As ovelhas (parte 2)

 

Nasci e fui criado no seio de uma enorme família católica. Embora aqui e ali alguém enveredasse pelos caminhos assombrados do espiritismo, ou acabasse perdendo a alma em algum terreiro de macumba, ou dez por cento da renda para o Deus pidão dos evangélicos, éramos uma família essencialmente católica. “Não praticantes”, é verdade, mas isso era o de menos. Felizmente, para mim, estavam todos eles tão ocupados em ganhar seu sustento e pagar suas contas sem qualquer ajuda divina, que mal tiveram tempo de estuprar minha frágil mente infantil (como orienta a sagrada cartilha), motivo pelo qual eu acabei desenvolvendo um cérebro perfeitamente sadio, livre das neuroses, culpas, medos e toda sorte de lixo intelectual com o qual pais católicos têm entupido as cabeças de cada nova geração, pelos últimos dois mil anos.

Serei eternamente grato à minha endividada família por essa chance de ter me tornado uma pessoa normal. “Eternamente grato” é força de expressão, claro, pois a eternidade é apenas mais um sonho ridículo inventado para ser a recompensa oferecida por um Deus ridículo, no caso de seguirmos suas vontades ridículas.

Uma coisa que sempre me chamou a atenção, desde que me entendo por gente, era como meus parentes podiam ser completamente tapados acerca da própria religião à qual diziam pertencer, e sobre o próprio Deus que diziam venerar. Quando entrei para o catecismo, achei que a irmã que dava as aulas teria as respostas para todas aquelas perguntas que meus pais, tias e avós não sabiam responder. Mas estava errado. Já muito tempo depois, eu mesmo consegui me explicar essa ignorância toda através da definição que cunhei para designar esse tipo de pessoa: crente de manada. Diferentemente do Crente de Programa (outra expressão cunhada por mim, segundo o Google), o crente de manada não se vende, não troca amor e bajulação por presentinhos e favores celestes, nem se interessa muito em se aprofundar na doutrina que supostamente rege sua vida terrena, de acordo com a qual receberá sua recompensa ou punição numa vida além-túmulo. O crente de manada é apenas um maria-vai-com-as-outras que se junta ao rebanho por conveniência, e segue o fluxo por puro comodismo. Como já escrevi aqui,

“eles vão à missa, fazem suas orações, entram na fila da hóstia, batizam seus filhos, compram suas bíblias… mas não creem…”.   

Pois foi graças ao fato de ter sido criado no meio desses crentes de manada que, quando chegou a hora, eu pude contar a boa-nova do meu ateísmo para toda minha família, sem que ninguém se desfizesse em lágrimas, nem ameaçasse me deserdar, nem me condenasse ao fogo do Inferno. Eu fiquei orgulhoso dessa atitude deles, pois é da minha família o único amor do qual eu realmente dependo para ser feliz. Deus pode enfiar o amor que sente por mim bem lá onde você tá pensando.

O meu problema — especificamente envolvendo meu ateísmo, minha família e as pessoas que me cercam — é que eu não deixo ninguém desfiar suas crenças religiosas perto de mim sem ouvir a minha opinião a respeito. E eu não sou exatamente o que você poderia chamar de “uma pessoa fina”. Não só a desonestidade intelectual dos crentes me irrita, mas também, e principalmente, sua teimosia, que eles rebatizaram com o nome de fé. Quando ficam sem saída num debate acalorado, eles só precisam bater o pé e dizer: “Eu tenho fé, e isso me basta”. E como, geralmente, a discussão finda aí, eles acabam com a certeza de que a fé é tudo de que precisam para calar a boca de um ateu.

E é mesmo: não vale a pena continuar uma discussão com uma pessoa que só lê versículos bíblicos sem se incomodar em perceber quão absurdos, ridículos, sem sentido e perniciosos eles podem ser.

Outro dia, um leitor do blog postou nos comentários uma frase encontrada num campo de concentração: “Se existe um Deus, ele terá que implorar pelo meu perdão”. Toquei no assunto do genocídio do povo escolhido com um vizinho que é um crente empreendedor: está dando duro para abrir sua própria boca de culto e ganhar uma grana fácil salvando as almas de uns tantos pobres-diabos, assalariados e analfabetos, que querem entender o que Deus mandou escrever pra eles. O futuro pastor, altamente versado na Palavra, folheou rapidamente sua Bíblia ensebada e recendendo a catinga de sovaco, e me veio com essa:

    E odiados de todos sereis por causa do Meu nome; mas aquele que perseverar até o fim será salvo.

(Mateus; 10:22)

  — Puta que pariu! — eu exclamei. — Quer dizer que o caralho da nossa vida não passa da porra de uma gincana de merda concebida por um Deus filho da puta?!!

Eu avisei que não sou uma pessoa fina…


Qual o sentido da vida? (parte 4)

sonho

 

Onde eu estava na manhã do dia 5 de fevereiro de 2012? O que fiz naquela manhã? O que aconteceu comigo ao longo do dia? Com quem conversei? O que eu vi de interessante? Eu não lembro de absolutamente nada. Mas, mesmo que eu tivesse uma recordação de onde estava e do que tivesse feito, isso certamente seria apenas um fragmento de tudo o que aconteceu nesse dia específico, observado como quem assiste a um filme cuja imagem é tão desfocada, tão débil e imprecisa que apenas me daria uma informação bem superficial acerca do pouco que eu houvesse lembrado. E ainda assim, esse filme embaçado se apresentaria para mim de uma forma descontínua, mostrando cenas em momentos diferentes sem nada que as ligasse: um rosto, um movimento, uma frase, um objeto, uma paisagem. Uma memória assim tão tênue, uma visão assim tão friável, uma lembrança revista através dessas frações de momentos desconexos seria completamente indistinta de qualquer sonho ou pensamento que eu pudesse ter. 

Por outro lado, eu poderia ter alguma lembrança muito forte de algo que tenha me acontecido naquele dia e que me marcou profundamente. Uma lembrança tão vívida que faria meu coração bater mais forte, ou meus olhos se encherem de lágrimas, como a daquela manhã na praia em que Jéssica disse que me amava, e a da noite em que me telefonou para dizer que não me amava mais. Ainda assim, eu inevitavelmente seria capaz de perceber que essas recordações teriam a mesma consistência, e se apresentariam tal como as coisas que eu fantasio nos meus delírios mais absurdos, como quando me imagino dando uma entrevista coletiva para emissoras de tevê do mundo todo, acerca do sucesso de um livro que eu jamais escreverei.

Qualquer que fosse o caso, porém, essas memórias seriam apenas o produto de algo que só existe hoje, aqui, agora, e somente em mim: a minha consciência. O que eu vivi há um ano, ou há dez, ou ontem está confinado para sempre dentro do meu cérebro, codificado numa série de impulsos eletroquímicos através de uma rede neural exclusivamente minha, que só eu posso acionar, decodificar e usufruir. Toda a minha vida até o instante anterior a esse, se bem medido e bem pesado, é apenas fruto da minha imaginação. Mesmo que todos os meus dias estivessem registrados em arquivos digitais de imagem e som, tudo o que eu fui e tudo o que eu vivi antes do agora estaria resumido à mesma substância de que são feitos os sonhos.

A minha vida é a minha consciência. E a minha consciência só existe agora. O que ela relembrar do meu passado ou imaginar do meu futuro é apenas uma fantasia. O que nós nos acostumamos a chamar de “minha vida” é a soma da forte lembrança do que acabou de acontecer, da expectativa do que está imediatamente por vir, de todos os nossos anseios para o futuro, e de todas as nossas lembranças do que já vivemos. É isso que nos permite imaginar que temos uma vida que perdura, que se estendeu a partir de uma certa data muito especial até agora, e que seguirá adiante até uma outra que não sabemos qual é, mas que nos espera desde a nossa primeira respiração.

Essa vida que medimos em anos é uma ilusão com a qual nos acostumamos, e da qual dependemos para não sofrermos com essa verdade desconcertantemente óbvia: que nós só existimos um pouco de cada vez, que nossa vida se resume apenas a esse ínfimo e mágico momento que se esconde entre o presente instante e o instante seguinte.   

 

o instante

Qual o sentido da vida? (parte 3)

chuva

 

Onde você estava na manhã de 5 de fevereiro de 1812?

É uma pergunta bem estranha, mas a resposta que você dará a ela pode mudar o modo como compreende sua própria vida. No caso de você achar essa pergunta absurda e fora de propósito, eu fortemente recomendo que não perca mais tempo lendo esse texto, porque ele não tem o poder para convencê-la de nada, nem para obrigá-la a trilhar um caminho que você não quer percorrer. É preciso uma certa confiança, um que de entrega e de abandono, como se você estivesse presa num labirinto gigantesco, e eu estendesse a mão e dissesse: “Vem”. Enquanto você me acompanhar, e enquanto puder resistir à curiosidade de me perguntar se eu realmente sei como encontrar a saída, eu lhe asseguro que você estará caminhando para a liberdade.

Então eu repito a pergunta, e quero que você se esforce ao máximo, que use toda a sua capacidade intelectual e toda a sua vontade, para honestamente tentar me dar uma resposta:

  Onde você estava na manhã de 5 de fevereiro de 1812?

Era uma quarta-feira.

Se você foi honesta, terá respondido algo como “Eu não estava em lugar algum”, ou “Eu ainda não existia”. Mas se por uma fração de segundo vacilou na sua honestidade, é provável que sua fé religiosa tenha serpenteado ardilosamente por entre os seus pensamentos, e contaminado sua conclusão com um aparentemente inofensivo “Eu não sei”. Uma recusa padrão em admitir o óbvio, ao mesmo tempo em que instila em sua lógica o veneno infeccioso que lhe embota a razão, acenando com a probabilidade ridícula de que, talvez, você pudesse mesmo estar em algum lugar.

O irônico daquela pergunta é que ela poderia ser modificada para “Onde você estará na manhã de 5 de fevereiro de 2212?”. Não por ser também uma quarta-feira, você se veria tentada a dar praticamente as mesmas respostas: “Eu não estarei em lugar algum”, ou “Eu já não mais existirei”. Entretanto, nesse novo cenário a sua doutrinação religiosa se movimenta como uma rainha por um palácio. E não mais intimidada a lhe sussurrar coisas por detrás das portas do seu subconsciente, agora ela se impõe e subjuga seu raciocínio, de forma a logo afastar do seu pensamento semelhantes asneiras. Porque foi justamente para isso que ela foi inventada: para lhe dizer onde você passará os seus dias, eternidade adentro, depois que tiver superado esse detalhe inevitável da nossa existência a que chamamos de morte.

Mas toda essa ladainha foi, na verdade, apenas um introito. Isso porque a pergunta com a qual eu deveria ter começado é tão simples quanto terrena, e não teria ela o poder de enlevar o seu “espírito” a ponto de lhe conduzir aos pináculos etéreos de dimensões mágicas indizíveis, sobre as quais a sua religião alega ter conhecimento, além de uma certa jurisdição.

Foi preciso deixar que você fosse invadida por esse sentimento de infinitude, para, só então, fazer a pergunta que irá lhe revelar o verdadeiro sentido da sua existência. É a resposta que você vai dar a ela que vai lhe assombrar por noites a fio, até que você consiga esquecer a pergunta, ou esquecer a resposta, ou mesmo esquecer que qualquer que fosse a resposta, ninguém poderá jamais resgatá-la desse labirinto. E não porque ninguém sabe a saída, mas por causa dessa constatação que nos tem inspirado a inventar tantos deuses e tantos paraísos: não há saída.

A pergunta que realmente vai lhe derrubar das nuvens é essa: “Onde você estava na manhã de 5 de fevereiro de 2012?”

Era um domingo.

 

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Qual o sentido da vida? (parte 2)

o que é isso?

O principal requisito para dar uma resposta certa é ter entendido a pergunta direito. Quando alguém se questiona sobre o sentido da vida, pode ter certeza de que não está falando genericamente. Não se está interessado no sentido da vida em si mesma, o que envolveria, por exemplo, considerações sobre a vida de uma lagartixa. O único sentido que nos importa é o da nossa própria vida, que, aí sim, eu posso generalizar para cada um de nós. E por que esse especismo? Porque, no nosso planeta, pelo menos, apenas o ser humano é capaz de se incomodar com aquela pergunta. 

A outra coisa que eu preciso entender é que se a minha consciência requer uma resposta sobre qual seria o sentido da vida, isso já implica que eu intuitivamente reconheço que a minha vida tem um sentido, embora ainda não o identifique. Tal constatação traz a reboque um outro questionamento: o que é esse tal de “sentido”?

Se eu fosse tomar emprestado a definição das ciências naturais, a resposta àquela pergunta inicial seria extremamente fácil: o sentido da vida seria do nascimento para a morte, assim como o sentido de um carro poderia ser da direita para a esquerda, e o de um corpo em queda livre é de cima para baixo. Mas esse seria um sentido para a vida compartilhado com a lagartixa, o que me obriga a descartar a noção matemática da palavra, por conta daquele especismo com o qual estou comprometido.

Seria preciso, então, recorrer às outras acepções da palavra sentido: significado e explicação. Qual o significado da vida? Eu não sei. Qual a explicação para a vida? Eu não tenho.

Mas eu disse que tinha a resposta para a pergunta Qual o sentido da vida?. Sendo assim, é preciso concluir que o equívoco foi não perceber que a palavra sentido não é o x da questão, e sim a expressão “fazer sentido” que nela está implícita. Aquela pergunta, na verdade, requer um pedido de explicação sobre o porquê de eu ser tão mais “especial” do que uma lagartixa, a ponto de estar me questionando sobre uma coisa dessas que uma lagartixa certamente jamais se questionaria. 

lagartixaEis o “x” da questão.

Esqueça a lagartixa e olhe bem para a imagem que abre esse texto. Eu sei que você sabe o que é, e para que serve, mesmo que nunca tenha usado um desses. Sem dúvida você não sabe “tudo” que se poderia saber acerca dessa peça, mas você certamente sabe o essencial, assim como sabe o essencial sobre uma lagartixa.

Agora imagine que esse engenhoso utensílio viaje no tempo e acabe sendo encontrado por alguém há dez mil anos, numa época em que não se conheciam os metais, nem garrafas de refrigerante, nem rolhas de cortiça. Essa pessoa poderia querer usar esse pequeno artefato de várias formas: como enfeite amarrado ao pescoço, como um cetro de poder, como um objeto de adoração, como um quebra-nozes, como peso para uma rede de pesca. Mas se algum de seus pares viesse lhe perguntar o que seria aquilo, e com qual propósito havia sido “criado”, o feliz possuidor desse curioso artigo poderia passar o resto de sua vida tentando, mas não seria capaz de dar a resposta certa.

Uma pessoa que viveu há dez mil anos, mesmo se tivesse essa ferramenta nas mãos, jamais poderia entender o que para nós é compreensível apenas através de sua imagem. Para nós, “aquilo” faz sentido; para ele, não.

Assim, quando entendemos a pergunta direito, a gente já está pronto para trilhar o caminho que leva à resposta certa. Saber qual o sentido da vida significa saber o que ela é, como foi “criada”, e para que serve.

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O Alquimista ~ fim ~

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O Alquimista é um livro ruim em quase todos os aspectos. O “quase” é por conta do seu indiscutível sucesso de vendas em todo o mundo, em dezenas de línguas. Impossível acreditar que um escritor não quisesse ter um livro seu assim tão mal avaliado, mas com esse mesmo desempenho. E numa coisa é preciso concordar com Ernesto Mandarino, dono da pequena editora Eco, especializada em livros esotéricos, onde Paulo Coelho começou sua carreira: ele transformou o livro em um produto popular de grande consumo no Brasil. Antes do nascimento desse escritor bruxo, ou desse bruxo escritor, o fraquíssimo mercado editorial brasileiro se contentava em fazer tiragens de ridículos três mil exemplares, e considerava um fenômeno o autor que fosse capaz de vendê-los. O Alquimista já vendeu sessenta e cinco milhões de cópias, o quinto livro mais vendido no mundo.

