Deus, Alice e a Matrix – 1ª parte (1/5)

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“E desde então”, prosseguiu o Chapeleiro num tom pesaroso, “ele [o tempo] não faz mais nada que eu peço! Agora é sempre 6 da tarde!”

Um pensamento brilhante ocorreu à Alice. “Essa é a razão de todas essas coisas de chá estarem postas aqui fora?”, ela perguntou.

“Sim, é por isso”, disse o Chapeleiro com um suspiro. “É sempre hora do chá, o que não nos deixa tempo para lavar a louça entre as refeições.”

“Então vocês sempre ficam mudando de lugar, eu suponho”, disse Alice.

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“Exatamente”, disse o Chapeleiro, “à medida que as coisas vão sendo usadas.”

“Mas o que acontece quando vocês dão uma volta completa na mesa?” Alice resolveu perguntar.

“Acho que devemos mudar de assunto”, a Lebre Maluca interrompeu, bocejando.”

ALICE’S ADVENTURES IN WONDERLAND & THROUGH THE LOOKING-GLASS. Carroll, Lewis. A Gignet Classic: New York, 2000. pág. 72. Tradução: Barros.

As aventuras de Alice foram apenas um sonho. Ela, entretanto, nunca desconfiou que estava sonhando, assim como nós mesmos também não temos a consciência de que estamos dentro de um sonho, mesmo se sonhamos que estamos indo ao cinema completamente sem roupa. Quando estamos sonhando, a realidade passa a ser a realidade do sonho.

Eu escolhi o diálogo acima para chamar a atenção para o fato de que, mesmo sonhando, Alice percebeu que alguma coisa não fazia sentido: ora, se eles nunca lavavam a louça em que tomavam chá, e para ter louça limpa eles tinham que mudar de assento, o que acontecia quando usavam todos os lugares? Pareceu óbvio a Alice que, ao darem uma volta completa na mesa, eles acabariam chegando aonde haviam começado e encontrariam lá a louça suja que haviam deixado. E foi isso que ela perguntou. Mas ninguém respondeu; porque a resposta seria: “Não esquenta a cabeça: sonhos não têm esse tipo de lógica” — ou lógica nenhuma; e a surpresa do fim do livro seria, assim, indevidamente antecipada. Por isso a interrupção da Lebre Maluca.

Minha professora de catecismo fez isso comigo várias vezes. Ante as muitas perguntas que eu fazia durante as aulas, ela dava uma de Lebre Maluca e desconversava.

“Irmã, por que todo mundo abomina o ato de Judas se, de acordo com o plano divino, Jesus teria que ser traído por ele para ser crucificado e nos salvar?

“Irmã, a senhora disse que o sofrimento que há no mundo faz parte do plano de Deus, mas, sendo Todo-Poderoso, Deus não poderia ter feito um plano sem que houvesse nenhum sofrimento?”

“Irmã, se Jesus e Deus são um só, então, por que Jesus ficou em dúvida na cruz sobre se Deus o tinha abandonado? Se Jesus era, também, Deus, ele não teria que saber que ele mesmo não teria abandonado a si próprio?”

“Irmã, a senhora disse que as pessoas só irão para o Céu, para o Inferno ou Purgatório depois do Juízo Final. Para onde vão as almas nesse meio tempo?”

“Irmã, por que Deus teve que descansar no sétimo dia?”

E por aí afora. A questão é que ela nunca respondia. Ela falava e falava sobre um monte de coisas, sobre como Deus era bom, sobre como ele tinha tudo planejado, sobre como precisávamos ter fé, lia esse e aquele versículo da Bíblia e eu acabava ficando sem as minhas respostas. Como fez a Lebre Maluca, ela desconversava e tentava me manter no mesmo sonho que ela.

Porque se todos sonham o mesmo sonho ao mesmo tempo, por mais maluco ou maravilhoso que seja, ele passa a ser “a” realidade.

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Parte 2 –  Parte 3 –  Parte 4 –  Parte final

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14 Respostas

  1. hey Barros td tramkileza? eu sou ateu e pela primeira vez fui findo na historia do Santo Sudario. Ainda nao foi definitivamente provado como embuste, o que voce pensa disso. E um assunto que me roi por dentro porque quero ter as coisas bem claras!!!
    abraco

  2. Hermogenes: a última coisa que, por acaso, li a respeito, foi que o tecido tinha uma trama característica de uma época muito posterior aos dias de Cristo na Terra.

    De qualquer forma, se eu acreditasse que existe um Deus Todo-Poderoso que criou tudo o que existe e está me monitorando lá do Céu, eu iria me sentir muito frustrado em saber que houve uma época em que ele descia do trono dele e vinha aqui na Terra, pessoalmente, para resolver assuntos tão perfunctórios quanto se um homem devia ser morto ou não de acordo com a lei vigente (Números 15:32-36) e que, agora, esse ser supremo precisa que cientistas analisem um pedaço de pano para dizerem para mim que ele realmente existe — ou existiu.

    Acho que foi isso que Friedrich Nietzsche pensou quando concluiu que Deus estava morto.

