Uma história sem final feliz (parte 1)

Aeroporto de Guarulhos, São Paulo, Terminal 2, Asa D.

Agora são exatamente… 17h37min do dia 17 de outubro de 2011. Estou escrevendo esse texto numa cadeira bem desconfortável de uma lanchonete. Meu voo sai daqui a três horas e, caso não desista da ideia, pretendo agendar esse texto para ser publicado automaticamente no blog às 00h00min do dia 18, horário do Nordeste, que é pra onde eu estou indo.

Antes de vir pra cá, pro aeroporto, eu estava num motel, acompanhado da mulher mais linda que já vi na vida: uma atriz da Rede Globo, solteira, já perto de completar 25 anos de idade, e que fez umas 3 novelas eu acho (não sei ao certo pq não vejo novela) e não está em nenhuma agora. Isso é tudo que vou dizer sobre ela, por 3 motivos:

1. cavalheirismo;

2. porque ela me fez prometer que nunca falaria nada a respeito; e

3. porque ninguém iria mesmo acreditar se eu dissesse quem era.

O fato da gente não ter transado, mesmo ela tendo passado boa parte da manhã comigo naquele motel, almoçado comigo, e me dado um beijo na boca antes de sair pra sempre da minha vida, não é, nem nunca seria um quarto motivo. Eu teria guardado segredo do mesmo jeito, se a gente tivesse feito o que foi lá pra fazer. Só que com melhores lembranças do que as que ela me deixou.

Por que eu estou fazendo isso? Escrevendo essa introdução às pressas? Por 3 motivos também:

1. eu tomei umas doses de vodka;

2. começando o texto agora (com essa coragem irresponsável, com essa raiva indisfarçável e com a decepção insuportável), eu me obrigo a contar o que aconteceu, porque, mesmo sem ter um final feliz,

3. essa é uma daquelas histórias que merecem ser contadas.

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CONTINUAÇÃO:  

Parte 2  -  

Parte 3  - 

Parte 4  –

Parte 5  –  

Parte 6  –  

Parte final

A freira de Juazeiro

Estou, temporariamente, afastado da minha base de operações e do meu querido MacBook. Consegui emprestado um “samartphone com acesso à internet só pra publicar esse post, sofrivelmente digitado nessas teclinhas minúsculas do celular, e dizer aos poucos leitores que sobraram que eu ainda não fui acertar as contas com o Papai do Céu, não: ainda estou vivo.

Vivo, e feliz, vale dizer, com essa minha condição de ser superior. Sim, porque um ateu é mesmo intelectualmente superior aos religiosos de todas as religiões no quesito “compreensão do mundo”.

É por isso que eu mantenho esse blog. Para mostrar para os crentes, não só como o Deus deles é inútil, como as crenças deles são prejudiciais a todos nós, como suas ilusões são ridículas. Eu mantenho esse blog para apregoar, a quem se der ao trabalho de ler meus textos, essa minha condição de superioridade intelectual. Tanto é que os poucos crentes que aparecem por aqui não fazem nada além de me xingar. O que é, além de perda de tempo, uma prova de como eu estou certo.

E por falar em felicidade, ontem eu quase morri engasgado com farofa… Ups! Peraí… É o seguinte… Eu estava jantando num restaurante nas margens de uma BR, na entrada de uma cidadezinha aqui do Estado. Serviram farofa junto, e tava mesmo uma delícia.

Era hora do JN, e uma reportagem informava que a cidade de Juazeiro do Norte, no Ceará, foi fundada pelo padre Cícero, depois que o lugar se tornou famoso pelo milagre de uma hóstia ter se transformado em sangue na boca de uma freira.

Eu quis rir alto, mas tava com a boca cheia de farofa e, tanto por causa disso, como pelo fato de estar rodeado de gente simples do interior, que não iria achar a menor graça de eu rir de um milagre, tive que prender a gargalhada com a farofa junto e quase me lasco!

Tossi até ficar vermelho e, depois, gargalhei aliviado porque todo mundo tava mesmo já rindo da situação. Mas eu ri de felicidade por ser ateu, por ter a mente livre dessa doença mental que faz as pessoas enxergarem uma intervenção de um Deus ridículo num sinal mais ridículo ainda de sua suposta existência, como o de uma hóstia se transformar em sangue na boca de uma freira do sertão.

E ri também, claro, por saber que Juazeiro do Norte, a terra do “padim Ciço”, foi fundada porque uma D. Maria lá mordeu a língua dentro da igreja!


Temporariamente Indisponível

Capa do meu novo caderno de notas

Meu amigo R. Barboza desenhou essa fadinha pra mim.

Volto com os textos do blog no fim da próxima semana: estou mudando de cidade. Definitivamente.

Porque é preciso ter medo

01h50min pelo horário brasileiro de verão. Acabei de chegar do cinema, onde fui ver Atividade Paranormal e estou escrevendo o post dessa terça-feira para ser publicado sem revisão. Os erros não serão corrigidos.

Não estou escrevendo cansado e com sono para dizer se o filme é bom ou ruim, se vale ou não o ingresso. Não sou crítico de cinema. E também não aconselho ninguém a ir ou a deixar de ir ver um filme por conta das críticas que os críticos de cinema escrevem.

Eu estou escrevendo cansado e com sono apenas para dizer que eu senti medo. Mas somente porque foi justamente para isso que eu fui ao cinema: para sentir medo. Se eu não estivesse a fim de me apavorar com os registros em vídeo caseiro de uma assombração, eu teria ficado aqui mesmo. Se eu fui, e se fui para sentir medo, precisei entrar no jogo.

E o jogo é relativamente fácil de se jogar. Basta acreditar que existem demônios, forças sobrenaturais, outras dimensões, tudo aquilo com que a minha doutrinação católica impregnou meu cérebro durante a minha infância. Essa parte continua comigo e ativá-la não é muito difícil: é só fechar os olhos à realidade. E tendo feito isso, o filme se encarregou do resto.

Felizmente, eu posso dizer que a minha condição normal é a de olhos abertos. Um ateu é um “buda”, alguém que está “desperto”. Não fosse isso, eu estaria em maus lençóis, porque, atualmente (e temporariamente), estou dormindo num prédio isolado, velho e sombrio, cheio de escadas, sem mais ninguém no mesmo andar, e sem ninguém no andar de baixo, e sem ninguém no andar de cima. Um lugar perfeito para fantasmas e demônios. Mas… desde que me descobri ateu, nunca mais vi esse tipo de coisa. Nada de sombras, nada de vultos, nem barulhos estranhos, nem ninguém para puxar meu pé no escuro…

Apreciar um filme como Atividade Paranormal é pra mim uma experiência religiosa, porque eu sinto, de novo, o que significa “acreditar”, o que significa “crer”. E, assim, passo a entender mais e melhor os crentes cristãos e os religiosos como um todo, pois eles vivem uma vida inteira dentro de um filme de terror, assombrados por demônios, fantasmas, castigos, pecados e punição. Uma vida amaldiçoada, que eles não veem a hora de deixar para entrarem numa outra.

Eu, ateu; eu, desperto; eu, que rejeito o Deus cristão; eu, que não aceito Jesus Cristo como meu salvador; eu, que renego o Espírito Santo e que cometo o único pecado que não é passível de perdão; eu vivo uma vida maravilhosa, sem medo, sem demônios, sem fantasmas e sem infernos.

Morram de inveja!

“E disse Deus à mulher: ‘Consumado o sexo oral: engula!’”


Eu mereço!

Inspirado pela ginecofobia divina mencionada no texto do Saracura, queimei alguns milhares de neurônios e consumi 2 folhas do meu caderno de anotações tentando encontrar uma abordagem interessante sobre o sexo na Bíblia que fosse chocante sem ser vulgar. Mas, depois do que encontrei hoje, desisti. Já está tudo pronto, num blog de um… crente.

O autor do blog explica tudo, da masturbação ao sexo anal, com as devidas referências aos livros, capítulos e versículos da Bíblia.

Lembra daquela máxima “O crente nunca lê na Bíblia o que ela diz; ele lê o que ele quer que ela diga“?

Pois é. Com um laptop na mão e uma ideia fixa na cabeça, dá para justificar qualquer coisa usando a palavra escrita de Deus:

“Contudo, podemos dizer com base no que foi mostrado que a Bíblia encoraja tais relações e no caso do fellatio especificamente recomenda que a parceira engula o fruto da ejaculação.”

Clique na imagem do post, acima, e divirta-se.



O Inferno de Denise

Comentário da leitora Denise (em azul) no post A Divina Revelação do Inferno:

Se vcs lessem a Biblia vcs saberiam como é o inferno. e concerteza o céu tambem.

A minha Bíblia deve ser bem diferente da sua, Denise, pois só diz coisas bem, bem vagas sobre o Céu e o Inferno. E ‘um lugar onde haverá pranto e ranger de dentes’, bem como, ‘um paraíso’, não deveriam dar a ninguém (ninguém honestamente interessado em saber) essa certeza que você alega ter.