Estamos, então, diante de um paradoxo? Como uma obra tão ruim pôde ter sido tão bem aceita? A resposta, eu suponho, está diretamente vinculada à essência do livro, que eu resumi em três parágrafos. A fábula na qual ele se baseia é bem cativante. E talvez seja essa essência que cada leitor guardou para si, tendo fechado os olhos a tudo o mais que se apontava para desmerecer O Alquimista. Talvez também seja esse o maior motivo da inveja e despeito que se tem contra Paulo Coelho: a melhor coisa que se pode tirar do seu livro de maior sucesso era algo que estava disponível pra todo mundo pegar. Mas do meio de mil e uma outras estórias, só Paulo Coelho percebeu que podia transformar aquele conto de chumbo em várias barras de ouro.

Acontece algo muito semelhante na religião. As pessoas se recusam a considerar tudo de pernicioso, ridículo e equivocado que diz respeito à sua doutrina de fé, tratando apenas de reter aquela ostensiva essência que lhes aponta um lugar para ir após seus caixões serem selados, e seus rostos definitivamente apartados das vistas do sol. Ninguém quer morrer. Ninguém quer abandonar essa tentadora ilusão de que haverá de chegar o momento de encontrar de novo a mãe ou o filho que perdeu. E parece que nós nos consideramos importantes demais, especiais demais para que, um dia, simplesmente deixemos de existir. E é a religião que sempre nos disse que há algo mais por vir.

Não há outro motivo para explicar por que essa ilusão nunca nos abandonou. É porque o desejo de viver para sempre é intrínseco à nossa condição humana.

Você, que agora lê essas linhas: mesmo que não pense muito no assunto, todo o seu ser implora pela imortalidade. E é na essência da sua religião que você se alimenta dessa esperança de ser mesmo tão especial a ponto de ser eterno, e merecedor de viver num lugar melhor, sem sofrimento, sem solidão, sem morte, sem medo, sem dor. Por isso você tapa os ouvidos e fecha os olhos a tudo o mais que se queira dizer e que se queira mostrar para te fazer entender que nada disso em que acredita faz o menor sentido.

Você age como o personagem principal d’O Alquimista, que, ao contrário do que qualquer um poderia ter coragem de fazer, vendeu suas ovelhas e abandonou tudo o mais que tinha, confiando apenas num sonho. Ele enfrentou desertos e guerras, mas devido à sua inabalável vontade acabou achando o tesouro pelo qual procurava. Você também tem um sonho, e acredite ou não, goste ou não, será capaz de rejeitar qualquer coisa que minimamente sugira que você não terá também sua recompensa. O que difere é que o seu tesouro não está do outro lado do deserto, perto das pirâmides do Egito. O seu tesouro está do outro lado da vida. 

O Alquimista ~ 2 ~

o diário de um mago

Antes da publicação de O Diário de um Mago, que foi o que lhe tornou visível ao leitor brasileiro, Paulo Coelho já havia publicado três livros: O Teatro na Educação, Arquivos do Inferno e Manual Prático do Vampirismo. O primeiro relatava sua experiência ministrando cursos de teatro para estudantes e professores de umas poucas cidades do Centro-Oeste, período em que ele usou seus alunos como cobaias involuntárias para seus experimentos de magia negra, enquanto ainda estava ligado à Ordo Templis Orientis, “uma seita de cunho maçônico, místico e mágico”, segundo sua biografia. Arquivos do Inferno era apenas uma coletânea de textos sobre temas dos mais diversos (exceto o Inferno), incluindo um plágio completo que ele fez de um outro autor. Já o Manual Prático do Vampirismo foi escrito a quatro mãos, mas nenhuma delas era de Paulo Coelho, que pagou a um amigo chamado Toninho Buda, que depois viria a se tornar seu escravo, para escrever os cinquenta por cento que lhe cabia na obra.

Nenhum desses livros deu a menor pinta de que Paulo Coelho veria seu sonho de se tornar um escritor famoso algum dia realizado. Decepcionado consigo mesmo, ele resolveu tirar umas férias prolongadas pela Europa, e foi lá, durante visita a um campo de concentração nazista na Alemanha, que lhe apareceu pela primeira vez a misteriosa figura de seu mentor espiritual; aquele que o iniciaria na ordem religiosa secreta chamada RAM, e ao qual ele sempre se referiu apenas como o Mestre.

Foi seu mestre que lhe ditou uma série de tarefas a cumprir, as ordálias, após o que ele se consagraria mago. Dentre essas tarefas, estava aquela que iria mudar sua vida para sempre: ele teria que percorrer a pé o Caminho de Santiago de Compostela, que liga o sul da França ao noroeste da Espanha, tendo como missão encontrar uma espada que seria escondida em algum lugar dos setecentos quilômetros por onde é feita a peregrinação hoje mundialmente famosa.

Paulo Coelho percorreu o Caminho, embora não completamente, achou a espada e sagrou-se mago pela ordem RAM. Algum tempo depois, ele escreveria um livro contando essa aventura que seria intitulado O Diário de um Mago, que só então lhe concederia autorização para se apresentar como  escritor.

Entretanto, foi com o livro seguinte, O Alquimista, que ele finalmente teve atendidas suas orações que, ao longo de sua vida, dirigiu ora para Deus, ora para o Diabo.  

E como esse já vendeu mais de sessenta e cinco milhões de cópias em todo o mundo, acho que não vai fazer diferença se algumas centenas de exemplares não saírem das livrarias por causa desse meu resumo.

  Um pobre pastor de ovelhas passa a noite com seu rebanho numa igreja em ruínas numa cidadezinha da região de Andaluzia, sul da Espanha. Ele tem um sonho no qual lhe é revelada a presença de um grande tesouro enterrado junto às pirâmides do Egito. O pobre pastor decide, então, vender suas ovelhas, deixar tudo o que tem na vida para trás e ir em busca do seu sonho.

Durante sua jornada por terras estranhas, ele conhece vários personagens que lhe servem de inspiração, ou que o ajudam de alguma forma, ou que apenas lhe põem no caminho certo. Quando, enfim, ele chega ao seu destino e já está escavando a areia em busca do seu prêmio, é surpreendido por um homem que quer saber o que ele está fazendo ali, no meio do deserto, cavando um buraco.

Ao contrário do que qualquer um poderia esperar, ele conta a verdade: estava procurando por um tesouro que lhe foi revelado num sonho. O homem ri da sua tremenda estupidez, e até conta que ele mesmo havia sonhado com um tesouro enterrado numa igreja em ruínas na região da Andaluzia. Mas, claro, ele jamais teria sido tão idiota a ponto de largar tudo para ir ver se o sonho seria mesmo verdade. O pastor volta para sua terra natal, vai até a igreja do início do conto, e lá encontra o seu tesouro.

É isso. Uma fábula até bonitinha, eu achei. Se você quiser ver como ela fica horrível, é só ler o livro que transformou Paulo Coelho num dos escritores mais famosos e mais lido do mundo.

 

TRATADO DAS ILUSÕES – Introdução

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Depois que eu morrer, espero que meu corpo seja cremado. Digo “espero” porque meus familiares mais próximos já foram comunicados a respeito, mas, embora haja uma grande probabilidade de eles seguirem essa funérea instrução, eu, obviamente, não poderei fazer nada se decidirem me enterrar, ou coisa pior, como me empalhar.

Mas, se eu não fosse ser cremado, que epitáfio iria querer que as pessoas lessem na minha lápide? 

“Enfim, eu estava mesmo certo!” ?; ou

“Nenhum Inferno, nenhuma virgem… aliás, não tem nada aqui!” ?

Foi, então, que eu me dei conta de duas coisas. A primeira. De quão imbecil é a pessoa que perde tempo de vida tentando bolar uma inscrição para ser posta sobre o seu próprio túmulo. A segunda. Que aquela era a pergunta errada a ser feita. E é a resposta à pergunta certa que vai dar origem a esse Tratado das Ilusões:

Para que serve um epitáfio?

..

 CONTINUAÇÃO:

 Parte 1 – Epitáfios 

 Parte 2 – Os mortos apodrecem

 Parte 3 – O Deus impossível 

 Parte 4 – A perspectiva do engano

 Parte 5  - A fé vista de cima

 Parte 6 – Como não enxergar o óbvio

 Parte 7 – O compromisso de acreditar

 Parte 8 – O Fim 

Deus e o “complexo de Baby”

VOCÊ  TEM  QUE  ME  AMAR!!!

VOCÊ TEM QUE ME AMAR!!!

Se eu acreditasse em Deus, haveria uma pergunta que certamente iria me incomodar muito antes de conciliar o sono, logo após ter feito as minhas orações noturnas… Uma pergunta que, por algum motivo, não incomoda os crentes que eu conheço: “Por que Deus precisa assim tão desesperadamente ser amado?”.

Eu andei pensando nisso ultimamente, enquanto apanho cocô de gato do jardim da minha mãe. É uma pergunta até filosófica, eu acho, e eu tenho filosofado muito esses dias, até porque tem muita merda de gato pra apanhar todo dia de manhã.

A primeira coisa que me ocorreu, como resposta, foi que a necessidade de ser amado talvez seja diretamente proporcional à nossa vaidade. Daí eu considerei esse modelo aí do anúncio.

Pois bem. Eu pensei “Como um cara bonitão desse jeito iria se sentir se nenhuma mulher se interessasse por ele? Se não tivesse nem mesmo nenhum amigo ou amiga? Se ninguém gostasse dele?”. Na certa o cara ia ter que fazer terapia. Entretanto, seria preciso admitir que, se esse modelo fosse um rapaz interessante, inteligente, divertido, educado, afetuoso, não tivesse mal hálito e coisa do tipo…, ele não teria nenhuma dificuldade em fazer amigos(as), muito menos em despertar interesse (sexual/afetivo) no sexo oposto.

Aí desmoronou minha tese. Ora, mesmo que ele fosse extremamente vaidoso (e com motivos para isso), não haveria por que cultivar uma necessidade doentia de despertar interesse nas pessoas, porque tal interesse seria apenas uma consequência de uma realidade inegável: ele é bonito, charmoso, boa-praça, inteligente, engraçado, gentil, etc. Sendo assim, ele já teria há muito se acostumado com o “amor voluntário” que as pessoas demonstrariam ter por ele, nos mais diversos níveis em que o amor pode se apresentar.

Será que eu seria capaz de imaginar que esse modelo da Ralph Lauren só conseguiria ser aceito numa turminha de faculdade se vivesse rastejando em volta das pessoas, pedindo companhia e se humilhando por um pouco de atenção? Será que dá pra imaginar esse cara bajulando as pessoas para obter afeto e as ameaçando com algum tipo de punição caso não fossem capazes disso? Não. Não dá.

Fui, então, meio que obrigado a inverter a lógica da minha proposição inicial: quanto menor a vaidade, quanto mais estilhaçada a autoestima, maior será a necessidade de se sentir amado; maior será o desejo de ser aceito. Seria como um bálsamo para uma ferida purulenta; um alívio para uma dor insuportável; um remédio para uma doença terrível.

Foi então que percebi que Deus teria que ser uma criatura muito, muito doente. Uma divindade com um perigosíssimo distúrbio mental, talvez tratável apenas com medicação pesada. E isso seria suficiente para me fazer perder o sono, todas as noites depois das minhas orações, se eu acreditasse que ele existe.

Como me sentir feliz num universo criado e governado por um ser assim tão carente, cuja primeira lei é a de que as pessoas devem amá-lo acima de tudo? Que deus em sã consciência exigiria ser amado por decreto? Que divindade é essa que dá-se ao trabalho de criar um universo para nele pôr uma raça cujo único propósito seria o de adorá-lo incondicionalmente? Como eu seria capaz de viver em paz num mundo em que seu Criador ameaça expressa e subliminarmente aqueles que não lhe devotem amor? Como eu iria poder dormir à noite, tendo acabado de orar a um tirano cósmico carente de afeto? Um ser todo-poderoso com sérios problemas mentais? Um Deus tarja-preta digno de pena?

 

 

As sacolas de Sofia (parte 1)

“Você acredita, Sofia?”

Ela me olhou nos olhos e esperou. Mas não havia nada mais para acrescentar, e ela demorou quase duas respirações para se convencer disso.

“Em que, especificamente?”, ela perguntou meio que sorrindo.

“Como assim em quê? A pergunta já não é suficientemente clara por si?”.

“Suficientemente clara? Claro que não, se você não me revelar aquilo em que supostamente eu deva ou não acreditar.”

“Isso significa que você não acredita?”

“Não é o que significa.”

“É o que, então?”

“Tudo bem. Vamos tentar de novo. Se você quer saber no que eu acredito, vai ser preciso que especifique exatamente que coisa é essa que é o motivo da sua curiosidade. Só então eu poderei lhe dizer se acredito nela ou não, entendeu?”

“Quer dizer que há coisas nas quais você não acredita?”

“Claro que sim.”

“Então vamos imaginar que você tem duas sacolas. Numa delas eu vou escrever ‘Coisas em que Sofia acredita’, e, na outra, ‘Coisas em que Sofia não acredita’. Assim, depois que eu revelar ‘a coisa’ que é o motivo da minha curiosidade, você irá colocá-la na sacola a que essa coisa pertence, tudo bem?”

“Tá, pode ser. Mas não entendi ainda o que você quer saber afinal.”

“O que eu quero saber, de fato, é o que você acha que eu deveria escrever na… Não, vamos começar logo com isso. Vou revelar algumas das minhas ‘curiosidades’, ok? Deixe-me ver… Já sei: anjos!”

“Anjos… Eu ponho na sacola das coisas em que acredito.”

“Muito bem. Fadas?”

“Na das coisas em que não acredito.”

“Vampiros.”

“Não acredito.”

“Sereias.”

“Não acredito.”

“Deus.”

“Acredito.”

“Bruxas.”

“Não acredito.”

“Fantasmas.”

“Não acredito.”

“Vida após a morte.”

“Acredito.”

“Reencarnação.”

“Não acredito.”

“Paraíso.”

“Acredito.”

“Inferno.”

“Acredito.”

“Maçã.”

“Hein?”

“Você vai colocar maçã na sacola das coisas em que você acredita, ou na sacola das coisas em que você não acredita?”

Sofia olhou pra mim como se não me conhecesse.

“Mas que coisa!”

“A coisa é maçã”, eu repeti só pra fazer graça…

“Sim, eu sei! Não foi exatamente uma pergunta. Eu estou só confusa, porque… Bem, porque eu não colocaria maçã em nenhuma das sacolas.”

“Ora, mas por que não?”

“Porque eu não acredito em maçãs.”

“Então vai colocá-la junto com as coisas em que você não acredita?”

“Você não entendeu. Não posso fazer isso também.”

“Por quê?”

“Eu vou precisar de mais uma sacola aqui, sabe?”

“Eu já desconfiava. E o que eu queria saber desde o começo é exatamente isso: O que você quer que eu escreva nela?”  

Sofia respirou fundo e respondeu:

“Eu não faço a menor ideia.” 

Parte 2   –  Parte 3   -   Parte 4   -   Parte 5   -   Parte final

 

As evidências de Deus (parte 1)

Acho que todo mundo já recebeu uma daquelas apresentações em PowerPoint concebidas como forma de propaganda da fé cristã. Elas têm a clara intenção de te mostrar evidências da existência de Deus, ou transmitir alguma lição de moral cristã, ou mesmo só te mostrar como Deus te ama e quer muito o teu bem. Um parente ou amigo que tenha recebido uma dessas, concordou tanto com o que viu que achou válido encaminhar o e-mail pra todo mundo da sua lista de contatos. E você, se for também um cristão, vai fazer o mesmo. Se as pessoas já não estivessem tão cegamente comprometidas em acreditar naquilo tudo, poderiam perceber a farsa em que estão metidas, justamente analisando esse tipo de material.

