Os primeiros sintomas de fanatismo e suas estratégias de sedução

O início de qualquer fanatismo consiste, em primeiro, reconhecermos um sujeito ou grupo estarem convictos, quando julgam de posse de uma certeza que recusa o teste da realidade. Nietzsche dizia que “as convicções são piores inimigas da verdade do que as mentiras”, porque quem mente sabe que está mentindo, mas quem está convicto não se dá conta do seu engano. “O convicto sempre pensa que sua bobeira é sabedoria [19] . Até no campo científico, há cientistas correndo o perigo de tornar-se convictos de suas teses. Edgar Morin analisa que quando algumas idéias se tornam supervalorizadas e adquirem um caráter de grandiosidade e absolutismo tendem a levar os seus sujeitos a abdicarem de seu raciocínio crítico e se tornarem meros objetos dessas idéias. Indivíduos assim submetidos a tão grandes idéias, fazem qualquer coisa para “salva-las” de um possível furo de morte; elas funcionam como muleta existencial. Isso acontece principalmente no meio religioso, mas também pode ocorrer nos meios político, filosófico  e científico.

O segundo sinal do fanatismo é quando alguém quer impor a todos de modo tirânico a “verdade” única extraída de sua inspiração ou crença absoluta. Pretende assim a uniformização via linguagem, através de aparência física, rituais e slogans do tipo: “O único Deus é Allah”, “só Cristo salva”, “Jesus Cristo é o Senhor”, “somos o Bem contra o Mal”, “Em nome do Senhor Jesus eu ordeno…” São expressões de caráter estereotipado, sustentado por uma “estrutura de alienação do saber” [20] , onde o discurso passa a falar sozinho, é uma resposta que está no gatilho, pronta para qualquer emergência que o sujeito não quer pensar. Observem o caráter tirânico, narcisista e excludente dessas afirmativas. Todos possuem uma visão que nega outros modos de crer e pensar. O mesmo acontece nos auto-elogios das pessoas de raça branca e o desprezo pelas outras como proclamam os fanáticos da extrema direita, nas ações violentas de uma torcida sobre a outra, todos, sinalizam que o indivíduo se rende ao grupo e este “a causa”. Os recém convertidos de qualquer seita religiosa ou política estão sempre convictos que, finalmente, contemplam a verdade e essa tem que ser imposta a todos, custe o que custar.

O terceiro indicativo de fanatismo, já dissemos, é quando uma pessoa passa a colocar uma causa suprema (podendo esta ser justa ou delirante) acima da vida dela e dos outros.

Quarto, quando um indivíduo e/ou grupo se isolam da convivência familiar e social e adotam um modo de vida narcísico [21] (no igual modo de vestir, de cortar ou não cortar o cabelo, no jeito de falar, nas regras de comer, na ritualística, etc), enfim, quando uniformizam seu discurso, gestos, postura, atitudes em geral e punem os que se recusam a seguir as regras impostas. Entrar para um grupo de fanáticos implica em renunciar: pai, mãe, os filhos, os amigos, o lugar onde viveu, o trabalho, enfim, os membros são persuadidos a matarem os vestígios simbólicos da vida anterior para fazer renascer a vida em outra base moral e de fé.

Quinto, quando o indivíduo e/ou grupo perdem o bom-senso na lógica da comunicação e nas ações do cotidiano. O discurso passa a ser repetitivo e estranho à vida comum.

O sexto indício de fanatismo é quando se perde o sentido de respeito e humanidade para com os diferentes, em nome de uma causa transcendente.

