Uma viagem até as estrelas

Minha tradução do tópico “Humanity in Space” (pág. 157), Cap. 5: O Universo Incompatível, do livro God: The Failed Hypothesis:

uma-viagem-ate-as-estrelasMuito já foi dito sobre as viagens espaciais. É propaganda enganosa como a busca por novos mundos é comparada às explorações europeias nas Grandes Navegações. Filmes como Jornada nas EstrelasGuerra nas Estrelas levam as pessoas a pensar que, algum dia, tudo o que teremos que fazer é entrar numa espaçonave e cruzar a galáxia numa velocidade colossal. Cada planeta em que pousarmos é imaginado como tendo uma atmosfera e outras condições suficientemente parecidas com as da Terra que permitirão que andemos a vontade sem trajes espaciais. Dessa forma, e isso é tido como provável por muitos, a humanidade irá, gradualmente, povoar o universo.

Só que isso não é tão fácil quanto dizer: “Assuma o comando, Sr. Spock.” Vamos considerar alguns números. Uma espaçonave a 11,1 km/s, que é a velocidade de escape da força gravitacional da Terra, levaria 14.000 anos para chegar a Alfa Centauro, o mais próximo sistema estelar. Essa mesma espaçonave levaria 3 bilhões de anos para cruzar a galáxia. A mais otimista estimativa é de que planetas assemelhados à Terra estejam separados, em média, por 500 anos-luz, dependendo de como você defina “assemelhado”. Isso seria o equivalente a uma jornada em que os tripulantes passariam por 16 gerações, e isso viajando-se a uma velocidade próxima à da luz. Aqui, vale a pena ressaltar, para encontrar um planeta apenas sendo considerado assemelhado à Terra, o que não significa que seria um em que os humanos poderiam viver sem qualquer auxílio à vida. Na verdade, não é provável que estejamos aptos a viver na grande maioria desses planetas desde que não é provável que eles sejam exatamente como a Terra em cada detalhe necessário para a sobrevivência humana.

A Teoria Especial da Relatividade de Einstein torna, em princípio, possível atingir qualquer lugar no universo no tempo de vida de um astronauta a bordo de uma espaçonave. A nave só teria que viajar rápido o bastante em relação à Terra. De acordo com o que é chamado de “dilatação do tempo”, o tempo num relógio em movimento passa mais devagar do que num outro em repouso. Em um efeito relacionado chamado “contração Fitzgerald-Lorentz”, o comprimento de um objeto se contrai na direção do seu movimento. Esse fenômeno que desafia nossa senso comum de espaço e tempo tem sido amplamente confirmado em experiências e outras observações.

O jeito que isso se aplicaria para a nossa espaçonave seria o seguinte. Dentro dela, nossos astronautas não experimentariam qualquer diminuição de ritmo dos seus relógios biológicos, que estariam de acordo com todos os outros relógios a bordo da aeronave. Só que a distância da Terra até o seu destino iria se contrair, enquanto medida a partir do seu próprio ponto de vista. Uma pessoa na Terra mediria a distância usual entre os objetos astronômicos, mas notaria que os relógios da espaçonave marcariam o tempo mais vagarosamente e os astronautas envelheceriam mais lentamente.

Digamos que fôssemos capazes de construir uma espaçonave que pudesse manter uma aceleração constante g, isto é, a aceleração da gravidade na Terra, que iria também proporcionar o conforto de uma gravidade artificial para os nossos astronautas. Essa nave chegaria em Alfa Centauro em 5 anos após o seu lançamento na contagem dos que ficaram, mas os astronautas teriam registrado uma viagem de pouco mais de 2 anos. Em 11 anos, no tempo marcado na nave, eles atingiriam o centro da nossa galáxia. Mas nesse mesmo período, quase 27.000 anos teriam se passado na Terra. Depois de 15 anos contados pelos astronautas, de acordo com os relógios a bordo, eles teriam chegado a Andrômeda, a 2,4 milhões de anos-luz de distância. Mas, então, uma vez que toda a viagem foi feita próximo da velocidade da luz, os mesmos 2,4 milhões de anos também teriam se passado na Terra. E após 23 anos de viagem os astronautas teriam cruzado as fronteiras do universo hoje conhecido, mas 13,7 bilhões de anos teriam se passado numa, já há muito extinta, Terra.

Caso os astronautas optassem por parar em qualquer um desses pontos na sua viagem para explorar planetas assemelhados à Terra, então esses tempos teriam que ser duplicados, uma vez que eles só poderiam acelerar durante metade da viagem, sendo toda a outra metade empregada na desaceleração até parar no planeta escolhido.

O fato inevitável parece ser que as pessoas que se dispusessem a explorar o universo iriam, efetivamente, se “apartar” da Terra. Mesmo que eles fossem apenas até o centro da Via Láctea e voltassem 40 anos mais velhos, eles regressariam para uma Terra no futuro, 104.000 anos após a data do lançamento. Basicamente, qualquer humano que fizesse uma “jornada nas estrelas” deixaria para sempre a sua família, a sua sociedade, e mesmo a sua espécie.

Note que eu não declarei qualquer limitação técnica para argumentar que voos espaciais para as estrelas e galáxias são impossíveis. Apesar de que um método para acelerar uma espaçonave para bem próximo da velocidade da luz esteja além de qualquer tecnologia atualmente conhecida ou imaginada, nós não podemos descartar isso das futuras gerações.

