Racionalizando a Eternidade – parte VII

 

“Qual a coisa mais importante da vida? Uma pessoa com fome diria: ‘o alimento’. Uma pessoa com frio diria: ‘o calor’. Com todas as suas necessidades atendidas, o ser humano precisa de algo mais. Os filósofos dizem que precisamos saber quem somos e a razão da nossa existência.” *

Mas existe entre nós uma grande parcela de seres humanos que não precisam mais perder tempo com essas filosofias… Eles já têm as respostas. Todas elas. E mesmo se — ou quando — a resposta não parece, efetivamente, uma resposta, ele continuará crendo que ela está ali, no seu livro sagrado, escrito pelo ser supremo que criou tudo: ele pensará que apenas não consegue endentê-la ou identificá-la.

O crente crê. No meu Houaiss (uáis) mastodôntico, a única acepção desse verbo em que ele é plenamente intransitivo está sob a rubrica Religião, com o significado de “ter fé”. Essa intransitividade exclusiva confirma para o crente o que lhe ensinam desde o berço: crer, apenas, basta. Nem mesmo a gramática exige um complemento. Por que, então, pedir explicações?

O crente crê na Vida Eterna. E o verbo transitivo, além do objeto indireto, pede indiretamente uma quantidade infinita de fé. Mas isso ele tem, porque ele quer o Paraíso, embora não entenda nem possa entender o que seja isso. Ele não sabe se haverá, realmente, uma Vida Eterna; por isso ele crê. Crer significa ter fé, e fé significa ser ignorante sobre algo, porque se você não fosse ignorante, se você soubesse, não precisaria acreditar.

Eu poderia escrever que a ignorância é a fonte de todas as perguntas, mas as religiões ensinam que o bom crente é o que acredita sem questionar, e que, quanto mais absurdo for aquilo em que você acredita sem fazer perguntas, mais merecedor da Vida Eterna você será. Um engodo que, segundo Richard Dawkins, é um dos mais devastadores efeitos da religião para o cérebro humano: “ensinar que é uma virtude ficar satisfeito em não entender”.

O crente não entende nem o Paraíso nem a Eternidade, mas quer passar a Eternidade no Paraíso. Ele não sabe se terá livre-arbítrio no Céu, nem se terá necessidades, vontades, desejos; não sabe como será viver lá, o que vai fazer, se será realmente uma “vida”; ele não sabe se será ele mesmo que vai estar lá, se terá memória da vida que passou na Terra, ou se vai precisar passar por uma lavagem cerebral; não sabe se vai viver com seu corpo físico ou apenas em espírio. Nesse caso específico, o livro sagrado fala em corpo glorificado, o que dá no mesmo para mim: não responde nada.

Mas eu sou ateu. Existe um ticket de entrada para o Inferno com meu nome impresso em maiúsculas. Deus sabia disso já um segundo antes de estalar seus dedos mágicos. Ele não deve ter se importado, depois, em escrever nada nesse livro para me responder o que quer que fosse.

Se Deus existe e eu for parar no Inferno, é porque eu sou parte da sua obra que não deu certo. Uma prova viva e incômoda da sua imperfeição e incompetência divinas. Alguém que se atrevesse a dizer tal coisa; alguém que se prestasse a racionalizar algo que deveria ser aceito sem questionamentos e acabasse por concluir que Deus estava mesmo só cansado da solidão; alguém que desconfiasse que Deus, sabendo-se Todo-Poderoso, resolveu criar uma raça terrena de semi-iguais apenas para ter para quem se exibir não mereceria mesmo nenhuma consideração ou idulto.

Fico muito lisonjeado em pensar que, antes do primeiro dia da Criação, antes de detonar o Big Bang, Deus tenha pensado em mim, mesmo que tivesse sido algo como:

“Barros, não considero você uma boa companhia nem para um fim de semana, quanto mais para a Eternidade… Você vai para o Inferno.”

— Senhor Deus, isso é “queima de arquivo”. Uma atitude típica de um criminoso, ou, ao que parece, de um Deus mesquinho, exibido e incompetente.

_____________

* Do livro O Mundo de Sofia.

