“Minha deusilusão”, by Mukkinha

Lisboa, 21 de Abril de 2009 

A minha experiência de vida com Deus, a Igreja e a Fé tem sido atribulada… E para ser sincera acho que só muito recentemente comecei a perceber a hipocrisia dos meus actos. Foi a reflexão de que não podemos, ou não devemos, pensar de determinada maneira e agir de outra que me fez compreender que as dúvidas que eu tinha afinal não o eram. Pelo contrário. Arriscaria a dizer que são certezas. Ou quase.

Cresci no seio da cultura católica. Portugal é, apesar de tudo, um país católico. Existem feriados de índole religiosa que são comemorados e que, fazendo parar o país, têm consequências sociais, culturais, económicas e financeiras. Fui baptizada. Fui à Catequese. Fiz a primeira Comunhão. Entretanto, aborrecida pela conversa chata da catequese, disse aos meus pais que queria parar por ali. Aceitaram. Com naturalidade. (Os meus pais são os chamados católicos não-praticantes, coisa que para mim não faz sentido – ser católico exige a prática dos rituais religiosos impostos). Foram educados segundo a doutrina católica, acreditam em Deus, mas não seguem cegamente as imposições religiosas. Diria até que quase nunca as seguem. 

Entretanto, na minha adolescência, e apesar de ter deixado de ir à missa com regularidade, existe um espaço de tempo em que pura e simplesmente não pensei no assunto. Considerava-me católica. Embora não praticasse o catolicismo. Mas orgulhava-me de ter a minha própria relação com Deus. Sempre me inquietou a hipótese de que a vida fosse apenas isto. Só isto. E agarrei-me à existência de um Ser Superior. O meu Deus não era igual ao da Bíblia. Era apenas bondoso e misericordioso. E zelava por mim. Por isso lhe dedicava, todas as noites, alguns minutos. Falava-lhe do que me aborrecia. Agradecia as coisas boas com que me brindava… E o tempo foi passando. 

À medida que o tempo passava comecei a tornar-me cada vez mais atenta. Atenta às atrocidades do mundo. Às injustiças. E sobretudo à hipocrisia. Comecei a ficar irritada com a Igreja pela ostentação de riqueza, pela proibição do uso de preservativo, pela condenação da homossexualidade. Porquê? Quem tem o direito de dizer o que é certo ou errado? A igreja? E foi aí que percebi a maior incongruência da religião. Acredito que todas as religiões, na sua essência, são boas… mas são feitas  por homens. A divindade da religião assenta na vontade terrena de alguns homens. Homens que ditam leis religiosas apenas com o objectivo de perpetuar o seu poder. 

E foi assim que comecei desencantar-me… a imagem de Deus começou a afastar-se no meu pensamento. Deu lugar à raiva pela Igreja…E à medida que lia sobre o assunto percebia como as peças do puzzle se encaixavam. Como a história de Jesus foi usada e manobrada, manipulando milhares e milhares de pessoas…  

Recentemente conheci o Marcos Sabino (alogicadosabino.wordpress.com)*. Um rapaz extraordinário que me impressionou pela sua inteligência, tenacidade e devoção. Um rapaz do presente. Inteligente e divertido. Mas crente. Profundamente crente no absolutismo da Bíblia. Apesar de reconhecer nele estas características positivas causava-me estranheza a sua devoção e as certezas absolutas que tem acerca de Deus e da Criação. Por isso comecei a ler o que escreve. E daí passei para os seus críticos. Tanto que leio frequentemente alguns blogs sobre esta matéria. 

Hoje posso dizer que não acredito em Deus. Gostava de acreditar. Mas já não consigo. Acredito, no entanto, numa força superior. Não sei porquê… Mas acredito. O meu lado espiritual ainda não morreu. Mas chego a achar ridículo que se acredite que Maria era virgem, por exemplo. Por favor, a doutrina Cristã não seria menos boa só porque Jesus era um homem comum. O que importa é a essência das suas palavras. Mas para perpetuar o poder da religião… aí sim, é importante que Jesus seja divino. E assim se construiu uma mentira que dura há dois mil anos. 

