A evolução da escrita

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A viagem (3)

 

a viagem (3)

 

Diz-se que, certa vez, um grande cientista do passado estava extremamente infeliz por não poder entender todas as coisas na sua plenitude. Um dia, passeando na praia, ele viu um buraco enorme na areia cheio de água do mar e sorriu de alívio. O cientista finalmente se deu conta de que, como o buraco, sua mente não poderia conter um mar de conhecimento, e era preciso se conformar com o que tinha.

Apesar de ser a maravilha que é, a inteligência humana tem seus limites. Na minha arrogância, eu fiz questão de ignorar essa verdade incrustada na nossa própria existência, e me predispus a entender algo inacessível à compreensão, tolamente esperando que o mar escoasse inteiro para dentro de um buraco na praia. 

O que poderia haver antes do Big Bang? 

Um deus eterno que existe para além do tempo e do espaço? Quem responde que Deus é a origem de tudo só troca um problema por outro ainda maior, porque Deus, por si só, é infinitamente mais inexplicável do que apenas um monte de matéria. 

O Big Bang foi, então, o colapso de um universo-mãe anterior ao nosso, que também vai implodir no futuro e gerar um universo-filho, num ciclo eterno de explosões primordiais? Essa abordagem até dá conta do que teria acontecido e do que poderia acontecer, mas também não responde como essa sanfona cósmica teve início. 

Ou antes do Big Bang não havia nada, nem tempo nem espaço, e tudo foi criado a primeira vez ali? Alguns físicos dizem que “o Nada é instável”, e que partículas subatômicas já foram detectadas pulando para dentro da existência, tão logo eles conseguiam impor uma vacuidade total em uma porção infinitesimal de espaço. Ainda assim: se o Big Bang é consequência do Nada, de onde diabos o Nada veio?

Talvez o universo tenha sempre existido? Ora, sendo o universo eterno, se tormarmos o instante “t” em que a Terra se formou, por exemplo, a eternidade que se estendia antes desse tempo “t” teria tornado impossível que “t” um dia chegasse a existir, para qualquer que fosse o “t” considerado.

Enfim, mesmo nossa excepcional imaginação parece só conseguir cavar apenas quatro mirradas possibilidades para trazer alguma luz ao assunto, mas sem muita lógica qualquer uma delas. 

Eu tive também minha lição de humildade na praia. Usando poderes indizíveis, manipulei as eras, deformei o espaço, destruí galáxias e voei no cosmos à velocidade da luz elevada a ela mesma. Fui até os confins do tempo para um instante antes da origem do universo e o que vi lá, depois de tudo isso, eu poderia ter visto sem esforço algum, sem sequer sair de casa: bastava pôr as mãos em concha sobre os meus olhos fechados dentro do meu quarto escuro.

A viagem (2)

 

singularity

 

Demorei uns 5 bilhões de anos, literalmente, para entender o que estava acontecendo. A nuvem de poeira em que se transformara a Via Láctea não tinha fugido com medo de mim: era o universo que estava encolhendo e, assim, tudo à minha volta se distanciava, me deixando para trás. 

Tendo o intelecto humano conseguido detectar que todos os corpos celestes estavam se afastando uns dos outros, concluiu-se muito sabiamente que deveria ter havido um momento no tempo em que tudo o que existe esteve reunido num único ponto do espaço. Como cada átomo é constituído basicamente de vazio, há mesmo uma lógica em imaginar um lugar no cosmos em que toda a matéria se reuniu sem nenhum espaço entre ela, com seus núcleos tão fortemente espremidos que se condensaram na forma de energia pura. Energia não precisa de espaço, mas nem por isso ela pode ser impedida de criá-lo. A esse momento no passado deram o nome de Singularidade. E eu estava vendo diante de mim cada partícula de matéria correr em direção a ela.

Eu fiquei extasiado olhando aquilo. Quando percebi, estava absolutamente sozinho no vácuo, sem a companhia de um único fóton, um grama que fosse de matéria escura. À minha frente, à medida que o tempo velozmente recuava em éons, pulsares piscavam por toda parte, como enfeites de Natal, do meio de nuvens de gás coloridas; buracos negros vomitavam estrelas; restos de galáxias acendiam um sem-número de novos sóis e formavam nebulosas que rodopiavam loucamente até se transformarem em novas galáxias, para, então, se desmancharem outra vez. E tudo sempre se distanciando mais e mais de mim.

