Relatos Sinceros de um Profissional!

Cópia fidedigna do Original:

Por Ricardo Antônio de Oliveira Ramos

Publicado no Site Um deus na Minha Garagem, 15/12/2009 (http://deusnagaragem.ateus.net/)         André Díspore Cancian

 Devidos Créditos

Não há nada mais poderoso do que o medo da morte para demonstrar o lado místico religioso de uma pessoa, certo? Bem, às vezes não é assim. Num momento de pânico e desespero muitas vezes temos a oportunidade de observar aqueles que têm suas vidas “entregues” às mãos de um pseudo-salvador celestial, depositando todas as suas esperanças nos míseros homens, profissionais mortais e nada divinos.

Assim como um exemplar crente (apaixonado pela ideia cristã e seguidor cego dos “passos” daquele defunto de dois mil anos), que quando doente procura auxílio médico em um hospital qualquer, o passageiro crente de uma aeronave também se vê encostado contra a parede num momento de pane ou alguma emergência, tendo que voltar suas esperanças ao mísero mortal que detém os comandos à frente. Ainda que o desespero faça o crente evocar santos de todos os tipos e deuses milagrosos, seu crédito naquele momento angustiante pertence à conta do comandante. É natural sentir medo instintivo diante de uma situação de iminente tragédia. Mais natural ainda é confiar no profissional humano da área específica em que está ocorrendo o problema e dele esperar a resolução. Cômico é ver, após sanado o problema, diante do semblante de alívio de todos, para quem vão os créditos finais. O médico, o aviador, o bombeiro, o policial, até recebem um tímido “muito obrigado” ou “ele foi um ótimo profissional”, mas os grandes louros finais e os estupendos agradecimentos, que são transformados posteriormente em missas, cultos ou sessões de todos os tipos e por tempo indeterminado, vão para um ser imaginário. Se isso não fosse, no mínimo, curioso por sí, há ainda o peso enorme sobre os ombros dos que sabem a quem pertence os devidos créditos, porém são taxados de “hereges-mal-agradecidos”. O que se segue não foge do mencionado.

Novembro de 2000. O mundo já deveria ter acabado, mas por algum motivo, sabe-se lá por que, a profecia não se cumpriu. Mas ainda assim as pessoas estavam estranhas e apreensivas. Bom, a bordo de aviões a maioria das pessoas fica assim. A noite em Manaus estava negra, sem lua ou estrelas, e a chuva torrencial atormentava os passageiros mais medrosos, e durante o lento táxi da aeronave para a cabeceira da pista até se podiam ouvir alguns murmúrios característicos de rezas e orações. As pessoas estavam literalmente pedindo para que um ser celestial tomasse conta da enorme máquina de ferro (construída por nós, homens), durante o voo do Amazonas até o Distrito Federal. Seriam três horas angustiantes para os não simpatizantes das máquinas que voam, mas a distância os obrigava a aceitá-la. A decolagem, apesar de fortes turbulências devido ao mau tempo, transcorreu normalmente, como outras tantas, e conforme a aeronave foi ganhando altitude e ultrapassando a desagradável zona instável e adentrando num espetacular céu estrelado e ar calmo, as rezas e orações foram sendo substituídas por piadas, brincadeiras e até mesmo risadas extravagantes. Alguns substituíram o medo por um bom uísque, outros por uma leitura, e outros por um não tão profundo sono.