Queria apenas acrescentar que tenho muito respeito pela fé de cada um. Porque acho que move cada um deve ser respeitado, ainda que não compreendido. Sei que existem lugares com um mística diferente. Fátima é um lugar onde é impossível não se sentir um clima e uma energia fantásticas. Mas quanto a mim fruto da fé das pessoas que ali vão em peregrinação… 

Mukkinha

 

*Link à direita, aqui na página do blog, abaixo das Pedradas.

11 Respostas

  1. Mukkinha, estou como cristão para te dar os parabéns pela tua sinceridade e para mostrar que o cristianismo não é uma religião de condenação, mas de tolerância e compreensão.
    Nenhum de nós pode negar aquilo que sente, se tu sentes assim serias hipócrita se manifestasses o teu credo de outra forma.
    Continua sempre com essa mente aberta.

  2. Tento ter a mente aberta. Talvez por isso mesmo me tenha afastado do mundo religioso – mas não espiritual.

    Confesso que uso uitas vezes a ironia para falar da religião mas faço-o em relação a tudo.. não como forma de ofensa!

    Sentir-me hipócrita foi de facto o que me levou a tomar uma posição. Ou sou crente ou não sou , bolas! nõ há meio termo. Irrita-me ir ao casamento de amigos e perceber na cerimónia religiosa que não sabem o que ali estão a fazer. Não conhecem os rituais, não compreendem os gestos… escolhem as esccrituras sem saber muito bem porquê.
    Não quero ser mais uma que se casa pela igreja apenas pq é bonito… porque sp sonhou com o vestido branco, a marcha nupcial… isso é hipocrisia. Tenho outros defeitos… mas este não tenho certamente.

    Obrigada Natenine… tb leio o teu blog 🙂

  3. Eu não tinha percebido o blog do Natenine. Estou deixando um link aqui no blog pra lá também. Belo texto, Mukkinha.

  4. Mukkinha,

    Lindo texto. Suas indagações levaram a uma compreensão pelos seus próprios meios de pensar. Então chegamos a estas conclusões…

    A religião ainda se manifesta em vocÊ quando diz que ainda ficou algo “espiritual”, força superior..

    Imagino que com o tempo verá que esta força superior são:

    -lacunas da ciência.
    -incapacidade de entender a fragilidade humana
    -sentimento de perda, pela morte de deus
    -sentir-se órfã de alguma crença
    -a simplicidade e efemeridade da nossa vida

    Então procuramos “preencher” este vazio da existência divina com algo sobrenatural, mágicas, forças…

    O que resta apenas é a vida, o ser humano, a realidade, sobrevivência, incapacidade humana diante das atribulações….

    isso é a vida..o ser humano é tudo

  5. Óóh…
    Tá aqui! é verdade…por isso a confusão posterior!
    Até tu osvaldo!Leu essa guria, e foi confundido…

    Bem, essa coisa de NÃO ser religiosa, e conservar a espiritualidade,…Sempre fica a idéia sugestinada, de achismos …’meio termo’,sobrecai a devida confusão de outrora.
    Isso lembra um amiga que tem como filosofia e não religião, mesmo, o ”ispiritismo”, e acha que poderia ser na *próxima ”estada” ”pedra ”mato” bicho”.
    que não seja fugir da missão de evolução do espírito!(?)

  6. sugestionada*

  7. […] Mukkinha, e do […]

  8. […] compartilhar sua “deusilusão”, como já fizeram alguns outros leitores: Larissa Mukkinha Ateuneu Beth […]

  9. […] Mukkinha Ateuneu Beth Amorim Silene Shirley S. […]

  10. […] Mukkinha Ateuneu Beth Amorim Silene Shirley S. Rodrigues Ana […]

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