Nasci e fui criado no seio de uma enorme família católica. Embora aqui e ali alguém enveredasse pelos caminhos assombrados do espiritismo, ou acabasse perdendo a alma em algum terreiro de macumba, ou dez por cento da renda para o Deus pidão dos evangélicos, éramos uma família essencialmente católica. “Não praticantes”, é verdade, mas isso era o de menos. Felizmente, para mim, estavam todos eles tão ocupados em ganhar seu sustento e pagar suas contas sem qualquer ajuda divina, que mal tiveram tempo de estuprar minha frágil mente infantil (como orienta a sagrada cartilha), motivo pelo qual eu acabei desenvolvendo um cérebro perfeitamente sadio, livre das neuroses, culpas, medos e toda sorte de lixo intelectual com o qual pais católicos têm entupido as cabeças de cada nova geração, pelos últimos dois mil anos.
Serei eternamente grato à minha endividada família por essa chance de ter me tornado uma pessoa normal. “Eternamente grato” é força de expressão, claro, pois a eternidade é apenas mais um sonho ridículo inventado para ser a recompensa oferecida por um Deus ridículo, no caso de seguirmos suas vontades ridículas.
Uma coisa que sempre me chamou a atenção, desde que me entendo por gente, era como meus parentes podiam ser completamente tapados acerca da própria religião à qual diziam pertencer, e sobre o próprio Deus que diziam venerar. Quando entrei para o catecismo, achei que a irmã que dava as aulas teria as respostas para todas aquelas perguntas que meus pais, tias e avós não sabiam responder. Mas estava errado. Já muito tempo depois, eu mesmo consegui me explicar essa ignorância toda através da definição que cunhei para designar esse tipo de pessoa: crente de manada. Diferentemente do Crente de Programa (outra expressão cunhada por mim, segundo o Google), o crente de manada não se vende, não troca amor e bajulação por presentinhos e favores celestes, nem se interessa muito em se aprofundar na doutrina que supostamente rege sua vida terrena, de acordo com a qual receberá sua recompensa ou punição numa vida além-túmulo. O crente de manada é apenas um maria-vai-com-as-outras que se junta ao rebanho por conveniência, e segue o fluxo por puro comodismo. Como já escrevi aqui,
“eles vão à missa, fazem suas orações, entram na fila da hóstia, batizam seus filhos, compram suas bíblias… mas não creem…”.
Pois foi graças ao fato de ter sido criado no meio desses crentes de manada que, quando chegou a hora, eu pude contar a boa-nova do meu ateísmo para toda minha família, sem que ninguém se desfizesse em lágrimas, nem ameaçasse me deserdar, nem me condenasse ao fogo do Inferno. Eu fiquei orgulhoso dessa atitude deles, pois é da minha família o único amor do qual eu realmente dependo para ser feliz. Deus pode enfiar o amor que sente por mim bem lá onde você tá pensando.
O meu problema — especificamente envolvendo meu ateísmo, minha família e as pessoas que me cercam — é que eu não deixo ninguém desfiar suas crenças religiosas perto de mim sem ouvir a minha opinião a respeito. E eu não sou exatamente o que você poderia chamar de “uma pessoa fina”. Não só a desonestidade intelectual dos crentes me irrita, mas também, e principalmente, sua teimosia, que eles rebatizaram com o nome de fé. Quando ficam sem saída num debate acalorado, eles só precisam bater o pé e dizer: “Eu tenho fé, e isso me basta”. E como, geralmente, a discussão finda aí, eles acabam com a certeza de que a fé é tudo de que precisam para calar a boca de um ateu.
E é mesmo: não vale a pena continuar uma discussão com uma pessoa que só lê versículos bíblicos sem se incomodar em perceber quão absurdos, ridículos, sem sentido e perniciosos eles podem ser.
Outro dia, um leitor do blog postou nos comentários uma frase encontrada num campo de concentração: “Se existe um Deus, ele terá que implorar pelo meu perdão”. Toquei no assunto do genocídio do povo escolhido com um vizinho que é um crente empreendedor: está dando duro para abrir sua própria boca de culto e ganhar uma grana fácil salvando as almas de uns tantos pobres-diabos, assalariados e analfabetos, que querem entender o que Deus mandou escrever pra eles. O futuro pastor, altamente versado na Palavra, folheou rapidamente sua Bíblia ensebada e recendendo a catinga de sovaco, e me veio com essa:
E odiados de todos sereis por causa do Meu nome; mas aquele que perseverar até o fim será salvo.
(Mateus; 10:22)
— Puta que pariu! — eu exclamei. — Quer dizer que o caralho da nossa vida não passa da porra de uma gincana de merda concebida por um Deus filho da puta?!!
Eu avisei que não sou uma pessoa fina…
‘
Filed under: A minha visão das coisas, Série | Marcado: Crente de Manada, Crente de Programa | 10 Comentários »





























































