
Onde está Deus?
Você já brincou de “Onde está Wally?” ?
Pois bem, esse aqui é quase a mesma coisa. Você vê, aí acima, a foto de uma paisagem copiada da internet. Nada de especial nela, exceto o fato de ser uma foto muito bonita. Mas o que quero dizer é que é uma foto comum, sem nenhum efeito especial, sem montagem, etc. Ou seja: não estou fazendo uma pegadinha. Estou fazendo uma pergunta: onde está Deus na foto?
Espero que algum religioso possa responder. Infelizmente, esse jogo é vedado aos ateus. Só o verdadeiro crente poderá ver o Wally, digo, Deus. E aí, uma vez avistado, gostaria que escrevessem umas duas ou três linhas nos comentários, para que todos possam saber quem o achou, onde e como.
Se ninguém aparecer com uma resposta, eu serei obrigado a concluir uma dessas três coisas:
1) ou os religiosos estão apreensivos com esse teste e não querem se arriscar a passar vergonha num blog de um ateu;
2) ou os religiosos que avistaram Deus na foto não estão dispostos a colaborar comigo no meu teste, mesmo que confiantes de que não vão “passar nenhuma vergonha”, visto que estão seguros de sua fé e saberão defendê-la;
3) ou ninguém está lendo o meu blog, e as 600* visitas/dia que o blog recebe, em média, são apenas de gente que abre o site, olha, balança a cabeça e fecha a página.
Confesso que só ficarei um pouco decepcionado se confirmada a hipótese (3).
* ano: 2011

Deus é onipresente: está, o tempo todo, em toda parte. Ele deve, então, estar na foto acima. Obrigatoriamente. Olhe de novo. Com calma.
Você não me diz onde Deus está na foto? Mas, mesmo assim, eu sei que você o vê. Talvez você só tenha se ofendido com a minha brincadeira do “Onde está Wally?”. Talvez você não tenha achado conveniente o teste que propus; talvez não queira colaborar com um ateu que parece estar querendo caçoar da sua fé. Ou talvez você só não saiba expressar em palavras que o vê, nem consiga explicar como o vê, nem por quê. Eu entendo. Mas acho que poderia ser algo assim:
Eu vejo Deus em cada pixel dessa foto digital. Deus não só está em cada coisa, como Ele “é” cada coisa. Deus está na nuvem branca, na grama verde, na terra marrom-avermelhado, no céu azul… Veja essa beleza. Veja essa perfeição. Esse equilíbrio. Essas cores. O mundo parece uma pintura feita por mãos habilidosas. Sem Deus nada disso nem mesmo existiria. Você me pergunta onde Ele está? Eu te respondo: Ele está em tudo.
Você concordaria comigo que, se viesse de um crente, essa seria uma resposta, pelo menos, aceitável? Provavelmente, não é? Mas dizer que Deus está em tudo é apenas retórica; não tem nada a ver com a realidade. O Deus onipresente não aparece na foto porque ele não está mesmo lá. Dizer o contrário não muda isso.
“Sim, mas os átomos de nitrogênio também não aparecem na foto e, ainda assim, estão lá.”
É mesmo. Só que os átomos de nitrogênio não escreveram um livro dizendo que se parecem comigo (ou, antes, que eu me pareço com eles), nem que fizeram todo o universo em 6 dias, nem que podem interferir na minha vida, ou me recompensando ou punindo. Eu não estou interessado nos átomos de nitrogênio. Eu estou interessado em ver um Deus que as pessoas dizem que está em todos os lugares, mas que é como se não estivesse.
E ele não está lá porque é uma ilusão, como as cores. Uma nuvem não é branca. A grama não é verde. O céu não é azul. Assim como as cores não existem, Deus não existe. É preciso um cérebro para interpretar diferentes comprimentos de ondas de luz como sendo cores diferentes; mas as cores mesmo não fazem parte das coisas. Mas se, ao longo da sua vida, para onde você olha, você vê cores, isso lhe “imprime” no cérebro a ilusão de que as cores existem, e você vai acabar se convencendo de que o céu “é” azul, quando não é. Até mesmo o próprio céu, que se nos apresenta como “algo”, na verdade, não é absolutamente nada. O nosso cérebro é facilmente iludido pelos nossos olhos e, muitas vezes, vê o que nós pensamos que vemos ou queremos ver.
É preciso um cérebro humano para “ver” Deus. É por isso que ele é onipresente: ele vai estar sempre onde você estiver; você vai vê-lo onde quer que olhe, mas não porque ele esteja lá, e sim porque você está.
Deus está por trás dos seus olhos, dentro da sua cabeça. Por isso ele não aparece na foto.
O vento também não pode ser visto, mas pode ser sentido, e suas manifestações são claramente percebidas. Isso é prova suficiente de que o vento existe. Dá-se o mesmo com Deus.
Eu concordo em parte com essa proposição. E é a parte sobre o vento. Este sim é fiel: produz sempre os mesmos efeitos e tem sempre a mesma explicação. Com Deus a história é bem outra.
