Religião e Longevidade [Republicação]

Essa semana, as páginas amarelas da revista Veja trouxeram uma entrevista com um psiquiatra americano, autor de 40 livros que relacionam crença religiosa com saúde, o professor Harold Koenig. Sua apresentação pela jornalista que o entrevistou não poderia ser mais instigante: “nasceu em uma família católica, mas hoje, por influência da mulher, frequenta a igreja protestante”.

Selecionei alguns trechos para comentar, porque eu tenho mesmo uma certa antipatia por pessoas “influenciáveis”, e gosto de externar essa antipatia, mesmo que não possa ser diretamente para a fonte dela.

Perguntado como havia chegado à conclusão de que a religiosidade aumenta a sobrevida das pessoas em até 29%, ele respondeu que “Há uma relação significativa entre frequência da prática religiosa e longevidade. Acredito que o impacto na sobrevida seja até maior, algo em torno de 35%”.

“Acredita”? Aparentemente as conclusões do entrevistado não são baseadas em pesquisas científicas sérias, como a que divulguei no texto O Falso Poder da Oração. Quando você “faz ciência”, você não “acredita” nos dados obtidos: você os calcula.

Outra coisa, na mesma resposta, ele afirmou que “tanto os mandamentos religiosos quanto a vida em comunidade estimulam a boa saúde”. Eu gostaria que ele tivesse dito exatamente a que mandamento(s) ele estaria se referindo. Quando à vida em comunidade, divulguei também outro estudo a respeito em Eis o Mistério da Fé.

Mais à frente na entrevista, ele diz que:

As crenças religiosas precisam influenciar sua vida para que elas influenciem também sua saúde.

Quanto mais uma pessoa fosse influenciada pela sua religião, mais ela deveria acreditar que sua fé seria suficiente para manter sua saúde, ou lhe curar de doenças, e menos procurar assistência médica especializada. Isso não faz parte do mundo em que eu vivo. No mundo em que eu vivo, as pessoas religiosas vão dar depoimentos chorosos em programas de tevê com pilhas de papéis de exames clínicos na mão, que mostram como Deus as curou, através dos seus respectivos planos de saúde…

Quando a entrevistadora quis saber se havia alguma evidência que mostrasse se uma determinada religião teria mais efeitos positivos do que outra, quando se considerava os fatores saúde e longevidade, ele disse que não havia “estudos confiáveis” sobre o tema, e ainda veio com essa:

Um credo cujos benefícios são óbvios no Brasil pode não ter o mesmo efeito positivo sobre as pessoas nos países árabes.

Donde se infere o motivo que o levou a mudar para a religião da esposa: não é o sistema de crenças que importa, mas o fato de você estar “conectado” ao mesmo sistema de crenças das pessoas que o cercam. Não é à toa que sociedades diferentes, em épocas diferentes, inventaram deuses diferentes…

O senhor diz que quem vê Deus como uma entidade distante e punitiva tem menos benefícios para a saúde do que quem o vê como um ser compreensivo e que perdoa. Por quê?

A religião pode virar uma fonte de stress se aumentar o sentimento de culpa ou gerar um mal-estar na pessoa (…). Por isso, acho que faz bastante diferença acreditar em um Deus amoroso e misericordioso.

Donde se conclui que Deus é aquilo que você quer que ele seja.

Falando sobre o comportamento de pacientes em estado terminal, ele diz que aqueles que são religiosos “toleram melhor o processo da morte. Eles acreditam que não é o fim e, por isso, não ficam tão ansiosos. Sabem que vão para um lugar melhor”.

Não, eles não sabem, porque não há como “saber”. Eles têm fé; eles acreditam; eles esperam que seja como sua crença sempre lhes disse que será. E uma coisa que Richard Dawkins disse e que nunca me saiu da cabeça foi que, se esse pensamento tivesse um mínimo fundo de verdade, um mínimo de vínculo com a realidade à nossa volta, seria fácil descobrir, num velório, quais dos presentes seriam ateus e quais seriam os crentes.

