estavam envolvidos em tomadas de decisão de fim de vida, por exemplo, e em cuidados paliativos e com idosos. Foi perguntado aos médicos sobre o tratamento aplicado a seu último paciente falecido, se haviam oferecido uma sedação profunda contínua – ou sedação terminal – até a morte e se haviam discutido com seu paciente decisões que, em seu juízo, poderiam encurtar a vida. Também foram perguntados sobre suas crenças religiosas, origem étnica e opinião sobre a eutanásia e morte assistida.

No Reino Unido, é ilegal ministrar medicamentos com a intenção deliberada de por fim à vida de uma pessoa, mas os médicos podem oferecer morfina e outros fármacos para aliviar a dor ou o sofrimento. Esse procedimento – chamado sedação profunda terminal – pode ter o efeito de encurtar a vida.

Ateus x religiosos — O Conselho Médico Geral (GMC, na sigla em inglês), que regula a profissão no país, recomenda que as discussões com o paciente terminal sobre seu cuidado paliativo, que inclui a alimentação por sonda, hidratação e ressuscitação (os quais podem causar sofrimento desnecessário), devem começar o mais cedo possível. O GMC estabelece que ainda que os médicos partam da premissa que a vida deve ser prolongada, não deve perseguir o objetivo a qualquer preço.

Os resultados mostraram que os médicos que se qualificam como muito ou extremamente não religiosos mostraram 40% mais probabilidades de praticar a sedação que os médicos religiosos. Por outro lado, os que se descreveram como muito ou extremamente religiosos mostraram menos probabilidade de discutir com seus pacientes sobre decisões sobre seu tratamento paliativo.

Mais de 12% dos médicos pesquisados se descreveram como “muito ou extremamente religiosos”. Os médicos dedicados ao cuidado de idosos tinham mais probabilidade de serem hindus ou muçulmanos, e os médicos dedicados aos cuidados paliativos mostraram mais probabilidade de serem cristãos, brancos e de descreverem-se como “religiosos”. Um em cada cinco se revelou “muito ou extremamente não religioso”. Em geral, os médicos brancos, que representam o maior grupo étnico da pesquisa, mostraram menos probabilidade de identificar-se com fortes crenças religiosas.

A arrogância cega da fé

Se você clicar Aqui vai assistir a um vídeo no YouTube em que o zoólogo e escritor Richard Dawkins dá uma resposta desconcertante para uma jovem de uma universidade para moças na Virgínia, US, na seção de perguntas logo após uma palestra para a qual ele fora convidado para fazer a divulgação do seu mais novo livro: Deus, Um Delírio.

Com relação à descrença em Deus por parte do palestrante, a jovem fez a seguinte pergunta: “E se você estiver errado?”.

A RESPOSTA:

– Bem, o que define ‘errado’?… ou seja, qualquer um pode estar errado. Nós todos podemos estar errados sobre o Monstro de Espagetti Voador (1), sobre o Unicórnio cor-de-rosa, ou sobre o Bule de Porcelana Cósmico (2). Você, por acaso, foi criada, eu presumo, dentro da fé cristã. Você sabe o que significa não acreditar em uma determinada fé porque você não é muçulmana, não é uma hindu. Por que você não é hindu? Porque aconteceu de você ter crescido nos Estados Unidos, não na Índia. Se você tivesse sido criada na Índia, seria uma hindu. Se você tivesse sido criada na Dinamarca, no tempo dos Vikings, você acreditaria no Terrível Martelo de Thor. Se você tivesse crescido na Grécia Clássica, acreditaria em Zeus. Se você tivesse sido criada na África Central, acreditaria no Grande Ju-Ju da Montanha. Não há nenhuma razão particular para se escolher o Deus judaico-cristão no qual, por puro acaso, você foi criada acreditando. E você me faz a pergunta ‘e se eu estiver errado?’. E se VOCÊ estiver errada acerca do Grande Ju-Ju do fundo do mar?”

A questão é que, via de regra, o crente, seja de que religião for, quer impor a sua divindade a todo o resto do mundo como sendo a única verdadeira. Ou, no mínimo, está totalmente convencido disso. Daí, das duas uma: ou todas as divindades são verdadeiras, ou nenhuma é.

Toda fé é apenas fruto da ignorância. Não no sentido pejorativo do termo, mas no sentido de que quanto mais se pensa, quanto mais se raciocina, menos fé se tem. Por isso a fé se sustenta nos dogmas (=aceite e não pense a respeito), sempre foi inimiga da razão (“A Razão é a meretriz do Diabo” – Martinho Lutero), e sempre tentou, à custa de muitas vidas, se manter acima da ciência na preferência do povo. “A Igreja entende que a Terra é plana”: problema dela. Mas, ops!, quem divulgar o contrário será barbaramente torturado e queimado vivo! Problema nosso. Muitos séculos, e muita barbárie depois, a Igreja reconhece o erro. “Agora a Igreja entende que a Terra é redonda, mas continua sendo o centro do universo”: problema dela. Mas, ops!, quem divulgar o contrário será barbaramente torturado e queimado vivo! Problema nosso. Muitos séculos, e muitas vidas depois, a Igreja reconhece o erro. “Agora a Igreja entende que a Terra é redonda e não é o centro do universo, mas considera pecado usar embriões humanos para pesquisa, e camisinha nas relações sexuais” porque “atenta contra a vida”. Infelizmente, para muitos religiosos, a Igreja não pode mais usar os seus instrumentos de tortura e suas fogueiras para difundir e “solidificar a fé”, mas a pergunta é: mais quanto tempo vai passar e mais quantas vidas vão ter que se perder até que ela admita novamente que errou?