  3. Não parece mesmo um exame de um fóssil???????

  4. A respeito do texto postado gostaria de fazer algumas considerações.

    Sobre os sonhos,quero dizer que eu muitas vezes sei que estou sonhando,e já ouvi falar sobre pessoas que passam pela mesma experiência.

    Isso mostra que a nossa consciência é algo real e poderoso,e que mesmo mergulhados em um devaneio de fantasia,temos noção de nossa própria existência e da realidade.E não vejo como isso possa ser um ponto à favor do pensamento ateu.

    Quanto a essas perguntas teológicas para as quais o autor do texto diz não ter obtido respostas…Bem,certamente há também perguntas para as quais o pensamento ateu é absolutamente incapaz de dar respostas melhores que aquelas dadas pela tal catequista citada no texto.

    Crer que todas as coisas surgiram do nada,sem nenhuma causa ou razão é algo ilógico.
    Crer que essas coisas que surgiram do nada pudessem,de forma totalmente aleatória e cega convergir para a formação da vida é completamente ilógico.
    Crer que essas coisas surgiram do nada e se combinaram para formar a vida,e que essa vida adquiriu consciência de sua própria existência é algo astronomicamente ilógico.
    Porém,crer que as coisas surgiram do nada,formaram a vida,e que essa vida não só adquiriu consciência de si mesma,mas ainda se tornou capaz de discutir sua própria origem e buscar verdades absolutas do universo onde vive(seja na religião,seja na ciência),pelo menos pra mim é algo infinitamente ilógico.

  5. Otimo texto cara, as pessoas mudam de assunto pois não sabem as respostas, e não querem pensar sobre isso, sempre quando eu deixo um crente sem argumento começa a pregação, ele nunca pensa a respeito do que eu falei, acho que é uma maneira de se proteger

  6. bom.. começando do início até ao fim do texto:
    “Irmã, por que todo mundo abomina o ato de Judas se, de acordo com o plano divino, Jesus teria que ser traído por ele para ser crucificado e nos salvar?”

    resposta:

    primeiro: acham que era um Deus Justo, se esse mesmo Deus impedisse que judas o traísse (Jesus)ao privá-lo das suas Acções?

    segundo: se não tivesse sido judas era outro pois a cabeça de jesus estava a prémio.era uma questão de tempo até jesus ir ser encontrado já que jesus não ia parar de ensinar as pessoas nas ruas.
    de qualquer forma era o que ia aconteçer.
    se Jesus tivesse sido mandado para outro lugar então era outra história(Deus é que saberia de antemão na mesma o que ia aconteçer, mas não pode privar ninguém das suas acções).
    ora bem julgo que tenha sido preçiso ser em israel pois era aí que a humanidade na altura mais errava e ainda ligava a Deus(para isso é que veio, para salvar ainda os que querem).

    “Irmã, a senhora disse que o sofrimento que há no mundo faz parte do plano de Deus, mas, sendo Todo-Poderoso, Deus não poderia ter feito um plano sem que houvesse nenhum sofrimento?”

    resposta:

    ora quando uma criança se “porta mal”, não merecerá castigo para aprender que o comportamento estava errado? não preçisará do Pai para a repreender, e o pai não tem legitimidade para a repreender já que ela própria está à espera de feddback de uma referência paternal? É que criança, só quer desafiar a autoridade mesmo! (refiro-me a Adão e Eva)nunca se questionaram sobre isto? se repararem nas crianças é mesmo isso que elas fazem (tenho exemplos muito próximos de mim disso).
    nota:
    não é porque Deus tinha um plano elaborado para eu vir a sofrer, cá na terra, mas simplesmente porque os meus antepassados me criaram, e por isso mesmo estou cá na terra. não por Deus me ter enviado para vir sofrer.
    agora porque é que Deus deu-nos a possibilidade de nos multiplicarmos é outra coisa. mas também é simples se Adão e Eva preçisavam de ser castigados, tinham que passar pelo sofrimento de também já não poder estar com Deus presençialmente(ficando sozinhos no mundo), não era triste uma vida inteira sem mais ninguém sem ser eles os dois?onde estaria o exemplo de amizade que tanto preçisamos ao invés de adão e Eva contentarem-se com o amor que tinham um pelo outro?

    “Irmã, se Jesus e Deus são um só, então, por que Jesus ficou em dúvida na cruz sobre se Deus o tinha abandonado? Se Jesus era, também, Deus, ele não teria que saber que ele mesmo não teria abandonado a si próprio?”

    resposta:

    primeiro:
    Jesus não ficou na dúvida se Deus(Pai) o tinha abandonado, ele tinha a certeza que o tinha abandonado naquele momento. pois bem, Jesus também tinha que ser, testado!…….se houver alguma duvida do porquê digam!

    segundo:
    Trindade(problema interessante).
    pois bem não são um só(fisicamente), mas sim três que trabalham em conjunto. se teem “telepatias” ou não, é especulação nem o acho relevante.
    “ninguém vai ao pai senão por mim” – não nos leva a pensar que nem tudo o que Deus Pai sabe, o filho ao invés de deus Pai, não o saberá?(também há hierarquias e posições no céu). (nem todas aas entidades (a saber , 3) que constituem Deus são iguais