Quando a jornalista quis saber o que ele pensava de ateus e agnósticos, o crente que havia nele não aguentou mais ficar escondido por trás do escritor, do professor, do pesquisador, e se revelou em toda sua idiotice:

Apenas uma fração do mundo pode ser explicada pela ciência.

Claro, em tudo mais, você enfia o seu Deus e resolve o problema.

Noventa por cento da população mundial acredita em Deus e, se você faz parte dos 10% que não creem ou não têm certeza, ao menos mantenha a mente aberta.

Eu acho que alguém deve ter dito isso para o primeiro grego que começou a desconfiar que a Terra era redonda. E incrível como o fato de 100% das pessoas não concordar com ele não foi suficiente para mudar a forma do nosso planeta.

Mantenha sua mente aberta pra isso também. 

A fila dos ignorantes

O que mais lhe vem à memória, além da figura acima e do rosto barbudo de Charles Darwin, quando alguém toca no assunto Teoria da Evolução?

Quando Testemunhas de Jeová vêm bater na minha porta nas manhãs de domingo, eu sempre tenho curiosidade de saber o que elas pensam a respeito do tema. E é constrangedor perceber que tudo o que aquelas pessoas conhecem sobre a Teoria da Evolução das Espécies é o que lhes sugere a figura de alguns seres, em fila, com a silhueta de um macaco agachado numa ponta e, na outra, a de um homem caminhando.

Eu estou no extremo oposto ao que se poderia chamar de “especialista”, mas arrisco dizer que entendo a essência da Evolução, talvez com a mesma arrogância com que os religiosos alegam entender a essência de Deus. É essa arrogância, aliada a um certo preconceito, que me faz acreditar que os crentes de programa só sabem uma coisa sobre o assunto: que “o homem veio do macaco”. Chamo atenção para o meu preconceito, porque imagino que aqueles que fazem da ida semanal às suas bocas de culto sua principal atividade de lazer, não teriam mesmo de onde tirar tempo ou motivação para se inteirar acerca de uma teoria científica. Há, é claro, pessoas de fé que podem, sim, ter a exata noção do que se trata, mas estas não querem entendê-la, e preferem ficar com a versão sagrada do livro sagrado que elas, estranhamente, não encontraram tempo nem motivação para ler. Esses dois tipos de crentes farão questão de rir na sua cara — como já riram na minha — por você acreditar em tamanha tolice; a de que, como lhes ensina a imagem que se tornou uma famosa estampa de camiseta, um macaquinho começou a caminhar sobre as patas traseiras e virou gente.

A propaganda que foi ardilosamente disseminada  pela Igreja Católica, desde a publicação do livro que dispensou a Bíblia para dizer de onde viemos, acabou beneficiando todas as demais religiões, ao sugerir que essa teoria ridícula de Charles Darwin não só merece mesmo o escárnio do crente, como serve também de fortalecimento (se não de orgulho) de sua própria fé naquele que o criou à sua imagem e semelhança. Afinal, você prefere ter uma ascendência divina, ou ser descendente de um macaco?

No imaginário daqueles que têm a Bíblia como “fonte de informação”, a Teoria da Evolução diz que, num belo dia, uma macaca emprenhou de um macaco e pariu o primeiro ser humano. O que, sem dúvida, merece mesmo umas risadas. Só não entendo por que eles não acham graça quando se conta uma certa estória em que uma cobra tenta convencer uma mulher a comer uma maçã; ou a de um ser que é todo bondade fazendo a Terra, digo, fazendo o Sol parar seu giro em volta do nosso planeta e, assim, ajudar um apadrinhado a exterminar seus inimigos; ou aqueloutra que fala de um cara que sobreviveu por três dias no estômago de uma baleia. Pois não, eles não riem dessas. E como se fosse o suficiente, eles apenas fazem questão de nos lembrar (ou de nos corrigir) que não, a Bíblia não diz que é uma maçã, mas um “fruto”; e não, a Bíblia não diz que era uma baleia, mas um “peixe grande”. Mas nenhum crente consegue fazer aquela ideia — a de uma macaquinha sendo mãe de um bebê humano — parecer mais inverossímil do que a de um sol que para no céu por algumas horas e nenhum outro povo na Terra ter percebido o evento.