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17 Respostas

  1. SHOW!
    Será que logo não teremos um livro com você, Barros, como autor?? Eu leria! Seus textos são ÓTIMOS!!!

  2. Eu vou avisar o Meu Paaaaaaaai, e você irá para o paraiso, lá é igualzinho como mostrou a novela A VIADAGEM, quer dizer: A VIAGEM. Ou seja , lá é muito chato e este vai ser o seu castigo seu Herege.

  3. Lly: obrigado pelo elogio (meu ponto fraco: eu fico muito besta quando recebo um!), mas eu não tenho competência para escrever um livro. E também não tenho nenhuma história para contar… Em compensação, eu tenho um monte delas para ler… rs Amanhã tem ainda a “Conclusão”. A minha pelo menos.

  4. Barros, pelo fato de vc ser ateu, não deveria acreditar em inferno, como sitou no presente texto. Vc acredita que exista inferno? Não leu o texto que eu te enviei há uns 3 meses? Afinal inferno é coisa da grande maioria das religiões cristãs.

  5. Ana: eu li seu texto sobre o Inferno e até estou pensando em publicá-lo no blog; muito interessante ele por sinal. E eu não acredito no Inferno, não: só estava sendo irônico. Viva a liberdade poética!

  6. Barros, vc eh demais !
    seus textos são perfeitos, ops, perfeito soh tem deus :\

    e qto ao Inferno, odeio qdo eu debato com alguem sobre isso e a pessoa pergunta: “vc acredita no Inferno, vc n era ateu?”

    claro qe não née, mas se eu for discutir com uma pessoa qe acredita, logico qe o Inferno e o Ceu vão ter qe ser citados :PPP

  7. Renan: valeu pelo comentário; brigadão! Veja amanhã se você concorda com a conclusão da minha série.

  8. VOCÊEEEE, você, você, e todos vocês irão pagar caro por isso. Que as fezes dentro de vocês se transformem em tijolo… …praticamente por serem ateus.

  9. Pois é tchê… a situação tá crônica!!! É exatamente teu gênero… gostei…

    Mas vamos trocando idéias sim… o interessante é ver que todas essas leituras que fazemos são recortes de realidade… eu recorto uma parte, tu outra, um grande amigo meu recorta outra… mas o mais interessante é que nossos recortes são pelo menos interessantes!!! É disso que precisamos para sair da mesmice: mentes que pensem o mundo, independente de onde querem chegar com isso. Os que agem assim são exatamente aqueles que mais contribuem com o mundo pois promovem a revolução de mentes que ele precisa. O problema é que nem todos vêem as mesmas coisas, pois seus óculos estão embaçados… e em vez de ver o que há criam o que não há! E crêem…

    Parabéns! Continuemos pensando em voz alta…!

  10. Adilson Zabiela: muito interessante as suas reflexões no seu blog. Vou aproveitar algumas ideias de lá também para desenvolver meus argumentos. Um abraço.

  11. Opa! Onde retiro o meu ticket?
    Espero que o Satan seja que nem o de South Park… será que a gente encontra o Russein? =P

  12. Lari: o perigo da gente ser irônico é os religiosos não entenderem a ironia e acharem que a gente só acredita no Inferno. rsrsrsrs

  13. Ah, eu particularmente acho engraçado quando dizem uma coisa absurda do tipo “ateus são satanistas/adoradores do demônio/qualquer coisa do gênero”, a não ser que o satanismo não esteja se referindo a todas aquelas coisas bíblicas, mas esse é outro caso, e não é usado por religiosos em geral…

  14. Cada leitura e o resultado é certeiro….deleite total de satisfação por palavras simples diretas e esclarecedoras! barros, cada vez mais o admiro, amigo! abraço

  15. […] Racionalizando a Eternidade – parte 7 […]

  16. Põ este Inri Cristo me mata de rir !! É isto ai ai Inri manda o Barros pra la mesmo !! não vai ter sexo porque vão capar todo mundo e o Barros com uma lira na mão. ta pensando que vai pro inferno Barros?
    o Inri ja reservou-te um lugar.

  17. […] CONTINUAÇÃO:    Parte II  –  Parte III  –  Parte IV  –  Parte V  –  Parte VI  –  Parte final  […]

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