    “Irmã, a senhora disse que as pessoas só irão para o Céu, para o Inferno ou Purgatório depois do Juízo Final. Para onde vão as almas nesse meio tempo?”

    resposta:
    Não há inferno, não há purgatório.(leia a biblía e interprete bem), depois de morrerem enfim são pó nas sepulturas, a ressurreição é que levanta do pó, antes do juízo final(volto a repetir, leia a biblia, livro interessante…)

    “Irmã, por que Deus teve que descansar no sétimo dia?”

    resposta:

    primeiro:
    sim perçebo que meta confusão (se Deus é tão Grande porque razão preçisaria de descansar?).
    ora bem, mas também pk é k eu descanso?tenho energia todos os dias. e porque é que todos descansam pelo menos um dia por semana? heheheehhe(também, eu não preçisaria)

    segundo:
    não acho que haja stresses no céu.
    mas depois de ter feito tudo, de certeza que haveria coisas a tratar, mas antes de começar a tratá-las pk não descansar já que o mundo não iria acabar? heheheheehhehehe

    espero que tenha respondido às respostas que a sua professora de catecismo nunca lhe deu:)
    volto a lembrar se houver mais dúvidas, sobre o que eu escrevi(posso não me ter dado a entender bem), estejam À vontade

  7. Nio: meu amigo, seja bem-vindo. Vejo que você tira as suas conclusões e respostas de um livro que você considera sagrado, portanto, imune a uma perguntinha que eu poderia lhe fazer em qualquer outra situação: “Por que você acha que eu deveria admitir que as coisas “são” como esse livro diz que “são”? Você me responderia que é porque ele “é” a “palavra de Deus” (justamente o motivo que aleguei acima).

    Ora, mas eu não considero a Bíblia como a palavra de Deus, porque, em primeira instância, não considero a possibilidade de Deus. Logo, não tenho como rebater seus argumentos nem contestar suas conclusões. Você está certo no seu mundo. Espero que continue lendo a série, pois você irá entender a que estou me referindo.

    Só queria, educadamente, sugerir que você considere o seguinte raciocínio:

    Só porque algo está escrito em um livro, não significa que esse algo é verdade. Se leio um livro que diz que Platão foi discípulo de Sócrates, eu tenho que pesar a possibilidade de isso ser verdade ou invenção, já que eu não tenho como comprovar isso. É um tipo de fé. Eu posso admitir que (1) Platão de fato existiu, (2) Sócrates idem e (3) Platão foi discípulo de Sócrates. Mas o fato de eu ter lido isso num livro não torna, automaticamente, nenhuma dessas três considerações verdadeiras. Eu também já li sobre um boneco de madeira que pediu para uma fada para transformá-lo em um menino de verdade.

    Como eu disse, é preciso “pesar” a possibilidade daquilo que você está lendo; eu pesei. Não creio que Pinóquio existiu. Deus, idem.

  8. Nio: esse trecho seu:

    bom.. começando do início até ao fim do texto”

    me lembrou o Rei de um dos livros de Alice — Através do Espelho –, que ordenou a uma testemunha no julgamento do caso do roubo das tortas:

    “Comece pelo início e quando chegar ao fim… pare.”

    Eu estou muito atento a esses livros… e, principalmente, aos seus personagens, mas você só vai entender por que no final da minha série de textos…

  9. sim..consdero-o sagrado, não por ser uma “estátua religiosa” mas sim por acreditar que todo o livro foi escrito factualmente e não inventado, só por si o livro já só conta factos e não denota algum indíçio de opinião no meio (no Velho testamento), mas sim, acredito que o livro de nome biblia seja veridico(para questionar a sua autenticidade já é outra história), mas adiante.
    E por isto tudo acredito que é verdadeiro (o livro) e que contém a palavra de Deus.

  10. a mais só queria comentar que também não é do pé para a mão que acredito que o livro é autêntico, de forma que se não fosse as profecias escritas na bilia não se terem verificado, também não a acreditava, tenho outras razões, mas trataria-se de questionar principios que deviam reger a sociedade mas por aí não vamos que seria enorme(muito longa) a explicação :S

  11. emeh
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  12. Você e suas teorias . O pior que minha professora de catecismpo tbm deixou de me dar algumas respostas, ou pq não sabía , ou era despreparada ou então pq na verdade não tem. ainda tenho varios pontos de ???????

  13. Mário Quntana disse certa vez que o bicho para fugir cria um buraco no chão. O homem para fugir de si mesmo cria um buraco no céu.
    Penso que esse céu é uma espécie de histeria coletiva. Lá todos escutam vozes a dizer coisas absolutamente psicóticas.
    Já que citei Quintana, cito Saramago:- Leiam CAIM.

  14. Valeu pela dica. Vou ler sim.

    Olhando agora as datas dos comentários, percebi que deixei de responder o do “nio”: janeiro de 2009. Acho que ele não volta mais aqui…

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