Para os que quiserem ter uma noção um pouco mais aprofundada do que vem a ser a Teoria da Evolução, eu indico o vídeo abaixo, em que Yuri Grecco expõe, de uma forma brilhantemente concisa e bem-humorada, os conceitos básicos que você precisa ter sobre o tema, mas que vão muito além do que se poderia inferir de uma estampa de camiseta. Assista e saia da fila dos ignorantes.

E, se interessa saber, nós não “viemos” dos macacos. Nós “somos” macacos!

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Foi-se o tempo dos milagres…

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Certa vez, num daqueles cultos ao ar livre que atraem uma multidão para ouvir a “palavra”, o “apóstolo” Valdemiro Santiago recebeu no palco (porque aquilo é mesmo um show) uma mãe e suas três filhinhas gêmeas de sete anos de idade, para dar o testemunho de um milagre incrível: elas eram cegas e, ali mesmo, durante o culto, as três crianças haviam voltado a enxergar.

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— As três, irmã?!

— As três, apóstolo!

— Assim… ao mesmo tempo?! Na mesma hora?!

— Isso mesmo. Para honra e glória de Nosso Senhor Jesus Cristo!

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Depois de ter feito um “teste” com cada uma das garotas, para comprovar o milagre — “Você tá me vendo? E você, meu anjo, tá vendo aquele cartaz lá na frente? E você, tá vendo a câmera ali no meio do povo?” —, e como criança não mente (claro que elas estavam vendo!), o apóstolo virou-se emocionado para a plateia e concluiu:

— Jesus não é maravilhoso, gente?

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É sim. É tão maravilhoso que nenhum dos fiéis pareceu querer pedir explicações sobre de quem seriam aqueles três óculos de grau bonitinhos (lentes transparentes e armações coloridas: uma verde, uma rosa, uma branca) que a mãe das meninas segurava o tempo todo enquanto dava seu depoimento no palco, e que as câmeras não tiveram como não filmar. Para que diabos três crianças cegas precisariam de óculos de grau? 

Fraude. É o outro nome da palavra “milagre”.

Eu não pude deixar de reparar: Deus perdeu potência nesses últimos dois mil anos e, agora, só produz milagres intracorpóreos.

É certo que, com a excessiva quantidade de câmeras de vídeo circulando por aí, ninguém poderia se dar ao luxo de caminhar sobre as águas sem ir parar no YouTube. O Chris Angel fez isso, andou sobre as águas, mas o Mister M quis aparecer também e revelou a fraude. Talvez seja por isso que os milagres deixaram de ser o que eram nos templos bíblicos: se hoje algum abençoado divulga um milagre divino, logo aparece um sacana para desmascarar a palhaçada.

Depois que a farsa de imagens chorando sangue foi revelada; depois que os exorcismos se tornaram tão comuns nas igrejas evangélicas quanto crianças fazendo malabarismos nos semáforos; depois que ninguém mais vai acreditar que você viu Nossa Senhora flutuando em cima de uma moita se você não tiver tirado uma foto do seu celular, qualquer milagre hoje envolve, obrigatoriamente, o binômio doença-cura.

O papa João Paulo II, por exemplo, tá na fila pra ser santo porque uma freira se curou de leucemia; a irmã Dulce, porque uma mulher que recebeu dos médicos a notícia de que estava à beira da morte não morreu.