Louvo a Deus pelo meu pastor que me ensinou a verdade e abriu meus olhos para a realidade, nao baseado em coisas de sua propria cabeça, mais na palavra de Deus.

Eu, sinceramente, ainda prefiro entender o mundo e enxergar essa realidade ‘baseado em coisas’ da minha própria cabeça, como o meu raciocínio e discernimento, a fazer isso baseado em ‘coisas’ das cabeças de uns tantos escritores supersticiosos e ignorantes de dois mil anos atrás.

nao experimentei o inferno e jamais vou pra la, porq sirvo um Deus vivo e verdadeiro, e é ele que me garante q vou passar a eternidade no Céu.

Quando você escreve ‘sirvo um Deus vivo e verdadeiro’ eu me pergunto, aqui sozinho:

1) será que ela percebe que a noção de ‘vivo’ é muito objetiva, que a noção de ‘verdadeiro’ é muito subjetiva, e que o Deus cristão não preenche adequadamente nenhuma delas isoladamente, muito menos de forma combinada? A aceitar sua noção de ‘vivo’ e de ‘verdadeiro’, eu poderia dizer que o vento está ‘vivo’ e que o Pinóquio é ‘verdadeiro’.

2) será que ela percebe que em ‘sirvo um Deus’, esse ‘um’ nos dá a ideia de que ela, inconscientemente, admite a possibilidade de ‘outros’ deuses?

3) será que ela leu minha série intitulada Racionalizando a Eternidade? Porque eu teria interesse em perguntar pra ela o que nenhum crente me respondeu até hoje: vais passar a eternidade no Céu fazendo o quê?

Vcs falam isso mais dentro de vc tem um vazio na qual so Jesus Cristo,pode preencher, ele sim liberta de todo julgo, todo pecado e te toda incredulidade.

Frases, frases, frases… Depois que a gente aprende a falar, a gente fala; depois que aprende a escrever, a gente escreve. É isso…

saiba que Deus te escolheu desde o ventre de sua mae, outra pessoa poderia ter nascido em seu lugar mais ele quis vc, reconheça isso, ainda a chance de vc reconhecer que ele é o unico Deus, e saber q ele nao é uma mera fantasia e nem MULA…. e sim o Deus q criou vc.

Se Deus quisesse que nascesse uma determinada pessoa e não outra pessoa, acho que ele, sabido como ele só, deveria ter projetado o homem para ejacular um espermatozoide por vez, né não?

ele sim écapaz de mudar sua historia, e sua maneira de pensar…

Eu aposto como ele não pode. Fala pra ele.

procure uma igreja evangelica mais proxima de sua casa, nao deixe que sua ignorancia atrapalhar vc ter uma vida diferente.

Nossa, mas minha vida tá tão boa! Mas se eu mudar de ideia, poderia ser uma igreja de Mórmons, ou eles estão adorando o deus errado?

EM BREVE TEREI UMA BOA NOTICIA DE QUE VC SE CONVERTEU AO DEUS VERDADEIRO E VC VAI JUNTO COMIGO VAI SER TESTEMUNHA DO AMOR DELE. DEIXE O ORGULHO DE LADO…

ABRAÇO PARA TODOS,

QUE JESUS TE ABENÇOE E FAÇA DE VC UM MAIS QUE VENCEDOR EM CRISTO.

COLOQUE CRISTO NA SUA CABEÇA E CORAÇÃO, E TERAS A CERTEZA DA SUA SALVAÇÃO.

VCS SÃO MUITO ESPECIAIS PRA JESUS.

TCHAU!!!! benção do Senhor Jesus Cristo!! (e nao do adversario)

bjusssssssssssssssss

fiquem com Deus!

Não. Acho melhor levar Deus com você. Pra mim, ele é completamente desnecessário.


Barros, a mulher e o jumento

A Bíblia é um Self-service foi um dos primeiros textos que escrevi, e cada vez que um cristão me aparece tentando expor seus “argumentos”, eu sempre me convenço, mais ainda, de que é preciso muita cegueira intelectual para não perceber a desonestidade que é necessária para sustentar a fé em Deus.

Eu já publiquei a definição de Inferno tal como é entendida pelos seguidores da Igreja da Vida Cristã. Segundo essa igreja, o Diabo não existe mais. Como que eles sabem disso? Simples: está na Bíblia. Bem aqui:

Hebreus 2:13 “Portanto, visto como os filhos são participantes comuns de carne e sangue, também Ele semelhantemente participou das mesmas coisas, para que pela morte derrotasse aquele que tinha o poder da morte, isto é, o Diabo”.

É isso. O Diabo e o Inferno são invencionices para assustar os seguidores de outras igrejas que não a Igreja da Vida Cristã. Eles, bem como a leitora que me enviou a definição, não temem inferno algum: já estão salvos. Como que eles sabem que estão salvos? Simples (sempre é): está na Bíblia. Bem aqui:

Efésios 2:8 “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus”.

E, assim, os cristãos prosseguem fundamentando o universo de acordo com umas tantas frases soltas pinçadas do seu livro sagrado. Entretanto, quando um ateu faz uma pergunta um tanto quanto inconveniente sobre algo também escrito lá, e que eles mesmos não conseguem engolir por ser amargo demais, aí o versículo assim sozinho, assim isolado, já não vale:

“É usar um texto fora de contexto como pretexto.”

Uma frase feita que uns religiosos sempre têm no bolso, como um Ás na manga, para se saírem de situações embaraçosas.

Como no caso recorrente do mandamento que diz: “Não cobiçarás a mulher do teu próximo”, que era como se lia na minha época de catecismo. (Ao que parece, esse mandamento deve ter sofrido um tipo de reedição, pois não está mais assim, nesses termos, nas versões online que eu consultei da Bíblia.) Eu já fui expulso de uma comunidade religiosa no Orkut por conta desse mandamento (link para o texto) e, há pouco, um leitor do blog me veio com outra controvérsia (ou a mesma!) sobre o tema:

Ele escreveu “DESCIMO MANDAMENTO::::::: Vr. 17 – Não cobiçaras a casa do teu próximo ( amor ao próximo)” querendo argumentar que todas as leis de Deus se resumem a duas: amar a Deus e amar ao próximo. Entretanto, o texto que eu copiei da Bíblia Online é mais “extenso”:

Êxodo 20:17 “Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo”.

Aliás, foi esse jumento aí do texto que me valeu a expulsão, citada acima, da comunidade “Eu amo e acredito em Deus” (eu também mencionei o erro de português no nome da comunidade… não foi à toa que a mulher lá me expulsou).

O leitor que escreveu sobre o décimo mandamento me respondeu que a palavra “servo” não significava “escravo”, e que a mulher era mesmo submissa por conta do pecado do qual Cristo nos livrou. “Nos”? Pode dar minha falta!

No mundo em que esse meu leitor vive, uma determinada divindade trata de assuntos que envolvem salvação ou danação eternas exclusivamente com o macho da espécie, porque a fêmea cometeu o despautério (!) de dar ouvidos a uma cobra falante e comeu uma fruta mágica.

Quanto ao verbo “cobiçar”, acho que alguém poderia concordar comigo quando eu digo que ele está semanticamente sobrecarregado: quando você cobiça o boi ou o jumento do seu vizinho, é porque você os quer para si, quer comprá-los, quer que eles sejam sua propriedade; já quando cobiça o servo, quer que ele largue o emprego na casa do seu vizinho e venha trabalhar na sua, ganhando até um salário melhor; e quando cobiça a mulher, está apenas tendo pensamentos impuros com relação a ela… o que não significa que está querendo comprá-la.

Ou isso ou Deus está listando as “coisas” que um homem possui e que não devem ser invejadas por outro homem: a casa, o escravo, o gado, o jumento e a mulher.



Ateu e à toa

clique na imagem para visitar o blog: http://www.ateueatoa.com

 

Ateu e à toa” é o nome do excelente blog recém-lançado pelo Fabenrik, que tem como colaborador o Bruno, ambos leitores do DeusILUSÃO.

Sugiro a todos uma visita. Vale muito a pena.

 

“Eu acho que eu vi um gatinho…”

Uma leitora do blog me mandou um e-mail sugerindo a correção da seguinte frase do post “HAGNUS Dei”:

Grande parte dos nossos problemas são criados por nós mesmos.

Segundo ela, a sentença deveria ficar assim:

Grande parte dos nossos problemas é criada por nós mesmos.

Eu agradeço demais a participação da minha linda leitora (que prefere se manter anônima), pois me inspirou a criar a aleta Comunicar erros, acima, ao lado de Melhores Textos, onde encorajamos os leitores do DeusILUSÃO a fazerem o mesmo: apontar erros e sugerir correções, de forma que possamos deixar nossos textos cada vez mais precisos e agradáveis. Em uma palavra: de fácil leitura! [“Eu acho que eu vi um gatinho...”]