Por causa dessa arrogância, milhões de pessoas foram mortas e torturadas e ainda estão sendo mortas e torturadas, de um jeito ou de outro. Milhões de mulheres foram queimadas vivas apenas porque sabiam curar algum mal-estar usando plantas medicinais e chás… ou, simplesmente, porque “aparentavam” ter um conhecimento, inteligência ou comportamento superior ao dos homens, ou diferente do que os homens achavam conveniente ser esperado numa mulher ou de uma mulher.

Não espero que você consiga imaginar o que significa milhões de pessoas sofrendo no ato da sua execução por discordarem do que seus executores acreditam.

Mas acho que você poderia se esforçar um pouco para imaginar a raiva desesperadora que sentiria se fosse VOCÊ quem estivesse amarrado ao tronco na hora em que a palha fosse acesa, condenado a queimar lentamente até a morte por acreditar em algo que seus executores não acreditam… por exemplo, que a Terra é redonda…

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(1) Uma lenda amplamente difundida na Internet: The Flying Spaghetti Monster

(2) “The orbiting china* teapot” mencionado em Deus, um Delírio: uma proposição do filósofo Bertand Russell de que haveria um bule em órbita entre a Terra e Marte, e que, pelo fato de não ser possível provar que ele não existe, não se poderia concluir que ele realmente exista.

*porcelana

Ciência e Religião

A Religião tem um grave problema de falta de critério quando o assunto é Ciência. Se eu sou uma pessoa religiosa e a Bíblia me diz, por exemplo, que, quando do Dilúvio, a Terra foi totalmente encoberta com água até muito acima do seu ponto mais alto, enquanto que a Ciência argumenta que toda a água presente na Terra não seria capaz, sequer, de enlamear toda a superfície do planeta, eu digo para mim mesmo: “A Bíblia é que está certa. A Ciência é falível”. Mas, alguém poderia perguntar, não é nessa mesma Ciência Falível em que se confiam alguns dos processos mais importantes do Vaticano, como o da canonização e o da autorização para exorcismo? Esses processos não exigem claramente que essa Ciência Falível dê o aval de que tal e tal ocorrência não tem explicação científica e, mais ainda, desafia o próprio conhecimento científico como um todo?

E alguém poderia imaginar ainda ― como argumentou Richard Dawkins no seu livro “Deus, um Delírio” ―, no caso hipotético de escavações arqueológicas encontrarem, digamos, algum resquício de cabelo, sangue, etc., que pudesse ser atribuído a Jesus Cristo e, após os exames em um renomado laboratório genético, fosse anunciado que a amostra encontrada possui duas cadeias de DNA idênticas, ambas vindas da mãe (sem o cromossomo Y masculino), concluindo-se, assim, que a pessoa a qual pertencia aquele fragmento foi gerada exclusivamente por uma mulher… pois bem, alguém seria capaz de imaginar o Papa Bento XVI aparecendo na manhã seguinte para dizer a uma multidão de fiéis ansiosos na Praça de São Pedro que “Essa declaração não deve ser levada muito a sério porque a Ciência é falível”??? Ou seria mais provável que o Vaticano fizesse tocar trombetas pelos quatro cantos do mundo para anunciar a “comprovação científica” da natureza divina de Jesus? A Ciência não poderia estar, de repente, equivocada? A resposta é não.

Pelo menos não quando for conveniente.

Uma questão de marketing

No fim de maio de 2008, o Jornal Nacional exibiu uma reportagem sobre a polêmica que a discussão sobre a votação de uma lei para regulamentar a pesquisa com células-tronco estava gerando entre os religiosos brasileiros. Um jovem, representante do movimento evangélico, foi entrevistado e protestou enfurecidamente contra a aprovação de qualquer tipo de pesquisa que utilizasse embriões humanos, e concluiu dizendo que a intenção de se aprovar leis que regulamentassem esse tipo de coisa mostrava que o Estado estava “se tornando um Estado ateu; não está respeitando a fé das pessoas”. Lógico que ele jamais iria reclamar se o Estado estivesse se tornando um “Estado evangélico” e, obviamente, o trecho “não está respeitando a fé das pessoas”, se ele não fosse tão hipócrita, teria sido substituído por “não está respeitando a minha fé”.

Bom, eu confesso que nunca li a Bíblia toda, mas sou capaz de apostar que não deve ter nada lá proibindo pesquisas com células-tronco, o que provocou o discurso enfurecido do jovem evangélico, nem nada sobre fertilização “in-vitro” ― bebê de proveta ― onde para se conseguir o nascimento de um único bebê, geralmente são descartados, pelo menos, dez embriões humanos, e sobre o que as várias igrejas evangélicas, como a Igreja Católica, não parecem se incomodar tanto. Talvez a “Cruzada contra as células-tronco” seja só modismo. Ou propaganda. Ou os dois.

Entretanto, tal pretensão humana de “brincar de Deus” é ferozmente atacada pelos religiosos, que alegam que o embrião já é uma vida, querendo dar a entender que eles respeitam demais a vida humana. Mas a História está repleta de incontáveis exemplos desse “respeito” demonstrado pelas religiões do mundo. E a Cristã, da qual os evangélicos fazem parte, foi a que deu mais provas dele, seja pelas fogueiras que acendeu ou pelas guerras que motivou.

Isso mostra a falta de “critério”, a lógica maluca da fé: “Eu estou aqui defendendo esse aglomerado de células porque a minha religião tem alto apreço pela vida. Sim, já que você tocou no assunto, é a mesma religião, sim, que exterminou milhões de vidas humanas ao longo da História”.

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