Eu, claro, não consigo enxergar assim tão facilmente os milagres. Onde os religiosos veem a competência de Deus, eu só consigo ver a incompetência humana. No caso do “milagre” da irmã Dulce, a mulher desenganada, após ter recebido tratamento hospitalar intensivo e prolongado, em vez de estar muito contente com o milagre de Deus, poderia muito bem ter processado os médicos por danos morais, porque eles lhe deram um prognóstico terrível equivocadamente. Na verdade, foram eles, os médicos, os mais beneficiados com a crença da paciente num suposto milagre.

Já a freira do “milagre” do papa João Paulo II poderia nunca ter estado doente, como pode, também, não estar curada. Se não me admira nada os médicos terem errado na avaliação do tempo de vida da mulher do suposto milagre da irmã Dulce, também não iria me espantar se alguém tiver errado no diagnóstico de leucemia do milagre do papa, ou no seu diagnóstico de cura

Mas é assim que funciona a coisa nos dias de hoje: crentes na fila dos testemunhos das igrejas evangélicas dizendo-se milagrosamente curados de uma doença. Geralmente eles trazem exames e fotos do tipo “Antes e Depois” para comprovar o milagre. Só que o Mister M e a mamãe das trigêmeas “cegas” vêm sempre nos lembrar que alguém poderia ter fraudado uma coisa ou outra.


Religião e Longevidade

Essa semana, as páginas amarelas da revista Veja trouxeram uma entrevista com um psiquiatra americano, autor de 40 livros que relacionam crença religiosa com saúde, o professor Harold Koenig. Sua apresentação pela jornalista que o entrevistou não poderia ser mais instigante: “nasceu em uma família católica, mas hoje, por influência da mulher, frequenta a igreja protestante”.

Selecionei alguns trechos para comentar, porque eu tenho mesmo uma certa antipatia por pessoas “influenciáveis”, e gosto de externar essa antipatia, mesmo que não possa ser diretamente para a fonte dela.

Perguntado como havia chegado à conclusão de que a religiosidade aumenta a sobrevida das pessoas em até 29%, ele respondeu que “Há uma relação significativa entre frequência da prática religiosa e longevidade. Acredito que o impacto na sobrevida seja até maior, algo em torno de 35%”.

“Acredita”? Aparentemente as conclusões do entrevistado não são baseadas em pesquisas científicas sérias, como a que divulguei no texto O Falso Poder da Oração. Quando você “faz ciência”, você não “acredita” nos dados obtidos: você os calcula.

Outra coisa, na mesma resposta, ele afirmou que “tanto os mandamentos religiosos quanto a vida em comunidade estimulam a boa saúde”. Eu gostaria que ele tivesse dito exatamente a que mandamento(s) ele estaria se referindo. Quando à vida em comunidade, divulguei também outro estudo a respeito em Eis o Mistério da Fé.

Mais à frente na entrevista, ele diz que:

As crenças religiosas precisam influenciar sua vida para que elas influenciem também sua saúde.

Quanto mais uma pessoa fosse influenciada pela sua religião, mais ela deveria acreditar que sua fé seria suficiente para manter sua saúde, ou lhe curar de doenças, e menos procurar assistência médica especializada. Isso não faz parte do mundo em que eu vivo. No mundo em que eu vivo, as pessoas religiosas vão dar depoimentos chorosos em programas de tevê com pilhas de papéis de exames clínicos na mão, que mostram como Deus as curou, através dos seus respectivos planos de saúde…

Quando a entrevistadora quis saber se havia alguma evidência que mostrasse se uma determinada religião teria mais efeitos positivos do que outra, quando se considerava os fatores saúde e longevidade, ele disse que não havia “estudos confiáveis” sobre o tema, e ainda veio com essa:

Um credo cujos benefícios são óbvios no Brasil pode não ter o mesmo efeito positivo sobre as pessoas nos países árabes.

