Barros, a mulher e o jumento

A Bíblia é um Self-service foi um dos primeiros textos que escrevi, e cada vez que um cristão me aparece tentando expor seus “argumentos”, eu sempre me convenço, mais ainda, de que é preciso muita cegueira intelectual para não perceber a desonestidade que é necessária para sustentar a fé em Deus.

Eu já publiquei a definição de Inferno tal como é entendida pelos seguidores da Igreja da Vida Cristã. Segundo essa igreja, o Diabo não existe mais. Como que eles sabem disso? Simples: está na Bíblia. Bem aqui:

Hebreus 2:13 “Portanto, visto como os filhos são participantes comuns de carne e sangue, também Ele semelhantemente participou das mesmas coisas, para que pela morte derrotasse aquele que tinha o poder da morte, isto é, o Diabo”.

É isso. O Diabo e o Inferno são invencionices para assustar os seguidores de outras igrejas que não a Igreja da Vida Cristã. Eles, bem como a leitora que me enviou a definição, não temem inferno algum: já estão salvos. Como que eles sabem que estão salvos? Simples (sempre é): está na Bíblia. Bem aqui:

Efésios 2:8 “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus”.

E, assim, os cristãos prosseguem fundamentando o universo de acordo com umas tantas frases soltas pinçadas do seu livro sagrado. Entretanto, quando um ateu faz uma pergunta um tanto quanto inconveniente sobre algo também escrito lá, e que eles mesmos não conseguem engolir por ser amargo demais, aí o versículo assim sozinho, assim isolado, já não vale:

“É usar um texto fora de contexto como pretexto.”

Uma frase feita que uns religiosos sempre têm no bolso, como um Ás na manga, para se saírem de situações embaraçosas.

Como no caso recorrente do mandamento que diz: “Não cobiçarás a mulher do teu próximo”, que era como se lia na minha época de catecismo. (Ao que parece, esse mandamento deve ter sofrido um tipo de reedição, pois não está mais assim, nesses termos, nas versões online que eu consultei da Bíblia.) Eu já fui expulso de uma comunidade religiosa no Orkut por conta desse mandamento (link para o texto) e, há pouco, um leitor do blog me veio com outra controvérsia (ou a mesma!) sobre o tema:

Ele escreveu “DESCIMO MANDAMENTO::::::: Vr. 17 – Não cobiçaras a casa do teu próximo ( amor ao próximo)” querendo argumentar que todas as leis de Deus se resumem a duas: amar a Deus e amar ao próximo. Entretanto, o texto que eu copiei da Bíblia Online é mais “extenso”:

Êxodo 20:17 “Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo”.

Aliás, foi esse jumento aí do texto que me valeu a expulsão, citada acima, da comunidade “Eu amo e acredito em Deus” (eu também mencionei o erro de português no nome da comunidade… não foi à toa que a mulher lá me expulsou).

O leitor que escreveu sobre o décimo mandamento me respondeu que a palavra “servo” não significava “escravo”, e que a mulher era mesmo submissa por conta do pecado do qual Cristo nos livrou. “Nos”? Pode dar minha falta!

No mundo em que esse meu leitor vive, uma determinada divindade trata de assuntos que envolvem salvação ou danação eternas exclusivamente com o macho da espécie, porque a fêmea cometeu o despautério (!) de dar ouvidos a uma cobra falante e comeu uma fruta mágica.

Quanto ao verbo “cobiçar”, acho que alguém poderia concordar comigo quando eu digo que ele está semanticamente sobrecarregado: quando você cobiça o boi ou o jumento do seu vizinho, é porque você os quer para si, quer comprá-los, quer que eles sejam sua propriedade; já quando cobiça o servo, quer que ele largue o emprego na casa do seu vizinho e venha trabalhar na sua, ganhando até um salário melhor; e quando cobiça a mulher, está apenas tendo pensamentos impuros com relação a ela… o que não significa que está querendo comprá-la.

Ou isso ou Deus está listando as “coisas” que um homem possui e que não devem ser invejadas por outro homem: a casa, o escravo, o gado, o jumento e a mulher.



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5 Respostas

  1. Não querendo deturpar o tema gostaria de propor o seguinte raciocínio:

    Suponha que uma mãe deixe uma panela de óleo quente no fogão com o cabo para fora e saia de casa. Ao voltar após alguns minutos ela encontra a criança de 7 anos deformada pelo óleo quente da panela. De quem é a responsabilidade sobre o acidente? De ambos eu diria, mas é consenso que a mãe, por ser mais experiente e saber das consequências deve receber a maior parcela da culpa por ser no mínimo negligente.

    O que pensar então da condição do gênesis? Que juízo fazer de um deus que teria criado tudo (não somente o homem e a mulher, mas o éden e a dita cobra) e que portanto conhece perfeitamente o resultado dessa combinação? Qual seria a responsabilidade de deus no fato de deixar a fruta proibida no mesmo lugar e, pasmem, no centro do jardim ao alcançe de todos!?

    O melhor vem depois, além de punir a pobre criança deformada pelo óleo, a mãe ainda irá deixar um sistema de punição para todos os seus descendentes por ela ter mexido na panela.

    E ainda me dizem que deus é amor, pff

  2. A aceitação das propriedades, a casa, o escravo, a mulher, o gado, o jumento erão tão grandes que deus tornou-os intocáveis, inalienáveis! Deus tratava aqueles como objeto de usufruto! É verdade!

    Poderia pensar deus: -Quem tentou roubar o escravo de Abraão? Matem-nos. Não admito! rsrsrsrsrs

    Ah se ele tivesse conhecido as feministas de hoje!!! Ele apanharia!

  3. […] Barros, a mulher e o jumento […]

  4. […] Barros, a mulher e o jumento […]

  5. Awsome!!!!!!!!
    O dom de interpretar o que Deus queria que os outros escrevessem é dado a poucos humanos, tao poucos que esses poucos abençoados nao se entendem!!! E os tolos nao abençoados acreditam sem mesmo ler os rascunhos do Fodão divino!!! se lessem: na mesma hora ganhariam o dom da interpretação!!!

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