Isso é extremamente útil, porque quando você lê seu próprio texto, não percebe algumas “gafes gráficas” (como palavras que não soam bem juntas, como essas — parece que você tá falando russo), incoerências, dedografias e palavras que foram abduzidas. Sem contar, claro, os benditos erros de ortografia*.

Para todos os outros não há desculpa, mas para as dedografias que escapam de três, quatro revisões, há explicação científica.

Você não lê todo um texto palavra por palavra, bem como não lê todas as palavras letra por letra. Na maior parte do tempo, você lê palavras inteiras e blocos de palavras inteiros de uma vez. Quanto mais fácil for um texto, maior será a tendência de você adivinhar as palavras e os blocos, de forma a tornar a leitura mais rápida e eficiente.

Num texto sobre “limpeza”, por exemplo, você simplesmente “adivinha” grupos de palavras como “sabão em pó”, “água sanitária”, “pano de chão”, sem precisar tê-los lido de fato, pois, pelo contexto, eles são esperados e você os reconhece apenas pelo seu início ou pelos blocos que formam. Quando o cérebro adivinha essas palavras esperadas, ele não as lê, justamente para acelerar o processo de leitura. Se houver um erro de dedografia em um desses blocos adivinhados, não vai ser possível percebê-lo numa leitura corrente normal.

Recentemente, a leitora NáJung me alertou sobre uma frase em que eu escrevi a palavra “texto” como “texo”. Ela copiou e colou a frase no comentário, alertando para que eu corrigisse a palavra escrita erradamente. Mesmo tendo sido alertado de que havia um erro de ortografia na frase transcrita, eu não consegui identificá-lo de imediato, pois estava “lendo” a palavra “texo” como “texto” normalmente.

Daí a utilidade de ter seus textos corrigdios por outra pessoa: foi o seu cérebor que escreveu o texto, portatno ele sabe o que está lá. Não vai “ler” quase nada.

Percebeu todos os três erros ortográficos do parágarfo acima? Se sim, foi porque você já estava alertado, inconscientemente, para o tema.

E percebeu o erro na palavra parágrafo acima?

Bom, mas tendo mencionado a criação da aleta Comunicar erros, tendo justificado sua importância e agradecido à leitora anônima, resta dizer que, na frase que foi motivo do comentário dela, ocorre o que se chama de Silepse de número: em vez de concordar com o núcleo do sujeito (parte), que está no singular, todo o predicado vai para o plural por força semântica do complemento do núcleo (dos nossos problemas), uma vez que é “problemas” [e aqui vai uma Zeugma, de brinde — ou é uma Elipse? (misericórdia!!!)], enfim, é a palavra “problemas” que exerce uma posição mais forte de núcleo do sujeito, mesmo sendo só complemento.



* Eu, particularmente, já estou escrevendo dentro das novas regras ortográficas, pelas quais se escrevem para-raios, frequente, antirreligioso, autoajuda, creem, etc. Portanto, quando analisando meus erros,  queiram se ater à nova ortografia do português.

“HAGNUS” Dei

Desonestidade.  Não fosse ela, não haveria nenhum Deus no Céu.

O leitor HAGNUS fez, recentemente, um comentário que demonstra exatamente isso: como a desonestidade é indispensável para ser crente em um deus:

“Algo que percebi é que eles [os ateus] podem não crer, mas têm sede da verdade, e se têm sede da verdade… TÊM SEDE DE DEUS!”

O crente no deus judaico-cristão tem internalizado um axioma, um postulado pelo qual Deus é A Verdade. Mas qual verdade? Que argumentos poderiam sustentar essa afirmação? Um Deus cuja moral nem mesmo se assemelha à nossa; um Deus mesquinho e sádico; um Deus que tem dúvida, que se arrepende, que é perfeito e não faz nada que preste, segundo sua própria opinião; um Deus assim é sinônimo de verdade por quê?

“Percebi também que em meus 16 anos de fé passei por muitas aflições! Em muitas delas cheguei até estar por um fio! Imagine aquela situação onde o cristão diz:

- E agora, Senhor? Será que pela primeira vez vou fracassar?

E o ateu diz:

- E agora, minha capacidade de superação? E agora, meu salário, meus amigos? Será que mais uma vez vou fracassar?”

O HAGNUS vive num mundo onde o crente, por causa do seu Deus, nunca fracassa (“Será que pela primeira vez…”) e o ateu, que só conta com sua capacidade de superação, seu salário e seus amigos, não faz outra coisa além disso (“Será que mais uma vez…”). Esse é o mundo em que o crente vive: um mundo onde a desonestidade é uma doença contagiosa; um mundo em que o que se escreve para exaltar Deus, ou para justificá-lo, passa a ser visto como verdade absoluta, sem que ninguém se lembre de pedir dados que fundamentem o que foi dito.

“E aí Deus entra em cena e diz para o cristão: ‘Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a destra da minha justiça’. (Isaías 41:10)”

A desonestidade em catar na Bíblia os versículos certos para sustentar a vantagem da fé, e fechar os olhos a todos os outros que depõem contra ela.

“‘28 Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. 29 Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. 30 Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve’. (Mateus 11)”

A desonestidade autoimposta e replicada, pela qual o universo é regido por palavras escritas num papel antigo; a desonestidade de pensar que fé é crer naquilo que é, quando é apenas crer naquilo que se quer que seja.

“E  quando a capacidade própria do Ateu, o salário do Ateu, os amigos e todos os recurso humanos que ele possui acabam se esgotando, deixando ele desiludido e desamparado, a única coisa que pode dizer é apenas o tal de: Fudeu!”

Mesmo não estando sob a proteção de um Deus Todo-Poderoso, eu nunca estive “por um fio” como o Sr. HAGNUS, mas já me senti desiludido e desamparado. Como todo mundo se sente às vezes. Pelo menos, cada vez que disse “Fudeu” valeu como lição e eu aprendi algumas coisas:

1) Enxergar nos problemas a dimensão que eles realmente têm.

2) Todo problema tem uma solução. Quando se está diante de algo que não tem uma solução, a gente deve lembrar de não perder tempo procurando uma, e tratar de se conformar do melhor jeito que encontrar.

3) Muitas vezes, quando não conseguimos resolver um problema, o tempo se encarrega de resolvê-lo por nós.

4) Grande parte dos nossos problemas são criados por nós mesmos.

5) Muitas das nossas frustrações advêm do fato de não nos aceitarmos como somos e querermos fazer com que os outros nos aceitem e nos vejam como não somos.

A honestidade é uma virtude; ser desonesto consigo mesmo é uma fonte inesgotável de sofrimento.

Eu sou ateu; vivo num universo que não foi desenhado para mim, mas com a enorme vantagem de ser um universo em que eu assumo meus próprios erros. E pago por eles.

Eu não aceito (nem jamais aceitaria) que o sangue de ninguém seja derramado por nada que eu tenha feito. Muito menos por algo que eu NÃO tenha feito.

O cristão vê isso como uma das mais belas referências à sua fé. Eu só consigo enxergar uma prova irrefutável de extrema desonestidade.


o cordeiro de Deus

Blog é processado por freira

clique na imagem para mais informações sobre o caso

O autor do blog Liberdade Digital, Emílio Moreno, foi condenado a pagar 16 mil e 600 reais de indenização a uma freira que o processou porque alguém escreveu um comentário no blog dele, direcionado a ela, que ela considerou ofensivo.

A partir desta data, quem se sentir ofendido por qualquer comentário que seja publicado no DeusILUSÃO, direcionado diretamente à sua pessoa, deverá acessar a aleta Alguém te ofendeu? acima do nome do blog, deixando a cópia do texto considerado ofensivo, o link para o post onde ele aparece e a identificação do autor, se houver.

Queria aproveitar a oportunidade para me inteirar se haveria entre os leitores alguém versado nas leis brasileiras que pudesse me responder o seguinte questionamento:

Eu poderia ser processado se xingasse Deus de “filho da puta” ou se dissesse que acho que Jesus Cristo era gay?

Quero dizer, algum religioso que se sentisse ofendido por tabela, por causa da sua crença, poderia me processar, ou a doutrina entende que Deus é quem deve acertar as contas comigo pessoalmente?


As pérolas, os porcos, e a 5ª edição do Universo.

O Sabino é português, autor do blog A Lógica do Sabino. Um conterrâneo dele, o Mats, autor do blog Darwinismo, discutindo comigo sobre moral, argumentou certa vez que, se não fosse pelo Deus cristão, os seres humanos poderiam até torturar bebês, que ninguém veria problema algum, pois não haveria um padrão absoluto de moral que nos dissesse que torturar bebês seria certo ou errado. Aproveitei o tema e escrevi alguns textos sobre o assunto: A Moral de Deus?, A Moral Flutuante de Deus, e A Sociedade Torturadora de Bebês.

