Segue transcrição fiel (exceto alterações para a nova ortografia) de 6 páginas do livro Tratado de Ateologia, de Michel Onfray, sobre a “farpa na carne” de Paulo de Tarso: ou São Paulo era um brocha, ou um pervertido sexual enrustido.

1. Delírios de um histérico
Paulo apropria-se do personagem [Jesus] e o veste, fornece-lhe ideias. O Jesus primitivo não fala contra a vida. Duas frases (Mc VII, 15 e X, 7) mostram-no sem oposição ao casamento mas nem um pouco fascinado pelo ideal ascético. É inútil procurar suas prescrições rigorosas no terreno do corpo, da sexualidade, da sensualidade. Essa relativa benevolência com relação às coisas da vida é acompanhada de um elogio e de uma prática da doçura. Paulo de Tarso transforma o silêncio de Jesus sobre essas questões num tumulto ensurdecedor promulgando o ódio ao corpo, às mulheres e à vida. O radicalismo anti-hedonista do cristianismo procede de Paulo — não de Jesus, personagem conceitual silencioso a respeito dessas questões…
Originalmente esse judeu histérico e integrista gosta de perseguir cristãos e de assistir a seu espancamento. Quando fanáticos apedrejam Estêvão, ele os acompanha. E outros, ao que parece. A conversão a caminho de Damasco — em 34 — é fruto de pura patologia histérica: ele cai de sua altura (não de um cavalo, conforme mostram Caravaggio e a tradição pictórica…), é ofuscado por uma luz intensa, ouve a voz de Jesus, não enxerga durante três dias, não come nem bebe durante todo esse tempo. Recupera a visão depois da imposição das mãos de Ananias — cristão enviado por Deus como missi dominici… Então, coloca-se à mesa, restaura-se e sai pela estrada para anos de evangelização forçada em toda a bacia mediterrânea.
O diagnóstico médico parece fácil de fazer: a crise sobrevém sempre na presença de outras pessoas — é o caso… —, a queda, a cegueira dita histérica — ou amaurose transitória — portanto passageira, a suspensão sensorial — surdez, anosmia, agustia — durante três dias a tendência mitomaníaca — Jesus lhe fala pessoalmente… —, o histrionismo, ou exibicionismo moral — cerca de trinta anos de teatralização de um personagem imaginário, eleito por Deus, escolhido por ele para transformar o planeta —, toda essa crise é idêntica à ilustração de um manual de psiquiatria, capítulo das neuroses, seção das histerias… Eis uma verdadeira histeria… de conversão!

