Racionalizando a Eternidade – parte V

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Imagine que tudo já foi consumado e você foi salvo. Meus parabéns! Bem-vindo à Vida Eterna.

Mas e agora? O que você acha que fará no Paraíso?

Se você me disser que vai passar toda a Eternidade com a bunda numa nuvem tocando harpa para Deus, eu lhe asseguro que, talvez muito antes de passar o primeiro bilhão de anos, você irá se pegar pensando algo como: “O que será que as pessoas estão fazendo no Inferno…?”

Se os religiosos supõem que os que forem salvos estarão vivos na Eternidade, é de se esperar que eles “façam” alguma coisa lá para que possam receber o adjetivo de “vivos”. E se eles ainda conservarem seus cérebros humanos, mesmo que numa versão atualizada do software, devo supor que essa alguma coisa deva ser “prazerosa”. Então, o que essas pessoas terão para fazer durante toda a Eternidade? para ocuparem suas mentes, suas vidas? num lugar onde tudo será perfeito, sem necessidades, sem desafios, sem preocupações, sem problemas?

Eu não sei. E você, religioso ou não, também não sabe, como também não sabiam nenhum dos autores do livro sagrado dos cristãos. Por isso que talvez você só encontre na Bíblia referências ao Paraíso e à Vida Eterna na mesma configuração que o Chapeleiro Louco apresentou sua condição à Alice, ou do modo como uma leitora comentou um texto meu publicado na semana passada em que dizia que com os salvos seria assim, e com os condenados seria assado (eita! meu primeiro trocadilho): algo estático, que só faz o mínimo de sentido enquanto ninguém resolver pensar a respeito.

Paulo, em II Coríntios, começou de forma bastante interessante o capítulo 12 prometendo que iria passar a discorrer sobre “visões” e sobre “revelações” do Senhor acerca de um homem (supõe-se que estivesse falando dele mesmo) que fora arrebatado ao Paraíso, mas, talvez tendo esbarrado naquelas mesmas perguntas e concluído que não conseguiria inventar nenhuma resposta satisfatória que não estragasse seus textos, esperou apenas 3 versículos para dizer que não era lícito contar tais coisas ao homem (12:1-4). E a história seguiu por outro caminho. Alguém aí lembrou-se de Alice de novo?

Mas é fácil entender por que não podemos lidar com a Eternidade. Nossos cérebros, pelo pouco que o conhecemos hoje, evoluíram para “funcionar” em função do tempo. Praticamente tudo o que fazemos tem uma data para começar e uma expectativa de fim. Mesmo que não demos conta disso, o nosso cérebro trabalha com um “relógio interno”, igualzinho aos computadores, e todos têm a mesma frequência, já que a expectativa de vida humana, na melhor das hipóteses, gira em torno de um século. As nossas ações são cronometradas por esse “clock”.

Se eu estou estudando russo uma hora por dia durante cinco dias por semana, meu cérebro projeta uma estimativa de que eu atinja um nível intermediário no domínio desse idioma para daqui a, digamos, três anos, com uma possível data para terminar meu curso para daqui a, espero, seis anos. Caso eu quisesse antecipar minha viagem à Rússia em pouco mais de uma década, precisaria estar falando russo dentro de quatro anos, o que me obrigaria a aumentar meu ritmo de estudo. Isso tudo porque sei que tenho menos de um século de vida. Mas se eu disser para o meu cérebro que eu disponho de toda a Eternidade para aprender, ele não vai saber o que fazer: estudar russo uma hora por dia, ou uma hora a cada trilhão de anos, ou a cada sextilhão de séculos? Na Eternidade, não vai fazer diferença. Mas meu cérebro precisaria de uma resposta antes de começar a tarefa porque é assim que ele trabalha. E como eu não teria, acho que ele iria “travar” exatamente como os computadores travam.