Donde se infere o motivo que o levou a mudar para a religião da esposa: não é o sistema de crenças que importa, mas o fato de você estar “conectado” ao mesmo sistema de crenças das pessoas que o cercam. Não é à toa que sociedades diferentes, em épocas diferentes, inventaram deuses diferentes…

O senhor diz que quem vê Deus como uma entidade distante e punitiva tem menos benefícios para a saúde do que quem o vê como um ser compreensivo e que perdoa. Por quê?

A religião pode virar uma fonte de stress se aumentar o sentimento de culpa ou gerar um mal-estar na pessoa (…). Por isso, acho que faz bastante diferença acreditar em um Deus amoroso e misericordioso.

Donde se conclui que Deus é aquilo que você quer que ele seja.

Falando sobre o comportamento de pacientes em estado terminal, ele diz que aqueles que são religiosos “toleram melhor o processo da morte. Eles acreditam que não é o fim e, por isso, não ficam tão ansiosos. Sabem que vão para um lugar melhor”.

Não, eles não sabem, porque não há como “saber”. Eles têm fé; eles acreditam; eles esperam que seja como sua crença sempre lhes disse que será. E uma coisa que Richard Dawkins disse e que nunca me saiu da cabeça foi que, se esse pensamento tivesse um mínimo fundo de verdade, um mínimo de vínculo com a realidade à nossa volta, seria fácil descobrir, num velório, quais dos presentes seriam ateus e quais seriam os crentes.

Quando a jornalista quis saber o que ele pensava de ateus e agnósticos, o crente que havia nele não aguentou mais ficar escondido por trás do escritor, do professor, do pesquisador, e se revelou em toda sua idiotice:

Apenas uma fração do mundo pode ser explicada pela ciência.

Claro, em tudo mais, você enfia o seu Deus e resolve o problema.

Noventa por cento da população mundial acredita em Deus e, se você faz parte dos 10% que não creem ou não têm certeza, ao menos mantenha a mente aberta.

Eu acho que alguém deve ter dito isso para o primeiro grego que começou a desconfiar que a Terra era redonda. E incrível como o fato de 100% das pessoas não concordar com ele não foi suficiente para mudar a forma do nosso planeta.

Mantenha sua mente aberta pra isso também. 

A fila dos ignorantes

O que mais lhe vem à memória, além da figura acima e do rosto barbudo de Charles Darwin, quando alguém toca no assunto Teoria da Evolução?

Quando Testemunhas de Jeová vêm bater na minha porta nas manhãs de domingo, eu sempre tenho curiosidade de saber o que elas pensam a respeito do tema. E é constrangedor perceber que tudo o que aquelas pessoas conhecem sobre a Teoria da Evolução das Espécies é o que lhes sugere a figura de alguns seres, em fila, com a silhueta de um macaco agachado numa ponta e, na outra, a de um homem caminhando.

Eu estou no extremo oposto ao que se poderia chamar de “especialista”, mas arrisco dizer que entendo a essência da Evolução, talvez com a mesma arrogância com que os religiosos alegam entender a essência de Deus. É essa arrogância, aliada a um certo preconceito, que me faz acreditar que os crentes de programa só sabem uma coisa sobre o assunto: que “o homem veio do macaco”. Chamo atenção para o meu preconceito, porque imagino que aqueles que fazem da ida semanal às suas bocas de culto sua principal atividade de lazer, não teriam mesmo de onde tirar tempo ou motivação para se inteirar acerca de uma teoria científica. Há, é claro, pessoas de fé que podem, sim, ter a exata noção do que se trata, mas estas não querem entendê-la, e preferem ficar com a versão sagrada do livro sagrado que elas, estranhamente, não encontraram tempo nem motivação para ler. Esses dois tipos de crentes farão questão de rir na sua cara — como já riram na minha — por você acreditar em tamanha tolice; a de que, como lhes ensina a imagem que se tornou uma famosa estampa de camiseta, um macaquinho começou a caminhar sobre as patas traseiras e virou gente.

