Hífen — um castigo divino (4)

HyphenOrNot 

Ter adquirido o conhecimento de todas as regras do hífen foi o mesmo que ter mordido de novo aquele fruto proibido. Fui expulso do paraíso da ignorância, onde vivia feliz, para ser lançado no inferno da confusão e da dúvida. Hoje eu sou punido pela simples condição de saber. Que tipo de pecador mereceria tamanho castigo? Que tipo de deus se prestaria a aplicá-lo? 

A regra diz que o “h” e o hífen devem ser mantidos nos compostos, para que não se perca o traço etimológico: geo-história, super-habilidadeanti-higiênico. Mas diz também que o hífen desaparece quando o segundo elemento tiver perdido o “h” inicial: inábil, desumano, coabitar, reaver. Como que eu vou saber se o segundo elemento perdeu aquela letra? Só vendo no dicionário; donde se conclui que conhecer a regra é completamente inútil.

Se eu quiser escrever que fulano herdou algo junto com sicrano, eu tenho que pôr “co” e “herdeiro” numa palavra só. Segundo o VOLP, a palavra resultante é coerdeiro; segundo o Houaiss, tanto faz coerdeiro como co-herdeiro.    

Se o prefixo terminar com a mesma vogal que inicia o segundo elemento, o hífen é obrigatório: anti-inflama-tóriomicro-ondas, contra-ataque. Mas nem sempre, e não dá para dizer por quê: reescrever, reeleição, reencarnação, cooperar, coordenar.

No caso do prefixo “sub-”, às vezes o hífen entra para ajudar na pronúncia, às vezes ninguém se importa com isso. Então, como não dá para aplicar a regra da duplicação das consoantes em, por exemplo, sub-raça e sub-reitor (“subrraça”, “subrreitor”), porque iria ficar esquisito demais, escreve-se com o hífen para não se ler “subraça” /subráça/ e “subreitor” /-brei-/. Estranha-mente, entretanto, não se põe hífen em sublocar e sublinhar (o Houaiss ensina que a pronúncia correta é /sub-locar/, para sublocar; já sublinhar tanto se pronuncia /sub-li/ como /su-bli/). 

Com os prefixos tônicos “pós-”, “pré-” e “pró-” deve-se usar o hífen. Mas, diferentemente de quem escreveu essa regra, eu não consigo enxergar se o prefixo tem ou não acento quando falo ou penso numa palavra. Por conta disso, vou sempre ter que recorrer ao dicionário para descobrir, por exemplo, que “pré-existência”, “pré- -estabelecer”, “pós-tônico” e “pró-ativo” se escrevem assim: preexistência, preestabelecer e pós-tônico. Já “pró-ativo” pode ser dos dois jeitos, com e sem hífen: pró-ativo/proativo

E para piorar ainda mais as coisas, ninguém mais se entende quanto ao que é locução ou palavra composta. O dicionário Houaiss registra dia a dia, maria vai com as outras e pé de cabra (a ferramenta) como sendo locuções, respectivamente nas entradas “dia”, “maria” e “pé”. No VOLP, isso tudo aparece como verbetes, ou seja, para a Academia Brasileira de Letras, esses grupos de palavras são substantivos, assim mesmo sem hifens.

No texto do Acordo Ortográfico de 1990, incluindo as notas explicativas, foram as Bases legislando sobre o emprego do hífen que mais mereceram meu estudo e atenção, relidas vezes sem conta. O fruto desse conhecimento não serviu para mais nada além de me condenar à mesma incerteza dos ignorantes*. Hoje, tudo que sei sobre o hífen me obriga a considerá-lo mesmo como um castigo divino.

Deus, rejeitado e desprezado por mim; inconformado com o prazer e com a paz que me dá esse simples ato de escrever; não sabendo como me atingir, achou ele um meio de imiscuir-se entre mim e o teclado. E não podendo me condenar ao Inferno, ele inventou esse tracinho “mal-dito” para me torturar com o medo das exceções, o sofrimento da eterna divergência entre os dicionários, a angústia dos caprichos de uso, e a agonia da translineação.