Mas suponha que tais explorações, algum dia, realmente aconteçam. Quão parecido com a Terra um planeta tem que ser para que nós possamos viver lá? A vida na Terra evoluiu sob esse bem especial conjunto de condições que existe aqui. Nós estamos adaptados para viver na Terra e não em qualquer lugar no espaço. Nós não seríamos em nada pessimistas em imaginar que viajantes do espaço teriam que enfrentar uma jornada de dezenas de milhares de anos-luz, no mínimo, antes de encontrar um planeta em que pudessem desembarcar e morar sem que fosse preciso usar uma enorme parafernália de suporte à vida.

A ideia que frequentemente se tem é que a humanidade pode, algum dia, viver no espaço exterior, dentro de estações espaciais orbitando a Terra e outros planetas. Entretanto, mesmo se essas estações reproduzirem todas as condições da Terra, elas não poderão lidar com os raios cósmicos dos quais nós, na Terra, estamos protegidos pela atmosfera. Essa mesma ameaça proíbe viagens muito longas no espaço do tipo descrito acima. Mesmo as tão sonhadas missões a Marte exporia os astronautas a doses de radiação que encurtaria o tempo de vida deles. Viagens para fora do sistema solar iriam matá-los.

Talvez uma tecnologia futura resolva também esse problema. Talvez a engenharia genética fabrique novos tipos de seres humanos, realmente espécies novas, adequadas para viagens no espaço. E, claro, sempre poderemos mandar robôs.

Quaisquer que sejam as possibilidades imaginadas, a conclusão mais forte é que humanos não foram construídos para viver em qualquer lugar que não seja essa ínfima partícula azul no vasto universo. Talvez outras partículas semelhantes existam pelo universo afora, mas é improvável que o Homo Sapiens consiga encontrá-las. Nossa espécie está abandonada no cosmos, na espaçonave Terra, e estará extinta muito antes do Sol queimar seu último átomo de Hidrogênio.

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13 Respostas

  1. Que dizer? Nessa parte de viagens espaciais concordo com Stenger em gênero, número e grau, até mesmo por não entender nem perto do tanto que ele entende de física.
    A propósito, não acho muito provável a parte sobre a engenharia genética “fabricar” novos tipos de seres humanos.
    Também não gostei muito da expressão que ele usou, dizendo que os “humanos não foram construídos para viver…” afinal os humanos não foram construídos mesmo, seja para o que for, ou mesmo sem motivo.
    Mas concordo com ele, também acho que a nossa espécie estará extinta bem antes de os últimos átomos de hidrogênio se fundirem no Sol.

  2. Eu não dou muito tempo para a humanidade ser extinta do planeta

  3. Eu queria estar vivo para ver isso

  4. Larissa: vou dar uma olhada melhor no texto original para ver se isso não é “obra” minha. Acho improvável, porque eu sempre tenho muito cuidado com as traduções que faço, mas, como fui criado na crença católica, quem sabe uma parte do meu cérebro que ainda guarda aquelas crenças não tenha assumido o comando e colocado aquela palavra lá? Isso já aconteceu uma vez com Maomé, que, segundo dizem as próprias autoridades religiosas muçulmanas, copiou para o Corão alguns versos ditados pelo Diabo (o que inspirou o livro “Versos Satânicos” de S. Rushid).

  5. Lucas: eu gostaria muito de ter uma opinião contrária a sua, mas não tenho. E, de uma forma ou de outra, estamos já bem perto da próxima era glacial…

  6. ao dono do site: VAI PROCURAR O QUE FAZER!!!!!

  7. ao dono do site: VAI PROCURAR O QUE FAZER!!!!!

  8. Você diz procurar o que fazer, tipo: rezar um terço? me comungar? confessar meus pecados a um homem que estupra crianças e que faz parte de uma instituição que costuma emcobrir esse crime? ler a Bíblia? me ajoelhar e implorar por perdão à figura mitológica na qual você acredita? assistir a uma missa na qual o ponto alto é uma simulação de um ritual canibalístico??? não, obrigado.

  9. O seriado Jornada nas Estrelas não é sobre o futuro da raça humana, mas sobre o presente: fala sobre nossos dramas e preconceitos atuas, projetando-os no espaço apenas para baixarmos nossa guarda.

    De qualquer forma, é cedo demais para jogar mos a toalha com relação a viagens interplanetárias. Afinal, nem mesmo tentamos, ainda! Nos seriados citados são usados artifícios para se burlar as distâncias impossívies do espaço, como dobrar o espaço o cortar caminho por fendas espaciais. Talvez haja um atalho como este à nossa espera. Afinal, a física moderna tem pouco mais de 400 anos. Como Carl Sagan observou, nós mal molhamos nossos pés neste oceano de conhecimento.

    Fato é que é só uma questão de tempo, até que o próximo cataclismo varra este nosso pequeno planeta do mapa. É bom não estarmos por aqui, quando isto acontecer.

  10. Acho improvável, porque eu sempre tenho muito cuidado com as traduções que faço, mas, como fui criado na crença católica, quem sabe uma parte do meu cérebro que ainda guarda aquelas

    Saiba que é provavel,sim!
    O cérebro humano faz tranquilamente ”queima” de arquivos, Não é voce, e sim seu cérebro…Vai por mim.

  11. […] Uma viagem até as estrelas […]

  12. […] Uma viagem até as estrelas […]

  13. Parei antes do final, para não poluir a minha mente. Putzzz!!! Vá teorizar assim lá na…..!!!…

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