2. Neurotizar o mundo
Como viver com sua neurose? Fazendo dela o modelo do mundo, neurotizando o mundo… Paulo cria o mundo à sua imagem. E essa imagem é deplorável: fanático, mudando de objeto — os cristãos, depois os pagãos, outro sinal de histeria… —, doente, misógino, masoquista… Como não ver em nosso mundo um reflexo desse retrato de um indivíduo dominado pela pulsão de morte? Pois o mundo cristão experimenta deleitado essas maneiras de ser e de fazer. A brutalidade ideológica, a intolerância intelectual, o culto da saúde ruim, o ódio ao corpo jubiloso, o desprezo às mulheres, o prazer na dor que se inflige a si mesmo, a desconsideração deste mundo por um além de pacotilha.
Baixo, magro, careca, barbudo, Paulo de Tarso não nos dá detalhes da doença de que fala metaforicamente: confia que Satã lhe infligiu uma farpa na carne — expressão dele retomada por Kierkegaard. Nenhum detalhe, a não ser uma vez considerações sobre o estado esfarrapado em que um dia ele aparece para seu público gálata — depois de um espancamento que deixou marcas… De modo que a crítica acumulou durante séculos as hipóteses sobre a natureza dessa farpa. Não se evita o inventário à Prévert: artrite, cólica renal, tendinite, (…, …, …), convulsões, epilepsia… As articulações, os tendões, os nervos, o coração a pele, o estômago, os intestinos, o ânus, as orelhas, os sínus, a bexiga, a cabeça, tudo ocorre…
Tudo menos o registro sexual… Ora, a etiologia da histeria supõe um potencial libidinal debilitado, até mesmo nulo. Distúrbios da sexualidade, uma tendência, por exemplo, a vê-la em tudo, a erotizar exageradamente. Como não pensar nisso quando se lê ad nauseam sob a pena de Paulo um ódio, um desprezo, uma prevenção permanente para com as coisas do corpo? Sua aversão à sexualidade, a celebração da castidade, a veneração da abstinência, o elogio da viuvez, a paixão pelo celibato, o convite a comportar-se como ele — claramente formulado em seus termos na epístola aos coríntios (VII, 8), a resignação a consentir no casamento, certamente, mas no pior dos casos, sendo o melhor a renúncia a toda carne — são sintomas dessa histeria cada vez mais nitidamente visível.
Essa hipótese tem o mérito de corroborar algumas certezas: nenhuma confissão de qualquer patologia que seja. Ora, podem-se confessar sem complexo dores estomacais, reumatismos articulares. As dermatoses invasivas se notam, os soluços repetidos também. É menos de confessar uma impotência sexual que se pode revelar muito parcialmente sob forma de metáfora — a farpa o faz. A impotência sexual ou toda fixação da libido em um objeto socialmente indefensável — uma mãe, um ser humano do mesmo sexo ou qualquer outra perversão no sentido freudiano do termo. Freud vê a origem da histeria na luta contra angústia de origem sexual recalcadas e sua realização parcial sob a forma de uma conversão — no sentido psicanalítico, mas o outro sentido também convém…
Uma espécie de lei parece triunfar eternamente sobre o planeta. Em homenagem ao grande La Foutaine, vamos chamá-la de “complexo da raposa e das uvas”: consiste em fazer de necessidade virtude para não ficar mal. Golpe do destino ou da necessidade, a vida inflige a Paulo de Tarso uma impotência sexual ou uma libido problemática: reação, ele se dá a ilusão de liberdade, autonomia e independência acreditando livrar-se do que o determina, depois afirma que aquilo que se impõe a ele é escolhido e decidido por ele com plena consciência. Incapaz de levar a bom termo uma vida sexual digna desse nome, Paulo decreta nula e insignificante qualquer forma de sexualidade para ele, certamente, mas também para o resto do mundo. Desejo de ser como todo o mundo exigindo do mundo que o imite, donde essa energia em querer dobrar a humanidade toda à regra de seus próprios determinismos…

3. A desforra de um aborto
Essa lógica aparece claramente numa proclamação da segunda epístola aos coríntios (XII, 2-10) na qual ele afirma: “Comprazo-me nas fraquezas, nos insultos, nas opressões, nas perseguições, nas angústias por Cristo! Pois, quando sou fraco, é então que sou forte”. Própria confissão da lógica de compensação em que se encontra o histérico abatido no caminho de Damasco. A partir de sua fisiologia degradada, Paulo milita por um mundo que se assemelha a ele.
Seu ódio a si mesmo transforma-se num vigoroso ódio ao mundo e ao que constitui seu interesse: a vida, o amor, o desejo, o prazer, as sensações, o corpo, a carne, o júbilo, a liberdade, a independência, a autonomia. O masoquismo de Paulo não é mistério nenhum. Ele coloca sua vida inteira sob o signo dos aborrecimentos, vai ao encontro das dificuldades, gosta dos problemas, alegra-se com eles, deseja-os, aspira a eles, cria-os. Na epístola em que confirma seu gosto pela humilhação, faz o balanço do que suportou e sofreu para evangelizar as multidões: cinco flagelações — trinta e nove chibatadas a cada vez… —, três espancamentos com varas, uma vez apedrejado em Listra na Anatólia — lá quase lhe tiram a pele, é largado no chão como morto… — três naufrágios — um dia e uma noite passados na água gelada —, sem falar nos riscos aferentes das viagens por estradas infestadas de banidos, na travessia perigosa dos rios, no cansaço das caminhadas sob o sol de chumbo, nas vigílias frequentes, nos jejuns forçados, na falta de água, no frio das noites anatolianas. Acrescentemos permanências na prisão, dois anos de fortaleza, o exílio… Para regalo do masoquista!
Às vezes ele se vê em situações humilhantes. Assim na ágora de Atenas onde tenta converter filósofos estoicos e epicuristas ao cristianismo falando-lhes da ressurreição da carne, uma inépcia para os helenos. Os discípulos de Zenão e de Epicuro riem-lhe na cara. Ele se submete às zombarias sem retrucar… Outra vez, para escapar à vindita popular e à fúria do etnarca de Damasco, ele se evade escondido numa cesta que é baixada pelas muralhas da cidade. Como o ridículo não mata, Paulo sobrevive…
Esse ódio a si mesmo Paulo transforma em ódio ao mundo — para viver com ele, desfazer-se um pouco dele, colocá-lo à distância. A inversão do que o atormenta passa então a assombrar o real. O desprezo do indivíduo Paulo por sua carne incapaz de estar à altura do que se pode esperar dele torna-se um descrédito geral de toda carne em geral, de todos os corpos e de todo o mundo. Aos coríntios ele confessa: “mortifico meu corpo e o arrasto em escravidão” (1 Cor IX, 27); à humanidade ele pede: mortifiquem seu corpo e arrastem-no em escravidão. Façam como eu…
Daí um elogio do celibato, da castidade, da abstinência, sabe-se. Não se trata de Jesus, mas da desforra de um aborto — conforme ele denomina a si mesmo na primeira epístola aos coríntios (XV, 8). Incapaz de ter acesso às mulheres? Ele as detesta… Impotente? Ele as despreza. Excelente ocasião para reciclar a misoginia do monoteísmo judeu — herdada pelo cristianismo e pelo islã. Os primeiros versículos do primeiro livro da Bíblia dão o tom: o Gênese condena radicalmente e definitivamente a mulher, primeira pecadora, causa do mal no mundo. Paulo retoma por sua conta essa ideia nefasta, mil vezes nefasta.
Daí as proibições de que são alvo em toda a literatura paulina, epístolas e atos; daí também os conselhos e opiniões dados pelo Tarsiota sobre a questão das mulheres: definitivamente fraco, o destino desse sexo é obedecer aos homens em silêncio e submissão. As descendentes de Eva devem temer seus esposos, não ensinar nem fazer a lei ao pretenso sexo forte. Tentadoras, sedutoras, elas podem esperar a salvação, certamente, mas apenas na maternidade, por ela e para ela. Dois milênios de punições infligidas às mulheres unicamente para expiar a neurose de um aborto!