Uma hora e quinze minutos se passaram desde a decolagem na maior tranquilidade possível. A noite no topo das nuvens estava linda, e os flashes dos relâmpagos abaixo da aeronave lembravam um concerto de rock. Bom então. Meu copiloto, neste instante, me chama a atenção para os marcadores digitais de combustível da aeronave, revelando uma discrepância leve. Após alguns minutos, e realizando os procedimentos normais de teste, ficou constatada uma considerável perda de combustível da asa (tanque) esquerda. Feitos mais alguns testes chegamos à fatídica conclusão de se tratar de um vazamento grave. Cálculos e mais cálculos feitos pelo computador de bordo, e manualmente por nós, percebemos o pior: não haveria combustível suficiente para se atingir o destino. E o pior era que nossa alternativa naquele momento se encontrava bastante longe também. Os voos noturnos nesta rota, na selva, possuem severa restrição de alternativas. Depois de analisar a situação com bastante cautela, porém com rapidez, a decisão foi tomada. A opção seria prosseguir para o aeroporto de Cuiabá, uma vez que o vento estava a favor para aquele destino. Era muito provável que o combustível acabasse a uns cinco minutos da pista, mas tínhamos que tentar. Fiz o possível para minimizar o vazamento desconhecido do tanque esquerdo, transferindo o combustível daquela asa para a direita e reduzindo o consumo operacional ao máximo. Buscamos o nível de voo ideal para consumo mínimo e neste ponto os controladores de voo foram fantásticos. E, não bastasse toda a nossa tensão e apreensão, chegamos finalmente a hora desagradável de ter que comunicar os passageiros sobre a situação e a possível necessidade de realizar um perigosíssimo pouso forçado noturno sem visibilidade. Enquanto o copiloto monitorava o voo, transmiti aos passageiros nossa realidade. As dimensões da aeronave, um jato executivo de médio porte, permitiam que as pessoas ouvissem umas às outras, e se porta da cabine de comando estivesse aberta também seria possível interagir diretamente. A pedido dos passageiros, que de início se mostraram calmos, deixei a porta aberta para acompanharem os procedimentos. E assim foi até a parada da turbina esquerda…

A dez minutos do aeroporto de Cuiabá o combustível da asa esquerda findou de vez, e a alimentação do motor também. Havia a possibilidade de fazê-la funcionar novamente com a chamada “alimentação cruzada”, onde se ultiliza o combustível do tanque oposto. Mas, conhecendo bem a aeronave como eu conhecia, decidi ignorar tal procedimento, assim também como as indicações daquele “idiota” computador de bordo, e prossegui monomotor diretamente para a cabeceira da pista, que já estava totalmente liberada para nós. Os controladores já haviam dado prioridade máxima ao nosso pouso de emergência. Ha poucas milhas da cabeceira a turbina direita começou a falhar, e o pânico ficou geral e tomou proporções a ponto de eu ter que fechar e travar a porta da cabine de comando. Choros e rezas e pedidos desesperados para que eu “desse um jeito” na situação. Mas era justamente isso que eu estava fazendo há mais de uma hora. O copiloto comentou comigo que a tração falha daquele único motor remanescente não seria suficiente para alcançarmos a cabeceira da pista, e os bombeiros do aeródromo já estavam todos acionados esperando o pior. Respondi que ele não conhecia direito aquela “máquina voadora”, e quando o segundo motor já estava quase apagando eu manobrei bruscamente a aeronave, elevando consideravelmente a asa direita, e tivemos mais uns vinte segundos de tração, o suficiente para alcançarmos a pista. Um alívio para todos nós, especialmente para alguns passageiros que estavam passando tão mal que necessitaram de auxílio médico no solo.

Passados os procedimentos padrões exigidos pelos órgãos competentes aeroportuários, a aeronave foi para a manutenção e nós, os tripulantes, fomos para o hotel usufruir de merecido descanso. Aos passageiros foram disponibilizados hotel e outra aeronave para seguirem viagem para Brasília. Um dos passageiros, e um dos mais medrosos, era um influente redator de um dos jornais de maior circulação de Brasília, e numa coluna especial de domingo ele escreveu no final: “e após os minutos de sufoco que pareciam se estender por horas, e quando achávamos que estava tudo perdido, Deus colocou sua mão naquilo que era para ser uma tragédia e suavemente nos pôs no chão, como faz um pai ao pegar no colo um filho que cai de um muro”. Dois anos depois este jornalista faleceu vítima de um acidente rodoviário na chamada “sete curvas”, na estrada que liga as cidades de Brasília e Goiânia.