O psicólogo francês, J-M. Abgrael, resume o método de doutrinação fanática em 3 etapas: 1o) sedução das pessoas para a “causa”; 2o) destruição da antiga personalidade, eliminação dos elos familiares, sociais e profissionais e 3o) construção de uma nova personalidade “renascida” ou “renovada”, de acordo com o modelo e as regras da seita. Geralmente essa passagem da vida normal para a vida “renovada”, há um ritual, algum tipo de batismo, onde se inicia a adoção de um novo nome, novos hábitos, apresentação de novas “famílias”. Sentir-se incluso num grupo “de irmãos” ou “de luta pela causa” “é como estar apaixonado; surge uma sensação maravilhosa, tudo passa a fazer sentido na vida, a pessoa se sente acolhida e imensamente alegre”. O indivíduo passa a se ver se modo especial, diferente dos demais para realizar a missão elevada; se vê inundado por um sentimento grandioso que Freud chama de “sentimento oceânico”. Imagine um indivíduo desesperado, desgarrado de seu grupo social, sem uma forte identidade psicossocial cuja vida perdeu o sentido, ao ser acolhido em um grupo fanático, recebe mensagens confortadoras, do tipo: “nós amamos você”, “você é muito importante para o projeto de Deus”, “você faz parte de nossa vida”, “Deus te ama”, etc Diz P. Demo (2001) “o sentimento de ser amado, move o entusiasmo mais do de qualquer coisa”.

Faz parte da estratégia para atrair pessoas para novas seitas e igrejas, investir em programas produzidos para solitários que sofrem insônia e depressão nas madrugadas. Os desesperados sentem-se acolhidos com tais palavras mágicas e facilmente se sentem inclusos e maravilhados pela ilusão de nova vida e sentimento extremo de felicidade,  numa igreja em que o fanatismo é o seu ponto cego.

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11 Respostas

  1. COMPLEMENTANDO O TEXTO DO ADAMANTDOG:
    “… E nos tempos modernos com o avanço da internet, trancam-se em seus quartos negando o almoço quentinho que as mães trazem com amor e tendem a passar horas entrando em foruns, sites, bate-papo e onde mais puder escrever (ctrl+c e ctrl+v) panfletando “suas ” idéias.

    huahauahuahauh

    É o segundo post seguido falando da mesma pessoa…
    poderiam falar de alguem mais indefeso, talvez jesus, ou deus q são a mesma pessoa….

    hauahauhauhaauha

    fabenrik
    ateu e a toa

    PS eu acho q to no nivel do hagnus, outro dia fui expulso do planeta ateu por divulgar meu blog rsrsrsrs

  2. ”A CONVICÇÃO QUE BEIRA AO PERIGO”
    assustador…

    Adamantdog,
    boa ideia de reflexão para todos*
    acima de nós estão nossos defeitos que nos cegam e assim nos empurram sem freios para uma falsa ideia que ”fechamos” de tudo …

    Entendo sempre seu intuíto aqui! Mais uma vez legal*

  3. Sensacional! ADAM

    Lendo o texto vejo ao meu redor a quantidade de fanáticos, revelando incautos doutrinados e escravos de idéias malucas…que nos afetam, sem que percebam que são idiotas, chatos.

  4. Origado a todos pelos comentários e digo qeu ja passei por isto e sei como é.

  5. ADAMANTDOG, agora você tocou na ferida… E o texto teve um final muito bem elaborado! Parabéns!

  6. Ótimo texto!

    O que acho positivo é que a nova geração irá ter uma estrutura um pouco melhor do que nós tivemos pois, praticamente 2 gerações foram emburrecidas com a passividade da TV e a castração da ditadura nas escolas.

    Estamos hoje em um meio onde a internet ao menos gera pro-atividade pois o usuário não apenas assiste o que poucos querem mas podem buscar novas idéias. Com a volta da filosofia e até da sociologia ao currículo de base as crianças terão ao menos uma estrutura primária de criticidade.

    Torço para que mais pessoas consiguam pensar por sí próprias e não apenas vomitar memes implantados.

    O fato é que enquanto as necessidades básicas da pirâmide de Maslow não forem supridas a maioria das pessoas não irá se libertar do consolo mental (vulgo espiritual). Ser esclarecido acaba sendo uma questão de luxo em muitos países hoje.