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* Aqueles que ignoram as regras que eu li.

Hífen — um castigo divino (3)

AO90

«Aprenda a regra e decore as exceções» foi o primeiro bom conselho que eu lembro ter recebido na vida. Ele veio de um professor de português na quinta série. Isso funcionou perfeitamente bem para mim até 2009, quando li pela primeira vez a regra 1) da Base XV do Acordo Ortográfico de 1990, que trata do emprego do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares.

A regra lá diz que eu devo escrever com hífen a palavra composta formada de outras palavras independentes na língua, como guarda-chuva. Ora, “guarda” (flexão do verbo guardar) e “chuva” são duas palavras que se juntaram  para   formar   um   novo  vocábulo: guarda- -chuva; daí o hífen. Pelo mesmo motivo se escreve, por exemplo, para-raios: “para” (flexão do verbo parar) e “raios” (plural de raio).

Deixa ver se aprendi: se eu tiver duas palavras “soltas” que se juntam para formar uma outra coisa, eu taco hífen nela! Manda-chuva. Gira-sol. Para-quedas. Que simples! Adoro quando as coisas têm lógica.

Acontece que, sendo um simples tracinho, ninguém pensou que ele fosse precisar de lógica. Mandachuva, girassol e paraquedas são escritas assim, sem hífen. Jesus, Maria, José! Que disparate é esse? Ah!, mas é claro: são exceções à regra geral. Nossa!, que susto! Meu professor me alertou mesmo para esse tipo de coisa; é preciso decorar as exceções. No caso da Base XV, sobre o hífen nos compostos, as exceções são: girassol, madressilva, mandachuva, pontapé, paraquedas, paraquedistas, etc.  

Etc.??! Tá louco?

A partir de para-raios e paraquedas, como diabos eu escrevo paralama/para-lama? Só mesmo recorrendo ao VOLP*: para-lama. Mas, ora! Sem uma lista completa das exceções, eu vou ter sempre que recorrer ao dicionário. De que adiantou saber a regra 1) da Base XV se precisei consultar no VOLP como escrever para- -lama?

A pessoa que fez essa regra, quando terminou de botar o ponto do etc., deveria ter usado o backspace do teclado e apagado todo o texto até chegar no número 1), e recomeçado assim: 

  1) Para palavras compostas, consulte nosso Vocabulário Ortográfico.

Simples: sem regras e sem exceções; prático: porque é assim mesmo que tem que ser; e útil, porque deixa o leitor com mais tempo para tentar entender as loucuras da regra número 6).

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*VOLP: Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (ABL, 5ª ed., 2009)

Hífen — um castigo divino (2)

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O Acordo Ortográfico de 1990 foi implementado com o objetivo de unificar a língua portuguesa escrita. Segundo seu próprio texto, já haviam tentado isso em 1931, 1943, 1945, 1971, 1973, 1975 e 1986. Depois de todos esses fracassos, alguém achou, por algum motivo, que em 1990 o negócio iria dar certo! Não deu.

Aliás, tomando por base estudos de linguistas portugueses, opositores ao Acordo argumentam que o número de palavras que são escritas de forma diferente no português brasileiro e no português europeu aumentou depois da reforma ortográfica. Agora chupa essa manga! A propósito, chupa essa manga é uma expressão idiomática escrita do mesmo jeito na nova ortografia e na antiga. Mas não é isso que garante que um moçambicano, por exemplo, vá entender o que eu escrevi. É provável até que muitos brasileiros não entendam, porque certos aspectos do idioma podem ficar restritos a pequenas regiões, a uma determinada faixa etária, ou mesmo a um grupo específico de falantes.

A comunicação escrita vai muito além da ortografia. Não entendo como ninguém na Academia Brasileira de Letras ou na Academia das Ciências de Lisboa se deu conta disso. E olha que eles tiveram quase todo o século 20 para pensar no assunto! Brasil e Portugal são culturalmente diferentes, e a maneira como se escreve é uma das manifestações da cultura. O dano à minha identidade cultural com a perda do acento agudo e do trema devido a uma «idéia inconseqüente» pode ser comparado a um arranhão em face da amputação sofrida pela língua-mãe, que perdeu suas consoantes mudas e encontra-se agora nesta «aflicta objecção». 