Pedi ao Sabino para me explicar o que ele chama de moral absoluta de Deus, mas ele achou melhor tecer comentários sobre a minha pouca inteligência, e lançar o argumento duvidoso de que o Velho Testamento talvez não seja tão sagrado assim, visto que o cristão baseia sua vida pela Nova Aliança com Jesus Cristo. Duvido que esse argumento “pegue”, pois os crentes, via de regra, consideram toda a Bíblia como sendo a palavra viva do seu Deus. Não bastasse isso, eles são rebanhos conduzidos por pastores que precisam de muito dinheiro para guiá-los até o Céu, e o versículo que fala sobre o dízimo está no livro de Malaquias, o último do Velho Testamento.

O Mats é um crente que quer explicar ao mundo o absurdo que é a teoria de Darwin sobre a evolução das espécies. O blog do Mats, Darwinismo, preocupa-se quase que exclusivamente em lançar dúvida sobre a veracidade do Evolucionismo. Talvez ele tenha achado mais fácil fazer isso do que encontrar coisas que provem a veracidade do Criacionismo.

Sendo um assunto recorrente, o Sabino me lançou de novo a questão da moral há poucos dias, reafirmando que a moral humana vem de Deus. Ateus seriam, então, seres humanos desprovidos de moral e, segundo o Mats, poderiam até torturar bebês.

Diante disso, pedi ao Sabino para me explicar a moral de um Deus que, num momento, tem uma determinada atitude e, uns mil anos depois, muda de ideia e até se contradiz. Se a moral humana muda e ela vem de Deus, então a moral de Deus muda? Se, hoje, somos contra a escravatura e já fomos a favor é porque, antes, Deus era a favor e, agora, é contra? Se determinados povos cristãos são contra a pena de morte e outros são a favor, é porque Deus está indeciso? Se seguimos um padrão absoluto de moral, e esse padrão vem de Deus, que padrão é esse? Qual a moral de Deus?

Ninguém apareceu com a resposta e, confesso, eu iria passar algumas noites sem dormir se tivesse aparecido. Não porque eu tenha feito perguntas inteligentíssimas, difíceis de serem respondidas, mas porque são perguntas primárias, às quais se poderia responder com dois ou três períodos compostos por coordenação, se houvesse resposta. Se. Mas não há.

Qual é a moral de Deus, que serve de padrão absoluto de moral para toda a humanidade? O Sabino, um crente inteligentíssimo, versado nos livros santos, não me respondeu. E quando um crente não dá uma resposta, geralmente, é porque ele considera que quem pergunta é insignificante demais para merecer uma, ou porque é intelectualmente incapaz de compreendê-la. É a velha desculpa das pérolas jogadas aos porcos.

Para continuarem a enxergar Deus num universo onde não há deus algum, depois da fé, é justamente a isso que eles mais recorrem para continuarem sonhando: desculpas.



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A seguir, respostas minhas a comentários dos leitores (em azul):

“Ateus como ele e como o Barros nem sequer conhecem aquilo que atacam. Eles usam aquilo que o Judaísmo crê para refutar o Cristianismo.”

Será que alguém se importaria em me explicar por que os Judeus não torturam seus bebês?

“Só  o Barros e companhia é que ainda não perceberam que os seus argumentos-palha não afectam o Cristianismo em nada.”

Eu jamais pensaria algo tão tolo. Eu pretendo afetar apenas as pessoas ao meu alcance na esperança de que pelo menos uma delas, que também concorde comigo, afete alguém ao seu alcance e assim, um dia, as pessoas nasçam num mundo onde a religião vai ser apenas mais um clube social, não um passaporte para uma vida numa outra dimensão.

“Ateus pensantes por aqui é raro.”

Mas uma pessoa ateia se tornou ateia porque, em algum momento da sua vida, rompeu com o sistema infundado de crenças no qual foi criada, e isso só aconteceu porque ela se dispôs a fazer o que os dogmas religiosos, por definição, não permitem que o crente faça: pensar. “Ateu pensante” não é raridade, é pleonasmo.

“No “principio” Deus criou todas as coisas e deu directrizes ao homem para viver de uma forma espectacular,”

A Lei Mosaica dava diretrizes ao homem para viver de uma forma espetacular?!!! Matando a pedradas quem descumprisse um sem-número de ordens imbecis como ficar imóvel num dia da semana?

“A Lei Deus deu-a a Moisés para conduzir o povo numa conduta correcta que permitisse a sobrevivência do povo (tanto entre si como entre outros povos),”

Vê que exemplo irretocável de conduta correta e de diplomacia:

“Olha, quem trair o marido, quem for desobediente aos pais, quem não guardar o sábado, quem não me amar mais do que tudo, quem amar alguém do mesmo sexo… que seja apedrejado até à morte!!! E onde houver uma nação da qual eu não seja o Deus único, pode entrar lá e matar todo mundo. Menos as virgens…”

“Ora se a altura certa era só no ano 0, diga-se assim, até lá  Deus preparou um povo para receber o salvador, o povo de Israel,”

Deus criou o Céu e 33,33% dos anjos se rebelaram; criou o Éden e aí já foram 100% os dissidentes; criou a Terra e teve que inundar tudo, recomeçando quase do zero; não deu certo, de novo, e ele desceu aqui para ver se conseguia arrumar as coisas pessoalmente, apresentando-se como o Salvador para o seu povo escolhido. O povo escolhido, entretanto, não comprou a ideia e, aparentemente, esculhambou um trabalho que levou milênios…

Deus, o Todo-Poderoso, Eterno e Perfeito, parece que precisa de uma consultoria do SEBRAE, porque, como Criador e Administrador Supremo do Universo, ele não acerta uma!

“Podemos resumir toda a história do universo em 4 palavras: Criação, Queda, Redenção e Restauração. Algures entre a queda e a redenção teve de aparecer a lei, mas o objectivo não era a lei, era a redenção e futuramente a restauração. Espero ter sido claro…”

Sim, você foi claro, meu amigo:

Deus vai tentar de novo!


A moral flutuante de Deus

Mulher iraniana sendo preparada para o apedrejamento pelo terrível crime de trair o marido. Se você é religioso(a) e acha isso um absurdo, você acaba de discordar de Deus.

“Disse, pois, o Senhor a Moisés: ‘Certamente morrerá aquele homem; toda a congregação o apedrejará fora do arraial.’ Então toda a congregação o tirou para fora do arraial, e o apedrejaram, e morreu, como o Senhor ordenara a Moisés.” (Números 15:32-36)

E o catador de lenha que, talvez, estava apenas querendo fazer o almoço da família não voltou para casa, porque foi executado por não cumprir a lei de Deus: “guardar” o sábado para o descanso. Deus, segundo sua moral, determinou que o homem fosse apedrejado, assim como também mandava apedrejar as adúlteras.

O Sabino, autor do blog português A Lógica do Sabino, argumentou que a moral humana vem de Deus. Eu me comprometi a ceder um espaço aqui no DeusILUSÃO para que ele me explicasse o motivo da moral dele, Sabino, que se recusaria a apedrejar quem quer que fosse, ser diferente da moral do Todo-Poderoso.

Como bom religioso que é, ele quis desconversar alegando que não vive mais sob a Lei Mosaica, mas sim sob a Graça de Jesus Cristo, que, para quem não lembra, é o mesmo que mandou apedrejar o meliante que estava juntando lenha para fazer o almoço.

Sabino, meu nobre, eu não sou uma pessoa religiosa: ninguém me escreveu um livro que contém tudo o que eu preciso saber para essa vida e para uma próxima. Por isso eu preciso de respostas bem mais elaboradas… e a sua não explicou nada. Se você vive sob a Graça de Jesus Cristo (?) ou sob a Lei Mosaica (!!!) é o que menos importa. Eu queria saber por que você não mataria a pedradas a moça do caixa do McDonald’s que estivesse trabalhando numa tarde de sábado, ou uma mulher que tivesse traído seu digníssimo esposo.

Se a sua moral vem de Deus e é essa a moral dele, o que te leva a pensar que você entrará no Paraíso mesmo discordando do cara que dita as regras? Ou por que você acha que a moral de um ser eterno e perfeito mudou em apenas alguns milênios?

Estou, temporariamente, afastado do meu dicionário Houaiss. Por isso peguei a definição de “moral” de dicionários online:


Michaellis

1 Relativo à moralidade, aos bons costumes. 2 Que procede conforme à honestidade e à justiça, que tem bons costumes.

iDicionário Aulete

1 Conjunto de regras de conduta, inerente ao espírito humano, aplicáveis de modo absoluto para qualquer tempo ou lugar, ou a grupo ou pessoa determinada, proveniente dos estudos filosóficos sobre a moral. 2 Conjunto de regras e princípios de decência que orientam a conduta dos indivíduos de um grupo social ou sociedade.