  7. Matheus Sisdeli,

    A religião quer cooptar a base da pirâmide antes de algum progresso.Depois disso alegam que foi a religião, ou deus que os levou a isto…

    enquanto estavam no nível de “sobrevivência”, necessidades básicas eles “roubam” sua pobres mentes ai fica difícil pensar, questionar…valeu

  8. “A necessidade de acreditar em falsos milagres às vezes ultrapassa não só a lógica mas, aparentemente, até a sanidade mental.”
    — Rev. Canon William V. Rauscher

    “A síndrome do crente merece ser estudada pela ciência. O que é isso que compele uma pessoa a, ultrapassando os limites da razão, crer no inacreditável? Como pode um indivíduo normalmente equilibrado tornar-se tão apaixonado por uma fantasia, uma impostura que, mesmo após esta ter sido exposta à luz clara do dia, ainda se agarra a ela — na verdade, se agarra ainda mais fortemente a ela?”
    – -M. Lamar Keene

    “Subiu aos Céus. Está sentado à direita do Pai
    e de novo há-de vir com glória”.

    Síndrome do crente é uma expressão cunhada por M. Lamar Keene para descrever um aparente distúrbio cognitivo caracterizado quando uma pessoa continua acreditando na veracidade de eventos paranormais ou sobrenaturais, mesmo depois que são apresentadas a ela provas cabais de que o referido evento foi encenado de forma fraudulenta. Keene é um falso paranormal regenerado que expôs falcatruas religiosas – aparentemente conseguindo resultados modestos. Falsos curandeiros pela fé, paranormais, médiuns, televangelistas milagrosos, etc., continuam tão abundantes como sempre foram.

  9. Adamantdog,

    Essa frase:

    “as convicções são piores inimigas da verdade do que as mentiras”, porque quem mente sabe que está mentindo, mas quem está convicto não se dá conta do seu engano. “O convicto sempre pensa que sua bobeira é sabedoria“

    Meu caro e nobre debatedor, você não acha que essa frase se aplica como uma luva sob medida, também, ao ateísmo? Os ateus precisam entender que o ateísmo é apenas mais uma hipótese sem confirmação de qualquer, espécie. E, portanto, se alguém tem convicção nela, está fundamentado apenas na cega fé e assim pode ser um autêntico Fanático?

  10. Sou evangélico, mas há muitos livros q induzem ao fanatismo, fazendo a pessoa sentir-se culpada por coisas mínimas ou por fatos q nâo tem nenhuma influência. Hoje eu tava lendo um livro q autora falava q se a gente perceber q foi enganado deve se arrepender por ter sido enganado para nâo ser punido. Arrepender por algo q fizeram para mim. Nesse trecho perdi a paciencia, rasguei o livro, cuspi e joguei no lixo, q o lugar certo pra fanatismos. Fidelidade sim, fanatismo nuncaaa.

  11. ADAMANTDOG

    Muito boa a matéria sobre o fanatismo religioso visto e analisado por um psicanalista.
    Durante a leitura da sua postagem as numerações que são links nos levam a uma lógica de impressionante compreensão do que acontece em termos de “fanatismo”, em que o autor conclui ser uma patologia como a parafrenia.

    Sempre achei que o fanatismo seja ele qual for, principalmente o religioso, possui fortes provas circunstanciais de um desequilíbrio mental aliado à incapacidade de resolver conflitos ou dependências, sejam elas afetivas ou materiais.

    Por isso os crentes se tornam extremamente agressivos quando tocamos na vulnerabilidade do seu Deus que, por sinal é um ser abstrato. O que vem a ser abstrato? É aquilo que não representa nada da realidade que nos cerca, por isso é que suas reações são as de quem sente receio de ficar órfão e desprotegido, gerando com isso atitudes agressivas e muitas vezes carregadas de ódio o que incita a violência como as promovidas pela religião mundo a fora.

    Não se esquecer de que “Religião e Violência” sempre andaram de mãos dadas.

    Abç

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