Então, ficamos com isso: não dá para racionalizar o que as pessoas terão para fazer e ocuparem suas “vidas” na Eternidade porque os nossos cérebros não estão “configurados” para trabalhar (mesmo hipoteticamente) com a noção de tempo infinito. E se a gente forçar muito ele vai travar. Já se você disser que a Vida Eterna será uma vida completa em si mesma, perfeita, repleta de glória e exaltação ao Senhor, será o mesmo que não dizer nada; uma tentativa tola e infantil de querer aparentar saber a resposta quando, na verdade, se é tão ignorante quanto qualquer um sobre o assunto. Acho que essa é a maneira que os religiosos encontraram de pular todo o processo de racionalização — que, como vimos, não adiantou nada mesmo nesse caso — para poderem ir, sem demora, para a parte do “Se você não aceitar Jesus, irá para o Inferno”. Isso só me faz pensar que os escritores sagrados, embora não tendo conseguido responder aquela mesma pergunta sobre o que as pessoas vão ter para fazer na Vida Eterna, pelo menos, encontraram uma maneira bem eficaz de fazer seus leitores acreditarem nela assim mesmo: a coação.

Assim sendo, você pode, como eu, ignorar essa ameaça (também sem fundamento) e entender a Vida Eterna do mesmo modo como você entende o País das Maravilhas de Alice. A outra opção seria acreditar nela porque um livro muito antigo, escrito por várias pessoas que viveram numa época de superstição e ignorância muito maior do que as da nossa, diz que ela existe. Mas você teria que acreditar cegamente nisso, ou seja, sem racionalizar.

Ou isso, ou Ctrl Alt Del.

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10 Respostas

  1. Se deus usasse Mac ele não teria esses problemas, o céu deve ser muito chato mesmo, prefiro estar morto do que uma eternidade de tédio.

  2. Lucas: eu andei conversando com algumas pessoas religiosas e nenhuma delas havia se feito essa pergunta. Não é um troço estranho? O religioso quer passar a eternidade no Paraíso, mas nunca parou pra pensar a respeito!!!

  3. Nossa, me parece mesmo um tédio… ter uma eternidade para fazer as coisas significa que depois de algum tempo você já experimentou de tudo e nada mais tem graça… e aí, o que vem depois? Ficar lembrando tudo o que já fez? E aí? E depois? Vai vir uma eternidade de “e agora?”
    Tédio eterno! =P

  4. Larissa: mesmo se a gente pudesse viver para sempre na Terra, com essa vida que levamos, seria bastante provável que ela acabasse se tornando chata e tediante. Assistiu “Troia”? Aquiles diz para a sua prisioneira que os deuses invejam os mortais por isso mesmo: são mortais. “Tudo é mais belo porque a morte nos espera.”

  5. parabéns larissa pelo comentário excelente! ainda bem que entendemos que todos vão morrer…sem essa de vida pra sempre…quero viver muito, eternamente, não…..não quero ser salvo, nem a eternidade…..meu lugar é o inferno! esou feliz assim…abraço barros.

  6. […] Racionalizando a Eternidade – parte 5 […]

  7. Passaram para min q quando chegarmos ao paraíso devemos somente Adora a Deus, e nada mais!

  8. Vinícius, com certeza sua mentezinha infantil, que não conseguiu perceber o absurdo disso à época, deve ter pensado: “Mas que merda! rsrsrs

  9. […]    Parte II  –  Parte III  –  Parte IV  –  Parte V  –  Parte VI  –  Parte […]

  10. “O que será que as pessoas estão fazendo no Inferno…?”
    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
    KKKKKKKKKKKKKKKK
    Eu iria começar a pensar : Será que tem gostosa lá?! morena (marrom bombom) sem barriga , cinturinha e um bundãoooo.
    Daqui a pouco eu ia estar batendo punheta nas nuvens ao invés de tocar arpa kkkkkkk
    E os la de baixo gritando o fdp o nóis aqui !! vai fzer isto em outra nuvem…

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