Racionalizando a Eternidade – parte IV

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Supõe-se que Deus seja onisciente. Sendo assim, eu posso afirmar que, um segundo antes de ter estalado seus dedos para dar início à Criação, Deus já sabia que tudo daria errado. Ou seja, que Adão e Eva o desobedeceriam no Éden; que toda a raça humana teria a mácula do pecado original; que teria que afogar quase todos os seres vivos da Terra; que precisaria enviar Jesus Cristo para nos absolver do pecado; que haveria um Juízo Final e que uma grande parcela dos seres que ele estava prestes a criar iria sofrer torturas eternas no Inferno. E mesmo assim ele continuou. Estalou seus dedos divinos e deu início ao processo.

Se eu soubesse que algo que fosse fazer não iria dar certo e o fizesse assim mesmo, aposto que você poria a culpa em mim pela minha obra mal feita, não na obra em si. Por que ninguém aplica o mesmo princípio a Deus? Ora, porque ele nos deu livre-arbítrio. A culpa não é dele pela coisa toda ter desandado.

Discordo desse raciocínio. Ele sabia que sua obra iria incluir um Juízo Final e que pessoas iriam para o Inferno; e se iriam para o Inferno por causa do livre-arbítrio ou o que quer que fosse, ele também saberia o motivo. O fato é que ele não se importou com isso. Criou tudo assim mesmo.

Já me lançaram o contra-argumento de que se eu for para o Inferno será porque eu “quero”, pois, para ser salvo, bastaria “aceitar Jesus Cristo”. Simples assim. Mas não é essa a essência da minha proposição inicial. O que estou querendo que você entenda é que, independente de A ou B aceitar ou não Jesus e, devido à sua decisão, ir para o Céu ou para o Inferno, consumado o Juízo Final, pessoas serão salvas e pessoas irão para o Inferno. Meu argumento é o de que Deus sabia disso e não viu nenhum problema.

Como se ele tivesse pensado:

“É… no fim das contas, só as Testemunhas de Jeová habitarão comigo o Paraíso pós-Juízo Final. Tudo o mais vai ter que ir pro incinerador… Mas que se dane! Lá vai.” — Pluft!

Então eu só poderia concluir que Deus estava interessado apenas na parcela de sua obra que seria salva. Ele criava uma coisa que sabia que iria se estragar em parte, mas dava-se por satisfeito com a parte que poderia aproveitar. E Deus moraria com eles no Paraíso pela Eternidade. Gente escolhida a dedo, que o amou, que dispôs do livre-arbítrio para seguir seus mandamentos. Ou seja, gente de confiança. Enfim, companhia.

Gênesis, capítulo 1, versículo 0: “Deus, de saco cheio de sua completude, da vacuidade do Nada e de não ter o que fazer nem com quem conversar, resolveu acabar com sua solidão.”


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11 Respostas

  1. Hahaha gostei.
    A parte mais legal é que ele sabia que ia dar errado, por ser onisciente. Se ele resolvesse mudar os planos, por ser onipotente, então sua onisciência estaria errada, já que ele sabia que faria e que não daria certo. Confuso isso…

  2. Larissa: confuso é pouco! Como você tocou nesse ponto, eu acho que até seria válido eu repassar através do blog um texto que eu vi num site justamente tratando dessas contradições envolvendo essas 3 qualidades divinas: onipotência, onisciência e onipresença. O autor mostra que um deus não poderia ser essas 3 coisas ao mesmo tempo. O que você acha?

  3. Otimo, otimo!!!
    To adorando e pirando lendo todos os textos, são muito bons!!!
    Parabens pelo blog! ^^

  4. Lly: concordo com você! Às vezes dá mesmo um nó no cérebro pensar sobre essas coisas. É por isso que as pessoas preferem acreditar cegamente. Elas fazem uma aposta: “Deve ser verdade mesmo. Não vou me preocupar se eu não entendo, porque é muito complicado”.

  5. Barros: ah eu adoraria ver esse texto! Me lembro de ter lido algo do gênero também, mas minha memória é meio fraca, então não lembro onde nem o autor.
    Realmente a maioria das coisas que envolvem descrições de Deus são paradoxais, se racionalizarmos sua existência…

  6. Que fazia deus antes de fazer o mundo? Deve ter pensado:” vou fazer um mundo pra brincar com ele!” e que ele faz hoje? nada? que graça ter vida eterna! Se for onisciente e onipotente e nada faz pela humanidade, então é um assassino cruel!

  7. […] meus textos “Racionalizando a eternidade” e “O post inominável” abordam essa questão de duas formas diferentes e ninguém parece ter […]

  8. Estou com a ligeira impressão que o Mister M ainda vai dizer como foi esta mágica, narrado, é claro, com a voz do Cid Moreira.

  9. […] Racionalizando a Eternidade – parte 4 […]

  10. Amigo Barros devo lhe dizer que Deus sabia sim que não iria dar certo porque la no novo testamento esta escrito : Cordeiro morto desde a fundação do mundo.
    Creio em Deus mas gostaria de te parabenizar pelo teu blog e pela cultura que nos passa. e te pedir que coloque mais fotos do paraiso me faz muito bem.

  11. […]    Parte II  –  Parte III  –  Parte IV  –  Parte V  –  Parte VI  –  Parte […]

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