Mundo

Certas condições tendem a enclausurar o diálogo numa camisa de força, dificultando enormemente a solução dos problemas!

Atualmente, o avanço da religião parece ser muito mais expressivo do que a sua rejeição!

Confunde-se fanatismo religioso e religiosidade.

Dawkins, por exemplo, reconhece a existência de um tipo de religião decente e contido, mas alega que ele é numericamente irrelevante, diante do fanatismo dominante.

Os ateus  simplesmente estão expressando com clareza as suas opiniões, tomando posição num debate importante e forçando as pessoas a reavaliarem suas convicções. Isso é um bom sinal, pois, por muito tempo na história da humanidade, os ateus tiveram de se manter calados. E agora estão se sentindo à vontade para expressar suas opiniões sem receio de punição. Enquanto nos mantivermos no plano da discussão intelectual esclarecida, teremos todos a oportunidade de nos beneficiar.

Mas simplesmente chegar à conclusão de que a religião é uma forma de fanatismo irracional e se fechar a qualquer possibilidade de discutir o assunto de maneira mais aberta, pode reforçar nesse contexto, o risco que correm os neo-ateístas é o de terem suas críticas ao fundamentalismo religioso apropriadas pelo fundamentalismo americano belicista, por exemplo, que já se arvora em defensor da racionalidade ocidental contra o fanatismo islâmico e não teria escrúpulos em aproveitar-se desse reforço ideológico.

No conflito entre árabes e judeus, que se chegou a uma situação em que todos perdem, enquanto continuarem agindo como estão. E isso talvez nos fornecesse alguma pista prática para resolver o mais importante conflito contemporâneo, que não é aquele entre os fanáticos religiosos e os ateus iluministas, mas aquele entre o fundamentalismo islâmico terrorista e o fundamentalismo americano belicista. O primeiro encontra no fanatismo religioso suicida a única resposta à humilhação que sofre sistematicamente da civilização ocidental, representada pelos Estados Unidos da América. O segundo encontra na guerra preventiva e unilateral, sem apoio da ONU, a única resposta aos atentados que vem sofrendo. E a verdade é que não há diálogo. Ninguém se preocupa em compreender o que está se passando com o adversário, para tentar uma mudança significativa de estratégia.

Mas a postura adotada pelos neo-ateístas envolve pelo menos duas dificuldades.

Em primeiro lugar, apesar da boa intenção de combater o fundamentalismo em todas as suas formas, eles acabam confundindo fanatismo religioso com religião. O fanatismo religioso é um problema grave que todas as épocas históricas tiveram de enfrentar. Muita incompreensão e violência resultaram dele. Mas ele não se identifica com a religião ou com a religiosidade, entendida como a experiência íntima de contato com uma realidade superior. Essa experiência foi a marca característica de muitos gênios que contribuíram de um modo ou de outro para o melhor conhecimento de nós mesmos enquanto seres humanos. De um modo geral, todos ou quase todos eles tiveram suas criações originais influenciadas ou baseadas em alguma vivência religiosa.

Porém sugere que façamos essa reavaliação através de uma conversação democrática e sem coerções, mantendo sempre em mente a precariedade e a contingência  de um mundo em que somos constantemente levados a reavaliar nossas crenças em função das mudanças de circunstâncias. É certo que o debate está lançado no domínio público da conversação da humanidade e o que temos a fazer é tentar extrair o melhor dessa situação, sem acusações desnecessárias de fundamentalismo e com abertura de espírito suficiente para que a discussão possa ser levada a bom termo. Nada como uma atitude sadia de diálogo crítico, em que as partes envolvidas possam apresentar, sem coerções, suas opiniões a respeito de um tema tão importante como esse para o conhecimento de nós mesmos.

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7 Respostas

  1. Posso não concordar com as idéias da NáJUNG, mas escreve bem.

    Poisé Ná, concordo com muita coisa que tu escreveu, mas daí eu lembro das reações não muito saudáveis de alguns ateus e cristãos em discussões que me leva a pensar o seguinte:
    – Pré-conceito, o maior dos problemas, de ambos os lados.
    – Ignorância, a fonte do pré-conceito.
    – Intolerância, a conseqüência do pré-conceito.
    – Desonestidade consigo e com os outros.

    Estava eu lendo alguns comentários da Bíblia do Cético e fiquei espantado com a tamanha ignorância demonstrada nos comentários. Carregados de falácia.
    Não é óbvio que há uma paixão anti-bíblica nisso?
    Tu cita Dawnkins, mas o cara é TOP Falácia. Todo mundo tá criticando o cara e suas idéias carregadas de paixão e incontáveis falácias.

    Após discutir com ateus, percebi que a esmagadora maioria dos argumentos são baseados na ignorância quanto a Bíblia. E não só na falta de conhecimento, mas em uma interpretação fortemente maliciosa, tendenciosa, incorreta (incorreta para qualquer outro livro secular ou não) e precipitada… e se auto intitulam livres pensadores? E se declaram sinceramente críticos? Verdadeiramente céticos?

    Por favor! É o mesmo comportamento de religiosos fundamentalistas!! Igual!!!!

    E porque não citou no teu texto sobre as sociedades politicamente sem religião? China, URSS, Cuba? Onde está a utopia de um mundo sem Deus?

    Dizer que é e ser, para alguns há um abismo entre.

  2. Israel,
    sim concordo com relação aos ”EXAURISMO” de qualquer que seja ”O LADO”, apriori sou contra LADOS! Isso o que diz em teu 1º parágrafo,certo?!