Tive que me apressar para alcançar as últimas galáxias do cosmos (na verdade, as primeiras que surgiram), porque, quando chegasse o momento, eu queria estar bem próximo do colapso supremo para ver o que se escondia atrás do início de tudo. Já na iminência do fim (ou do começo, melhor dizendo), eu desacelerei o tempo e o ajustei para recuar no mesmo ritmo mundano com que se volta um vídeo no YouTube: segundo a segundo.

Numa convergência apocalíptica impossível de ser descrita, por estar muito além da compreensão dos nossos sentidos, toda a poeira cósmica que ainda restava, toda luz, toda radiação, toda matéria escura, cada pedaço do universo colidia violentamente e escorria agora como uma lava fina, a uma velocidade insondável, para um ponto minúsculo quase no infinito envolto na vastidão do Nada. Bastava olhar para saber que era ali a Singularidade. Voei para lá a tempo de acompanhar de perto o último filete de matéria do universo ser engolido por aquele ralo cósmico, achando que teria finalmente a resposta para aquela pergunta primordial sobre de onde veio tudo o que existe. Mas, de repente, não havia mais nada para ver. 

A Singularidade havia se consumado e se consumido. 

Atordoado no meio daquele vazio extremo, retrocedi o tempo infinitamente mais rápido do que jamais havia feito antes, e ainda assim nada aconteceu por novecentos trilhões de anos. Quando finalmente me convenci de que não havia nada por aquele caminho, dei a volta e acelerei na direção oposta, para o futuro, parando a poucos segundos antes do evento da Singularidade que daria origem, dali a mais de treze bilhões de anos, ao mundo de onde eu tinha vindo. Curioso para ver, pelo menos, o nascimento do universo, eu me posicionei a uns poucos anos-luz para o lado e esperei, apreensivo e solenemente emocionado, pelo Big Bang.

Foi quando meus olhos fictícios se esbugalharam de espanto, pois tudo permaneceu exatamente como estava: na mais completa, absoluta, irretocável e desesperadora escuridão.

A viagem (1)

deusilusao

 

Eu decolei na vertical, como o Super-Homem. Enquanto subia numa velocidade inexequível, instintivamente dirigi o olhar para as coisas que se afastavam sob o lugar onde deveriam estar os meus pés: minha casa, minha cidade, o continente, o planeta, o sistema solar. Quando eu parei, menos de meio minuto depois, a Via Láctea inteira estava tão distante que parecia ter o tamanho de um pires. Eu quis dizer alguma coisa, mas, assim como os meus pés, minha boca também não foi junto. Eu era apenas a minha consciência provida de visão, mas sem olhos e sem nada mais de mim mesmo, a não ser o deslumbramento por toda aquela imensidão enfeitada com galáxias, nebulosas, buracos negros, quasares e supernovas.

Apesar de estar maravilhado com a vista, eu não tinha ido ali a passeio: havia um trabalho a ser feito, e eu comecei sem demora. Apenas com a força da minha vontade, eu desloquei o universo para trás no tempo. No começo, bem devagar, por causa da inércia da existência, que se movia para frente, até então, como era de se esperar; mas logo tudo passou a retroceder aceleradamente. Com um misto de orgulho e desespero, eu contemplei a Via Láctea se desfazer: primeiro, os braços espiralados se esgarçaram como que puxados por mãos invisíveis; depois, a grande nuvem cintilante do centro também foi sugada para o espaço vazio, até todos os sóis se apagarem e tudo aquilo virar uma nuvem de poeira escura que rapidamente se afastou, talvez com medo desse novo deus destruidor de mundos em que eu havia me transformado.

No instante seguinte, eu me vi envolvido numa tristeza de tal magnitude que cheguei a ter pena de mim mesmo. Eu era o único ser humano de todo o universo, e já não havia nada mais nele que sequer pudesse lembrar minimamente que um dia eu havia existido: até a galáxia que continha o sistema solar no qual orbitava o planeta que abrigava a minha espécie havia desaparecido. Era como se eu tivesse morrido, e o meu inferno tivesse se revelado naquela infinitude de distâncias e solidão.  

