Pensamentos reconfortantes sobre a morte que nada têm a ver com Deus (fim)

Aqui está a segunda coisa. Imagine, por um instante, se afastando do tempo, do jeito que se afastaria de um lugar físico, para ter a melhor perspectiva dele. Imagine estando fora do tempo, olhando para ele como um todo — história, presente, passado e futuro — do jeito que os astronautas se afastam da Terra e a veem por completo.

Mantenha essa imagem na sua mente. Como uma linha do tempo numa aula de história, mas se estendendo infinitamente para trás e para frente. E agora pense em uma vida, um segmento apenas daquela linha, uma que comece, digamos, em 1961 e termine, digamos, em 2037. Essa vida some quando 2037 vira 2038? Todos os anos entre 1961 e 2037 desaparecem do tempo simplesmente porque nos movemos deles para um novo tempo, mais do que Chicago desaparece quando saímos de lá e entramos na Califórnia?

A resposta é não. O tempo no qual você vive sempre irá existir, mesmo após você ter saído dele, tal como Paris existe antes de você visitá-la e continuará a existir após você ir embora. E o fato de que as pessoas do século 23 provavelmente nunca tomem conhecimento de que você esteve vivo… isso não faz sua vida desaparecer, não mais do que Paris desaparece se sua prima nunca for lá. Seu segmento naquela linha do tempo sempre terá estado lá. A sua morte não faz o tempo em que você esteve vivo desaparecer.

E isso não torna esse tempo sem importância. Sim, se afastar e contemplar todo esse tempo e espaço pode ser amedrontador, pode fazer você se sentir minúsculo e desimportante. E essa percepção não é de todo errônea. É verdade; a pequena fatia de tempo que nós temos não é mais importante do que a infinidade de tempo que existiu antes do nosso nascimento, nem do que a que sucederá à nossa morte.

Mas também não é menos importante.

Eu não sei o que acontece quando morremos. Não sei se voltamos num corpo diferente, ou se pairamos para além do espaço e tempo de forma a vê-los em toda a sua glória e esplendor, ou se nossas almas se dissolvem no mundo das almas da mesma forma que nossos corpos se dissolvem no solo, ou se, como parece ser muito mais provável, nós simplesmente desaparecemos. Não faço a menor ideia. E eu não sei se isso importa. O que importa é que tivemos a oportunidade de estarmos vivos. Conscientes. Tivemos a oportunidade de nos conectarmos uns aos outros, e com o mundo, e tivemos a oportunidade de estarmos cientes dessa conexão e de gastar alguns poucos anos vagando nessas possibilidades. Tivemos a oportunidade de termos uma fatia de tempo que foi nossa. Por acaso, foi a fatia de tempo que teve os discos dos Beatles e os restaurantes de comida tailandesa e AIDS e internet. As pessoas que vieram antes de nós tiveram sua fatia com carruagens e whist e disenteria, ou outra que teve cabanas de pedra e invasões Vikings e porcos no quintal. E as pessoas que virão depois de nós terão sua fatia com, sei lá, carros voadores e tortas de soja e chips de identificação implantados no cérebro. Mas nossa fatia de tempo não é menos importante porque veio quando veio, nem menos importante porque iremos deixá-la um dia. O fato de que o tempo irá continuar após a nossa morte não anula o tempo que você esteve vivo. Nós estamos vivos agora, e nada pode apagar isso.



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3 Respostas

  1. Somente quem sabe que vai morrer dá valor a Vida, deuses não sabem desse valor…

  2. Eu leio o blg sempre,mas comento pouco…
    Mas esse texto eu tenho que comentar,Barros,pq esse texto ficou perfeito.é verdade!Nada pode apagar uma existencia bem vivida nem mesmo a morte.

  3. Obrigado, Roberta. Eu também gostei do texto dessa autora, por isso resolvi compartilhar com os leitores do blog. Mas parece mesmo ser um assunto muito tenebroso, porque até quase não teve comentários…

    Espero que você comente mais vezes, pelo menos quando eu publicar o meu próprio texto sobre o assunto.

    Beijão.

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