Há alguns anos, recebi uma dessas apresentações, repleta de fotos chocantes, que contava uma estória mais ou menos assim:

  Em 2001, um rico empresário americano, de férias em Jerusalém, entra em uma padaria para comprar um lanche. Ele fica desolado ao ver o tamanho da fila para fazer o pedido, mas um judeu, que era o próximo a ser atendido, deixa que ele entre na sua frente. O empresário, então, faz sua compra, agradece a gentileza do nativo e vai embora.

No momento seguinte, a padaria sofre um atentado à bomba e o americano percebe que, se não fosse pelo judeu, ele ainda estaria lá dentro. Com esse pensamento, ele volta correndo ao lugar da explosão para ver o que teria acontecido com o homem que havia lhe cedido o lugar. Ele o encontra; gravemente ferido, mas vivo, sendo amparado por um filho. O empresário precisa voltar aos Estados Unidos, mas deixa seu número de telefone e se compromete a prestar todo auxílio financeiro que for preciso para que o homem que lhe salvou a vida se recupere dos ferimentos.

Meses depois, na manhã do dia 11 de setembro, quando se preparava para ir trabalhar no World Trade Center, o empresário recebe uma ligação do filho do judeu, dizendo que precisava que o pai fosse levado para a América para se submeter a mais uma delicada cirurgia. O empresário garante que entrará em contato com o cônsul americano em Israel, para que seja providenciado o transporte urgente do judeu para os Estados Unidos, e, em virtude disso, decide não ir trabalhar naquela manhã, escapando assim do ataque às Torres Gêmeas.

O slide final tenta empurrar goela abaixo dos menos avisados uma mensagem grotescamente sem sentido:

Viu só como um ato de amor é recompensado por Deus?

Perto de três mil pessoas morreram nos atentados de 11 de setembro. Mas que Deus é esse que só se preocupou em salvar um furador de fila?

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O Evangelho segundo o Criador (Capítulo 3)

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Quando eu disse que quase botei tudo a perder, não estava brincando, não. Por causa daquela nossa conversa, Jesus pulou dos 12 para os 30 e eu não tive tempo de lhe preparar adequadamente para a sua missão suicida. E como a expectativa de vida naquela época era de 30 anos, para os homens (25 para as mulheres), ele precisaria começar seu ministério o quanto antes, para ser sacrificado e glorificado, consumando, então, o meu plano.

Eu não tinha como saber por quanto tempo os fariseus o iriam aturar, mas, mesmo assim, ele corria sempre o risco de pegar uma tuberculose ou uma disenteria, e morrer no anonimato, convertendo-se em mais um dos meus fracassos.

O tempo era contra nós. Tudo teria que ser feito no improviso, e eu sequer podia ir ter com ele de novo, para outra conversa. A solução que encontrei foi abandonar minha divindade e encarnar numa pomba. Dessa forma, o tempo poderia correr normalmente, e eu teria como me comunicar com ele através de pensamentos inspirados diretamente dentro do seu cérebro. O problema foi que Jesus nem sempre estava disponível para receber minhas mensagens, e, quando estava, a conexão era péssima.

Já desconfiando que alguma coisa tinha dado errado, eu inspirei-lhe a ideia de selecionar meia dúzia de ajudantes, que lhe serviriam tanto como apóstolos como guarda-costas. Isso porque ele iria fazer muitos inimigos entre os muitos outros candidatos a Messias da época, que poderiam querer assassiná-lo antes da hora. Foi quando ele me apareceu com o dobro do número de discípulos sugerido que comecei a achar que ele tinha dificuldade em trabalhar com números. A certeza só me veio naquele episódio que ficou conhecido como o milagre da multiplicação dos pães. Quando os discípulos vieram lhe dizer que só tinham 2 peixes e 5 pães para alimentar cinco mil pessoas, ele perguntou: “Quantas vezes eu precisarei multiplicar o número de pães e de peixes para que cada um dos 5 mil tenha um de cada?”Eu estava pousado numa árvore bem ali perto e, ao ouvir essa pergunta, fiquei tão estupefato que relaxei involuntariamente certos músculos do meu corpo de pomba, e fiz cocô na cabeça de uma menininha sentada na sombra abaixo de mim. 

Não foi difícil entender o que tinha acontecido. Com o processo de expansão que o cérebro dele sofreu, comprimindo um desenvolvimento de 18 anos em apenas 26 minutos, a rede neural não se conectou como deveria, e isso resultou em alguns problemas graves, sendo o menor deles essa dificuldade em fazer cálculos. O maior era justamente a deficiência de comunicação comigo. 

Resumindo, eu só podia lhe dar instruções de vez em quando e, mesmo assim, nem sempre ele entendia direito.

Quando lhe levaram Maria Madalena para saber dele se ela deveria ou não ser apedrejada, conforme as regras que eu havia estabelecido, eu gelei dos pés à cabeça, porque não havia tido tempo de lhe dizer que ele deveria instituir uma nova doutrina de amor, e que a antiga lei Mosaica deveria ser completamente revogada. E como ele estava muito distraído, rabiscando na areia uma conta de multiplicar para saber o resultado de 70×7, talvez para usar futuramente em algum discurso, eu tive que me esforçar ao máximo pra ver se a minha mensagem chegava a ele inteligível o bastante:

Diga-lhes que todas as leis antigas foram revogadas, e que aquele que matar seu próximo será condenado! Salve sua amiguinha! Diga a quem aí estiver que incorrerá em pecado aquele que lhe atirar uma pedra!!

E ele: — Aquele que estiver sem pecado, atire a primeira pedra.

E eu: — Puuuuutz!!

Sorte que, no fim, deu tudo certo, e a mulher escapou.

Mas sorte mesmo foi quando vieram lhe tentar os fariseus, perguntando se ele era a favor ou contra os impostos. Quando eu vi os soldados de Herodes por perto, prontos para prendê-lo se ele dissesse que não era lícito pagar o tributo a César, eu pensei: “agora fudeu!“. Soltei meus arrulhos de pomba o mais alto que pude, enquanto esvoaçava a baixa altura sobre a multidão:

Não quero saber disso! Cancele a porra do dízimo! César quer dinheiro! Eu só  quero bajulação!!!

Ele deve ter ouvido alguma coisa, porque, enfim, disse algo inteligente: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.

Depois disso, a comunicação entre nós foi só rareando e rareando… até que perdemos de todo o contato. Ainda hoje me dói lembrar daquela sua queixa na cruz, nos seus instantes finais. Ele tinha mesmo razões de sobra para achar que eu o tinha abandonado. 

Fora isso, ainda havia conseguido lhe dizer, a muito custo, que seria Judas quem o iria trair; e cheguei a lhe dar uns esbregues, quando, no Getsêmani, ele quis abortar a missão. Mas a maior parte do tempo, ele sempre esteve abandonado à própria sorte.

O fato inescapável, entretanto, é que, durante o período mais crucial de sua vida na Terra, vivendo com o trauma de não ser uma pessoa normal e sob o estresse constante de que, a qualquer momento, poderia começar o seu terrível martírio; Jesus, um menino de 12 anos no corpo de um homem de 30, que tinha a difícil missão de transmitir ao mundo uma mensagem divina que sequer lhe havia sido passada a contento, esteve, pois, por sua própria conta, agindo sem script e praticamente sem direção, tomando decisões sozinho e dizendo o que bem lhe vinha à cabeça.

Todo mundo já sabe no que isso tudo resultou. Mas, justiça seja feita: eu não posso assumir sozinho a culpa por toda essa merda.

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O Evangelho segundo o Criador – Capítulo 2

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Eu sou Deus e sei de tudo.

Sei quantas estrelas existem na Via Láctea e quantas galáxias existem no universo; posso dizer, a qualquer instante, a distância entre o Sol e a Terra com precisão de décimos de milímetro; e se alguém me perguntar qual a raiz cúbica de um número de 80 algarismos, eu já posso dar o resultado assim que se pronunciar o último dígito. Mas se você jogar uma moeda pra cima, eu terei 50% de chances de acertar o resultado, como todo mundo. Sou onisciente; não sou adivinho.

Eu tive aquela ideia de enviar um bode para ser sacrificado e livrar a raça humana de toda a sua culpa por não me obedecer, de modo que eu não precisasse exterminá-la de novo, mas como eu não havia previsto a necessidade de tal estratagema, e como deveria fazer o papel do bode, precisei improvisar e decidir algumas coisas meio que às pressas. Afinal, deveria ir eu mesmo sob forma humana, ou deveria ter um filho com uma mortal, como era um procedimento corrente e bem aceito nas mitologias em voga? E se fosse um filho meu, ele deveria ter todos os meus superpoderes? E se ele se rebelasse contra seu pai, como Lúcifer se rebelou, eu não estaria fudido? Se Lúcifer, sendo só um Querubim, já me causa tantos problemas, que dirá um outro igualzinho a mim!!

Muitas dúvidas e muitas variáveis a se levar em conta. Decidi, então, pelo que fosse mais eficaz e menos arriscado, e tudo pareceu, a princípio, ter se ajustado perfeitamente bem. Foi só depois da coisa começada que eu percebi uns furos que comprometeram muito a minha reputação.

Primeiro que, ao contrário dos deuses gregos, eu não seduzi a minha virgem, a mãe do meu filho mortal. Eu a estuprei, e isso pegou malzão. Segundo, porque o meu filho, que era uma versão light de mim mesmo, acabou se tornando mais chegado a vocês do que eu jamais havia sido e jamais poderei ser, o que me causa sempre umas crises terríveis de ciúme. E terceiro: graças a um pequeno deslize da minha parte, eu quase pus tudo a perder, quando fui pessoalmente à Terra conversar com Jesus, em particular, quando ele estava com 12 anos.

— Pai! Que legal que o Senhor tá aqui! O Senhor nem imagina como eu tô feliz!

— Jesus, meu filho… Também é muito bom vir aqui e vê-lo em carne e osso. Mas eu preciso dizer que o motivo que me levou a fazer isso é algo que você está fazendo e que me desagrada e muito!

— Mas o que pode ser, meu Deus? Eu já entendi a minha missão, já aceitei o meu destino… Quer dizer, eu fraquejo às vezes, quando penso na dor que eu vou sentir, mas eu procuro pensar que é algo como a dor do parto, em que uma fêmea sofre muito por um pequeno período de tempo, mas, depois, a dor vai embora e ela só fica colhendo os frutos da maternidade… Mas, fora isso… Eu não vejo o que possa estar fazendo para lhe desagradar…

— Jesus, eu não lhe dei todos os meus poderes justamente pra você não fazer merda aqui embaixo. Mas mesmo com o pouco que lhe permito fazer, acho que você está exagerando.  Veja… Você não pode se comportar como um adolescente normal, mas também não pode ficar por aí transformando seus colegas de rua em galinha, nem voando por cima das casas… Não é assim que você deve usar os seus poderes! Aliás, ainda não está nem na hora! Agindo assim, as coisas não vão sair como eu planejei…

— Ah, eu já entendi… Me desculpe. Não vou fazer mais isso. Prometo.

— Muito bem… E outra coisa… Seus banhos… 

— O que é que tem… meus banhos…?

— Eles estão… muito demorados pro meu gosto. Jesus, meu filho… Você tá passando tempo demais trancado no banheiro. Isso aqui é o deserto, nem água tem lá!  E você é o Filho de Deus, você não pode… Você não deve… Não é pra você… Entende?…

— Ah, sim… Já saquei… Mas é que eu descobri que posso ver através dos tecidos, se eu quiser… 

— E…?

— Eu vejo gente nua… 

— Você…  vai…  fuder com tudo se continuar com isso… 

— Mas eu… mas eu… Maria Madalena… e as outras meninas… todas aquelas roupas… e eu vejo… eu posso ver tudo… nelas… e sempre que penso nisso eu fico assim ó…

— Vire essa coisa pra lá, menino!!! Ora, mas dê-se ao respeito!!!

 Me perdoa, Pai… Por favor, me perdoa… Isso tá acontecendo o tempo todo comigo, mas não é culpa minha… Me (glup!) perdoa… 

— Tudo bem… Não precisa chorar… Veja… Eu vou fazer o seguinte. Vou tirar de você esse poder de ver através das roupas das meninas… e vou modificar um pouquinho isso que você está sentindo, entende?

— Não. Tô entendendo esse papo, não… 

— Você vai perder esse interesse pelas fêmeas humanas… Elas são filhas de Eva; são a perdição do homem, não lembra? Com essa pequena alteração que eu vou fazer, você vai perder esse… esse… isso que você está sentindo e vai passar a tratá-las como seres inferiores, que é o que elas são. Daí que você vai poder se concentrar na sua longa e árdua tarefa, porque há muito o que ensinar a esses ignorantes nessas próximas décadas. Eu sei que você está acumulando funções, afinal, você é, ao mesmo tempo, o mensageiro das novas regras e do ultimato, o bode para o sacrifício, e o meu garoto propaganda dessa campanha de marketing que eu bolei, pra ver se consigo ser bajulado como gostaria.

— Nossa, Pai, não vejo a hora de começar!

— Não se preocupe. Você é um bom menino, e nós temos tempo de sobra para treinar suas falas e o melhor modo de transmitir as novas regras e o ultimato. Você só vai precisar aprender a controlar mais o seu CARALHO!!!

— Porra, que susto!!! Que foi isso?!!

— Que porra é essa? Você tá de barba, bigode e cabelo comprido?

— Caraca! É mesmo! Que parada é essa, Pai? Que é que tá acontecendo?

— Ai, Jesus!!!

— O que foi que eu fiz dessa vez??

— Não foi você… É que um dia para mim é como mil anos aqui na Terra… 

— E daí? 

— Nós estamos conversando há 26 minutos! Faz as contas… 

—  No colégio eu só estudo as Escrituras, a lei e os profetas, Pai. Não sei fazer conta.

— Meu filho… Nesses últimos 26 minutos já se passaram 18 anos!

— Puta que pariu! E agora??!!

— Agora corre pra casa que a tua mãe já deve tá morta de preocupada!

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O Evangelho segundo o Criador – Capítulo 1

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Eu sou Deus.

Meus poderes mágicos são inconcebivelmente ilimitados. E isso significa que eu posso fazer tudo e qualquer coisa. “Tudo” e “qualquer” coisa mes-môôôô!

É querer e estalar os dedos, que meus pensamentos se tornam realidade, a coisa pensada acontece, ou ganha vida, ou surge do nada na minha frente. Na verdade, não preciso nem estalar os dedos. Eu penso e pronto: já foi!

Pois bem. Eu criei vocês, seres humanos, para habitarem este planeta, e ainda construí o universo todo só pra… tipo… Sei lá!, só sei que sem tudo o mais em volta, seria como uma tela de computador sem papel de parede, entende? Você sabe que tem que ter alguma coisa ali, servindo como “pano de fundo”. Ia me dar nos nervos saber que não coloquei nada lá, quando podia ter colocado alguma coisa. Aí, como não dava pra ser uma foto minha num passeio de férias, nem a imagem de um animalzinho fofinho, eu construí as galáxias.

Mas, enfim, deixa eu adiantar um pouquinho, que a conversa é bem outra. 

Depois de uns tantos fracassos, uns arrependimentos, uma descarga global, uns extermínios e uns assassinatos que eu cometi tentando ajustar as coisas pra salvar a minha reputação de Criador perfeito e sabe-tudo, acabei chegando à conclusão de que a minha obra (vocês!) desandou a tal ponto (de novo) que ia precisar mudar mesmo todas as regras que eu já havia estipulado. 

Meu primeiro pensamento foi: “Puta que pariu!, como que eu faço isso?” Aí eu lembrei que sou Deus, onipotente e tal, e tentei me acalmar.

Muito bem. Eu pensei, então: “Qual é o meu problema afinal?” E eu mesmo me respondi, já que ninguém mais no universo é mais inteligente do que eu: “O meu problema é que vocês aí nunca seguem as minhas regras!”. Eu ameaço, eu extermino, eu executo, eu chantageio, mas ninguém me leva a sério! Eu sou a porra do Criador do Universo, caralho!!! Por que vocês não me respeitam?! Porra!