Dessa vez o muro era alto demais!

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12 Respostas

  1. Boas,

    ahahhahahahah um homem faz o trabalho todo e quem leva as graças é deus –‘ É muito mau que isto ainda aconteça hoje em dia. O piloto conhecia bem a sua aeronave e fez de tudo para salvar aquelas vidas e não levou o devido respeito por isso –‘

    Eu fica-va lixado da vida se me fizessem isso –‘

    Cumps,
    JustUnderMe

  2. JustUnderMe,

    É isso que fico p da vida! Quando ocorre algo bom, foi deus, se alguém morreu foi o azar. Então deus não manda no azar? É incompentente?

    Só que isso está impregnado na cabeça das pessoas e se eu digo que nao é deus cometo o maior dos pecados, ter sido coerente.

    Por quê deus se apóia nos préstimos humanos para salvar? Talvez porque ele não saiba como…Se soubesse mandava seus anjos socorrerem

  3. Saracura,

    Pior que isso, se ocorre alguma coisa mal é culpa do homem que não confiou ou acreditou no senhor xD

    É por isso que Deus é bom xD Ele faz o bem (quando o bem acontece) e nunca faz o mal (ai ja é culpa do homem) xD

    Pior que as histótias da carochinha que me liam quando era pequeno xD

    Cumps,
    JustUnderMe

  4. Acho que vou escrever novamente sobre desonestidade, porque é preciso ser desonesto para ser crente em Deus ou deuses.

    Deus é só um carimbo que o cristão põe nas coisas boas, quando elas acontecem.

  5. Boas,

    Pois, foi como eu disse noutro comentário, Deus existe onde os crentes quiserem que ele exista. Se eles quiserem que Deus os possua eles são possuidos, se quiserem que Deus os salve eles serão salvos (isto só porque se eles não forem salvos morrem e mortos não sabem se foram salvos ou não xD)

    Para alem de um texto sobre desonestidade fale também no poder de sugestão e como os crentes são sempre pessoas facilmente sugestionaveis xD

    Cumps,
    JustUnderMe @ http://www.maisciencia.com

  6. Nossa!Que historia!Tipo sem querer ser maldosa mas deus tbm estava presente no acidente rodoviario?

  7. Boas,

    oi que se passou? O meu comment foi apagado? oO

    @Roberta

    aí é que está a piada xD

    Cumps,
    JustUnderMe @ http://www.maisciencia.com

  8. Antes, quando eu era católico, morria de medo de assombração, sempre achava q alguém me perseguia… quando ficava em casa, sozinho, então… mas depois q virei ateu, minha vida mudou!! Hj sou desencanado, não tive mais visões e nunca mais nada me perturbou… Hj sou feliz! São histórias da carochinha q nos contam desde crianças, e a gente fica com aquilo na cabeça, pensando q é verdade!

    Irmãos, libertai-vos, não existe nada a vos perseguir!!!

  9. Bem vindo, Wonderwall!
    Se não for mais antigo que eu por aqui…
    rsrs

  10. JustUnderMe

    É isso que não entendemos, a impossiblidade de deus diante do ruim e do bom.

    Wonderwall,

    Legal. Senti-me assim tb livre.

    Roberta,

    O crente vai criar uma história bem mais complexa para explicar isto. Vai dizer que deus tirou férias, estava no banho, no momento, estava dormindo…e por aí vai

  11. Esse jornalista é muito mal-agradecido mesmo… e vc nao reclamou com os jornais e pedir os merecidos creditos ? Meu, se fosse comigo, eu reclamava meus meritos !!

  12. Abbadon,

    Concordo plenamente.Ainda mais que jornalista, por se utilizar da sua profissão, adora “fabricar” notícia, as vezes representando opinião pessoal.

    Já tive problemas em confiar em jornalista! rsrsrs. Para não ser preconceituoso, é só ver editoriais corporativista, pessoal “desinformador”..

    abraço

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