4. Elogio da escravidão
Paulo o masoquista expõe as ideias com as quais o cristianismo um dia triunfa. Ou seja, o elogio da fruição em ser submisso, obediente, passivo, escravo dos poderosos sob o pretexto falacioso de que todo poder vem de Deus e de que toda situação social de pobre, de modesto e de humilde procede de um querer celeste e de uma decisão divina. Deus bom, misericordioso, etc., quer a doença dos doentes, a pobreza dos pobres, a tortura dos torturados, a submissão dos empregados. Aos romanos que ele louva ensina muito oportunamente no seio do Império a obediência aos magistrados, aos funcionários, ao imperador. Convida cada um a entregar o que é de seu dever: os impostos e as taxas aos recebedores, o temor ao exército, à polícia, aos dignitários, a honra aos senadores, aos ministros, ao príncipe…
Pois todo poder vem de Deus e procede dele. Desobedecer a um desses homens é rebelar-se contra Deus. Daí o elogio da submissão à ordem e à autoridade. Seduzir os poderosos, legitimar e justificar o despojamento dos miseráveis, louvar as pessoas que detêm o gládio, a Igreja instaura uma parceria com o Estado que lhe permitirá desde sua origem estar sempre do lado dos tiranos, dos ditadores e dos autocratas…
A impotência sexual transfigurada em potência sobre o mundo, a incapacidade de ter acesso às mulheres transformada em motor do ódio ao feminino, o desprezo de si mesmo transformado em amor a seus carrascos, a histeria sublimada em construção de uma neurose social, tudo isso é matéria para um magnífico retrato psiquiátrico! Jesus adquire consistência tornando-se refém de Paulo. Insosso, inexistente quanto às questões de sociedade, de sexualidade, de política, obviamente — um ectoplasma não se encarna em oito dias… —, o nativo de Nazaré se define. A construção do mito faz-se cada vez mais nitidamente.
Paulo quando vivo não leu nenhum evangelho. Ele próprio nunca conheceu Jesus. Marcos escreve o primeiro evangelho nos últimos anos da vida de Paulo ou depois de sua morte. Já na primeira metade do século I de nossa era, o Tarsiota propaga o mito, visita uma multidão de homens, conta essas fábulas a milhares de indivíduos, em dezenas de países: na Ásia Menor dos filósofos pré-socráticos, na Atenas de Platão e Epicuro, na Corinto de Diógenes, na Itália dos epicuristas de Campânia ou dos estoicos de Roma, na Sicília de Empédocles, visita Cirene, cidade em que o hedonismo surge com Aristipo, passa também por Alexandria, cidade de Fílon. Por toda parte ele contamina. Logo a doença de Paulo ganha o corpo inteiro do Império…

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