E, aproveitando que o Sabino vai explicar essa questão, eu pediria para que ele enfeitasse ainda mais o seu texto apresentando o seu argumento para justificar o episódio bíblico em que Jesus salva Maria Madalena da execução imposta pela Lei Mosaica. Eu, particularmente, acho estranho o fato dele não ter feito a mesma coisa com o pobre do catador de lenha: “Que atire a primeira pedra aquele que estiver sem pecados”. E o cara teria voltado para casa.

O trecho abaixo foi extraído do post Jesus, o Charlatão.

“A ATITUDE DE Jesus para com as mulheres é, no geral, ambígua ao extremo. Às vezes ele as trata sob o rigor da lei mosaica. Noutras, está do lado delas. Sexismo da sua parte não pode ser aceitável, uma vez que ele, supostamente, veio à Terra como exemplo de moral para todo o tempo ainda por vir, e o preconceito que era comum no tratamento com as mulheres durante a época em que ele viveu como ser humano não deveria tê-lo influenciado a ponto de fazê-lo conivente com ele. Embora tal tratamento pudesse ter sido o costume daquela época, o modelo de comportamento de Jesus deveria, seguramente, ter sido atemporal.”

Um Deus cuja moral sustenta leis que mandam apedrejar uma mulher até à morte por ter sido pega fazendo sexo com outro que não o marido, ou por ter sido pega fazendo sexo com outro sem ser casada, e, depois de alguns milênios, isenta uma determinada mulher de sofrer a punição que ele mesmo impôs e chancelou, não pode ser um Deus confiável.

Inda mais quando se suspeita que o que são para nós mil anos, para ele passa num piscar de olhos.


A sociedade torturadora de bebês (fim)

“Profecia sabínica: O ateu Barros vai, mais uma vez, mostrar a incoerência com a sua cosmovisão do mundo, ao afirmar que a moral é construída pela sociedade.”

O Sabino acha que a moral humana vem de Deus. As coisas nos parecem certas ou erradas porque Deus nos inspira a vê-las como ele as vê. O problema, parece, é que Deus é um tanto quanto… digamos… volúvel.

Houve um tempo em que o trabalho no sábado era punido com a morte, com a conivência divina. Depois, o Deus-Filho (já reparou que o Deus-Espírito-Santo é o mais moita da Trindade?) vem com essa: “O sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado”, e ninguém mais precisa ser apedrejado.

Deus também era escravocrata, visto que o seu povo escolhido via a escravatura como uma coisa aceitável e necessária: os escravos dos judeus trabalhavam no sábado, fazendo o serviço que os judeus não podiam fazer por causa da Lei Mosaica [Ninguém pensava em apedrejar os escravos? (Pra mim, doido só é doido se rasgar dinheiro...)]. Deus deve ter mudado de opinião de novo, porque ninguém mais no mundo civilizado considera a escravidão algo moralmente aceito. Deus ordenava, também, a morte dos não crentes, ou dos que tentassem desviar um crente do caminho da fé, para adorar outro deus. Hoje ele é mais tolerante. E por aí vai…

E aí aparece o Mats e me diz que, se não fosse Deus estar servindo para nós como um padrão de moral a ser seguido, nós seríamos capazes até de torturar bebês.

Tudo bem. Imagine uma sociedade que, por não “receber a moral” do Deus do Sabino e do Mats, passasse a torturar os seus bebês. Por diversão, ou em algum ritual maluco. Imaginou? Que aparência teriam os membros dessa sociedade? Eu gostaria muito de saber, pois não seriam humanos.

Nós somos o que somos e chegamos aonde chegamos justamente por mantermos certas atitudes ao longo de incontáveis gerações. Proteger, alimentar e amar nossos bebês é apenas uma delas. Se existiu um grupo de hominídeos que não prestava esse tipo de atenção e cuidado às suas crias, ou que as torturava, certamente teve uma taxa de mortalidade infantil que levou essa sociedade à extinção, porque não existe tal coisa entre nós.

Do mesmo modo, uma sociedade que não visse nada de errado em um membro matar outro teria sido extinta. Não é uma imbecilidade pensar que, só depois que Moisés desceu do Monte Sinai com os Dez Mandamentos, as pessoas passaram a considerar o assassinato um ato condenável?


– Caraca!! Lê isso aqui: “Não matarás”…

– Nossa! Que onda, maluco! Não devemos matar…

– Então!!! Miniiiiiiiiiiiiiiiiiiiiino, nem te conto! Tu escapou fedendo, porque eu ia te arregaçar hoje… Tu ia pra vala!

– Sério?! Ha-ha-ha… E eu que tava pensando em matar minha mãe! Sei lá, tipo, hoje é terça-feira… eu tava sem muita coisa pra fazer… Mas não! Seria pecado. Não vamos desagradar a Deus…


A moral é ditada pelas sociedades sim. É o conjunto de pessoas que vivem em sociedade que determina o que é certo e o que é errado; quem tem razão e quem não tem. E isso é lapidado ao longo do tempo e varia de uma sociedade para outra, de forma que a escravatura, por exemplo, é vista, hoje, como imoral (=contrária à moral), mas já foi moralmente aceita, bem como era aceito (e até bem aceito) o relacionamento homossexual na Grécia antiga, que não era sequer tolerado no nosso país e hoje já passou a ser.

Os chineses adoram carne de cachorro e de gato, e os criam para o abate assim como nós criamos galinhas. Matar um cachorrinho para comê-lo é tão bizarro para nós como deve ser bizarro, para os indianos, o que fazemos com as nossas vacas.

Se eu fizer sexo com uma moça de 14 anos, mesmo com o consentimento dela, estarei cometendo estupro, segundo a lei do meu país. E as leis de um povo são feitas por legisladores que refletem a moral da sociedade como um todo. Já em certas tribos, indiazinhas de 8 anos podem fazer sexo naturalmente com os membros mais velhos da aldeia; em outras, os filhos são iniciados na vida sexual pelos próprios pais; no mundo islâmico, uma menina pode ser dada em casamento a partir dos 9 anos, idade que tinha uma das esposas de Maomé… Quem vai dizer o que está certo e o que está errado nisso tudo? Deus? Não. É a sociedade de cada um.

Deus, mesmo se existisse, não poderia ser considerado um padrão confiável, pois não mantém seu ponto de vista. Cria a humanidade e se arrepende de tê-la criado (Gênesis, 6:6). Decide exterminar todo mundo e se arrepende de ter tomado essa decisão (Gênesis, 8:21). Cria leis que ele mesmo diz que não se deve seguir (o descanso sabático: Deus manda matar a pedradas quem trabalha no sábado e, depois, como Jesus, diz que as coisas não são bem assim…). Se os crentes chamam isso de padrão, eu queria saber o que eles considerariam “falta de padrão”.

Cada sociedade é que determina o que é moral e o que é imoral. Mas existe uma “moral comum”, a que nos impediu de nos autoaniquilarmos como espécie. A moral intrínseca à humanidade, como respeitar a vida, a família e a propriedade do outro. Se alguma vez existiu uma sociedade que considerava moralmente aceito matar outro indivíduo, ou torturar bebês, foi extinta, levando consigo seu senso de moral inviável. Tão inviável que não restou nenhum deles para contar a história.

Essa moral comum que conhecemos hoje como humanidade é a que “deu certo”, a que permitiu que continuássemos existindo.

Deus, como sempre, só apareceu bem depois.



A sociedade torturadora de bebês

0831738

Sabino (autor do blog A Lógica do Sabino) é a prova viva de que inteligência e religiosidade não são, necessariamente, atributos incompatíveis. Suponho eu que seja ele, também, uma pessoa muito decente e boa. Tão decente e tão boa a ponto de nunca pensar em cumprir todas as ordens do Deus esquizofrênico que ele diz seguir. Quero crer que Sabino nunca reuniria uma turba de cristãos para apedrejar até à morte um homem que estivesse trabalhando no dia de sábado, por exemplo. E quero crer, também, que ele deve ter uma boa desculpa para não fazer isso, visto que foi o próprio Deus que deu tal orientação [Números 15:32-36].

Um bom motivo para o Sabino não seguir essa ordem maluca do Deus cristão é o fato de que, se o fizesse, ele seria preso por formação de quadrilha e homicídio triplamente qualificado. Isso me parece um bom motivo, mas, recentemente, ouvi outro de um teólogo:

“Os autores dos livros sagrados não psicografaram a Bíblia. Foram inspirados por Deus a escrever os textos, daí terem colocado neles suas limitações intelectuais, seus costumes e sua moral.”

Como já escrevi em outros posts, o crente segue certos versículos bíblicos à risca, como se fossem uma verdade incontestável e imutável, a letra fria da lei, a palavra viva do seu Deus; já outros versículos (quando não livros inteiros, como o de Jó) são considerados alegóricos ou poéticos; e outros tantos eles dizem ser relacionados apenas à época em que foram escritos, sem efeito nos dias de hoje. E acho que muitos dão graças a Deus por isso, porque aquele papo de Jesus Cristo de ter que se desfazer de tudo e sair por aí pregando o Evangelho para ser salvo seria algo que eles não iriam dar muito crédito mesmo.