Ali, desolado e arrependido, flutuando estático no vazio próximo do zero absoluto, onde não havia o em cima nem o embaixo, nem o ontem nem o amanhã; cercado por bilhões de pontos brilhantes que eu sabia que não eram estrelas, mas galáxias iguais à que tinha acabado de desintegrar, eu me dei conta de que ficar inerte seria como a morte dentro da morte. Entretanto, me mover nunca fez parte dos planos: em vez disso, eu iria mover o universo inteiro para trás no tempo, a uma velocidade inconcebível, até chegar à origem de tudo e testemunhar com os olhos da minha consciência cósmica o que existia antes do Big Bang.

HOUAISS gratuito por 15 dias

 

Dicionário Houaiss e Dicionário Aurélio.jpg

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— Faça o cadastro no site e experimente de graça, por 15 dias, o Houaiss eletrônico —

Comprei o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa em 2001, no dia do seu lançamento. Sob qualquer critério de avaliação, é o melhor dicionário que há no nosso idioma, elaborado à quase perfeição, com tanto zelo a ponto de ter sido impresso numa fonte especialmente criada para ele: a fonte Houaiss, na versão em papel.

Quando veio à tona essa falcatrua do Acordo Ortográfico, em vez de comprar, em 2009, o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa com a nova ortografia, optei por adquirir a 5ª edição do Vocabulário Ortográfico (VOLP) da Academia Brasileira de Letras, lançado naquele mesmo ano. Como eu já havia aprendido a usar todas as novas regras ortográficas desde o começo do ano de 2009, achei melhor continuar com o meu Houaiss de 2001, até porque o Houaiss de 2009, apesar de ter o mesmo nome do dicionário de 2001, trazia cerca de 82 mil verbetes a menos (a metade de verbetes de um Aurélio). Por conta disso, o Houaiss de 2001 passou a se chamar Grande Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.

Com o passar dos anos, aguardei impacientemente uma nova edição do Grande Houaiss, mas ela nunca chegou, uma vez que seria um prejuízo enorme lançar um dicionário desse porte e, mais dia menos dia, ter-se as regras ortográficas modificadas de novo. Sim, porque a se levar a sério os rumores, é o que vai acabar acontecendo. Nestes termos, a editora Objetiva achou melhor disponibilizar a 2ª edição do Grande Houaiss (revista, ampliada e na nova ortografia) apenas na versão eletrônica, na nuvem, com acesso às suas mais de 232 mil entradas somente on-line. Até aí, tudo bem. Antes isso do que nada.

Mas como todo paraíso está conectado a um inferno, o preço pela assinatura do dicionário é, para os meus bolsos, exorbitante. Setenta e cinco reais mensais.

O Grande H Corportivo é acessado através de login e senha disponibilizados enquanto os pagamentos estão sendo feitos. O valor de R$ 75 dá direito a três logins; se você juntar um grupo de 3 amigos, cada um pode entrar com uma cota de R$ 25. Para baixar o valor da assinatura por usuário, só aumentando o grupo: 10 logins custam R$ 150, o que daria R$ 15 para cada um dos dez participantes, e assim por diante.    

Caso você tenha interesse em testar o Grande Dicionário Houaiss versão eletrônica, ainda sem prazo para a versão em papel, precisará seguir os seguintes passos:

1º) Clique na imagem que abre esse texto (ou no link abaixo) para ser direcionado à página de cadastro; lá você precisará fornecer nome, CPF, endereço residencial, telefone e e-mail, através do qual receberá imediatamente um login e senha para acesso gratuito ao dicionário por 15 dias.

http://www.houaiss.net/corporativo/wizard.php

2º)  Baixe o aplicativo Grande H Corporativo (iOs ou Android);

3º) Entre no aplicativo (tablet ou celular) com o login e senha fornecidos no e-mail que você recebeu (para acesso a partir do seu computador, a página é essa: http://www.iah.com.br/sp/hcorporativo.php).

E divirta-se com o melhor dicionário do mundo.

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assinatura esotérica

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Nesse vídeo de um canal esotérico do YouTube, um “mestre” ensina como ter uma assinatura de sucesso. Eu fui lá ver, que de bobo eu não tenho nada, mas já me preparando para o pior, porque eu sei o que a palavra esotérico significa: é uma “ciência” (entre aspas, porque eu tenho vergonha na cara) fundamentada em conhecimentos de ordem sobrenatural.

O tal do mestre explica, por exemplo, que não se deve terminar a assinatura numa linha descendente, porque assinaturas que terminam assim dificultam a obtenção do sucesso. Isso me soou muito parecido com um conselho que minha avó me dava para nunca deixar viradas as minhas chinelas havaianas, porque uma chinela virada causa a morte de um dos nossos pais.

