Deus, Alice e a Matrix – 2ª parte (2/5)

neo

Mesmo quando eu me considerava católico, andava longe de ser um cristão convicto. Até onde eu lembro, eu nunca realmente acreditei naquilo tudo. Não completamente. Como fez Alice na mesa do chá, eu vivia fazendo perguntas inconvenientes, e as Lebres Malucas que me pediam para mudar de assunto eram tantas que eu comecei a desconfiar que alguma coisa estava errada. Ou comigo, ou com todo o resto.

Não me atrevia a fazer esse tipo de questionamento a minha família, afinal, foram eles todos que invadiram meu pequeno e desprotegido cérebro e colocaram a coisa toda lá dentro; mas achei que a freira encarregada de me preparar para a primeira comunhão seria a pessoa ideal a quem dirigir tais perguntas. Não era. Eu concluí meu catecismo com uma sensação, até então inexplicável, que só poderia ser descrita como desconforto intelectual. Era como se eu não tivesse conseguido entender o que, aparentemente, todos os outros meus colegas de classe haviam entendido, ou — como penso hoje — tivesse entendido algo que nenhum deles conseguiu entender.

De uma forma ou de outra, acho que eu fui o único da minha turma que entrou pela primeira vez na “fila da hóstia” sem nenhum entusiasmo. Que eu lembre, eu só estava curioso para saber se ela era salgada ou doce. E enquanto eu voltava para o meu lugar, ainda com a hóstia irritantemente colada no céu da minha boca, a parte do meu cérebro que estava sendo treinada para a religião deixou escapar isso: “É um tipo de massa de pão!” E o resto dele respondeu em coro: “O que você esperava? Um naco de carne do corpo de uma pessoa? Eca!”.

Eu realmente passei muito tempo sem entender o que estava acontecendo. Eu não tinha fé e não entendia por que me preocupava com isso; eu não acreditava em Deus e não sabia por que fingia que acreditava; eu não era em nada religioso e me culpava por não ser… Afinal, por que ser tão diferente? Por que não ser igual a todo mundo?

Eu, que não sou erudito, nem tenho uma inteligência muito confiável, não consegui encontrar sozinho uma resposta. Somente muitos anos depois do meu catecismo, quando assisti pela primeira vez no cinema às aventuras de uma outra Alice — a versão do século XXI — eu pude tecer, em retrospecto, uma analogia, e entender o que se passou comigo durante aquela época da minha vida. Eu ficaria muito orgulhoso de citar aqui o nome de um filósofo ou grande escritor que tivesse me feito assimilar o que significava a religião, mas foi com o filme “The Matrix” que eu finalmente entendi.

No domingo seguinte, eu fui assistir a uma missa. Sentei bem no último banco de uma igreja lotada. Não rezei, não cantei, não comunguei. Eu estava lá apenas para uma cerimônia muito particular: seria a primeira vez que eu iria “ver” a Matrix. E eu vi: a religião precisa mesmo ser compartilhada; precisa ser vivida em grupo. Uma pessoa isolada chegaria sozinha à conclusão de que suas orações são inúteis; seus rituais, tolos; as letras dos seus hinos, absurdas; e seus dogmas, algo muito próximo do tipo de mágica com que se distrai as crianças. Você precisa de reforço para acreditar. Você precisa estar conectado a um mundo de gente que também acredita; e eles serão tantos e estarão tão fortemente convencidos de suas crenças que você, quase que inevitavelmente, vai achar que eles todos não podem estar errados e só você, certo. Você não vai querer ser diferente; você vai querer fazer parte do rebanho. Talvez venha disso o carinhoso epíteto de “ovelhas”.

Durante cerca de uma hora, eu assisti a uma missa católica, a qual eu estava tão acostumado, mas só que de um outro ponto de vista. Foi como se, depois de tanto tempo perdido numa floresta densa, a gravidade tivesse deixado de existir e eu pudesse flutuar para muito acima da copa das árvores, apreciando o mundo de um novo ângulo, de uma nova dimensão. (Não foi só você que brincou de Super-Homem, Neo…)

Eu entendi, com alívio, que não havia nada de errado comigo, nem nunca houvera. Eu apenas não fazia mais parte daquele mundo. Eu estava desconectado da Matrix.

E foi bem ali, naquele banco de igreja, que eu vi confirmada a minha analogia com o filme; foi quando e onde eu compreendi o porquê de todo aquele desconforto, inquietação e dúvida; foi quando e onde, pela primeira vez, eu percebi a razão de achar aquele mundo tão estranho e inadequado para mim. Foi lá que encerrei minhas aventuras pelo País das Maravilhas. Mas não fiquei triste. Ninguém deveria ficar triste por ter despertado de um sonho. Mesmo se fosse um sonho bom; o que não era o caso.