A propaganda que foi ardilosamente disseminada  pela Igreja Católica, desde a publicação do livro que dispensou a Bíblia para dizer de onde viemos, acabou beneficiando todas as demais religiões, ao sugerir que essa teoria ridícula de Charles Darwin não só merece mesmo o escárnio do crente, como serve também de fortalecimento (se não de orgulho) de sua própria fé naquele que o criou à sua imagem e semelhança. Afinal, você prefere ter uma ascendência divina, ou ser descendente de um macaco?

No imaginário daqueles que têm a Bíblia como “fonte de informação”, a Teoria da Evolução diz que, num belo dia, uma macaca emprenhou de um macaco e pariu o primeiro ser humano. O que, sem dúvida, merece mesmo umas risadas. Só não entendo por que eles não acham graça quando se conta uma certa estória em que uma cobra tenta convencer uma mulher a comer uma maçã; ou a de um ser que é todo bondade fazendo a Terra, digo, fazendo o Sol parar seu giro em volta do nosso planeta e, assim, ajudar um apadrinhado a exterminar seus inimigos; ou aqueloutra que fala de um cara que sobreviveu por três dias no estômago de uma baleia. Pois não, eles não riem dessas. E como se fosse o suficiente, eles apenas fazem questão de nos lembrar (ou de nos corrigir) que não, a Bíblia não diz que é uma maçã, mas um “fruto”; e não, a Bíblia não diz que era uma baleia, mas um “peixe grande”. Mas nenhum crente consegue fazer aquela ideia — a de uma macaquinha sendo mãe de um bebê humano — parecer mais inverossímil do que a de um sol que para no céu por algumas horas e nenhum outro povo na Terra ter percebido o evento.

Para os que quiserem ter uma noção um pouco mais aprofundada do que vem a ser a Teoria da Evolução, eu indico o vídeo abaixo, em que Yuri Grecco expõe, de uma forma brilhantemente concisa e bem-humorada, os conceitos básicos que você precisa ter sobre o tema, mas que vão muito além do que se poderia inferir de uma estampa de camiseta. Assista e saia da fila dos ignorantes.

E, se interessa saber, nós não “viemos” dos macacos. Nós “somos” macacos!

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O imbecilionismo (parte 5)

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<< Ler do início

Se você assistiu ao vídeo inicial, e se vem acompanhando meus textos até aqui, viu como demonstrei que o teólogo apresentador do programa Evidências recorre a uma mágica argumentativa muito comum no imbecilionismo. Funciona basicamente assim: ele usa dados e faz considerações referentes a todas as religiões e a todos os deuses nos quais as pessoas acreditam, para, logo em seguida, usar a força desses dados e o resultado dessas considerações direcionados para a sua própria religião e para o seu próprio Deus, ignorando acintosamente que aqueles dados e considerações que ele precisou angariar, para dar consistência à sua tese, não se referiam exclusivamente à sua divindade específica. Isso se repete explicitamente ao longo de todo o programa.

Aliado a isso, um apelo subliminar para que você, se não crente, passe então a considerar os fenômenos psicossomáticos do efeito placebo como sendo obra e graça do Espírito Santo, como se esses “milagres” não ocorressem em fiéis de outros deuses, e até mesmo em quem não se curva a deus algum.

Para concluir, uma última transcrição da fala do teólogo:

   Mas eu nunca vi título de PhD sendo dado a alguém porque admite a existência de Papai Noel. Mas muitas pessoas que acreditam na historicidade do Gênesis têm os seus títulos conferidos por respeitadas universidades ao redor do mundo.” (20’38”)

Deus e Papai Noel. Para colocar esses dois seres míticos em contraposição, como se um deles fosse real e o outro imaginário, é preciso ser desonesto até com a própria lógica.

O teólogo quer sugerir que Deus é real porque, se não fosse, crentes em Deus não obteriam títulos de PhD de universidades renomadas, assim como nunca se soube de um crente em Papai Noel recebendo tal título. Ora, se as universidades não dão título de PhD a quem crê num mito como o Papai Noel, é de se esperar que façam o mesmo para todos os outros mitos. Logo, Deus não pode ser um mito.