    Sobre a BIBLIA DO CETICO;não leio NENHUMA,e nem essa , são LEITURAS que não me traduzem e nem introduzem CURIOSIDADE*alguma.

    Paixão anti-biblíca?rsr… Pode ser … se existe assim paixão biblica também, por quê não o direito de todos ?!

    ”Tu cita Dawnkins, mas o cara é TOP Falácia. Todo mundo tá criticando o cara e suas idéias carregadas de paixão e incontáveis falácias.” Bem, nessa perspectiva, o livro de Dawkins, Deus, um delírio, é paradigmático. A bibliografia ali apresentada por ele é – paradoxalmente para a sua auto-imagem de pesquisador esclarecido e aberto – voltada predominantemente para os defensores da mesma posição que o autor. .. Não se deve dizer assim como tu afirmas*Veja bem, estou lendo pel asegunda vez o Livro, e percebo – o assim, ”os verdadeiros adversários não são sequer considerados. Falta um Agostinho , um Kant , Dostoiévski ,Schopenhauer , um William James ,só para citar alguns exemplos. É verdade que Dawkins chega a mencionar alguns desses autores, como Kant, Dostoiévski e Wittgenstein. Mas Dawkins só está interessado no Kant iluminista e não leva em conta as posições de Dostoiévski e Wittgenstein no que diz respeito à religiosidade. Aliás, tudo indica que Dawkins não leu As variedades da experiência religiosa, de William James …

    (Para James, um dos maiores equívocos seria tentar justificar ou criticar racionalmente a experiência religiosa. Não se demonstra ou refuta a existência de Deus, mas se vivencia misticamente o contato com Ele. Nessa perspectiva, a fé não tranqüiliza, mas preocupa mais do que a razão.)

    Quanto à questão da justificação racional, é certo q o místico não tem cmo satisfazer às exigências científicas do ateu ,que, em virtude disso, o considera irracional e infantilizado. Mas tbém é certo que o ateutambém não tem como explicar racionalmente a existência e a persistência dessa experiência e da convicção que dela decorre na história.
    Por ex. as tentativas de Dawkins no sentido de explicar o fenômeno religioso através da evolução são apenas esboços incompletos e não tocam o ponto principal: a experiência mística que a caracteriza. Como pode ver, não se trata de “provar” para um ateu que Deus existe ou de “refutar” uma prova da existência de Deus para um crente: a experiência religiosa é algo intensamente vivido e não se dá no domínio da pura racionalidade.Baseado nisso,Wittgenstein(seguidor James nessa perspectiva) chegou a dizer que expressões como crer em Deus e não crer em Deus não são contraditórias.
    Com efeito, uma pessoa que crê em Deus se encontra num plano tão diferente de uma pessoa que não crê em Deus que as duas não estão efetivamente se comunicando numa dimensão estritamente lógica.

  3. Também não concordo com essa b´blia do cético,mas nã concordo com tudo ….

    Nádinhazinhaaaaaaaaaaaaaaaaaa, hermana linda.

  4. Todos temos o direito de sermos apaixonados =)
    Não sou contra os anti-bíblicos, mas se quer criticar, deixe de lado a paixão e busque a razão e o bom senso.

    “Com efeito, uma pessoa que crê em Deus se encontra num plano tão diferente de uma pessoa que não crê em Deus que as duas não estão efetivamente se comunicando numa dimensão estritamente lógica.”

    Concordo.

  5. Lembrando…

    Não sei se tu conhece a obra de Paulo, mas se leres a carta dele aos romanos, verá que ele fala muito sobre a razão, sobre crer ou não. Semelhante ao que citou nos teus comentários. Obviamente ele defende a fé em Jesus, mas ele levanta alguns questionamentos interessantes tanto para cristãos, para judeus e para ateus.

    Interessante que nas cartas aos corintos ele fala muito para os pagãos (religiões politeístas e outros)

    A teologia apresentada por Paulo é muito usada como fundamento nas teologias modernas.

    Vale a pena dar uma lida, pelo menos nos 3 primeiros capítulos. Não que eu ache que tu vá se converter, mas terá uma excelente noção do que passa nas cabeças de quem crê e não é fanático.

  6. Obra de Paulo?
    Hum … tudo ”Vale a pena dar uma lida” , rsrs … vai do gosto , e das escolhas , entende?

  7. O pensamento é bem simples.
    (Sobre seu último páragrafo)

    Vale a pena dar uma lida, pelo menos nos 3 primeiros capítulos. Não que eu ache que tu vá se converter, mas terá uma excelente noção do que passa nas cabeças de quem crê e não é fanático.

    Sim, de tudo temos noção. Não há limites.Ninguém coloca um pedra em cima daquilo que pode ser VALIDAMENTE informativo, PORÉM, existe os temperamentos, os desejos, a vontade de cada um … Eu particularmente tenho sim essa noção do que crê e não é fanático,pois dentro de minha familia grande não tem ninguem que caiba como exemplo de fanático ou próximo disso …
    Mas na verdade, nem me interessa clubes sociais, balneários, modas, igrejas, …e vínculos com algum tipo de meditação , oração ou crença coletiva ou individual, eu quero mais é viver,cumprir com as minhas obrigações e desejos de ser feliz e deu.
    Não estou interessada em nenhum tipo de ”troca” espiritual ou ainda ver injustiças e impunições ainda decorrentes da fraqueza ”espiritual” de pessoas …

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