Seu Josias era um vigoroso senhor, apesar dos 87 anos de idade: um crente fervoroso, um cristão praticante, temente a Deus, devoto desde a mais tenra idade, leitor e estudioso da Bíblia, enfim: você já entendeu. Ele teve a bisnetinha de 8 anos sequestrada, arrancada das mãos dos próprios pais. Ao saber disso, seu Josias imediatamente passou a orar a Deus para que protegesse sua bisneta e para que a devolvesse sã e salva ao seu lar. Ele clamou a Deus para que interviesse em seu favor e, fora o susto da ação dos bandidos, para que tudo voltasse a ser exatamente como antes.
Seu Josias (coitado do velhinho) chorou escondido, sofreu calado, mas ele tinha fé em Deus; tinha tanta confiança em que tudo iria acabar bem que se tornou até o mais apto para lidar com a situação. Toda a família estava desesperada, mas seu Josias se manteve forte e seguro de que nada de mal iria acontecer, e a sua certeza era contagiante e confortou a todos.
Felizmente, algumas horas depois do sequestro, a família recebeu um telefonema de uma outra família dizendo que a menina havia sido deixada à sua porta e passava bem, e, então, eles todos foram buscá-la, em carreata, e se inteiraram, pelo próprio relato da criança, de que os sequestradores a haviam deixado ali, sem mais nem menos, e ido embora. Ela estava assustada, mas nada de mal lhe havia acontecido.
Enquanto seu Josias voltava para casa com seu clã e com sua bisnetinha bem apertada nos braços, ele não parava de agradecer a Deus por ter ouvido suas orações.
Ora, que outra explicação haveria para isso? Viu só como Deus existe e atende às preces dos seus filhos? Que pai vai dar pedra a um filho que lhe pede pão, não é?
É. Pois é.
Só que não foi isso o que aconteceu. Na verdade, um policial havia presenciado o sequestro e acionou, de imediato, uma patrulha motorizada que estava nas redondezas, que saiu na perseguição do carro descrito pelo policial informante. O carro foi interceptado, os bandidos reagiram à bala, houve troca de tiros, e eles foram mortos e a menina resgatada com vida, mas, tendo sido alvejada, acabou ficando tetraplégica.
Dias depois do ocorrido, seu Josias contemplava sua bisneta na cama da sua casa. Oito anos de idade, uma vida toda pela frente e ela iria ter que vivê-la assim: deitadinha numa cama ou sentada numa cadeira de rodas, mexendo só a cabecinha, dependendo dos outros para tudo e qualquer coisa. A sua princesinha.
“Por que, meu Deus?”
Seu Josias, eu sinceramente não sei, embora desconfie que Deus tenha ouvido suas preces pela metade. Mas alguém terá uma explicação sim. Não tenha dúvida. Talvez Deus esteja só “testando” a sua fé e tenha usado a criança para isso (que, diga-se de passagem, não teria nada a ver com o peixe). Talvez Deus esteja punindo o senhor por alguma coisa, ou punindo os pais da menina, ou punindo a menina, ou sei lá quem. Talvez isso faça parte dos planos de Deus, que, obviamente, ninguém sabe quais são, nem por que diabos teria que envolver, obrigatoriamente, o sofrimento de uma criancinha por toda sua vida. Talvez um monte de coisa que não vem ao caso agora, porque não foi isso o que ocorreu de verdade.
O que houve, de fato, foi que o seu Josias só soube de novo de sua bisneta quando a polícia encontrou o corpo dela, alguns dias depois, num terreno abandonado a dezenas de quilômetros de distância da sua casa. Os exames iniciais, ainda no local, indicavam que a criança havia sofrido várias formas de violência sexual e que fora morta por espancamento, como atestavam os vários hematomas, dedos e dentes quebrados.
Ao saber, enfim, do paradeiro da bisneta e das condições em que o corpo dela fora encontrado, um velhinho vigoroso, apesar dos seus 87 anos, não aguentou mais ficar de pé e sentou-se, silenciosamente, no chão. Dos seus olhos arregalados, fixos no nada à sua frente, escorriam filetes contínuos de lágrimas grossas. Ele estava como que anestesiado pela dor e pelo desespero, e não conseguia parar de imaginar sua bebezinha, sua bisnetinha de 8 anos sendo estuprada por vários homens, sendo sodomizada, pervertida, humilhada… Nem conseguia se livrar da visão da morte terrível que havia sido reservada à criança: apartada da família, desorientada, sozinha em meio a estranhos, indefesa, inutilmente encolhida enquanto era chutada repetidas vezes por animais em forma humana.
Mas o que mais o atormentava, o que mais lhe doía no peito e mais lhe apertava a garganta era imaginar em que a sua bonequinha deveria estar pensando enquanto recebia os golpes repetidos, enquanto chorava seu último choro, enquanto sangrava seu sangue inocente e experimentava, na agonia dos momentos finais, toda a brutalidade do mundo e toda a dor de uma vida de uma só vez.
A sua criança, seu Josias, que sempre corria pros seus braços antes que alguém a alcançasse para lhe dar umas palmadas…
Diz o tolo no seu coração: “Não há Deus”.