Mas acontece que as “muitas pessoas que acreditam na historicidade do Gênesis” também não obtiveram seus títulos de PhD porque admitem a existência de Deus, que foi a mesma estrutura que ele usou quando se referiu ao Papai Noel, na primeira sentença. Os doutores da ciência, embora certamente muitos deles sejam cristãos, receberam seus títulos por suas descobertas e teses que tratam do mundo real, onde não há espaço para ilusões e fé; onde Deus não existe. O fato deles acreditarem no Deus cristão teve tanto peso para que recebessem seus títulos quanto o fato de muitos serem vegetarianos ou jogadores de xadrez.

Esse artifício chama-se sofisma, e é outra dentre as muitas ferramentas do imbecilionismo. Já tratei dele no meu texto Deus é negro, cego, e toca piano, mas não custa nada repetir a definição aqui, pois ela tem tudo a ver com o processo pelo qual os crentes tentam se convencer, e convencer os outros, de que o Deus que eles criaram dentro de suas cabeças faz parte do mundo que existe fora dela.

Sofisma — argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade, que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta, na realidade, uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa. 


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O imbecilionismo (parte 2)

Rodrigo Silva é doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. Assunção (SP).

<< Ler do início

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Imbecilionismo foi a palavra que inventei para definir o processo de se defender uma ideia imbecil usando argumentos imbecis. O termo é formado pela fusão de duas palavras bem conhecidas — imbecil e ilusionismo — , mas de forma alguma se refere, por exemplo, a quem seja vítima de um truque de circo. No imbecilionismo, você é o mágico e a plateia ao mesmo tempo. É aí que entra o “imbecil” na história.

Toda a fé cristã se baseia numa ideia fundamental que é uma tolice constrangedora: um ser perfeito, todo- poderoso, eterno, etc. que, ao que tudo indica, ficou entediado de sua existência monótona e resolveu nos criar, a nós e ao universo, de forma que tivesse alguma coisa pra fazer. Como essa bobagem infantiloide não encontra o mínimo respaldo no mundo real, fora das páginas do livro de fábulas através do qual ela se popularizou, o crente se vê forçado a recorrer constantemente ao imbecilionismo, para que a vida e as coisas não estraguem a sua fantasia, e o obriguem a viver num universo onde ele está, como todo mundo, por sua própria conta e risco.

Nada de padrinhos mágicos!

Para muita gente essa constatação seria um fardo insuportável; algo terrível demais para ser verdade. Portanto, o Deus deles, e não o dos outros, precisa existir. E se esse Deus existe, é óbvio que deve haver por aí um sem-número de coisas que alguém poderia usar para comprovar sua existência.

O problema é que não há. Então é preciso fazer o que o senhor Rodrigo Silva faz. É ele que apresenta um programa na TV Novo Tempo, cujo objetivo é sustentar com “evidências” os relatos bíblicos e, por tabela, a fé que as pessoas têm de que a Bíblia seja mesmo o que acham que ela é.

Para sustentar sua crença, o cristão se obriga a fazer mágica com as informações disponíveis, prestidigitação semântica com os textos do seu livro sagrado, e malabarismos com a realidade à sua volta, até se convencer de que aquela ideia inicial, aquela tolice constrangedora, é mesmo verdade.

Vou analisar os argumentos usados no vídeo do senhor Rodrigo Silva, para que você possa fixar bem a definição de imbecilionismo. Fica o convite para os crentes de plantão acompanharem os próximos textos e me desmoralizarem, apontando os inúmeros erros que certamente eu irei cometer, afinal, eu estou me propondo a refutar os argumentos de um doutor em teologia bíblica, cuja intenção é provar que nós somos mesmo o passatempo de Deus. 

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