— A cobra falante?

— É uma alegoria, Barros… Afffff…

— É pra apedrejar a mulher que trai o marido?

— Não, Barros, isso era o costume da época.

— O dízimo…

— Tem que dar o dízimo sim. É sagrado. Está na Bíblia. E a Bíblia é a palavra de Deus.

Não sei como nunca sugeriram ao Vaticano reimprimir o livro sagrado católico com o texto indicando, em itálico, o que é alegoria, em vermelho, o que não deve mais ser aplicado atualmente, e, em negrito, a palavra imutável de Deus… Acho que ficaria mais fácil assim.

No meu texto A moral de Deus?, Sabino fez um comentário na mesma linha do jogo de palavras de Tomás de Aquino, segundo o qual só se pode atribuir uma gradação a uma qualidade se você fizer referência a um máximo dessa qualidade, que seria, no caso, Deus. Dizemos que alguém é bom, ou muito bom, porque comparamos com a bondade suprema de Deus. (?)

Sabino me questiona sobre o critério que usei para dizer que machismo, sexismo e racismo são atributos deploráveis. Isso me lembra um outro comentário de um conterrâneo do Sabino, o Mats. Ele me disse, certa vez, que, se não fosse Deus, poderíamos fazer qualquer coisa, até torturar bebês, pois não haveria um padrão pelo qual se pudesse dizer que torturar bebês fosse uma coisa errada.

Eu gosto de conversar com crentes. Só me enche de orgulho e alívio por ser ateu. Parece que os religiosos acham que seríamos monstros sobre a Terra se não fosse o Deus deles. Seríamos canibais, estupraríamos as nossas mães, torturaríamos bebês…

Vou me esforçar ao máximo para deixar o meu orgulho ateu de lado e explicar, da forma mais direta possível, por que não precisamos de nenhum deus para sermos bons, por que não é Deus que nos impede de torturar bebês.


[Clique aqui para a continuação ]

A moral de Deus?

ao vivo

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Esse vídeo foi sugerido pelo Saracura, agora também autor do blog.

“Cristãos tiram sua moral de Deus, de onde você tira sua moral?”

A pergunta que um dos participantes do debate mostrado no vídeo fez a uma ateia.

Esse reverendo parece estar querendo dar a entender que os cristãos tiram a sua moral de Deus, que os cristãos SEGUEM os “ensinamentos” de Deus, que os cristãos têm Deus como referência de justiça… Sim, aquele Deus racista, chantagista, machista e sexista que não suporta concorrência, que mandava invadir países e matar pessoas que não o amassem, que mandava apedrejar quem desobedecesse suas leis, que podia ser atiçado a fazer coisas horrendas pelos motivos mais fúteis:


— Jó não te ama!

— Ama sim.

— Ama não. Ama não. Ama não… mil vezes.

— Ama sim um milhão de vezes!!! Seu feio!

— Ama não um trilhão de vezes!!! Há-há-há!

— Eu vou tirar tudo que ele tem, enchê-lo de pragas até os ossos e você vai ver que ele ainda vai me amar…

— Viiiiiixe… manda ver!

 

O que a gente percebe, felizmente com raríssimas exceções, é que a moral cristã deriva em direção à moral comum à maioria das sociedades modernas, não o contrário. As pessoas não saem mais por aí apedrejando ninguém, nem invadindo países que não têm o Deus cristão como único deus, nem consideram mais a mulher como um “presente” para o homem, para o seu uso e conforto… enfim, tudo o que Deus parece ter “ensinado” ao HOMEM (porque Deus não tratava com mulheres) teve que ser revisto, editado, adaptado. Você não iria querer morar nos países onde isso não aconteceu.

E, aqui, eu queria aproveitar a deixa do post que deveria ter sido do meu amigo Saracura:

Eu acho que muito ateu, vez por outra, se pega de calça na mão frente a uma pergunta capciosa de um crente. Especialmente um que esteja na linha de comando, aquele povo que mantém a máquina girando e os dízimos tilintando nos cofrinhos. Mas isso acontece por dois motivos. O primeiro, porque quem está à frente de uma igreja, mesmo que uma de fundo de quintal, depende de sua eloquência e sagacidade  para manter o circo armado e poder cobrar pelos ingressos. São pessoas inteligentes, escolhidas com bastante critério e frequentemente versadas nos seus mitos e em doutrinas que os sustentam. Além disso, elas têm um arsenal dessas perguntas e “argumentos” (entre aspas mesmo!) que, para elas, servem para ”quebrar as pernas” de qualquer ateu.

De qualquer ateu, vírgula! E é aqui que entra o segundo motivo: a inexperiência do ateu em questão. Se você se viu em maus lençóis com uma pergunta desse tipo, fique tranquilo: experiência não se compra. Um dia você vai ouvir a mesma pergunta (porque o arsenal deles é grande, mas limitado) e vai estar de posse da resposta.

Isso, evidentemente, se você se der ao trabalho de filosofar, de se questionar, de tentar entender a diferença que existe entre ser e achar que é… isso se você se der ao trabalho de fazer exatamente o que o crente é ensinado a não fazer: pensar.

– Cristãos tiram sua moral de Deus, de onde você tira sua moral?

– Senhor reverendo, o que é moral?

Será que o dono do circo saberia a resposta? Será que os que apregoam aos quatro ventos que a moral humana vem da divindade deles sabem o que significa “moral”? Faça um teste. Quando ouvir algo do tipo, pergunte. Você vai ter a confirmação de que o crente parece não estar habituado a pensar sobre a sua própria fé. Nem os que fazem as doações, nem os que recebem, porque estes estão o tempo todo pensando apenas em duas coisas: em como conseguir mais fiéis, e em como desmoralizar os ateus.


 

A Insuportável Arrogância do Ser – parte final

Deus existe. Em quais áreas se fundamenta tal afirmação?

Foi assim que o autor começou seu texto. Não é interessante? Você lê uma coisa dessas e espera para ver a afirmação fundamentada, como prometido. Fundamentada em mais de uma “área”, segundo o texto.

Quais áreas?

Na área da lógica. Só que descobrimos que o autor quer vender gato por lebre, pois o que ele chama de lógica é uma opinião pura e simples, sem nada para fundamentá-la além do seu paletó e gravata.

Na área da filosofia, isso se você considerar as opiniões de um único filósofo, aquele ateu que não acreditava em nada (?), como a “área da filosofia”.

Na área da lógica (de novo) “simples e irrefutável” de um outro religioso, Tomás de Aquino, segundo a qual Deus é o máximo de tudo, até do mau cheiro.

Para um pouquinho, peraí, stop! Só um segundo…

Em quais áreas se fundamenta tal afirmação?

É… será que alguém mais consegue enxergar a cara de pau do autor do texto? Será que alguém, além de mim, consegue perceber a forçação de barra para que o bom-senso se dobre para validar a afirmação inicial de que Deus existe? Será que alguém mais percebe o que, para mim, está mais do que evidente? Se não, vou ter mesmo que concordar com a minha mãe, que sempre disse que eu era superdotado.

Para fundamentar sua assertiva em “áreas”, no plural, até aqui o autor usou 3 delas. Isso: três “áreas”.

A lógica (a opinião dele, apenas), a filosofia (a opinião de um filósofo, apenas) e a lógica (de novo) sem pé nem cabeça de Tomás de Aquino.

Então: até aqui, as “áreas” que fundamentam a existência de Deus são duas: a lógica e a filosofia. E isso nessas condições fraudulentas aí, em que se quer rotular a visão de um como a visão de todos; em que o texto de UM filósofo corresponde à “área da filosofia” como um todo. Fraude. Como tudo que envolve Deus.

Se você ainda não sabe, quando estiver defendendo uma posição e ela se sustentar em vários argumentos, deixe o melhor, o mais forte, o mais impactante, por último. E foi isso mesmo que fez o pastor:

E a melhor de todas: simplesmente, porque a Bíblia diz:
“O ímpio, na sua soberba, não investa; “não há Deus” são todas as suas conjecturas”. Livro dos Salmos, 10:4.

“Simplesmente, porque a Bíblia diz”.

Era isso, então. As áreas do conhecimento humano que fundamentam a existência de Deus. Foi preciso usar de desonestidade para apresentar as duas primeiras, a lógica e a filosofia, vendendo gato por lebre, mas, na última, o autor foi honesto: a fé.

E a fé é isso mesmo: enxergar as coisas como a gente quer, entendê-las como melhor nos apetece, e sair por aí divulgando tudo como se fosse a verdade. E, pior, como se fosse a única verdade possível.