Ora bem! Se tem uma coisa que parece não importar muito aos esotéricos é a tal da fonte: de onde o mestre tirou aquela informação de que terminar uma assinatura com uma linha descendente vai atrapalhar a vida de alguém? Eles não se importam, como eu não me importei em perguntar à minha avó quantos pais já haviam morrido por conta daquele descuido dos filhos com suas sandálias de dedo.

O fato é que eu cresci e, por algum motivo, minha mente não consegue visualizar nenhuma mágica no mundo. Tudo tem sempre uma explicação lógica e racional ou, pelo menos, uma explicação lógica e racional para não ter uma explicação ainda. Para muita gente eu sei que deve parecer chato isso, mas eu não acho. Eu me sinto muito à vontade vivendo numa dimensão em que as relações de causa e efeito são sempre bem claras: se eu gastar mais do que ganho, vou ficar endividado; se comer bastante pizza e passar muito tempo vendo Netflix, eu vou ficar gordo. Por isso que, quando alguém me diz que meu sucesso depende do ângulo da linha com que eu termino minha assinatura, a coisa mais natural do mundo para mim é querer saber por quê.

O que geralmente ocorre, nesses casos, é que a resposta nunca é satisfatória. Quando muito, só gera mais perguntas que, ao fim e ao cabo, vão revelar o que eu já sei: toda afirmação “esotérica” é baseada apenas no alegado conhecimento oriundo de uma dimensão mágica, portanto, impossível de ser explicada. E eu diria também impossível de ser confirmada.

Deus significa outra coisa

jesus na cruz

Deus é uma invenção da mente humana. Um amuleto. Uma muleta.

Quando um cristão diz “Vá com Deus”, ele está expressando sua vontade de que o criador de todo o universo acompanhe a pessoa da qual ele se despede, visto que, sendo todo-poderoso, Deus supostamente daria um excelente guarda-costas. Mas, como Deus não existe, o crente está dizendo apenas isso: “Espero que você chegue ao seu destino sem que nada de mal lhe aconteça”.

Quando diz “Se Deus quiser”, o cristão aparentemente está sugerindo que tudo acontece de acordo com as vontades do ser onipotente que detém o controle sobre todas as coisas, e que, assim sendo, ele está esperando que algo que ele deseja que aconteça também faça parte dos planos divinos. Mas, como Deus não existe, você pode substituir “Se Deus quiser” por “tomara que”, que dá no mesmo.

Quando exclama “Deus me livre!”, o crente poderia fazer alguém supor que ele espera que a divindade na qual ele foi ensinado a acreditar irá intervir em seu favor, evitando que algum mal o atinja. Mas, como Deus não existe, ele está apenas manifestando sua predisposição de sequer imaginar-se vítima desse mal.

Quando diz “Deus te abençoe”, o crente tenta se sentir suficientemente íntimo de seu “pai celeste” para pedir favores para uma outra pessoa, de forma a que aconteça um monte de coisas boas na vida daquela pessoa, mesmo sem que ela se esforce para tal, ou mesmo que não mereça, do ponto de vista do próprio Deus. Mas, como Deus não existe, ele só está dizendo “Espero que dê tudo certo pra você”.

Quando diz “Deus escreve certo por linhas tortas”, ele está querendo dar a entender que, mesmo quando acontece algo de terrível, maléfico, injusto, etc., aquilo faz parte dos planos de sua divindade cósmica particular, e que essa divindade quer mesmo que aquilo ocorra para desdobrar tais eventos em algo de bom, positivo, benéfico, etc. Mas, como Deus não existe, ele está dizendo: “Uma vez que isso já é fato consumado, agora é fazer por onde superar o ocorrido e continuar tocando a vida”.   

Quando ele diz “Graças a Deus!”, o crente está supostamente afirmando que algo de bom lhe aconteceu devido à intervenção de um protetor onipresente que sempre ouve suas preces e o protege de perigos. Mas, como Deus não existe, o que ele quer dizer é, simplesmente: “Ainda bem!”.

Quando o crente diz “Deus te perdoe”, teoricamente ele está manifestando seu desejo de que o bondoso criador do universo não cumpra a ameaça de mandar torturar você por toda a eternidade, no caso de você se recusar a gostar dele. Na verdade, o crente quer mesmo que você se dane, mas, como Deus não existe, isso não faz a menor diferença. 


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