O Sabino é português, autor do blog A Lógica do Sabino. Um conterrâneo dele, o Mats, autor do blog Darwinismo, discutindo comigo sobre moral, argumentou certa vez que, se não fosse pelo Deus cristão, os seres humanos poderiam até torturar bebês, que ninguém veria problema algum, pois não haveria um padrão absoluto de moral que nos dissesse que torturar bebês seria certo ou errado. Aproveitei o tema e escrevi alguns textos sobre o assunto: A Moral de Deus?, A Moral Flutuante de Deus, e A Sociedade Torturadora de Bebês.
Pedi ao Sabino para me explicar o que ele chama de moral absoluta de Deus, mas ele achou melhor tecer comentários sobre a minha pouca inteligência, e lançar o argumento duvidoso de que o Velho Testamento talvez não seja tão sagrado assim, visto que o cristão baseia sua vida pela Nova Aliança com Jesus Cristo. Duvido que esse argumento “pegue”, pois os crentes, via de regra, consideram toda a Bíblia como sendo a palavra viva do seu Deus. Não bastasse isso, eles são rebanhos conduzidos por pastores que precisam de muito dinheiro para guiá-los até o Céu, e o versículo que fala sobre o dízimo está no livro de Malaquias, o último do Velho Testamento.
O Mats é um crente que quer explicar ao mundo o absurdo que é a teoria de Darwin sobre a evolução das espécies. O blog do Mats, Darwinismo, preocupa-se quase que exclusivamente em lançar dúvida sobre a veracidade do Evolucionismo. Talvez ele tenha achado mais fácil fazer isso do que encontrar coisas que provem a veracidade do Criacionismo.
Sendo um assunto recorrente, o Sabino me lançou de novo a questão da moral há poucos dias, reafirmando que a moral humana vem de Deus. Ateus seriam, então, seres humanos desprovidos de moral e, segundo o Mats, poderiam até torturar bebês.
Diante disso, pedi ao Sabino para me explicar a moral de um Deus que, num momento, tem uma determinada atitude e, uns mil anos depois, muda de ideia e até se contradiz. Se a moral humana muda e ela vem de Deus, então a moral de Deus muda? Se, hoje, somos contra a escravatura e já fomos a favor é porque, antes, Deus era a favor e, agora, é contra? Se determinados povos cristãos são contra a pena de morte e outros são a favor, é porque Deus está indeciso? Se seguimos um padrão absoluto de moral, e esse padrão vem de Deus, que padrão é esse? Qual a moral de Deus?
Ninguém apareceu com a resposta e, confesso, eu iria passar algumas noites sem dormir se tivesse aparecido. Não porque eu tenha feito perguntas inteligentíssimas, difíceis de serem respondidas, mas porque são perguntas primárias, às quais se poderia responder com dois ou três períodos compostos por coordenação, se houvesse resposta. Se. Mas não há.
Qual é a moral de Deus, que serve de padrão absoluto de moral para toda a humanidade? O Sabino, um crente inteligentíssimo, versado nos livros santos, não me respondeu. E quando um crente não dá uma resposta, geralmente, é porque ele considera que quem pergunta é insignificante demais para merecer uma, ou porque é intelectualmente incapaz de compreendê-la. É a velha desculpa das pérolas jogadas aos porcos.
Para continuarem a enxergar Deus num universo onde não há deus algum, depois da fé, é justamente a isso que eles mais recorrem para continuarem sonhando: desculpas.
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A seguir, respostas minhas a comentários dos leitores (em azul):
“Ateus como ele e como o Barros nem sequer conhecem aquilo que atacam. Eles usam aquilo que o Judaísmo crê para refutar o Cristianismo.”
Será que alguém se importaria em me explicar por que os Judeus não torturam seus bebês?
“Só o Barros e companhia é que ainda não perceberam que os seus argumentos-palha não afectam o Cristianismo em nada.”
Eu jamais pensaria algo tão tolo. Eu pretendo afetar apenas as pessoas ao meu alcance na esperança de que pelo menos uma delas, que também concorde comigo, afete alguém ao seu alcance e assim, um dia, as pessoas nasçam num mundo onde a religião vai ser apenas mais um clube social, não um passaporte para uma vida numa outra dimensão.
“Ateus pensantes por aqui é raro.”
Mas uma pessoa ateia se tornou ateia porque, em algum momento da sua vida, rompeu com o sistema infundado de crenças no qual foi criada, e isso só aconteceu porque ela se dispôs a fazer o que os dogmas religiosos, por definição, não permitem que o crente faça: pensar. “Ateu pensante” não é raridade, é pleonasmo.
“No “principio” Deus criou todas as coisas e deu directrizes ao homem para viver de uma forma espectacular,”
A Lei Mosaica dava diretrizes ao homem para viver de uma forma espetacular?!!! Matando a pedradas quem descumprisse um sem-número de ordens imbecis como ficar imóvel num dia da semana?
“A Lei Deus deu-a a Moisés para conduzir o povo numa conduta correcta que permitisse a sobrevivência do povo (tanto entre si como entre outros povos),”
Vê que exemplo irretocável de conduta correta e de diplomacia:
“Olha, quem trair o marido, quem for desobediente aos pais, quem não guardar o sábado, quem não me amar mais do que tudo, quem amar alguém do mesmo sexo… que seja apedrejado até à morte!!! E onde houver uma nação da qual eu não seja o Deus único, pode entrar lá e matar todo mundo. Menos as virgens…”
“Ora se a altura certa era só no ano 0, diga-se assim, até lá Deus preparou um povo para receber o salvador, o povo de Israel,”
Deus criou o Céu e 33,33% dos anjos se rebelaram; criou o Éden e aí já foram 100% os dissidentes; criou a Terra e teve que inundar tudo, recomeçando quase do zero; não deu certo, de novo, e ele desceu aqui para ver se conseguia arrumar as coisas pessoalmente, apresentando-se como o Salvador para o seu povo escolhido. O povo escolhido, entretanto, não comprou a ideia e, aparentemente, esculhambou um trabalho que levou milênios…
Deus, o Todo-Poderoso, Eterno e Perfeito, parece que precisa de uma consultoria do SEBRAE, porque, como Criador e Administrador Supremo do Universo, ele não acerta uma!
“Podemos resumir toda a história do universo em 4 palavras: Criação, Queda, Redenção e Restauração. Algures entre a queda e a redenção teve de aparecer a lei, mas o objectivo não era a lei, era a redenção e futuramente a restauração. Espero ter sido claro…”
Sim, você foi claro, meu amigo:
Deus vai tentar de novo!
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