( Você quer ser um Patrocinador? )

Como todo mundo sabe, Deus é tudo de bom, muito mais poderoso do que o Super-Homem e tal. Mas não move uma palha para ajudar suas incontáveis igrejas aqui na Terra. Ele, que tudo controla, não se dá nem ao trabalho de desviar os raios das suas edificações, que são os seus templos sagrados. E haja para-raios pra espetar nessas igrejas todas!

Pois bem, como Deus é duro, o missionário R.R. Soares não faz cerimônia para pedir ajuda terrena mesmo. São os “patrocinadores”.

– Deus chamou você para ser um patrocinador?

Se sim, se Deus chamou, é só fazer um sinal, que, nessa hora do culto, a igreja fica coalhada de “obreiros” (pelo menos é a terminologia da IURD) com as mãos repletas de boletos do Bradesco. Enquanto o pessoal é, digamos, estimulado a pegar uma fichinha de depósito daquelas, o R.R. Soares sempre apresenta alguma coisa. Ontem ele convidou os que já fazem contribuições regularmente a darem algum “testemunho” (outro termo técnico muito usado) de como Deus estaria “operando” (mais um) nas suas vidas, tipo assim, para motivar futuros patrocinadores, já aproveitando que os boletos estavam ali roçando as caras deles.

O que me chamou à atenção foi logo no primeiro depoimento. Um casal de idosos. Só a mulher falou. E falou sobre o MILAGRE que Deus tinha operado na vida dela e do marido. O missionário ficou muito alegre e pediu para que ela divulgasse o tal milagre. A senhora disse que o marido apresentou um problema muito grave no coração. Foi socorrido a um hospital, onde passou por tratamentos intensivos, medicação constante, atenção médica, exames e tal. No fim do relato, que me deixou certo de que eles dois devem ter um ótimo plano de saúde, a velhinha revelou o milagre:

– Depois de 12 dias no hospital, ele está aqui.

Ok. Eu não posso ser tão burro assim. O “ele”, obviamente, é o marido. O velhinho. A prova do milagre. Quando ela completa “ele está aqui”, está apenas se valendo de um eufemismo, ou seja, ela quis dizer: “ele ainda está vivo”. Isso. Vivo, depois de ter tido um problema grave no coração. Depois dos 12 dias de internação e cuidados médicos especializados. Pois é. Não parece que tá faltando alguma coisa? Eu, pelo menos, não consigo achar onde aquela senhora escondeu o milagre que fez o R.R. Soares pedir palmas para Jesus.

Se alguém puder me explicar… Eu também quero aplaudir.

Amanhã à noite continuo com a parte 4 da série A Insuportável Arrogância do Ser.

A Insuportável Arrogância do Ser – parte 3

Pela lógica simples e irrefutável da “4ª Via” de Tomás de Aquino, em sua Suma Teológica I, q.2, a. 3.):


“Verificamos que alguns seres são mais ou menos verdadeiros, mais ou menos bons, etc. ora, diz-se o mais e o menos de coisas diversas segundo a sua aproximação diferente de um máximo. Existe, pois, alguma coisa que é o mais verdadeiro, o melhor, por conseguinte, o mais ser. Ora, o que é o máximo num gênero é a causa de tudo que pertence a este gênero. Existe, portanto, um ser que é para todos os outros causa de ser, de bondade, de perfeição total, e este ser é Deus”.

Misericórdia! Esse “argumento” bobo certamente encontrou algum respaldo no tempo em que viveu Tomás de Aquino. Mas, tudo bem, vamos lá (de novo!).

“Verificamos que alguns seres são mais ou menos verdadeiros”. Hein? Alguns seres?… O que diabos ele queria dizer com isso? Quem decide que algo é “um ser” e quem dá a gradação de que “esse ser” é  verdadeiro ou não?

Pior. Em se tratando de “mais ou menos verdadeiros”, quem atribui as percentagens? Lobisomem? Ah, deve ser uns 10% verdadeiro só. A fada Sininho? Uns 2%. O Abominável Homem das Neves? Uns 66% verdadeiro.

E, para fechar à força o seu raciocínio sem pé nem cabeça, ele faz um link insustentável entre “ser” e atributos humanos, como bondade e perfeição. A bondade, que alguém poderia classificar como ocorrendo em maior ou menor grau em outros seres, só pode ser assim entendida se existir o máximo de bondade, que seria, então, Deus (“o mais ser”). E isso é uma “lógica simples e irrefutável”?

Não. Isso é apenas o desespero comovente do cristão, do crente em Deus, que não vendo o objeto de sua adoração em lugar nenhum, procura encontrá-lo num jogo de palavras.

A Insuportável Arrogância do Ser – parte 2

[Continuando...]

O texto original está em azul.

O filósofo (não cristão) Antony Flew, em seu livro Um Ateu Garante: Deus Existe – As provas incontestáveis de um filósofo que não acreditava em nada, pg. 21:

Vai ser a minha prioridade 01, assim que fixar residência novamente: ler esse livro, que tem um título tão chamativo (Um Ateu Garante: Deus Existe), obviamente visando boas vendas (dinheiro, como sempre), e um subtítulo tão imbecil (“…um filósofo que não acreditava em nada”).

Só porque alguém se diz ateu, ou seja, declara-se como não crente, que é aquele que acredita em Deus ou deuses, não significa que não acredite em “nada”. Isso está me cheirando a jogada de marketing pura e simples. Da editora do livro. Um filósofo mesmo não teria concebido uma frase tão boba.

“Ah, eu sou crente. Acredito em Deus. E você é ateu, não acredita em nada.”

Só mesmo uma pessoa religiosa, cega pela vontade desesperada de que seus mitos sejam verdadeiros, seria capaz de não perceber a falta de coerência nessa declaração. Um ateu é aquela pessoa que não acredita em Deus, mas Deus não é tudo o que existe para se acreditar. Eu, por exemplo, acredito que o mundo seria um lugar infinitamente melhor para se viver, se as pessoas esquecessem essa tolice de Céu e de Inferno em uma outra dimensão e passassem a se concentrar nessa dimensão e nesse mundo, tentando viver sua única vida da melhor forma possível. Eu acredito que, se o dinheiro dos nossos impostos não fossem parar nos bolsos dos nossos políticos e seus comparsas, nós estaríamos vivendo num dos melhores países do mundo. Eu acredito que a Stefane Brito só casou com o Alexandre Pato porque não teve o prazer de me conhecer…

Eu não acredito em Deus, deuses, santos, vampiros, coelinho da Páscoa, unicórnios, etc. Mas acredito em muitas outras coisas. E se alguém te disser que quem não acredita em Deus não acredita em nada, desconfie de tudo o mais que vier desse alguém, porque ele, apenas nessa assertiva, já deu provas de sua incrível capacidade de não enxergar o óbvio.

“Se querem desencorajar a crença em Deus, os autores populares devem fornecer argumentos que sustentem suas opiniões ateístas.

Ah, tá legal. Eu digo pra você que a 800 mil anos-luz da Terra há um planeta igualzinho ao nosso em quase tudo, exceto pelo fato de que as árvores frutíferas dão duas frutas diferentes de uma vez só. Por exemplo, um cajueiro, além de caju, dá também abacaxi. Aí, quando você me questionar como diabos eu sei disso, eu digo que é você que tem que sustentar a opinião de que eu estou delirando. Muito prático, quando se trata de religião, visto que o Céu e o Inferno ficam em outra dimensão, muito além de 800 mil anos-luz.

Os evangelizadores ateístas de hoje nem tentam argumentar em defesa de suas idéias.

(Pausa para dar uma boa gargalhada.)

Mas alguém me aparece falando de um Reino Celeste (?), numa outra dimensão, onde há um Paraíso, onde as pessoas viverão eternamente, onde nada será como é aqui; onde não haverá morte nem sofrimento; onde as pessoas viverão sempre em paz, num corpo glorificado (?); onde tudo será perfeito e eterno, e eu é que tenho que argumentar em defesa das minhas (Minhas?) ideias?

Em vez disso, voltam seus canhões para as conhecidas crueldades cometidas ao longo da história das principais religiões. Mas os excessos e as atrocidades da religião organizada não têm nenhuma relação com a questão da existência de Deus, assim como a ameaça de proliferação nuclear não tem relação com a questão E = mc2″

Que lástima! Os argumentos do autor do texto são tão toscos que dá até vergonha perder tempo contestando.

Einstein nunca incitou ninguém a usar suas teorias científicas para o aniquilamento de outras pessoas. Deus, segundo consta da Bíblia, agiu diferente: “E entraram na aliança para buscarem o Senhor Deus de seus pais, com todo o coração, e com toda a sua alma; E de que todo aquele que não buscasse ao Senhor Deus de Israel, morresse; assim o menor como o maior, tanto o homem como a mulher.” (2 Crônicas, 15:12-13) Veja outras pérolas Aqui.