Então… Continuando… Quando eu vi que estava completamente sem moral, mesmo tendo me revelado dizendo quem “Eu Sou”, dado amostras do meu poder, ditado as minhas regras; mesmo tendo sido tão presente na vida de vocês, falando-lhes através dos meus profetas, enviando anjos para destruir cidades, lutando em suas guerras, mandando pragas e tal, eu resolvi que deveria lhes dar um ultimato: quem não reza pela minha cartilha não come do meu pirão! Mas como fazer isso? Como fazer vocês entenderem que as regras haviam mudado, ao mesmo tempo em que deveria lhes deixar por sua própria conta e, ainda, cientes desse ultimato?

Eu devo admitir que a ideia não foi completamente minha. Um anjo aqui em cima, percebendo meu estresse divino por conta dos pecados de vocês, apenas disse algo como: “Pena que eles não tenham um bode, não é, Altíssimo?”.

Isso, claro, fazendo referência a uma brilhante ideia minha, pela qual as pessoas podiam acumular vários pecados e cometer delitos sem conta, mas, se transferissem suas culpas para um bode, eu as perdoaria por tudo de mal que houvessem feito, afinal, ora!, todas as suas faltas, crimes e transgressões haveriam passado para o animal, não é mesmo? As pessoas não seriam mais responsáveis por tudo aquilo, e, então, não haveria por que eu castigá-las.

Foi quando eu tive essa ideia: “Por que não enviar-lhes um bode?”. E aquele mesmo anjo completou: “Senhor, sabe quem daria um bode perfeito?”.

Sim… é  claro que eu sabia.

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Capítulo 2       Capítulo 3.

A Teoria do Barro(s) – última parte

<< 1ª Parte

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Nossa espécie domina o mundo. Evoluímos a um patamar jamais alcançado por nenhum outro ser vivo neste planeta. Não só nos adaptamos ao meio ambiente, como adaptamos o meio ambiente aos nossos propósitos. Dominamos o fogo, sobrevivemos na água, somos senhores da terra, e a espécie mais rápida e mais perigosa que já voou nos céus. Fabricamos nossa própria energia, produzimos nosso próprio alimento. Somos capazes de corrigir nossos defeitos físicos, reparar nossos ossos, substituir nossos órgãos. Subjugamos a gravidade, os vírus e as feras. Somos escravos apenas do tempo. Desvendamos os segredos do átomo, e aprendemos a ler o código da vida. Não temos predadores naturais, e somos virtualmente onipresentes em quase todo o globo. Já não dependemos mais inteiramente do processo evolutivo, e, hoje, somos nós que levamos outras espécies à extinção. Inventamos a civilização, e a civilização inventou o conhecimento. E foi o conhecimento que nos permitiu chegar aonde chegamos. Para o bem, ou para o mal.

Um antigo comercial de tevê dizia que a ciência nos ensinou a voar no céu como pássaros, e a nadar na água como peixes; arrematando que talvez, um dia, ela também nos ensinasse a andar na terra… como homens. Descontada essa pequena gafe, obviamente motivada pela tradição de se adorar um Deus não só machista, mas sexista, eu faço coro a essa esperança.

Mas eu também tenho uma teoria. Acredito que nos tornaremos completamente humanos somente quando — e somente “se” — nós conseguirmos nos libertar desse pesado cordão umbilical que arrastamos, que nos prende desnecessariamente a um passado de sangue e de ignorância, e que nos estorva o caminho para um futuro mais condizente com o nosso nível de inteligência: a religião. 

É a religião que, para continuar a existir e a controlar nossas vidas, exige que nós abdiquemos do uso integral e irrestrito justamente daquilo que nos distanciou dos animais que nos deram origem, e nos deixou próximo de nos tornarmos um tipo de deus que mesmo ela jamais teria sido capaz de inventar.

Religiosos acham que ciência e fé não são incompatíveis, e se esforçam para nos lembrar que vários cientistas acreditavam em Deus, como o próprio Darwin acreditou durante boa parte da vida. Mas isso é só mais uma ilusão, como tantas outras às quais eles têm de recorrer para manterem de pé um sonho tosco, que não só lhes diz que todo o universo foi criado por causa deles, mas que eles são tão especiais a ponto de precisar que sejam eternos.

A busca do conhecimento foi, durante muito tempo, vista pela religião católica como uma doença instilada por Satanás; o fruto proibido que acabou se tornando a nossa maldição. O saber sempre foi tido pela Igreja como uma ameaça ao seu domínio, e no passado era propagandeado como uma blasfêmia contra Deus, de forma que os representantes dele na Terra pudessem punir severamente, em vida, aqueles que já seriam punidos com o Inferno, após a morte.

Não seria, portanto, muito sensato esperar que houvesse um grande número de cientistas não religiosos fazendo parte da nossa história. E mesmo assim, os que eram, de fato, religiosos não levaram Deus em conta nos seus cálculos, nas suas teses, nas suas pesquisas. Por mais que se devesse esperar o contrário, nenhum Criador apareceu nas hipóteses nem nos resultados de nenhum trabalho científico, por mais religioso que fosse o seu autor.

Isso porque ciência é sobre o mundo real. No mundo real não há milagres, nem mágica. E o que mais se aproxima disso é fruto do nosso conhecimento, do nosso trabalho, e, muitas vezes, do amor que nós devotamos à nossa espécie como um todo, sem distinção. Algo que Deus jamais ousou fazer.    

A Teoria do Barro (quinta parte)

<< 1ª Parte


Pesquisas científicas indicam que os hominídeos que deram origem à espécie humana divergiram de um ancestral comum com os chimpanzés há cerca de 5 ou 7 milhões de anos. Nesse tempo, nós evoluímos de um animal irracional primitivo, feio e peludo, para nos tornarmos a coisa mais fofa que existe sobre a Terra.

Alguém poderia desejar saber por que um tubarão, por exemplo, que teve entre 420 e 450 milhões de anos para evoluir, não está por aí lançando satélites e desenvolvendo aplicativos para tabletsEsse raciocínio — o de que quanto mais tempo uma espécie tivesse dentro do processo evolutivo, mais inteligente ela seria — é um raciocínio completamente equivocado. Se um tubarão, nos últimos 450 milhões de anos, não teve nenhum problema para se alimentar nem para se reproduzir, não teve, também, qualquer pressão evolutiva atuando sobre ele. Caso contrário, ou nós estaríamos convivendo com tubarões bem diferentes do que os que estamos acostumados, ou não estaríamos convivendo com tubarão nenhum. 

Adquirir inteligência não está diretamente vinculado ao que realmente importa, do ponto de vista de um gene: estar presente na geração seguinte. E também não é um fator condicionante para a sobrevivência de uma espécie. Ser imune aos efeitos nocivos da radiação solar num ambiente em que isso é uma questão de vida ou morte, sim, é um fator condicionante. E, nesses casos, a seleção natural sempre fez o seu trabalho divinamente bem, desde os primórdios da vida.  

O livro A Mente Seletiva explica o desenvolvimento da nossa inteligência como um atrativo sexual. Assim como a cauda dos pavões e o canto dos pássaros, a inteligência humana foi usada pelos nossos ancestrais para conseguir uma garota para transar. Uma não; várias. E é disso que trata esse texto de seis partes que escrevi baseado no livro: Nada a ver com Deus

Mas só o pavão exibe cauda intrincadamente elaborada, e só os pássaros machos cantam para atrair as fêmeas. Sendo o princípio o mesmo, não seria o caso de se esperar que só o macho da nossa espécie tivesse desenvolvido inteligência? Acontece que, para a fêmea poder julgar a “performance” dos seus pretendentes, teria que ela mesma ter uma inteligência desenvolvida à altura. Isso permitiu que a capacidade intelectual do homem e da mulher se desenvolvesse por espelhamento, o que imprimiu uma velocidade avassaladora ao processo.

E é justamente essa capacidade única e exclusiva da espécie humana que aprisiona os crentes detratores do processo evolutivo num paradoxo desconcertante. Se, por um lado, eles consideram a nossa inteligência complexa demais para ter surgido sozinha; por outro, eles abdicam do uso dessa mesma inteligência para poder continuar vivendo sua fantasia antiga de ser a razão de tudo o mais existir. A coisa mais fofa do Universo.


A Teoria do Barro (quarta parte)

<< 1ª Parte

Então: lá está você no meio de uma floresta numa noite sem lua, e ouve (mais do que vê) um tigre se aproximando. O que você acha que faria para escapar da morte? Antes de responder, pense um minuto ou dois, afinal, você é a criatura maaaaais inteligente que existe sobre a Terra.

Você tentaria fugir correndo?, subiria no topo de uma árvore?, tentaria se enfiar em algum canto onde o tigre não pudesse entrar? Se sua resposta tendeu para esse lado, eu preciso dizer que as chances de você sobreviver seriam mínimas, porque um tigre quase sempre só é percebido pela presa quando já está correndo para atacá-la, e você, querido leitor, querida leitora, não conseguiria ser mais rápido, apesar de ser bem mais inteligente do que ele.

Se sua resposta foi que tentaria enfrentar o tigre, ou que se ajoelharia e rezaria para que Deus lhe salvasse (lembrando, certamente, do Daniel na cova dos leões), significaria que você teria abdicado das suas chances mínimas de não ser devorado, em prol do questionável prazer de servir de alimento a um animal tão majestoso.

Considerando-se a situação proposta, dá para perceber que o fato de ser a criatura mais inteligente que existe no planeta não teria tido muita serventia, visto que você teria pensado em fazer justamente o que teria feito um macaco, ou um pavão, para salvar a própria vida. Claro que eu iria te considerar menos inteligente do que qualquer um desses dois se você me dissesse que tentaria enfrentar o tigre, ou rezar a Deus. Mas nós dois sabemos que isso jamais passaria pela sua cabeça, não é? Provavelmente você chamaria pelo nome de Deus, bem alto e repetidas vezes durante os cinco segundos que teria de corrida à frente do bicho, mas isso seria apenas o que se conhece pelo nome de “resposta condicionada”, que é uma coisa que um bom treinador consegue de praticamente qualquer animal. E você, que também é um “animal”, foi treinado durante boa parte da sua vida a agir exatamente assim, quando, num susto, fosse confrontado com uma ameaça de morte. Nada a ver com fé, portanto.

Quando o assunto é Teoria da Evolução, o equívoco mais comum do leigo é achar que o “objetivo” do processo evolutivo é tornar os seres inteligentes. Ou, em outras palavras, que “inteligência” seria a melhor coisa que um animal poderia ter.

Ora, mas quando tudo se resume a sobreviver e procriar durante uma vida inteira num certo meio ambiente, inteligência apenas não se torna assim tão vantajoso. Ou você teria pensado em fazer algo inteligente para escapar de um tigre que um macaco jamais faria.

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A Teoria do Barro (terceira parte)

<< 1ª Parte

A Origem das Espécies — por meio da seleção natural é o cérebro e a espinha dorsal da Teoria da Evolução. Muita gente acha que o livro (ou a Teoria) pretende explicar a origem da vida na Terra, mas esse é um pensamento equivocado. Simplificando as coisas, os trabalhos de Darwin pretendiam explicar a diversidade biológica no nosso planeta. Embora ainda fosse religioso, pela época em que começou suas pesquisas — e concordasse com o argumento de William Paley, segundo o qual a perfeição da natureza era uma prova cabal da existência de Deus — , Darwin não acreditava no relato da Criação. Como Deus, aparentemente, não quis deixar registrado esse assunto na Bíblia, ele achou que não seria pecado tentar se informar por sua própria conta.

A proposição que chocou o mundo científico e o religioso em 1859 foi, resumidamente, essa: as várias espécies que povoam a Terra se originaram de uma espécie anterior comum. Em outras palavras, nenhum animal (nós inclusos) foi “criado” pronto. Ou eu muito me engano, ou um livro bem mais famoso do que o dele dizia justamente o contrário…

Muito bem. Além do fato de querer pôr em dúvida um texto sagrado, por que os religiosos, até os dias de hoje, contestam tanto o Evolucionismo? O motivo mais óbvio é porque essa explicação invalidaria o Criacionismo, que é como eles “creem” que tudo aconteceu. Mas eu enxergo mais alguns outros motivos.

A Teoria da Evolução precisou “ajustar” as conclusões de Darwin à genética, ciência que só veio a nascer com a publicação dos estudos de Gregor Mendel sobre hereditariedade, em 1865, seis anos depois da publicação d‘A Origem das Espécies. Para os religiosos, o fato de os cientistas refazerem suas proposições baseados em novos conhecimentos e novas evidências é, perdoem-me a palavra, uma heresia. Acostumados que estão a dogmas imutáveis que regem um mundo de faz de conta, eles acham que a ciência, que tenta entender o mundo real, deveria seguir a mesma cartilha.  

A Teoria da Evolução apresenta algumas falhas, lacunas, contradições internas pontuais; perguntas que não puderam ainda ser respondidas, e respostas que não respondem a tudo que se esperava. Mas você pode não querer comprar um carro porque ele tem arranhões na pintura, uma batida esquisita na caixa de direção e tá vazando óleo. Mas ele continuará sendo um carro.

A meu ver, entretanto, os principais motivos que fazem os religiosos rejeitarem o processo evolutivo são a sua ignorância sobre o tema, quando são, de fato, ignorantes; e a sua desonestidade intelectual, quando conhecem o assunto a fundo.

A questão mais comum que me propõem é um bom exemplo desses dois últimos motivos combinados: “Por que não há outros animais tão inteligentes quanto nós humanos?”. Eu vou deixar aqui a resposta que costumo dar, mas em duas partes. A primeira é a que segue.

Imagine-se despido de toda sua civilidade, de suas roupas, de seus calçados, de suas ferramentas, de seus utensílios, de suas armas, etc. Imagine-se, assim, pelado, descalço e sozinho, numa noite sem lua numa floresta da Ásia, e tente descobrir como ser tão inteligente iria impedir que você fosse o jantar de um tigre    

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A Teoria do Barro (segunda parte)

<< 1ª Parte

Mutações genéticas não precisam estar obrigatoriamente vinculadas à extinção de uma espécie (ou parte dela), como descrevi no meu texto anterior. O que eu quis ressaltar foi o conceito de “seleção natural”. No meu exemplo extremo, os humanos que sobreviveram foram aqueles que tinham mais resistência aos efeitos danosos das radiações solares: uma parcela ínfima da população, composta pelos descendentes de uma tribo do Saara onde se espalhou uma mutação genética. Aqueles que não estavam perfeitamente adaptados às novas condições foram sendo gradativamente “exterminados”. Isso dá a ilusão de que o próprio meio ambiente está “selecionando” quem é melhor adaptado para viver nele. É esse processo que se denomina seleção natural.   

O exemplo que dei também serve para ilustrar o que se resolveu chamar de “sobrevivência do mais adaptado” (ou do “mais apto”). É, mais ou menos, como a “lei do mais forte”, em que o conceito de “força” deve ser substituído por “adaptação ao meio ambiente”. Na minha estória, os membros da tribo do Saara estavam mais adaptados ao meio do que o resto da humanidade, e por isso não foram extintos. Argumenta-se que essa ideia de “sobrevivência do mais adaptado” não esteja completamente correta, porque mutações genéticas podem trazer vantagens não relacionadas exclusivamente à sobrevivência, mas à reprodução.  

A ilustração clássica é a do pavão, que vi pela primeira vez no livro A Mente Seletiva. Acompanhe o raciocínio. Um pavão nas florestas asiáticas teria muito mais chances de ter uma vida longa se pudesse mais facilmente escapar do seu predador: o tigre. Quanto mais vivesse, mais tempo teria para acasalar e gerar descendentes. Uma cauda curta permitiria que o pavão fugisse do tigre mais eficientemente. Logo, os pavões mais adaptados ao meio deveriam ter caudas curtas. Se houve, no passado, pavões com caudas enormes, vistosas e pesadas, certamente tiveram menos condição de escapar dos tigres; viveram menos; geraram cada vez menos descendentes, e acabaram sendo extintos.

