A Bíblia é um “self-service”

A Bíblia é um grande self-service onde o crente escolhe o que melhor lhe convém acreditar, ao mesmo tempo em que fecha os olhos, de muito bom grado, a tudo o mais que não lhe agrada, que lhe parece extremamente absurdo, ou que vai de encontro aos seus próprios valores morais. Você é racista, sexista, escravocrata? Não? Pois Deus é. Pelo menos seria se tudo o que está na Bíblia fosse verdade, mas como escreveu Archer L. Gleason:

“Se os registros bíblicos podem se mostrar falhos nos assuntos que podem ser verificados, então a Bíblia dificilmente pode ser considerada uma fonte confiável acerca dos assuntos que não podem.”

Os crentes também fecham os olhos para tudo de mal que é feito em nome do seu livro sagrado. O “Santo” Padre Urbano II garantiu aos cavaleiros medievais que iriam lutar nas Cruzadas que matar os “infiéis” não era pecado. Quando a cidade de Beziers, no Catar, foi sitiada em 1209, os soldados mandaram perguntar ao papa como eles iriam diferenciar os crentes dos infiéis entre os que estavam na cidade. A resposta veio rápida: “Matem todos. Deus saberá quais são os Dele.” Perto de vinte mil pessoas foram, então, massacradas: muitos tiveram os olhos arrancados, ou foram arrastados até a morte puxados por cavalos, ou serviram como alvos vivos para exercício de tiro.

“Com ou sem religião, pessoas boas podem se comportar bem e pessoas más podem praticar o mal; mas, para pessoas boas praticarem o mal, é necessário Religião.” ( Frase de Steve Weinberg, físico americano, ganhador do prêmio Nobel de física em 1979, autor do clássico Os tês primeiros minutos, que trata da origem do universo.)

O Velho Testamento está repleto de atrocidades cometidas em nome de Deus. Isso raramente é mencionado nos sermões de domingo. Qualquer um pode conferir por si, mas quero mencionar uma das piores:

“Matai, pois, todos os varões, mesmo os de tenra idade, e degolai as mulheres que conheceram homens se deitando com eles; mas todas as jovens que não tiverem conhecido homem se deitando com eles, estas reservai para vós.” (Números, 31:17-18 )

A grande maioria dos cristãos descarta essa e outras tantas carnificinas como sendo anacrônicas e imaginando que tais coisas foram eliminadas com a vinda de Jesus. Só que, no Novo Testamento, Jesus frequentemente reafirma a lei dos profetas:“Não julgueis que vim abolir a lei ou os profetas; não vim para os destituir, mas sim para os cumprir.” (Mateus, 5:17) E a lei não só permitia, como incentivava e regulamentava a escravatura: “Quando comprares um escravo hebreu, ele te servirá por seis anos; ao sétimo será posto em liberdade, de graça.” (Êxodo, 21:2) Jesus teve inúmeras chances para repudiar a escravatura. Mas ele nunca fez isso.

Mas o crente sempre parece escolher o que seguir na Bíblia, no que acreditar, guiado por uma luz interior pessoal. E é essa mesma luz interior que guia os não crentes. Mesmo se você negar que há discrepâncias entre o comportamento dos crentes e o que lhes é ensinado nas suas escrituras sagradas, o fato empírico de que os não crentes de forma alguma se mostram menos virtuosos provê uma forte evidência de que a moral e os valores vêm da própria humanidade. O nosso comportamento social se mostra exatamente como seria esperado que se mostrasse mesmo não existindo Deus algum.

NOTA: Esses dois últimos parágrafos e o trecho sobre a carnificina encomendada pelo Papa Urbano II foram traduzidos do livro de Victor Stenger God: The Failed Hypothesis ainda sem versão em português.

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7 Respostas

  1. Sensacional como sempre. Será que as pessoas não lêem a bíblia. O terror está por lá em muitos versículos. E todos podem tirar uma “tasquinha” para os seus próprios usufruto. Daí a quantidade de denominação….Tudo é fácil…..podem criar a igreja assassina dos ateus a qualquer hora….está escrito!
    em várias passagens….
    loucura!

  2. Segundo C.Hitchens, autor de “deus Não É GRANDE”, a Bíblia é o livro mais vendido do mundo; e o menos lido.

    Concordo com você sobre a “Igreja do Extermínio dos Ateus”. Como pipocam igrejas novas todos os dias, talvez não tarde a aparecer uma assim. Existem mais denominações de igreja do que marcas de sabonete. Eu vou falar sobre isso em breve no blog.

    Mas, se a gente for levar em conta o livro deles, estão apenas seguindo a palavra de Deus, que ordena ao seu povo para destruir tudo, não deixar pedra sobre pedra, numa eventual cidade a que eles cheguem e descubram lá que não é a Deus que eles cultuam. O Corão diz que o islamismo tem que ser difundido pelo crente pela espada.

    É a isso que se resolveu chamar de religião. Eu dou um nome mais simples e correto de loucura.

  3. Sim.pois é. e o pior são sectários, paternalistas, defendem-se entre si..imagina meu irmão tinha um emprego e foi perseguido porque não era crente..acredita? Sou ateu mas porque eu perseguiria os cristãos, espíritas, xintoístas, budistas?
    não…claro que em se trantando de protestantes eles são insistentes, incovenientes, chatos pra que nós nos convertamos…na religião deles..
    Se não tivermos mentes abertas….vai ter o dia da perseguição aos ateus…rsrsrsrsrsrs como ocorreu com meu irmão…rsrs
    abraço

  4. só corrigindo anteriomente, corporativistas….tb

  5. Caro amigo Barros, gostei muito do blog e da forma honesta como você coloca sua ideias. Andei passeando pelo seu diário e apesar de não ser ateu, como você bem sabe, gostei do tom investigativo e de aparente abertura de sua parte para o contraditório, vou linkar seu blog nos favoritos e participar dos debates quando tiver algo a dizer. Abraço Azul.

  6. Gilson, meu amigo, que bom que você gostou.

    Sugiro que você leia os meus: melhores textos.

    Abraço

  7. Só para atualizar, a barbárie cristã não é coisa medieval. Recentemente na guerra do Líbano a Falange, facção cristã que apoiava o presidente Bechir Gemayel (assassinado supostamente por grupos paramilitares islâmicos), massacrou centenas de famílias palestinas nos campos de refugiados de Sabra e Shatila em retaliação, tudo com a supervisão e indiferença do exército israelense.

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