A Insuportável Arrogância do Ser – parte 1

Abaixo, a primeira parte dos meus comentários sobre os argumentos (?) presentes no link fornecido no post anterior,Deus existe!“. O texto original está em azul:

Deus existe (Depois que a gente aprende, descobre que pode falar  qualquer coisa, né? Minha sobrinha de 2 anos já fala que é uma beleza. Falar é muito fácil mesmo.). Em quais áreas se fundamenta tal afirmação?

Na lógica (e na refutação da lógica inválida) (Ah, Ok. Deixa ver se eu entendi: o autor vai fundamentar a existência de Deus usando a lógica e vai mostrar que a lógica que diz o contrário, ou seja, que Deus não existe, é inválida. Legal. Gostei desse cara.)

No fato de que uma eventual (o que é muitíssimo improvável) confirmação do evolucionismo  –  que tem levado inúmeras pessoas ao ateísmo — não é suficiente nem necessária à refutação do cristianismo. É, logicamente, irrelevante!

Começamos muito mal.

O papa-dízimo, digo, o autor disse que pretendia fundamentar sua declaração acerca da existência de Deus se valendo da “lógica”, entretanto, (Por que será que eu não estou surpreso?) o argumento que encabeça o seu raciocínio é uma opinião pura e simples: “no fato de que uma eventual … confirmação do evolucionismo … não é suficiente … à refutação do cristianismo”. Isso anda longe de ser lógica. Das duas uma: ou ele não sabe o que é lógica, ou sabe, mas também sabe que a quase totalidade dos seus leitores não sabe, e que eles comprariam facilmente o gato pela lebre.

É por isso que você nunca vai ver um pastor, pregador, padre, mulá, etc., que não tenha a eloquência como uma de suas habilidades mais apuradas. Percebeu que eu não escrevi “que não tenha o dom da eloquência”? Justamente por causa da palavra “dom”. O que seria mais provável: Deus dar o dom da eloquência aos seus pregadores, ou a indústria religiosa recrutar justamente os mais hábeis na arte da oratória para convencer as pessoas que precisam encher seus cofres? Que tal um que vende uma simples opinião como “lógica”? Será que alguém assim se daria bem como pastor, como pregador? Certamente. Essa mágica com as palavras é indispensável para aqueles que vendem terrenos no Céu.

Bom, como o pessoal que faz as doações não sabe, e como os que sabem não querem comprar briga com ninguém, a Teoria da Evolução é uma “teoria” justamente porque o Evolucionismo tem se confirmado desde que Darwin publicou seus estudos. Caso contrário, se não tivesse obtido confirmações, essa teoria já seria peça do museu da ciência. A teoria de Darwin apenas não é uma lei, assim como a Lei da Gravidade, porque, para se tornar lei, uma teoria tem que “prever” ocorrências futuras observáveis. Se eu digo que meu lápis vai cair se eu largá-lo no ar, por conta da ação da gravidade, e se isso realmente ocorre, a teoria que explica a gravidade passa a ser lei. Dá para fazer algo parecido com a Teoria da Evolução, mas alguém vai ter que esperar uns bons milhões de anos para ver o resultado. Se o teu Deus só te deu bateria para durar um século, paciência.

Outro tiro no pé que mostra o engodo que foi rebatizado como lógica: “…evolucionismo – que tem levado inúmeras pessoas ao ateísmo…”

Isso é apenas outra opinião! O pastor da igreja Não-Se-Esqueça-de-Fazer-Sua-Doação fez, realmente, uma pesquisa para saber o que levou os ateus a se tornarem ateus? Não! Quando ele diz “inúmeras pessoas”, está querendo dizer que são muitas, e que ele tem o número, porque ele fez a tal pesquisa, mas apenas não quer registrar esse resultado palpável do seu argumento? Não! Ele não fez pesquisa nenhuma e a “lógica” que ele está querendo empurrar é essa: “Eu acho que as pessoas se tornam ateias porque dão crédito à teoria científica do Evolucionismo, que põe por terra o Criacionismo”. Sem tirar nem pôr. Ele não tem nenhum dado real sobre o que está falando; está apenas expressando a sua visão tendenciosa das coisas e esperando que o seu terno e gravata e o seu ar pseudoprofessoral sirvam para convencer as pessoas  simples de que ele está com a verdade do seu lado.

A existência ou não de Deus não está atrelada à refutação ou validação das descobertas de Darwin. Se, amanhã, a Teoria da Evolução fosse, de repente, definitivamente refutada (isso, sim, muitíssimo improvável), eu continuaria sendo um ateu tão convicto quanto sou hoje. O Deus cristão é muito mais do que apenas o “fazedor da vida”. Ele criou não só a vida, como criou tudo o que existe; ele atende preces, opera milagres, protege seus filhos de perigos; ele tem um plano; ele escreveu um livro que deveria ser o suprassumo da perfeição, etc., etc., etc. E nada disso tem o menor fundamento, muito menos a mais microscópica das evidências.

Se a teoria de Darwin fosse refutada e voltássemos à estaca zero sobre o surgimento da vida* não mudaria nada acerca da fantasia da Criação. O fato de “não se saber” como a vida surgiu não evidencia que “só pode ter” surgido de Deus.

Essa é a “fraude” que o Homem do Boleto quis empurrar como “lógica” no seu primeiro argumento.  Mas isso é tão somente uma evocação do Deus-da-Ignorância tão cultuado pelos cristãos e religiosos em geral. Eles exultam com as lacunas do conhecimento e com os inevitáveis erros da ciência, como se pensassem: “Há-há-há, a resposta deles está errada: então fica valendo a nossa!”.

E isso é a quintessência da imbecilidade humana.

(*) Um grande equívoco da minha parte, uma vez que a Teoria da Evolução não trata sobre o “surgimento” da vida. (18/10/2012)

Pelo sim, pelo não…

 

fé e balas

 

 

A foto acima foi enviada pelo leitor Stranger in a Stranger Land (?) rssrs e é uma prova inequívoca de que o crente não enxerga mesmo a realidade das coisas. Ou (o que acho mais provável) até enxerga, mas prefere brincar de faz de conta.

Eu deletaria esse blog amanhã e me converteria novamente ao catolicismo, me internaria num mosteiro, iria passar o resto da minha vida adorando o Deus cristão se o representante nº 1 dele, aqui na Terra, tivesse algum tipo de proteção divina, porque, como sentenciou, certa vez, o filósofo Danilo Gentili, “Se Deus não protege nem o papa, eu, então, tô fudido, né?“.

 

Barros vs. Diabo

satanas

Eu acho que os crentes devem morrer de inveja de mim.

Claro que eles nunca irão admitir isso, mas acho que têm inveja sim. E muita, afinal, o Diabo não me incomoda nem um pouco; não me atrapalha em nada, não estraga meus planos, não interfere na minha vida, não me tenta, não me enche de doenças nem de sofrimentos, não me espreita das trevas, não quer me arrastar para nenhum abismo.

Acho que os crentes me invejam porque eu não preciso me preocupar com o Diabo. Se eu tivesse que fazer um lista com todas as minhas preocupações nessa vida, da mais premente até à mais tola, pode ter certeza de que o Demo não entraria nela.

Já para o crente em Deus, o Diabo é uma preocupação constante. Ouça um culto evangélico durante alguns minutos e você vai entender do que eu estou falando. Nenhum pastor consegue segurar por muito tempo a atenção de uma igreja lotada se não começar a falar do “Inimigo”. Se ele se distrair e passar muito tempo só falando de Deus, as pessoas começam a bocejar e a ficar olhando para o relógio. Daí ele passa rapidinho a descrever as artimanhas do Pai da Mentira, do Filho das Trevas, do Anjo Caído, e todo mundo arregala os olhos.

Hoje, enquanto tomava meu café numa padaria às margens da BR 101, conheci um senhor, muito religioso e temente a Deus (segundo ele mesmo), que, ao lhe ser revelada a minha condição de ateu, lançou o seguinte desafio, segundo o qual a minha descrença no mundo sobrenatural seria desmascarada:

” — Você tinha coragem, meu rapaz, de entrar numa sala onde houvesse uma pessoa possuída por um demõin?”

Obviamente eu respondi que não teria coragem. Acho que escrevi alguma coisa aí acima, na aleta O Criador, sobre eu ser um ateu covarde, e, mui provavelmente, aquele senhor nunca acessou meu blog.

Precisava ver o rosto exultante do velhinho:

” Tá vendo!!!? Você tem é juíííízo! Todo mundo tem que temer o Cão. E se você acredita no Demõin, por que não acredita em Deus, Nosso Sinhô????????!”

Enquanto terminava meu segundo copo americano de café com leite, eu expliquei pro velhinho que o problema não era o Cão, e que, se ele conseguisse exorcizar a pessoa endemoninhada e levá-la para bem longe, eu não veria problema nenhum em entrar numa sala em que só o Diabo estivesse presente.

Como eu já disse: eu sou ateu. O Diabo não me incomoda.

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