Mas a realidade é bem outra. Os pavões têm cauda longa, vistosa e pesada, que demanda uma quantidade enorme de energia para desenvolver e para manter, e que ainda é um estorvo durante uma fuga de um tigre faminto. E eles não foram extintos. Por quê? Porque embora possivelmente vivendo menos tempo do que pavões que tinham caudas curtas, os pavões com caudas grandes e bonitas conquistavam mais fêmeas, acasalavam com mais frequência, e geravam mais descendentes. Esses descendentes, por sua vez, herdavam dos pais a cauda longa, se machos; ou a preferência por acasalar com pavões de caudas longas, se fêmeas. Isso corresponde exatamente à mutação genética sendo passada adiante. Daí que os pavões de caudas mais curtas podiam até viver mais, só que, em compensação, tiveram menos parceiras sexuais ao longo da vida, deixaram cada vez menos descendentes e, com o passar do tempo, acabaram extintos. Esse é o princípio da “seleção sexual”, pelo qual vantagens reprodutivas são tão importantes para uma espécie quanto as vantagens adaptativas.

Agora que estamos por dentro dos conceitos básicos, já dá para entender o que se pode esperar de um livro cujo título é A Origem das Espécies — por meio da seleção natural, e por que os religiosos têm tanta birra dele.     

 

A Teoria do Barro (primeira parte)

Não aparece na capa, mas há um subtítulo para esse livro: “por meio da seleção natural”. Eu menciono isso para poder explicar, de uma forma bastante superficial, o que é mutação, o que é seleção natural, e o que quer dizer, de fato, o título da obra que foi o “Gênesis” de uma das mais brilhantes teorias científicas do nosso tempo: A Origem das Espécies, de Charles Darwin.

Chama-se de “mutação” a mudança nas características genéticas de um indivíduo que pode ser repassada aos seus descendentes. “Seleção natural” é o resultado da interação entre os indivíduos que sofreram aquela mudança e o meio ambiente ao qual pertencem.

Tome o seguinte exemplo, irresponsavelmente concebido por mim mesmo. Digamos que, há muito, muito tempo, um indivíduo de uma tribo do deserto do Saara tenha sofrido uma alteração genética que lhe tornou praticamente imune aos danos causados pelos raios do Sol. Esse indivíduo teve filhos, e eles herdaram aquela “mutação”, bem como os filhos dos seus filhos, e assim por diante, de forma que, com o passar do tempo, quase todos os membros da tribo tinham incorporado aquela mutação aos seus próprios genes.

Lado a lado comigo ou com você, qualquer pessoa daquela tribo em particular não teria, hoje, nada de diferente de nós, além das muitas características que distinguem, por exemplo, um japonês de um indiano, um esquimó de um pescador de lagostas no litoral do Nordeste, ou um carioca de outro carioca. A mutação genética sofrida, portanto, não teria feito nem bem nem mal.

Agora imagine que, nos séculos por vir, além da diminuição da proteção atmosférica da Terra, o Sol passasse a disparar uma quantidade mais intensa de raios nocivos ao ser humano. O que poderia acontecer?

Ora, à medida que as gerações se sucedessem, mais e mais pessoas morreriam vítimas dos mais variados tipos de câncer; mais e mais pessoas teriam descendentes com mutações genéticas terríveis que lhes impossibilitariam a sobrevivência; e mais e mais pessoas morreriam cada vez mais cedo na vida, até mesmo antes de terem seus próprios filhos.

Em alguns milênios, se tanto, o nosso planeta não teria mais, em nenhum lugar, seres humanos iguais a mim e a você, com a nossa mesma “carga genética”. Por infelicidade, no caso, nossos corpos não poderiam contar com uma resistência extraordinária aos raios do Sol, exibida apenas por umas poucas centenas de indivíduos de uma certa tribo do Saara. Esses sortudos, mesmo sem precisar se dar conta disso, teriam sido favorecidos por uma mutação genética que, embora aleatória, possibilitou que eles adquirissem a condição necessária para sobreviver no ambiente em que se encontravam, e, mais importante ainda, passar essa característica para as gerações futuras.

Os que não tinham a mesma condição, como eu, você e os seus descendentes, teriam sido extintos.   

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O imbecilionismo (fim)

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Como eu já esperava, ninguém escreveu nada para refutar as argumentações que fiz acerca das supostas “evidências” sobre a veracidade da Bíblia, aparentemente o fim a que se destina o programa do qual retirei o vídeo que abriu essa série de textos. Isso deveria me causar estranheza, mas não causou. Sendo ateu, sei que os argumentos imbecis usados pelo teólogo apresentador do programa são insustentáveis, do mesmo jeito que sei que nenhum cristão que se preze daria o braço a torcer para admitir isso.

A religião é a consumação de uma fraude aliada ao desejo de ser enganado por ela. A fé em Deus se sustenta na capacidade inconscientemente adquirida de uso do intelecto em prol da validação de uma fantasia, de forma que a vontade de manter vivo o sonho é tanta que o crente se vê obrigado a ignorar os fatos que deveriam despertá-lo.

Se alguém sempre tivesse usado um par de óculos com lentes vermelhas, sem mesmo nunca ter se dado conta dos óculos em si, certamente iria acreditar que tudo tinha a mesma cor vermelha. Mas se você pudesse tirar os óculos dessa pessoa, na primeira vez em que contemplasse o mundo sem eles, ela precisaria resolver o seguinte enigma: “Eu estava vendo as coisas distorcidas antes… ou agora?”.    

A resposta só se torna evidente quando você toma consciência dos óculos. E é justamente nisso em que atua a religião: desviando deles a atenção do crente. Ou ainda, embora seja menos comum, tentando convencer o crente de que a visão distorcida é a que eu tenho, por exemplo.

A ideia de um ser supremo, que pode fazer tudo e qualquer coisa, e que precisa do seu amor é, sim, uma ideia ridiculamente imbecil. E só mesmo argumentos imbecis para tentar sustentá-la. O mais chocante nisso tudo é que o crente é capaz não só de desculpar a imbecilidade da ideia em si, mas a imbecilidade por trás de todos os argumentos aos quais ele e os outros sonâmbulos, companheiros de sonho, recorrem para poder continuar se negando a viver no mundo real. Um mundo sem dimensões mágicas, sem livros sagrados e sem seres supremos que precisam desesperadamente do nosso amor.


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O imbecilionismo (parte 5)

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Se você assistiu ao vídeo inicial, e se vem acompanhando meus textos até aqui, viu como demonstrei que o teólogo apresentador do programa Evidências recorre a uma mágica argumentativa muito comum no imbecilionismo. Funciona basicamente assim: ele usa dados e faz considerações referentes a todas as religiões e a todos os deuses nos quais as pessoas acreditam, para, logo em seguida, usar a força desses dados e o resultado dessas considerações direcionados para a sua própria religião e para o seu próprio Deus, ignorando acintosamente que aqueles dados e considerações que ele precisou angariar, para dar consistência à sua tese, não se referiam exclusivamente à sua divindade específica. Isso se repete explicitamente ao longo de todo o programa.

Aliado a isso, um apelo subliminar para que você, se não crente, passe então a considerar os fenômenos psicossomáticos do efeito placebo como sendo obra e graça do Espírito Santo, como se esses “milagres” não ocorressem em fiéis de outros deuses, e até mesmo em quem não se curva a deus algum.

Para concluir, uma última transcrição da fala do teólogo:

   Mas eu nunca vi título de PhD sendo dado a alguém porque admite a existência de Papai Noel. Mas muitas pessoas que acreditam na historicidade do Gênesis têm os seus títulos conferidos por respeitadas universidades ao redor do mundo.” (20’38″)

Deus e Papai Noel. Para colocar esses dois seres míticos em contraposição, como se um deles fosse real e o outro imaginário, é preciso ser desonesto até com a própria lógica.

O teólogo quer sugerir que Deus é real porque, se não fosse, crentes em Deus não obteriam títulos de PhD de universidades renomadas, assim como nunca se soube de um crente em Papai Noel recebendo tal título. Ora, se as universidades não dão título de PhD a quem crê num mito como o Papai Noel, é de se esperar que façam o mesmo para todos os outros mitos. Logo, Deus não pode ser um mito.

Mas acontece que as “muitas pessoas que acreditam na historicidade do Gênesis” também não obtiveram seus títulos de PhD porque admitem a existência de Deus, que foi a mesma estrutura que ele usou quando se referiu ao Papai Noel, na primeira sentença. Os doutores da ciência, embora certamente muitos deles sejam cristãos, receberam seus títulos por suas descobertas e teses que tratam do mundo real, onde não há espaço para ilusões e fé; onde Deus não existe. O fato deles acreditarem no Deus cristão teve tanto peso para que recebessem seus títulos quanto o fato de muitos serem vegetarianos ou jogadores de xadrez.

Esse artifício chama-se sofisma, e é outra dentre as muitas ferramentas do imbecilionismo. Já tratei dele no meu texto Deus é negro, cego, e toca piano, mas não custa nada repetir a definição aqui, pois ela tem tudo a ver com o processo pelo qual os crentes tentam se convencer, e convencer os outros, de que o Deus que eles criaram dentro de suas cabeças faz parte do mundo que existe fora dela.

Sofisma — argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade, que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta, na realidade, uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa. 


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O imbecilionismo (parte 4)

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Até agora não apareceu ninguém para mostrar como estou equivocado nas minhas considerações sobre o discurso do teólogo Rodrigo Silva, na parte 1 dessa série de textos. Mas tenho esperança de que ainda venha alguém me desmascarar, me desmoralizar, mostrando como meu raciocínio é falho, e que Deus é mesmo essa Coca-Cola toda.

O item daquele vídeo a ser rebatido hoje, a argumentação a ser despachada para o quinto dos infernos é a eterna lenga-lenga dos milagres.

Milagres, vírgula, porque não dá para usar plural nesse caso, uma vez que o mesmo Deus que fazia e acontecia no Antigo Testamento, teve sua performance muito diminuída no Novo — em que Jesus Cristo se prestou a exibir apenas algumas mágicas de circo — , e, agora, parece só milagrear no terreno das doenças físicas, porque eu mesmo nunca vi nenhum pastor evangélico dentro de um manicômio curando doentes mentais.

Antes, porém, só um pequeno preâmbulo: no vídeo, por volta dos 08:20, o apresentador do programa Evidências cita o sociólogo Rodney Stard mencionando uma previsão iluminista do fim da religião. Ele rebate que, ao contrário do que esses intelectuais — certamente ateus — achavam, a religião tem “triunfalmente sobrevivido”. Aqui ele usa novamente a mágica argumentativa indispensável do imbecilionismo, já citada no texto anterior. Do mesmo modo que, em um momento, ele argumentou que 95-97% da população mundial acreditava “em algum tipo de divindade”, e, logo depois, quis dar a entender que esse percentual se referia aos que acreditavam em Deus, novamente ele fala de “religião” como sendo a religião cristã apenas. Será que só a religião cristã sobreviveu triunfalmente às previsões iluministas? Será que dá para mencionar que o hinduísmo, por exemplo, uma religião muito mais antiga, com sua infinidade de deuses, também triunfou?

A religião em si, independente dos deuses a que se refira, tem, sim, algo muito tentador para se enraizar na vida pessoal e social da nossa espécie. Como todos os vícios, a dependência gera uma força maior para prender, do que a da razão para libertar. Os iluministas certamente não levaram isso em conta na sua previsão.

Mas prossigamos.

Por volta dos 09:50, o teólogo menciona um estudo de Harvard que concluiu que “a meditação e a fé em Deus melhoram a saúde. Até doenças crônicas de tratamentos químicos fortes como os de câncer podem ter seus efeitos aliviados pelo exercício da fé e da meditação em Deus”

Logo depois ele pergunta (10:20): “Estaria o professor de Harvad falando uma besteira?”. E eu respondo: sim, o professor de Harvard falou uma besteira. Primeiro que ele não está dizendo nada com “podem ter seus efeitos aliviados”. Seria o mesmo que um obstetra olhar para sua paciente e afirmar: “A senhora pode estar grávida”. Segundo: baseado em que ele afirmou que só a crença em Deus tem esses efeitos? Será que os crentes hindus não obtêm a mesma coisa dos seus deuses, assim como os católicos conseguem os mesmos favores dos seus santos? Há muito tempo a medicina já reconhece o chamado efeito placebo como a causa desses milagres. A crença em que algo vai te fazer bem pode te trazer resultados benéficos reais, mesmo que esse algo seja apenas uma pílula de farinha, um deus, ou um santo. Assim como também essa crença pode não ajudar em nada, como divulguei no texto O falso poder da oração. Ou seja, às vezes funciona, às vezes não, do mesmo modo que seria se Deus não existisse.  

Mais à frente, (10:48) o apresentador trata de outra pesquisa em que se constatou que “a frequência religiosa a cultos numa igreja, ainda que seja mensal, reduz em mais de 50% as chances de uma pessoa adquirir doenças do coração, enfisema, cirrose, depressão, tentativa de suicídio, e até alguns tipos de câncer”.

Sobre isso, também já divulguei um texto muito interessante aqui no blog, intitulado Eis o mistério da fé, que vale a pena ser lido: explica por que os iluministas erraram no seu prognóstico do fim da religião. Mas eu queria, antes de terminar por hoje, chamar a atenção para duas questões, relacionadas à última declaração acima.

Perceba que a pesquisa concluiu que aquele percentual de imunidade milagrosa se dá quando o culto é realizado numa igreja, numa clara referência à fé cristã. A intenção aqui é disseminar uma ideia ardilosa: a de que tais fenômenos não ocorrem numa sinagoga, numa mesquita, num templo qualquer de adoradores de outro deus. 

Outra coisa que quase me fez rir: como se faz o cálculo para descobrir que houve uma redução de mais de 50% nas chances de uma pessoa tentar o suicídio? 

Pense a respeito e você vai ter uma noção mais clara de como se processa o imbecilionismo. 

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O imbecilionismo (parte 3)

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O teólogo e arqueólogo Rodrigo Silva inicia sua apresentação com o mote do programa Evidências — (00:35) “sempre em busca de fatos que comprovem a veracidade histórica da Bíblia sagrada” — , e logo depois informa o tema do dia: “Pessoas inteligentes acreditam em Deus?”.

Logo de cara, já é possível perceber que alguma coisa não está encaixando. Senão vejamos. Eu mesmo posso responder a pergunta-tema do programa: sim, pessoas inteligentes acreditam em Deus. Se eu homologo essa resposta e faço dela um “fato”, isso me dá muito bem o direito de perguntar: esse fato comprova a veracidade histórica da Bíblia sagrada? De jeito nenhum. Esse fato só comprova que pessoas inteligentes, assim como as pessoas burras, podem acreditar no que bem entenderem.

Isso nos leva a duas conclusões. A primeira: que esse episódio foi completamente inútil para o propósito do programa. A segunda: que uma vez que o propósito do programa não poderia ser atendido, era preciso arranjar um propósito substituto para ocupar a vaga. E esse propósito foi o de disseminar uma mensagem muito clara e útil para os propósitos da igreja do apresentador:

  apesar de tudo, apesar de parecer uma tremenda idiotice, acredite em Deus, pois muitas pessoas bem mais inteligentes do que você acreditam.”

Mas eu prefiro deixar essas sutilezas de raciocínio para você leitor, leitora, analisarem sozinhos, e considerarem se eu tenho razão, ou se estou só de birra com o povo de Deus, quando digo que eles são exímios fabricantes e vorazes consumidores de ilusões.

Agora vamos tratar de coisas mais evidentes. A partir dos 00:45, por mais de dois minutos o apresentador passa a fornecer uma classificação bem interessante da humanidade: há os que acreditam em Deus e todo o resto, divididos em ateus, agnósticos, ateus práticos e neoateus. Sempre considerando o Deus cristão. Identificou a artimanha? Não? O teólogo, desesperado para fundamentar sua tese, desconsidera um dado muito importante sobre a nossa civilização que não deveria ser desconsiderado, se ele fosse (ou pudesse ser) honesto o suficiente no seu raciocínio.