Levantei antes do fim da missa. Estava já bem perto da porta e, enquanto saía, voltei os olhos involuntariamente na direção da estátua de um homem seminu atrás do altar. Por um breve instante, percebi que aquela parte do meu cérebro que desde muito tempo atrás habitara aquele mundo teve vontade de acenar um adeus de despedida. Mas eu a contive a tempo e acrescentei — desnecessariamente sarcástico, confesso — que o homem estava com as duas mãos pregadas: não iria acenar de volta.

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13 Respostas

  1. Deve ter sido uma viajem muito doida na igreja hein ?

    Somos os escolhidos

  2. Encontrei o seu blog há alguns dias atrás e só estou postando pela primeira vez hj porque estava lendo todo ele até chegar no último ponto até então, parabéns e achei interessante nesta parte do texto a parte:

    “Uma pessoa isolada chegaria sozinha à conclusão de que suas orações são inúteis, seus rituais, tolos, as letras dos seus hinos, absurdas, e seus dogmas, algo muito próximo do tipo de mágica com que se distrai as crianças.”

    Realmente me parece bem óbvio que qualquer um que pare pra pensar um pouco chegará a conclusão que tudo não passa de uma grande besteira, que os tais dogmas são tão exdrúxos e contraditórias que acaba gerando uma espécie de “fé cega e pé atrás”

    Parabéns pelo blog e se não me ver postando mais vezes é por achar os outros foristas inteligentes demais para o meu nível ou por pura falta de tempo, mas com certeza estarei sempre por aqui lendo e aprendendo mais um pouquinho.

    Abraços!!!

  3. Lucas: foi muito interessante, sim, mas ao mesmo tempo estressante; você vai entender porque ao final da “série”. rsrs Abraço.

    Vitor: meu nobre, seja muito bem-vindo, e, por favor, deixe seus comentários sempre que puder. Só a sua modéstia em ponderar a própria ignorância em comparação com outros já poderia ser um sinal de que sua inteligência deve
    ser acima da média, pois, segundo Sócrates, se duas pessoas estão discutindo para saber qual das duas é mais sábia do que a outra, aquela que se julgar mais sábia será, então, a menos sábia… rsrs (Ainda faço uma Faculdade de Filosofia: acho que tem tudo a ver comigo… hehehehehe)

  4. Hey Barros, leio seu blog desde o início, mas só agora rompi a barreira da inércia pra comentar =P.

    Muito bacana tu expor tuas experiências, e corajosa a iniciativa de criar o blog, não só pelo tema delicado, mas pela responsabilidade de mantê-o. Vai aqui minha admiração.

    Ser ateu é a única opção sã .

  5. Oi Barros, muito legal a história, lembra um pouco o estilo de um conto o rumo que sua narrativa está tomando… eu gostei disso!

    De fato, a sua analogia é interessante, mas não precisa deixar de se orgulhar, Matrix tem algo de Descartes… =P
    A propósito, eu gostei do sarcasmo, embora realmente seja meio… ácido, por assim dizer.

  6. xD soh li a historia de Deus, Alice e a Matrix msm…pra qm n tem pc in casa fica dificil indo em lan pra fikar lendo blogs…mas por sorte achei esse na comu do orkut e por sei (sorte de novo¿) acabei entrando pra da uma “bizoiada” (bizoiada pq eh com dois olhos se fosse com um seria “zoiada” : ] )

    pelo q vi eh exatamente o q tenho feito nos ultimos meses…^^

    desde os 15 com essa duvida…

    pareço grafico de empresa…acredito, desacredito. acredito, desacredito, paro no muro , acredito….

    um sobe e desce irritante e q n consigo mais escolher definitivamente o q optar….por um lado ser o “estranho” diante da sociedade??(cidade ondi moro eh mto pekena ¬¬ nem tem 14 mil habitantes)

    ou optar por algo q n creio pra n ser o “estranho”?

    logo de cara se vc me pedisse pra escolher algo diria…em na acreditar em nada e continuar minha vidinha comum…mas ironicamente penso em algumas cenas q aconteceu cmg q ainda me deixa na duvida….

    1º cena:estava sem emprego…(no momento eu estava sem acreditar em nada) minha mãe dizendo “vai filho reze q dah”, “Deus vai ajuda”

    ahn…n rezei claro pq nem estava afim de rezar ae disse a ela

    “eu n creio nesses petecos nem inferno nem céu”

    no exato momento um colega me aparece em casa…

    “mano vamo na empresa onde trabalho q apareceu vaga e querem fazer entrevista ctg!”