Eu já escrevo na nova ortografia desde 2009 e, para ser sincero, nada na reforma ortográfica me incomoda… exceto essa maldição de Deus: o hífen.

Antes de voltar a esse tema, porém, divulgo abaixo o vídeo de uma explicação bem convincente do Sr. Sérgio de Carvalho Pachá, demitido de sua função de lexicógrafo-chefe da ABL por não ter concordado com o real motivo por trás do Acordo Ortográfico de 1990.

 

Breviário de Decomposição


breviário de decomposição

Senhor,

Dá-me a faculdade de jamais rezar; poupa-me a insanidade de toda adoração; afasta de mim essa tentação de amor que me entregaria para sempre a Ti.

Que o vazio se estenda entre meu coração e o céu!

Não desejo ver meus desertos povoados com Tua presença, minhas noites tiranizadas por Tua luz, minhas sibérias fundidas sob Teu sol.

Mais solitário do que Tu, quero minhas mãos puras, ao contrário das Tuas que sujaram-se para sempre ao modelar a terra e ao misturar-se nos assuntos do mundo.

Só peço à Tua estúpida onipotência respeito para minha solidão e meus tormentos. Não tenho nada a fazer com Tuas palavras.

Concede-me o milagre recolhido antes do primeiro instante, a paz que Tu não pudeste tolerar e que Te incitou a abrir uma brecha no Nada para inaugurar esta feira dos tempos, e para condenar-me assim ao universo, à humilhação e à vergonha de existir.

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(Breviário de Decomposição, de Emile M. Cioran. Livro completo escaneado «Aqui»)

 

Deusilusão no Twitter

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Sinal de Deus

 

15Um semáforo de pedestres aqui perto parou de funcionar há semanas e ninguém notou. Isso porque as pessoas continuam fazendo o que sempre fizeram desde quando o equipamento foi instalado: elas andam na calçada até chegar nele, apertam o botão e, em menos de um minuto, decidem cruzar a avenida por sua própria conta e risco, deixando, logo após, uma fila de carros se formar ante uma faixa de pedestres completamente vazia.

Agora, com o aparelho pifado, mesmo que aquele apertar de botão tenha se tornado apenas um ritual inútil, os pedestres continuam se reunindo bovinamente perto do semáforo, para cruzar a avenida do mesmo jeito: sem esperar pela intervenção de uma luz vermelha divina que interrompa o tráfego em seu nome.

Por que ninguém percebeu que o semáforo parou de funcionar? Porque as pessoas de fato nunca dependeram dele para atravessar uma avenida de pouco movimento. O sinal inoperante virou um tipo de religião; ele tem agora apenas a função de juntar seres humanos em volta de uma ilusão comum: a ilusão de que algo maior do que eles intercede em seu favor sempre que solicitado. Mas, na verdade, assim como também fazem com seu próprio Deus, cada um segue sua vida e seu caminho como se o semáforo de pedestres não existisse.

Hífen — um castigo divino

VOLP

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Eu poderia ter escrito o título acima com um hífen (-) no lugar do travessão (–). Ficaria bem estiloso e original porque o tema do texto de hoje apareceria representado duas vezes: por extenso e como sinal gráfico. Mas desisti da ideia, talvez movido pelo ódio que eu sinto por esse tracinho maldito que, segundo a Dad Squarisi, é um castigo de Deus. Além disso, gramaticalmente falando, estaria errado pôr um hífen ali. Com o travessão, é outra história, porque ele está com o mesmo papel dos dois-pontos, mas essa função não poderia ser desempenhada pelo hífen, que habita apenas o interior dos vocábulos.

O travessão, assim como os dois-pontos, é um sinal de pontuação, enquanto que o hífen é um sinal de que a gente está prestes a cometer um erro de ortografia.