As pessoas creem em vários deuses diferentes. O Deus cristão, o Deus judaico, o Deus islâmico e Jesus Cristo são só algumas das versões de uma mesma divindade; mas há ainda outras tantas que sequer entraram no cômputo do senhor Rodrigo Silva. Isso porque se todas as divindades nas quais as pessoas acreditam fossem levadas em conta, ele precisaria admitir que “pessoas inteligentes também acreditam em outros deuses”, e aí, meus queridos, até o propósito substituto teria ido pras cucuias.

Mas, então, lá pelos 05:50, o apresentador argumenta que pessoas que creem em divindades não podem ser consideradas estúpidas, porque assim você estaria chamando de estúpida uma fatia de 95-97% da população mundial. Duas coisas sobre isso. Uma, se isso valesse como argumento, eu deveria supor que quando 100% das pessoas achava que a Terra era plana, ela era plana. Mas as coisas não funcionam dessa forma, e a verdade não dá a mínima para percentuais. E duas: naquela fatia de 95-97% tem uma infinidade de seres humanos que também não acreditam em Deus, e não são ateus.

Ou seja, o mesmo teólogo que desconsiderou um fato tão evidente acerca da nossa espécie — o de que as pessoas acreditam em vários deuses — , quando isso era necessário para sustentar seu argumento, regozija-se ao comentar que entre 95-97% dos seres humanos creem em ALGUM TIPO DE DIVINDADE. Os mesmos tipos de divindades que ele não pôde mencionar no começo do vídeo, porque essa menção iria estragar o seu ar gabola, e atrapalhar completamente a fraude que ele estava querendo divulgar. 

Esse tipo de mágica argumentativa é uma ferramenta indispensável do imbecilionismo.

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O imbecilionismo (parte 2)

Rodrigo Silva é doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. Assunção (SP).

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Imbecilionismo foi a palavra que inventei para definir o processo de se defender uma ideia imbecil usando argumentos imbecis. O termo é formado pela fusão de duas palavras bem conhecidas — imbecil e ilusionismo — , mas de forma alguma se refere, por exemplo, a quem seja vítima de um truque de circo. No imbecilionismo, você é o mágico e a plateia ao mesmo tempo. É aí que entra o “imbecil” na história.

Toda a fé cristã se baseia numa ideia fundamental que é uma tolice constrangedora: um ser perfeito, todo- poderoso, eterno, etc. que, ao que tudo indica, ficou entediado de sua existência monótona e resolveu nos criar, a nós e ao universo, de forma que tivesse alguma coisa pra fazer. Como essa bobagem infantiloide não encontra o mínimo respaldo no mundo real, fora das páginas do livro de fábulas através do qual ela se popularizou, o crente se vê forçado a recorrer constantemente ao imbecilionismo, para que a vida e as coisas não estraguem a sua fantasia, e o obriguem a viver num universo onde ele está, como todo mundo, por sua própria conta e risco.

Nada de padrinhos mágicos!

Para muita gente essa constatação seria um fardo insuportável; algo terrível demais para ser verdade. Portanto, o Deus deles, e não o dos outros, precisa existir. E se esse Deus existe, é óbvio que deve haver por aí um sem-número de coisas que alguém poderia usar para comprovar sua existência.

O problema é que não há. Então é preciso fazer o que o senhor Rodrigo Silva faz. É ele que apresenta um programa na TV Novo Tempo, cujo objetivo é sustentar com “evidências” os relatos bíblicos e, por tabela, a fé que as pessoas têm de que a Bíblia seja mesmo o que acham que ela é.

Para sustentar sua crença, o cristão se obriga a fazer mágica com as informações disponíveis, prestidigitação semântica com os textos do seu livro sagrado, e malabarismos com a realidade à sua volta, até se convencer de que aquela ideia inicial, aquela tolice constrangedora, é mesmo verdade.

Vou analisar os argumentos usados no vídeo do senhor Rodrigo Silva, para que você possa fixar bem a definição de imbecilionismo. Fica o convite para os crentes de plantão acompanharem os próximos textos e me desmoralizarem, apontando os inúmeros erros que certamente eu irei cometer, afinal, eu estou me propondo a refutar os argumentos de um doutor em teologia bíblica, cuja intenção é provar que nós somos mesmo o passatempo de Deus. 

O imbecilionismo (parte 1)

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O artifício

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No texto Feto ateu, feto cristão, você leu uma estorinha bem interessante, daquelas bem fofinhas, bem cuti-cuti-cuti mesmo, que os religiosos adoram contar, na qual são feitas as seguintes comparações:

1. o útero materno é, para os fetos, o que o universo é para nós;

2. o parto é, para os fetos, o que a morte é para nós;

3. a nossa vida atual é, para os fetos, o que será o Paraíso para nós, na eterna e agradável companhia de Deus e do Nosso Senhor Jesus Cristo, que a Paz esteja sobre ele (ups! religião errada).

Pois muito bem. Eu propus, naquele texto, que os leitores identificassem a desonestidade intelectual da qual o crente faz uso para achar que esse tipo de tolice pode ser usada para fazer gente como eu entender — isso mesmo, irmãos e irmãs em Cristo — “entender” por que a vida mágica num mundo mágico governado por um ser mágico é assim tão difícil de aceitar como sendo o nosso destino certo.

Na estorinha cuti-cuti-cuti, dois fetos conversam sobre… Ôpa! Para tudo!

Tá. Pra continuar, você, por favor, atenha-se apenas ao argumento principal, ok? Desconsidere tudo o mais, tá bom? Tem problema pra você? Tudo bem? Certo? Beleza, então.

Assim, digamos… os fetos em questão magicamente adquiriram consciência de si mesmos e das coisas ao redor (que também não era lá tanta coisa assim); magicamente adquiriram inteligência e interesse filosófico pelo seu destino fetal; magicamente desenvolveram uma linguagem  comum e, por fim, magicamente encontraram uma forma de se comunicar usando essa linguagem de uma forma, sei lá, telepática.

Como disse, desconsidere esses detalhes e se concentre na raiz do argumento. E a raiz do argumento é a que segue.

Exatamente como os ateus não conseguem entender a lógica da vida após a morte, um daqueles fetos não conseguia conceber uma vida melhor, num lugar maior e repleto de maravilhas após o fim de suas existências intrauterinas. Exatamente como os ateus, um daqueles fetos não conseguia perceber que o seu atual estado era apenas uma preparação para algo maravilhoso que estava por vir, mas que era, então, inacessível ao seu conhecimento e até impossível de ser imaginado. Exatamente como os ateus, um daqueles fetos não conseguia entrar em sintonia com a “Mamãe”, a ponto de ouvir seu coração, ou mesmo o som da sua risada, nos momentos de silêncio e introspecção.

Nós, ateus, somos aquele feto contestador, aquele idiotazinho teimoso que não era capaz de perceber o óbvio: o parto não era o fim.

O problema com essa estória — isso, claro, desconsiderando todos aqueles outros problemas que eu já pedi pra você desconsiderar — o problema com essa estória é que ela não permite que você identifique o motivo daquele idiotazinho teimoso ser tão idiota e tão teimoso. Afinal, tendo a mesma inteligência e a mesma consciência das coisas, num universo do tamanho de um melão, nada a que o seu irmãozinho crente tivesse acesso lhe seria inacessível. E não dá para imaginar a “Mamãe” dos dois se dispondo a fazer contato e revelações a apenas um deles.

Se você achou aquela estorinha dos fetos conversando sobre a vida após o parto uma maneira inteligente de fazer os outros compreenderem a vida após a morte, é só porque você usa o supremo artifício no qual a sua fé se baseia e se sustenta a tantos milênios: a arte de ser desonesto consigo mesmo, a ponto de achar que é possível explicar uma fábula com outra fábula.

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O que precisa ser dito sobre deuses (parte 5 de 5)

<<Parte 1

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Autor: Caio L. Aidar – paulistano, 24 anos, e desde os 17 se interessa por Ciências e Filosofia.

Analisados os três principais argumentos dos teístas, e demonstrado que estes argumentos são facilmente refutáveis, concluo esse ensaio com duas reflexões.

A primeira é a de que quanto mais específica for a ideia de um deus, mais fácil será refutá-la. O Deus cristão, por exemplo, é bem específico. De acordo com a Bíblia, ele é onipotente, onisciente, onipresente, criou tudo o que existe no Universo, e concedeu ao ser humano o livre-arbítrio. Ora, a onipotência, do ponto de vista lógico, é um atributo inválido. A onipotência, ainda seguindo a análise lógica, também é incompatível com a onisciência. E a própria onisciência é incompatível com o suposto livre-arbítrio que nos foi concedido. Diante disso, é bem fácil concluir que o Deus cristão não existe.

Algumas pessoas, contudo, alegam crer em deus, mas não num deus pessoal, e sim em uma espécie de “energia inteligente”, responsável por ser a origem de todas as coisas. Este conceito de deus é bem vago, abstrato, e, justamente por isso, difícil de falsear. Mas por ser difícil de falsear é correto concluir que seja verdadeiro? Óbvio que não. Existem diversas ideias que não podemos falsear, mas que nem por isso são levadas a sério. A hipótese de que estamos vivendo dentro da Matrix é uma delas.

Dito isto, gostaria de introduzir a segunda reflexão: quão improvável são os deuses, sejam eles pessoais ou sejam simples “energias”? A resposta, a meu ver, é bem simples: deuses constituem a hipótese mais improvável que podemos imaginar. Divindades são extremamente improváveis devido à sua alta complexidade. Se nós, humanos, com toda nossa banalidade e fragilidade, com toda nossa ignorância que às vezes nos impede de construir de modo correto um simples edifício, somos criaturas improváveis, imaginemos, então, o quão improvável é a existência de um ser capaz de criar um Universo.

Não estamos falando sobre filosofia, lógica ou ciência. Estamos falando, simplesmente, sobre bom-senso. Um exemplo bem simples ilustrará melhor a questão: é impossível encontrar pela rua um caminhão cheio de dinheiro, estacionado ao lado de uma placa com o seu nome, onde se lê “Essa grana é pra você”? Não, impossível não é. Mas, fazendo uso da razão, é sensato crer que algum dia receberemos tal presente? Óbvio que não. Quem pensar diferente, pode parar de trabalhar e começar a gastar os milhões que o esperam no futuro.

Mentes, provavelmente, são novas no Universo. Até hoje, a única mente que conhecemos capaz de pensar de modo complexo é a própria mente humana. Ainda não localizamos outra. Teístas querem nos fazer crer que, antes de qualquer coisa, já existia uma supermente, mas não justificam de modo racional o porquê dessa crença. A ausência de evidências e a extrema improbabilidade de um criador sugerem fortemente que foi o homem quem inventou deus, e não deus quem inventou o homem. Basta estar disposto a aceitar essa realidade, que pode parecer desoladora a princípio, mas que no fim se revela libertadora.

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O que precisa ser dito sobre deuses (parte 4 de 5)

<<PARTE 1

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Autor: Caio L. Aidar — paulistano, 24 anos, e desde os 17 se interessa por Ciências e Filosofia.

Vejamos agora o último argumento:

O Argumento Teleológico

Vemos toda a ordem e harmonia que existe no Universo, a miríade de espécies, a imensa complexidade que existe em cada pequena célula dos seres vivos, a intrincada interconexão e interdependência que há entre todos eles. É impossível imaginar que toda essa maravilha existe por acaso. Isso porque, se as condições planetárias fossem sutilmente diferentes das atuais, a vida na Terra seria impossível. Dizer que o mundo que conhecemos veio de uma “explosão” (Big-Bang) é tão absurdo quanto dizer que um dicionário é fruto da explosão de uma tipografia. Tem de haver uma mente por detrás de nosso Universo, que planejou, criou e mantém a ordem que nele observamos.

Qualquer ateu sensato concordará que a complexidade da vida e do próprio Universo é algo impressionante. Mas há uma diferença essencial entre ateus e teístas nesse ponto: os ateus aceitam o desafio de tentar explicar racionalmente toda a complexidade da natureza, mesmo que as respostas encontradas não sejam muito confortadoras a princípio. Ainda existem lacunas em diversos ramos da ciência, o que é bastante compreensível, afinal estamos falando sobre uma atividade intelectual que necessita de tempo para explicar os fatos da forma mais precisa e segura possível. Ocorre que não existem motivos para concluir que há uma supermente por detrás do Universo. O fato de um determinado evento ser complexo, e ainda não explicado pela ciência, significa apenas que tal evento é complexo e ainda não o compreendemos, somente isso. Qualquer apelo a deuses para explicá-lo será baseado tão somente em crendices, desejos pessoais e extrapolações improváveis, e não em evidências.

A complexidade dos seres vivos é um tema que pode ser explicado pela Teoria da Evolução, idealizada por Charles Darwin e Alfred Russel Wallace, que é uma das teorias mais robustas existentes, respaldada por diferentes áreas de estudo da ciência, como a boa e velha paleontologia, a citologia e a genética.

Muitos criacionistas atacam o evolucionismo com interesses bem sombrios, como já era de se esperar. Nos seus devaneios, imaginam que, derrubado o evolucionismo, o criacionismo seria a explicação mais plausível para entender como se formou a vida. Ledo engano. Mesmo que o evolucionismo se mostrasse errado, o que é bem improvável, ainda assim não aceitaríamos o criacionismo, porque outras teorias verdadeiramente científicas poderiam ser construídas para explicar a origem dos primeiros seres.

Com relação à origem do Cosmos, muitos pontos de interrogação foram decifrados pela ciência e, atualmente, existem físicos trabalhando nas “Grandes Questões”, como a origem da matéria e a suposta existência de vários outros universos. Se houvesse indícios de criação, se existissem evidências da ação de uma mente responsável por arquitetar o Cosmos, deveríamos aceitar essa explicação. Mas o fato é que não há.

Vamos ser francos. Se fôssemos extremamente poderosos — a ponto de criar um Universo — , sábios e cheios de bondade, não faríamos algo melhor do que esse mundo que conhecemos?

O modo de pensar do teísta, em linhas gerais, funciona adequando a realidade às suas crenças pessoais. Se fulano morreu em um acidente, é porque Deus concluiu que era a hora dele partir. Mas, se em vez de morrer, ele tivesse ficado paraplégico, seria porque Deus concluiu que ele deveria passar por essa prova, e assim por diante, sempre adequando os fatos ao seu sistema de crenças, mesmo que isso às vezes termine de modo absurdo.

Existe uma incrível complexidade ao nosso redor e a ciência tenta explicá-la descrevendo a realidade da forma mais precisa possível. Até hoje, não conseguimos entender como poderia existir uma mente divina por detrás do Universo, por detrás de nós mesmos. Agora, se a intenção desse Deus era se esconder o máximo possível, de modo que parecesse que não há deus algum, então ele é muito competente.

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O que precisa ser dito sobre deuses (parte 3 de 5)

<<PARTE 1

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Autor: Caio L. Aidar – paulistano, 24 anos, e desde os 17 se interessa por Ciências e Filosofia.

O Argumento Ontológico

Eu tenho a ideia de um ser, de um ente perfeito. Ora, como há necessariamente mais razão na causa do que no efeito, a ideia da perfeição não pode proceder senão da própria perfeição. Esse ente perfeito tem que existir porque, se não existisse, faltar-lhe-ia a perfeição da existência, e desse modo não seria perfeito.

Claramente percebemos que “existência”, para o idealizador do argumento, deve ser tratada como uma “qualidade”, o que, evidentemente, é um erro. O argumento nos diz que um ser totalmente perfeito deve ter, no seu extenso rol de qualidades, a qualidade da própria existência. O argumento afirma que entre uma perfeição real e uma perfeição imaginária há uma diferença qualitativa: perfeito mesmo seria apenas aquilo que é real. Em absoluto, não há qualquer diferença qualitativa entre a perfeição real e a imaginária, simplesmente porque existir não é uma qualidade.