    ¬¬ sem reação fui ao q me pedia ir fazer a entrevista e pouco tempo depois entrei na empresa onde eu to ateh hj…

    2º cena:pults…odeio isso ¬¬ deu um “branco” merda…deixa qdo eu lembrar eu posto aki de novo…(bom pretendo dar uma passadinha aki de novo com certeza…)

    o meu comentario eh sobre o “ir e n reza, nem comungar, e soh assistir…”

    de certa forma achei isso igual a mim pq faço isso e sei q n eh minha “praia” ali…mas depois das cenas q eu tive (da qual a segunda ainda n lembro ¬¬”) fico na duvida se foi meramente coincidencia…(algo q tmb n creio mto) ou se “ELE” ouviu as preces de minha amada mãe….

    n sou nenhum tipo de marginal tão pouco penso em qualquer atrocidade…trabalho honestamente mas acho q se eu optar pela decisão de “n crer” as pessoas me julgarão a eito por n crer no q eles “dizem” crer…pq realmente aqueles q se consideram “cristãos, evangélicos ou qualquer coisa q diga ser q crê “NELE”, são piores do q eu com certeza…realmente o mundo ta um chaos XD ou como diz na “biblia”

    “ESTÁ CHEGANDO O DIA DO JULGAMENTO FINAL”

    ^^ (obs:digitei pakas mas acho q fikou bem claro o q eu sinto a respeito do assunto =) )

    desde já agradecido pela atenção e sucesso é o desejo a todos…

    =) um Up! pra mega msg digitada uehuehuehue

  7. Gostei do texto, só achei que faltou sexo nesta estória. Mas eu sei que ficou subentendido, veja bem… você estava em uma igreja, logo o padre era pedófilo. Viu só , eu sabia que tinha cu no meio!

  8. Spy: muito grato pelas suas palavras e espero que, sempre que puder, deixe também suas opiniões, pois é muito interessante saber o que as pesoas estão achando dos textos. Fique com a gente!

    Lari, menina, você tocou no meu ponto fraco: eu sempre quis ser escritor… desde minha adolescência, sempre tiva à mão uma máquina de escrever, depois um computador pessoal, agora um notebook para realizar essa aspiração; nunca deixei de ter o que o dinheiro podia comprar. Mas não dá para comprar vocação, nem um estilo literário, nem uma idéia imortal que mereça ser escrita. Também nunca encontrei na Internet nenhum site que vendesse competência. Mas, felizmente, já me conformei… não posso ser escritor, como não posso ser um exímio enxadrista, como não posso ser um monte de coisas… O grande segredo, eu acho, é aproveitar ao máximo aquilo que a gente PODE ser.

    Arnoud: entendi mais ou menos o que você quis dizer; espero que acompanhe, pelo menos, essa série até o fim e decida por você mesmo. Eu confio na inteligência das pessoas que demonstram um certo grau de dúvida. Eu só não confio na inteligência de quem não duvida de nada:

    “Não há nada mais perigoso do que a certeza de ter razão. É preciso idolatrar a dúvida.” Fico devendo o autor da frase.

  9. Hahaha, nossa que legal!
    Eu também gosto bastante de escrever, e gosto muito de ler, principalmente. Sou crítica com os textos literários que leio, mas no fundo sei que não faço melhor. Mas gostei do ritmo que você deu às coisas. Isso mostra que você, no mínimo, é um bom leitor.
    A propósito, por curiosidade mesmo, você descobriu o que é aquilo que você PODE ser? ^^

  10. Barros comecei a ler seu blog, e a dois meses atras fui a igreja, me senti do mesmo jeito q voce… observava as pessoas ao meo redor… e o mais interessante para min foi as musicas repititivas como se fosse uma forma de controle mental… o engraçado eh q quando repete a ordem sempre eh a mesma… Gloria a deus… Me entrego ao senhor… e essas coisas… antes eu nao percebia isso.

    Bom as duvidas tbm me levaram ao Ateismo e outra coisa me ajudou muito foi a filosofia.

    Muito interessante seu blog parabens!

  11. Cristopher Jonathan Weber: bem-vindo! Espero que continue participando. Rapaz, eu pretendo cursar uma faculdade de filosofia também. Espero que meu cérebro dê conta.

  12. Muito interessante. Mas a fé é como estar apaixonado. Suas conclusões são reproduções típicas dessa nossa era de permissividade questionadora, já diria Renato Russo, com uma precisão absurda, “somos burgueses sem religião”. O autor provavelmente é um ser destruído, incapaz de acreditar. A analogia com a Matrix foi muito bem feita. Mas pense da seguinte forma: A pílula vermelha realmente te mostra a verdade? Ou é a verdade que se dobra a você?

  13. […] percepção dos efeitos que essa hipnose causa na coletividade. Como eu escrevi na segunda parte de Deus, Alice e a Matrix: “Uma pessoa isolada chegaria sozinha à conclusão de que suas orações são inúteis”. A […]

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