O hífen já era amaldiçoado muito antes do Acordo Ortográfico entrar em vigor, mas, depois dele, teve aumentada a polêmica em torno de sua tracejante existência. Alega-se que as regras de emprego do hífen eram complicadas, porém tinham uma “certa lógica”; agora, com a reforma ortográfica, elas continuam complicadas e sem lógica alguma.  

Por exemplo, por que dois-pontos se escreve com hífen e ponto e vírgula se escreve sem?; por que para-choque tem hífen e paraquedas não tem?; por que baba-de-boi se escreve com hifens e baba de moça não?; por que cor-de-rosa se escreve assim e cor de laranja, assado?; no que a palavra pé-de-meia difere de pé de moleque, para se pôr hifens em uma e não na outra? Eu, particularmente, sei as respostas para todas essas perguntas; meu ódio pelo hífen é por outro motivo. 

Antes de revelar o que me entoja nessa praga divina, revelo que o prof. Sérgio Nogueira, no YouTube, acabou ajudando seus alunos a cometer mais pecados ortográficos do que normalmente eles já cometem por conta prórpria. Neste vídeo, sobre as novas regras do Acordo, ele ensina que pé de cabra (a ferramenta) e não me toques (sinônimo de melindres) são palavras compostas escritas com hífen, o que está errado. Por quê? A explicação mais simples e rápida: essas palavras constam como entradas do VOLP (imagem e link acima) e aparecem lá sem hífen. A explicação mais detalhada é a que segue.

Nos compostos (=palavras que se formam de outras) não se emprega o hífen quando eles já aparecem “ligados” por uma palavra da língua (que fará o papel do hífen). Daí a razão de ponto e vírgula, baba de moça (=um tipo de doce), de moleque, de cabra e não me toques.

No caso das locuções (=grupo de palavras com um sentido específico) não se põe hífen de jeito nenhum*: cor de laranja, passo a passo, dia a dia, lava a jato**, de alto a baixo, pôr do sol, etc. A locução não deverá ser hifenizada mesmo quando ela aparecer na frase se passando por um substantivo: “O passo a passo que ele elaborou está cheio de erros”. Pelas regras antigas, passo a passo seria hifenizado no exemplo acima. 

Agora, quanto àquelas incongruências, é o seguinte:

Baba-de-boi, que é um tipo de palmeira, leva hífen porque atende à regra das palavras que designam espécies botânicas e zoológicas, que sempre serão hifenizadas: bem-te-vi (pássaro), bem-me-quer (flor), pé-de-cabra (planta), não-me-toques (flor).

pé-de-meia e cor-de-rosa devem ser escritas com hífen pelo mesmo motivo que paraquedas deve ser escrita sem ele: porque a ABL assim convencionou, alegando força da tradição. 

Como eu disse, não é por conta de todos esses senões que eu odeio o hífen. Eu odeio o hífen por causa da Base XX do Acordo Ortográfico, que trata da divisão silábica, segundo a qual o hífen da palavra composta deve ser escrito no início da linha seguinte, quando ele coincidir com o hífen da translineação, que é a divisão de uma palavra entre o fim de uma linha e o começo da outra. Por exemplo, se a palavra para-choque não cabe numa linha, ela poderá ser translineada assim: para-, com o hífen da divisão silábica no fim da linha e, iniciando a linha seguinte, -choque, com o hífen do composto. Em paraquedas, a translineação seria feita apenas com o hífen da divisão silábica, no fim da linha, para-, e quedas iniciando a linha de baixo.

Muito simples de se entender, mas um inferno para se executar quando o texto digitado difere da apresentação “impressa” na tela, como é o caso de várias plataformas na internet, como esta na qual estou escrevendo agora.

Ah, Deus!

O Inferno vá lá, mas o Hífen, tenha misericórdia!

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*Segundo a Nota Explicativa que acompanha o Acordo Ortográfico, por estarem consagradas pelo uso, somente as locuções listadas no texto da Base XV devem receber hífen. São elas: água-de-colônia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-ropa.

**Há também “lava-jato”, mas é substantivo.

 

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