Imaginemos um engenheiro que mentalmente projetou uma máquina perfeita, que não desperdiça insumo algum, e tem um rendimento insuperável. Qual a diferença entre o projeto dessa máquina e a máquina real, quando for construída? Resposta: não há diferença. “Não existir” não é um defeito, assim como “existir” não é uma qualidade.

Existindo ou não, o teor de uma ideia e suas respectivas qualidades permanecerão as mesmas. O ponto principal do argumento é facilmente refutável. Mas, por um instante, vamos imaginar que não conseguimos encontrar o erro aí escondido, e que ainda pensamos que existir é uma qualidade. Mesmo assim nada estaria provado, por um simples motivo: nossa mente é capaz de imaginar coisas que não possuem paralelo algum com a realidade ou, para ser mais claro, que não existem. Posso imaginar centauros, constituídos de uma substância invisível, que habitam bosques no interior da minha cidade. Borboletas, do tamanho de dragões, que viajam pelo tempo, ou qualquer outra bizarrice. O fato de eu imaginar alguma coisa, perfeita ou não, não quer dizer que essa coisa exista.

No fim das contas, assim como acontece com o Argumento Cosmológico, mesmo que o raciocínio fosse impecável do ponto de vista lógico (o que está longe de ser verdade), acabaria sendo incapaz de provar qualquer coisa, porque também poderíamos imaginar deuses perfeitos rivais, cuja existência mútua não é possível; vários deuses, caso optássemos por adotar o politeísmo, etc.

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O que precisa ser dito sobre deuses (parte 2 de 5)

 <<PARTE 1

Autor: Caio L. Aidar – paulistano, 24 anos, e desde os 17 se interessa por Ciências e Filosofia.

O Argumento Cosmológico

Todo efeito tem uma causa. Se o Universo existe, então ele teve uma causa, pois não existe efeito sem causa, e ele não poderia ter criado a si mesmo, a partir do nada, pois, nesse caso, ele seria causa e efeito ao mesmo tempo, o que é impossível. Se retrocedermos na cadeia de causas, teremos uma série infinita que precisa ser interrompida, caso contrário nunca teria havido um primeiro efeito e, portanto, não existiríamos. Esta Causa Primeira é Deus; um ser incausado, imóvel, eterno, sustentáculo e criador do Universo em que vivemos. 

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Este argumento apresenta três erros que o tornam totalmente inválido. O primeiro não é tão visível assim, e, para identificá-lo, é necessário um olhar mais treinado. Já os outros dois são simplesmente grosseiros.

Em primeiro lugar, o significado da palavra “causa” foi distorcido para que o argumento parecesse mais confiável. Inicialmente, temos “causa” em uma perspectiva científica, significando de fato “causa e efeito”. Posteriormente, o sentido é radicalmente mudado: agora temos a palavra “causa” significando algo como “[o Universo] vir a existir”.

“Criar” é bem diferente de “construir”. O carpinteiro, que é a causa de uma cadeira, não a criou: ele a construiu a partir de materiais que já existiam. Trata-se, na realidade, de uma falsa analogia entre a natureza do Cosmos e a natureza das “criações” humanas, que talvez revele um pouco do nosso antropocentrismo, afinal, o idealizador do argumento parece erroneamente concluir que tudo aquilo que existe deve ser fruto da ação de uma mente projetista, apenas porque neste pequenino ponto chamado Terra existem mamíferos dotados de alguma inteligência que costumam construir (e não criar) seus próprios utensílios.

Agora, vamos aos erros grosseiros. O próprio Deus, cuja existência está se tentando provar, foge à premissa postulada para se chegar a ele. Em um primeiro momento, afirma-se “todo efeito tem uma causa”. Mais adiante, temos que Deus é “incausado”. Ora, se uma dessas duas premissas for verdadeira, a outra obrigatoriamente deverá ser falsa. O argumento é contraditório e, por isso, inválido. Quando afirmamos que algum deus pode ser “incausado”, abrimos espaço para perguntar por que o próprio Universo não poderia ser incausado, o que é muito mais parcimonioso. Talvez a matéria sempre tenha existido. Hoje, ainda não conseguimos falar seguramente sobre isso.

Vale a pena notar que, mesmo se não tivéssemos identificado estes dois erros, ainda assim não estaria provada a existência de qualquer coisa que possa ser intitulada de deus, pois não há motivos racionais para usar deuses como resposta para o problema da regressão infinita de causas e efeitos. As ciências naturais, na tentativa de explicar o mundo e se aproximar o máximo possível da realidade objetiva, também enfrentam o problema da regressão infinita de causas e efeitos e, talvez, nunca encontremos uma resposta definitiva para essa questão. Talvez nunca conseguiremos dar fim à regressão.

E a terceira falha consiste no absurdo de colocar um ponto final neste complexo problema através da simples criação de um ser que se chama Deus, e alegar que ele é Imóvel, Eterno, Criador do Universo, etc. Por que deveria ser essa a resposta? Simplesmente porque o teísta assim deseja? A resposta é: não deveria. Desejos pessoais reconfortantes não servem como evidências em uma discussão. Ademais, se um argumento inconsistente como esse pudesse ser usado para provar a existência de um deus específico, como o Deus dos cristãos, por exemplo, acabaria, então, podendo provar a existência de qualquer outro deus, inclusive provar a existência de dois deuses rivais, que não podem existir conjuntamente, como o Deus Cristão e o Deus Muçulmano.

Por que não era Baal quem estava lá, antes de tudo? Por que não Mitra? Por que não Odin? Por que não adotamos o politeísmo e imaginamos que vários deuses são a resposta para as incógnitas ainda não decifradas pela ciência? Há um oceano de distância entre as premissas postuladas e a conclusão. O máximo que este raciocínio consegue fazer é voltar a uma incógnita e nomeá-la como Deus, e, como já vimos acontecer antes, em períodos inclusive bem recentes da História, chamar nossa ignorância de Deus costuma sempre ser um erro.

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O que precisa ser dito sobre deuses (parte 1 de 5)

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Autor: Caio L. Aidar — paulistano, 24 anos, e desde os 17 se interessa por Ciências e Filosofia.

Visto que a discussão sobre a hipótese de deuses existirem ou não é algo recorrente em nossas vidas, seja numa conversa de bar, seja num debate promovido em uma grande universidade, decidi fazer algumas considerações sobre o tema. Ao fim deste ensaio, a pessoa que crê em algum deus poderá considerar o ateísmo como uma posição muito razoável ou, sendo otimista, a semente da dúvida será plantada em suas reflexões. Pelo menos são essas as sinceras intenções do autor.

Em primeiro lugar, devemos observar que, em uma discussão sobre a existência ou não de deuses, o ônus da prova é de quem afirma a existência, e não de quem a nega. Àqueles que estão familiarizados com o ceticismo, ou aos estudiosos do Direito, a observação pode parecer óbvia, mas, para grande parte das pessoas, a questão de qual das partes deve ser incumbida de provar o que diz, quando falamos sobre deuses, não é tão clara assim.

Se João alega que Pedro é ladrão, cabe a João fornecer evidências concretas para provar tal afirmação. Pedro simplesmente negará a autoria do roubo, e não precisará apresentar evidências para provar que o crime não aconteceu. Com a hipótese da existência de deuses a ideia é a mesma: cabe àqueles que afirmam que deuses existem fornecer evidências sobre sua existência. Aqueles que negam a existência de seres como deuses não precisam fornecer evidência alguma sobre a inexistência destas entidades.

O raciocínio que determina essa condição é bem simples: para que se prove a existência de um deus, basta encontrá-lo, em quaisquer que sejam as condições. Para que se prove a inexistência de um deus, a tarefa é bem mais complexa: é necessário vasculhar cada canto do Universo para, só depois do fim da busca, poder afirmar que nada foi encontrado. Negativas universais são praticamente impossíveis de se provar, daí o fato de o ônus da prova recair, obviamente, em quem afirma a existência. Negar que seja verdadeira uma hipótese esdrúxula, improvável e, muitas vezes, que não se pode falsear (não podemos confirmá-la, nem refutá-la) é sempre a posição padrão. Sendo assim, é totalmente desnecessário buscar evidências para sustentar a posição de negação.

Contudo, diversos argumentos ateístas foram desenvolvidos para tornar praticamente impossível a hipótese da existência de seres com as características comumente atribuídas a deuses. Não há, aqui, espaço e nem é a intenção deste ensaio desenvolver tais argumentos, mas, apenas para citar um deles, podemos mencionar o “Problema do Mal”, que faz desaparecer a hipótese de um deus bondoso e onipotente, como, por exemplo, o Deus da mitologia cristã.

Em segundo lugar, devemos repassar rapidamente os três principais argumentos usados por aqueles que creem em algum deus e, aceitando o ônus da prova, tentam demonstrar racionalmente — e não por meio da fé — a existência da divindade na qual acreditam. São eles: (1) O Argumento Cosmológico; (2) O Argumento Ontológico; e (3) O Argumento Teleológico. A intenção é demonstrar como estes três argumentos, que aparentemente parecem coerentes e bem estruturados, são tão inválidos, quando devidamente analisados do ponto de vista lógico, quanto os argumentos visivelmente mais simples.

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PARTE 2/5

PARTE 3/5

PARTE 4/5

PARTE 5/5

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Deuses de mármore (parte 2)

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Um leitor do blog vez e outra costumava escrever nos comentários dos meus textos:

    Desse Deus em que você acredita, eu também sou ateu.”

Isso como forma de rebater os argumentos em que eu descrevia as incongruências entre o Deus-Papai Noel com o qual os cristãos viciam seus filhos, e o Deus esquizofrênico presente em toda a Bíblia. Para esse meu leitor, aquele Deus a que eu me referia nos posts do blog simplesmente não existia; daí ele se considerar, também, um ateu. Só que todos os meus textos sobre Deus são baseados na Bíblia, que é a única “fonte” original sobre ele. Para acreditar num Deus de amor, justo e bonzinho, o cristão precisa fazer, com o seu livro sagrado, o mesmo que o escultor faz com um bloco de mármore: retirar tudo o que não serve para compor a estátua que ele já imagina estar dentro da pedra. É um processo bastante ineficiente, nesse caso, porque, mantendo a comparação, os pedaços da Bíblia que ele jogou fora para moldar o seu Deus continuam sempre lá.

Eu moro a menos de 500 metros de uma boca de culto de Testemunhas de Jeová. Como se sabe, uma vez por semana eles saem batendo de porta em porta para entregar revistas, panfletos, e falar do amor que uma certa criatura que se esconde numa dimensão mágica tem por você. O engraçado é que, quando o meu pai vai atendê-los, eles costumam demorar uns dez, quinze minutos conversando. Quando sou eu, a conversa não se estende além de uns dois minutos.

– Deus me ama? E se, por acaso, eu não resolver amá-lo de volta ele vai me jogar no Inferno?

– Olha, Deus amou tanto o mundo que enviou seu filho unigênito para que todo aquele que nele crer tenha a vida eterna.

– E Deus amou tanto o mundo a ponto de afogar as pessoas num dilúvio.

Quando a conversa é com meu pai, suponho, eles se detêm falando de amenidades, quando o Deus-Bipolar estava de bom humor, talvez. Quando é comigo, eu descaradamente faço com que eles contemplem os pedaços da Bíblia que não fazem parte do Deus que eles esculpiram pra si mesmos.

CONTINUA…

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Apocalipse: o mundo “já” acabou!

Como bom cristão, o padre Fábio de Melo molda como bem quer a palavra sagrada, imutável, perfeita e eterna de Deus. O Apocalipse já passou, você sabia?

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TRATADO DAS ILUSÕES

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Introdução

Depois que eu morrer, espero que meu corpo seja cremado. Digo “espero” porque meus familiares mais próximos já foram comunicados a respeito, mas, embora haja uma grande probabilidade de eles seguirem essa funérea instrução, eu, obviamente, não poderei fazer nada se decidirem me enterrar, ou coisa pior, como me empalhar.

Mas, se eu não fosse ser cremado, que epitáfio iria querer que as pessoas lessem na minha lápide?

“Enfim, eu estava mesmo certo” ?

Ou…

“Nenhum Inferno, nenhuma virgem… Aliás… não tem nada aqui!” ? 

Foi, então, que eu me dei conta de duas coisas. A primeira. De quão imbecil é a pessoa que perde tempo de vida tentando bolar uma inscrição para ser posta sobre o seu próprio túmulo. A segunda. Que aquela era a pergunta errada a ser feita.

E é a resposta à pergunta certa que vai dar origem a esse TRATADO DAS ILUSÕES:

Para que serve um epitáfio?

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CONTINUAÇÃO:

- Epitáfios

- Os mortos apodrecem

- O Deus impossível

- A perspectiva do engano

- A fé vista de cima

- Como não enxergar o óbvio

- O compromisso de acreditar

- O Fim

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DEUS – Manual do Usuário

Introdução

Parabéns!

Você acaba de estar adquirindo um produto de altíssima qualidade e de eficácia comprovada por um incalculável número de pessoas, das mais diversas culturas, ao longo de milhares de anos! Um produto quase tão onipresente no mundo quanto a Coca-Cola! Quase tão eficiente e perfeito quanto o Windows 8!

Entretanto nós fortemente recomendamos que você leia antes todas as instruções contidas neste manual! Somente a leitura cuidadosa deste guia vai estar assegurando a você um correto uso de Deus, evitando assim possíveis transtornos causados pelo seu manuseio inadequado, bem como a subutilização de suas funções. 

O completo conhecimento dos assuntos tratados aqui servirá para prevenir que você possa estar colocando Deus em contato com coisas altamente danosas ao equipamento, como raciocínio e bom-senso, que fatalmente poderão estar afetando o seu desempenho.

(Dê atenção especial ao Cap. 1 – Recomendações de Segurança.)

Lembramos que, se você nasceu num país de tradição cristã (ou, pelo menos, nasceu numa família cristã), Deus foi instalado no seu cérebro automaticamente e já se encontra pronto para uso, mas é necessário ler, o quanto antes, o Cap. 4 – Manutenção da Carga da Beteria, ou você poderá estar correndo o risco de se tornar um ateu e, assim, poderá estar dando um tremendo desgosto aos seus pais e aos seus entes mais queridos!

IMPORTANTE!

Caso você tenha nascido num país que instalou indevidamente o deus errado no seu cérebro, você pode estar consultando imediatamente o Cap. 2 – Instalação Manual, antes de estar prosseguindo com a leitura.  

Uma vez instalado com sucesso, o produto tem garantia vitalícia contra defeitos de fabricação, sendo que todo e qualquer problema que ele possa estar apresentando atribuído à operação incorreta por parte do usuário. Ainda assim, você pode estar se dirigindo a uma de nossas inúmeras Assistências Técnicas Autorizadas perto da sua casa. Com um pouco de sorte, talvez haja uma bem aí na esquina da sua rua!

Lembramos, finalmente, que cada Assistência Técnica tem sua própria versão de Deus, bem como total autonomia para estar cobrando o valor ideal nas taxas de instalação, reinstalação, atualização e reparos que julgar necessários ao produto, variando desde um pagamento simbólico e/ou opcional, até quantias absurdas que levam muitos incautos à falência e até à penúria. Entretanto, para efeito legal, informamos que o valor máximo cobrado não pode estar excedendo a 10% dos seus ganhos mensais.