(Salmos 14:1)
O texto anterior foi baseado num caso real, ocorrido, há pouco tempo, numa cidade vizinha, embora envolvendo uma menina de 4 anos de idade, e não oito. Esse tipo de barbárie não é nada raro na sociedade brasileira, infelizmente.
Eu escrevi a história daquele jeito porque achei bem provável que o crente que a lesse — e enquanto a lesse — passaria pelos seguintes estágios:
1. Até o trecho em que tudo termina bem: “Deus-Pai atendeu às preces de um filho. É isso o que acontece quando se trilha o caminho do Senhor. Não estamos sozinhos: Deus é por nós”.
2. Quando a história diz que a menina ficou tetraplégica: “Deus escreve certo por linhas tortas. Houve uma intervenção divina que trouxe consigo uma lição que apenas não compreendemos, mas que faz parte do plano de Deus”.
3. Quando tudo acaba mal: “O ser humano, ao se desviar do caminho de Deus, é inspirado pelo Diabo e usa seu livre-arbítrio para fazer coisas das mais terríveis”.
O meu argumento aqui é o seguinte:
O crente sempre encontrará uma maneira de dar crédito a Deus pelo que acontece de bom, assim como encontrará meios de desculpá-lo pelo que acontece de ruim.
Agora veja a contradição desse artifício: se, na hipótese (3), supõe-se que Deus não fez nada para salvar uma criança inocente porque os homens, desviados do caminho e inspirados pelo Diabo, tinham livre-arbítrio e decidiram fazer o mal, por que ele se meteu na hipótese (1), quando os sequestradores, seguramente desviados do caminho e inspirados pelo Diabo, também deveriam estar usufruindo do seu livre-arbítrio?
Resposta: porque Deus é apenas um carimbo que se põe nas coisas boas, quando elas acontecem. Se não acontecem, então se põe outro carimbo em cima e não se pensa muito a respeito.
Outro dia, um senhor apareceu no Jornal Nacional sendo entrevistado logo após terem encontrado os corpos de sua mulher e de dois filhos que foram soterrados dentro de seu barraco após um deslizamento de terra provocado pelas chuvas. Ele disse algo como “Graças a Deus que consegui salvar meu filho mais novo, porque, do contrário, eu teria perdido toda a minha família. Não teria me sobrado ninguém”. Não espere que algum religioso, numa situação idêntica, vá dizer que foi graças a Deus que a mulher e dois filhos morreram no desespero da asfixia, sob o barro e a lama que lhes caiu em cima enquanto dormiam. Não mesmo. O carimbo “Deus” tem uso bem específico.
Noutra notícia, na mesma edição, mostrava-se os moradores de uma cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul, castigada pela seca, orando a Deus e pedindo o fim da estiagem. Eu, talvez, pudesse perguntar a essas pessoas por que elas oravam a Deus por chuva se foi o próprio Deus que, supostamente, “mandou” a seca. Se ele “mandou” a seca e não a chuva, por que alguém deveria pedir o contrário? Lê aqui por quê:
E se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e buscar a minha face e se converter dos seus maus caminhos, então eu ouvirei dos céus, e perdoarei os seus pecados, e sararei a sua terra.
(II Crônicas, 7:14)
Deus quer que as pessoas “se humilhem”? Que rastejem para ele pedindo o que ele poderia dar de boa vontade? Se Deus existisse realmente, seria um chantagista mesquinho com sérios problemas psicológicos, desde carência afetiva, passando por necessidade de autoafirmação, até à esquizofrenia pura e simples.
Os povos nórdicos antigos acreditavam que os trovões que anunciavam as chuvas eram provocados pelo martelo do deus Thor, que rasgava os céus montado numa carruagem puxada por cabritos. Quando vinha a seca e muitos morriam de fome por causa das colheitas perdidas, as pessoas culpavam os duendes por terem roubado o martelo de Thor, que ficava, assim, impossibilitado de produzir o trovão e as chuvas.
Ocorre hoje, como sempre ocorreu, a mesma coisa com relação a Deus. As pessoas oram, clamam, pedem, acreditam e, se acontece o que era esperado, o que foi pedido, ah!, então foi Deus. Se acontece em parte, foi porque Deus quis assim, não ia dar tudo de mão beijada, tinha outros planos, ad infinitum. Se acontece o pior, justamente aquilo que se pedia, em oração, para que não ocorresse, aaaahh…, não culpe Deus: foi o Diabo, foi o livre-arbítrio do ser humano, é um sinal do fim dos tempos, ad infinitum.
O tolo diz em seu coração que não há Deus? Não: o tolo diz que há. Se você, crente, for um pouquinho, só um pouquinho honesto consigo mesmo, vai acabar por concluir que as coisas acontecem como se não existisse Deus algum.
E se existir, estaremos todos em maus lençóis, porque ou Deus é um cientista e somos sua experiência, ou é uma criança e somos seus brinquedos.
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O DEUS QUE NÃO ESTAVA LÁ (o filme)
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Parte 1 – Parte 2 - Parte 3 - Parte 4 – Parte 5 - Parte 6 – Parte 7 – Parte final
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Parte 1 - Parte 2 - Parte 3 – Parte 4

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