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Cap. 1 – Recomendações de Segurança

Cap. 2 – Instalação Manual

Cap. 3 – Conhecendo o Produto

Cap. 4 – Manutenção da Carga da Bateria

Cap. 5 – Recarga Autônoma da Bateria: Fé

Cap. 6 – Funções – Parte I

Cap. 7 – Funções – Parte II

Cap. 8 – Funções – Parte III

Cap. 9 – Solução de Problemas

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Voo e Queda (fim)

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Mais de 40% das pessoas que viajam regularmente de avião declaram que têm medo de voar. Em prol do bom entendimento, o que elas temem, na verdade, não é o voo, mas a queda. Consciente ou inconscientemente, essas pessoas são atormentadas pelo pensamento onipresente de que, para chegarem vivas ao seu destino, muita coisa precisa funcionar direito. E esse “muita coisa” quer dizer muita coisa mesmo! Os inúmeros sistemas da aeronave — hidráulicos, elétricos, mecânicos, eletromecânicos, eletrônicos e aerodinâmicos — que garantem o voo em si; as dezenas de equipamentos eletroeletrônicos dispostos no solo, nos aeroportos e ao longo da rota, que dão suporte à navegação e às comunicações com o controle de voo; as condições climáticas, e por aí vai… 

Alguém que morre de medo de voar terá seu comportamento justificado se descobrir que um avião caiu porque o piloto quis economizar no combustível. E mais justificado ainda esse medo se tornaria se ele viesse a saber que, tecnicamente falando, todo avião que pousa é um avião que cai.

A diferença entre um acidente aéreo e um pouso bem-sucedido é que um pouso é uma queda muito bem planejada. Quando a aeronave, a baixa altura e numa velocidade crítica, perde completa e definitivamente sua sustentação no ar, a pista de pouso já está bem ali embaixo: reta, plana e asfaltada, pronta para ser percorrida pelos pneus do trem de aterrissagem. Tem gente grande que até bate palmas, logo após o reverso dos motores frear a aeronave, sem se dar conta de que o avião em que viajava acabou de cair.

A crença em Deus pode ser comparada a um voo numa aeronave que não recebeu combustível suficiente para chegar ao destino. Desconhecendo essa realidade, o crente pode conservar a calma impassível dos ignorantes, até o instante em que os alarmes começarem a soar na cabine de comando, para despertá-lo do seu sonho de Ícaro. 

Fé pode ser muito útil em alguns poucos casos, e tremendamente danosa em todos os outros. A utilidade dela se percebe, por exemplo, na tranquilidade demonstrada por aqueles 60% que declararam que não têm medo de voar. Eles acreditam que tudo vai dar certo, que a aeronave foi abastecida como deveria, e que ela “nunca” vai cair. É essa crença que os deixa livres e despreocupados, na sala de embarque, para fazer compras de última hora, ler um livro ou mandar alguns e-mails. É um conforto individual. Quando se trata de coletividade, entretanto, a fé religiosa sempre trouxe muito mais malefícios do que benefícios. Como quando alguém quer economizar 40% na despesa com o combustível, e faz um voo suicida contando apenas com a proteção de um personagem de um livro de fábulas.

O ateísmo é  um pouso, mas não no sentido de ser uma queda planejada, porque não é possível alguém planejar se tornar ateu. Mas é um pouso no sentido de ser uma volta consciente à terra, depois que se percebeu o risco que é contar com um combustível que simplesmente não foi colocado nos tanques. 

O ateu é um Ícaro que não renegou a sua origem mortal compartilhada com cada ser vivo deste planeta; que não foi prepotente a ponto de ignorar a voz da razão; que não se embriagou no orgulho de se achar especial demais; que não se extasiou no sonho encantado de ser o que não é.

O ateu é um Ícaro que não deixou que o sol derretesse sua cera, nem que o mar molhasse suas penas, voando alto o suficiente apenas para elevar-se acima dos muros de um labirinto feito de mentiras e de ilusões, para pousar logo depois em terra firme e em liberdade.

O labirinto do qual ele escapou foi construído há muitos milênios, para aprisionar as mentes daqueles que se acham e se comportam como se fossem a coisa mais importante do universo. Lá dentro, eles todos consomem suas vidas numa prisão gigantesca, e morrem, um a um, na queda inevitável após o voo suicida em direção a um céu que jamais poderão alcançar.

Voo e Queda (o verdadeiro problema de Ícaro)

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Se uma história se parece com uma fábula, é porque ela é uma fábula… Quando você considera o mundo honestamente, a coisa é assim mesmo tão simples quanto parece. Não tem “mas”, nem meio “mas”. Fábula é fábula; realidade é realidade; e dá pra saber qual é qual sem muito esforço.

Uma coisa é um príncipe escolher uma plebeia para ser sua esposa; outra é um príncipe ser transformado num sapo por uma bruxa malvada, e ter o encanto quebrado por uma plebeia que, por algum motivo, resolveu beijar um sapo na boca… Pode acreditar em mim quando eu digo que dá para identificar uma fábula quando se lê uma. Nelas, acontecem coisas que não poderiam ocorrer no mundo real. Não importa quantas pessoas acreditem que bruxas existem (e que podem transformar qualquer um, seja príncipe ou não, em sapo), bruxas não existem, e pessoas não podem ser transformadas em sapos… 

Intuitivamente falando, eu “sei” que a história de Ícaro é uma fábula. Mas o que me permite concluir que é assim, racionalmente? Seria preciosismo meu apontar o evidente equívoco do seu autor no desfecho da história: a temperatura não aumenta à medida que alguém voa para cima, em direção ao sol. Na verdade, ela diminui. Na próxima vez em que viajar de avião, lembre-se de ouvir as informações que o piloto geralmente fornece quando a aeronave atinge o nível de cruzeiro. A temperatura do ar externo estará várias dezenas de graus abaixo de zero. 

Ícaro não correria o risco de ter a cera de suas asas derretidas só por voar mais alto. O verdadeiro problema de Ícaro é que ele jamais levantaria voo com um par de asas feitas de penas de pássaro e coladas com cera.

É isso que “entrega” o mito.

Como eu disse: é fácil identificar uma fábula, quando você considera as coisas honestamente. Basta sentar numa poltrona confortável, pensar sobre o assunto por um ou dois minutos, para concluir que tal e tal coisa seria impossível de ocorrer no mundo real. A opção seria você dizer para si mesmo e para quem mais quisesse ouvir: “Não, não é impossível. Aconteceu mesmo. Eu acredito.”

Isso é o que se chama . E fé é algo de muita serventia para o crente, quando tudo o mais funciona bem. Porque, quando não é o caso, o que sobra ao temente a Deus é aquilo com o que qualquer outro “não temente” poderia contar também: a sorte.

E o que se pode entender por “sorte”? Uma situação de risco — como estar voando a baixa altura num avião sem combustível — da qual você saiu ileso, quando o esperado era que se machucasse muito; da qual saiu com lucro, quando a probabilidade era a de que amargasse um enorme prejuízo; ou da qual você saiu vivo, quando havia grande chance de ter morrido.

Fé só é útil em retrospecto, quando se está num leito de hospital, dando entrevista sobre o acidente aéreo do qual você foi um dos sobreviventes. É quando se costuma esquecer que os que morreram também tinham fé em escapar. 

O que eles não tiveram foi sorte.

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Voo e Queda (a pane)

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Escrevi o episódio 1 baseado em duas fontes: o relatório final de investigação do acidente com o PT-OSR, disponibilizado na internet pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos; e em uma entrevista concedida pelo copiloto da aeronave ao site da revista Isto É. O episódio 2 também é de minha autoria, elaborado após a leitura de alguns textos obtidos na internet com a pesquisa “Ícaro + mitologia grega” no Google.

Dito isso, que os textos são inéditos e que eu sou o autor, acho que posso listar mais ainda algumas semelhanças entre eles: foram escritos em língua portuguesa; são uma narrativa em terceira pessoa; relatam as mortes de seres humanos que estavam se deslocando através do ar; fazem referência a pessoas e a lugares; e, por fim, são textos que talvez sirvam para nos trazer um bom ensinamento, a chamada moral da história — devemos seguir os conselhos e orientações daqueles que certamente tenham a devida competência para dar esses conselhos e orientações. No caso do piloto da aeronave sem combustível, a legislação aeronáutica; no caso de Ícaro, a instrução dada pelo próprio pai.

E que tipo de diferenças eu poderia listar?

A extensão: o episódio 1 é umas cinco vezes maior que o 2.

A fama do tema: é muito mais provável que qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, seja criança, adulto ou idoso, saiba alguma coisa sobre a história de Ícaro do que sobre o acidente sofrido pelo avião da banda Calypso.

O distanciamento geográfico-temporal: em relação a nós que vivemos no Brasil, no século 21, estamos mais próximos, no tempo e no espaço, dos acontecimentos narrados no episódio 1.

O estilo: o relato do acidente aeronáutico ocorrido em Recife é essencialmente jornalístico, enquanto o outro foi escrito no estilo literário. 

E, por último, o texto sobre a queda do PT-OSR descreve um fato verídico, enquanto que a narrativa de um filho que desobedeceu o pai e teve suas asas desfeitas pelo calor do sol é fictícia, ou seja, foi inventada, não aconteceu.

Acredito que alguém possa ainda encontrar mais um ou dois itens a inserir em uma ou outra lista. Acho também que ninguém irá discordar das que foram apresentadas acima, com as diferenças e semelhanças que eu mesmo encontrei entre esses dois textos que produzi.

Agora, mesmo que você não creia em deuses, dispense uns cinco ou dez minutos do seu tempo em intensa reflexão filosófica, antes de responder a essa minha pergunta:

O que é que te permite classificar o episódio 2 como sendo um mito, um relato de algo que nunca aconteceu de verdade?

Se você é um religioso cristão, entretanto, sugiro que se dê mais do que cinco ou dez minutos. Isso porque eu acho que você não vai querer usar argumentos que eu poderia, eventualmente, aproveitar para classificar, também como sendo um mito, uma história de um certo meliante que foi torturado até à morte, passou menos de quarenta e oito horas sepultado, voltou dos mortos e saiu voando, sem asas e sem combustível, para o mais alto dos céus.

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Voo e Queda (Episódio 2)

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Minos, um dos muitos filhos de Zeus, fez um pacto com o deus Poseidon para tornar-se rei. Quando foi coroado soberano da ilha de Creta, o deus dos mares exigiu que Minos cumprisse sua parte do acordo e lhe sacrificasse um touro branco em sua homenagem. O rei Minos, entretanto, encantou-se de tal forma com a beleza do animal que Poseidon forneceu para o sacrifício que tentou enganar o deus matando outro touro no lugar. Enfurecido com tamanho insulto, Poseidon fez com que a esposa de Minos se apaixonasse pelo touro branco, vindo a engravidar dele.

Quando nasceu o que se esperava ser o primeiro filho do rei, todos em Creta souberam que seu monarca havia sido amaldiçoado pelos deuses, pois sua esposa dera à luz uma criança com cabeça de touro, que o povo passou a chamar de Minotauro: o touro de Minos. 

Resignado com o castigo, Minos continuou com sua infiel esposa Pasífae — de cuja união nasceriam ainda Ariadne e Androgeu —, mas precisava descobrir o que fazer do monstro que achavam ser seu filho. Recorreu, então, aos serviços de Dédalo, o maior artífice de Atenas, e ordenou-lhe a construção de um labirinto gigantesco para aprisionar o Minotauro.

Muitos anos depois, Minos viu Androgeu ser morto pelos atenienses durante uma batalha. Como vingança pela morte do filho, depois de conquistar Atenas, ele ordenou que 7 moças e 7 rapazes da cidade fossem escolhidos, todo ano, para serem lançados no labirinto, como oferenda ao Minotauro, que os devorava.

Não podendo aceitar que tamanha maldade perdurasse indefinidamente, um herói ateniense, chamado Teseu, decidiu matar o Minotauro dentro de seu labirinto. Tão logo aportou na ilha de Creta para consumar seu intento, Teseu conheceu Ariadne, filha de Minos, e os dois se apaixonaram. Uma vez informada do plano, Ariadne decidiu ajudá-lo, e lhe ofereceu um enorme novelo de lã, com o que o herói iria se guiar no caminho a percorrer de volta, para fora do labirinto, depois de exterminado o perigoso monstro.

O plano funcionou como esperado e os dois amantes fugiram juntos da ilha de Creta, deixando o rei Minos desconfiado de que Dédalo havia ajudado o casal, pois era impossível achar a saída do labirinto depois que se entrava nele. Como punição, Minos ordenou que Dédalo e seu filho, Ícaro, fossem mantidos presos para sempre dentro da obra que havia construído.

No labirinto imenso, o engenhoso Dédalo juntou penas de pássaros e coletou cera de colmeias para construir dois pares de asas, que amarrou em Ícaro e em si mesmo. Antes da fuga, Dédalo instruiu seu filho para que não voasse nem muito baixo, de modo que as ondas do mar molhassem suas penas; nem muito alto, para que o sol não derretesse a cera que as mantinha unidas. 

Eles já estavam a salvo da sua prisão, para muito além dos últimos muros do labirinto, quando Ícaro esqueceu-se do conselho que recebera e voou em direção ao sol. Fascinado com a sensação de liberdade e poder que experimentava, sentindo-se mais como um deus do que como um mortal, ele voou tão alto que os gritos de seu pai não mais se podiam ouvir. 

Como Dédalo havia previsto, toda a cera das asas derreteu com o calor. E enquanto o sol indiferente fazia resplandecer contra um céu azul milhares de penas soltas, Ícaro precipitava-se em queda vertiginosa, afogando-se, junto com sua ilusão de grandeza, nas frias águas do mar Egeu.

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Voo e Queda (Episódio 1, parte final)

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Sim, o deputado Dudu da Fonte sobreviveu à queda do avião em que viajava de carona de Teresina para Recife. E eis o que disse à imprensa sobre o ocorrido:

O piloto mostrou sangue-frio. Na hora do impacto, colocou o lado dele para que batesse primeiro no chão. Foi um herói. Acredito muito em Deus e sei que “Ele” operou um milagre na minha vida.

Não, o piloto não “colocou o lado dele para que batesse primeiro no chão” na intenção de salvar a vida do nobre deputado. O aparelho bateu com o lado esquerdo porque foi o motor desse lado que falhou primeiro. E, se estivesse mais a par dos acontecimentos, Dudu da Fonte não teria chamado de herói a pessoa que foi responsável por aquele desastre. 

Quanto a ter sido um milagre de Deus ele ter sobrevivido… Bom… Isso só mostra que o crente é um arquiteto que, invertendo a ordem das coisas, trabalha no projeto de um prédio que já foi construído, obrigando-se a ajustar o desenho na prancheta ao que está diante dos seus olhos, materializado em concreto, vidro e aço.

Dudu da Fonte precisou entender o que tinha acontecido de forma que os eventos se ajustassem ao seu prédio já pronto: sua crença religiosa. Assim ele concluiu que foi salvo por uma intervenção do ser mágico em que acredita e que, em troca, oferece proteção.

Das dez pessoas a bordo daquele voo, apenas duas morreram: um passageiro e o piloto. O suficiente para que esses engenheiros de obras prontas vissem aí a mão do seu Deus. Mas onde eles veem um milagre eu vejo apenas uma probabilidade: existe, sim, chance de haver sobreviventes num pouso forçado de uma aeronave de médio porte, após uma pane-seca a baixa altura.

O que eu consideraria, então, um milagre? Alguém escapar da queda de um avião que ficou sem combustível a 10 quilômetros de altitude. Ou se o King Air em que viajava o deputado Dudu da Fonte tivesse conseguido voar mais 5 minutos, até a pista de pouso, sem uma gota de querosene nos tanques.

Mas isso jamais aconteceria. O que aconteceu foi o que pode, eventualmente, acontecer após um desastre aéreo desse tipo: haver sobreviventes. Nesse, oito pessoas conseguiram escapar, o que incentiva o religioso a enxergar um milagre. Claro que, se não tivesse morrido ninguém, teria sido um milagre ainda maior, mas qualquer vida poupada já evidencia a existência de um Deus misericordioso e bom.

Mas quando ninguém é tirado vivo dos destroços de uma aeronave, curiosamente as pessoas religiosas deixam de falar em milagres. E fala-se apenas em tragédia.

Deus é só um carimbo que as pessoas põem nas coisas boas quando — e se — elas acontecem.


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