As flores do mal (parte 2)

Morei na casa do açougue até os meus nove anos. Muito cedo fui engajado nos serviços domésticos e, quando já mais grandinho, o açougueiro encontrou em mim uma excelente serventia: ele me mandava ir até a casa da dona fulana saber se ela iria querer carne para o almoço; eu ia correndo, perguntava, e voltava correndo. Se a freguesa fazia o seu pedido, eu levava a encomenda e trazia o dinheiro. Quando o serviço de entregas findava, eu tinha a incumbência de ficar no açougue ajudando o homem e, no fim do dia, cabia a mim limpar a venda.

Passei a minha primeira infância trabalhando como um escravo, mas embora levasse umas palmadas às vezes, não lembro de ter sofrido violência física. Pelo menos até quando o açougueiro descobriu que a sua filha mais velha estava me usando para um sem-número de brincadeirinhas sexuais. E ele só descobriu porque a segunda mais velha deu com a língua nos dentes, provavelmente porque a outra não queria que ela participasse dos folguedos… Levei a maior surra da minha vida. O homem só parou de me bater quando estava já sem forças. Sorte minha que era um gordo velho e asmático.

Depois disso, minha presença na casa ficou impossível. O homem queria me jogar na rua, sem eira nem beira, e a mulher queria que eu fosse levado de volta para a casa do meu “pai adotivo”, no Pará. Como não havia quem pudesse me levar, muito menos dinheiro disponível para a empreita, acabaram me despachando para ir morar com uma parenta da mulher do açougueiro, que era amigada com um pedreiro e morava numa casinha de dois cômodos no meio do nada. Como também não havia nada para fazer, a minha nova “mãe” resolveu me ensinar a ler e a escrever para passar o tempo. Ela conseguiu me alfabetizar antes que eu completasse onze anos e me deu o primeiro livro que li na vida: O Príncipe, de Maquiavel.

Mas logo estavam os dois discutindo o que fazer comigo, pois o pedreiro havia resolvido ir tentar a vida em São Paulo. Ele queria levar minha tutora junto, mas sem o pupilo. Acabou por se resolver que, no caminho para o sul do país, eles me deixariam com a mãe dela, na cidadezinha de Pacatuba, região metropolitana de Fortaleza, no Ceará.

Antes de fazer doze anos, numa noite de chuva forte, fui entregue aos cuidados de uma quarta família: a mãe da minha antiga tutora, seus dois filhos com suas respectivas esposas e sua neta, filha de um dos casais, uma moreninha linda, uns dois anos mais velha do que eu, com cabelos castanhos longos que se desmanchavam em ondas cintilantes pelas suas costas e pelos seus seios voluptuosamente precoces de menina-moça.

Naquela primeira noite na minha nova casa, lembro de ter sentado na minha rede antes de dormir e de ter agradecido longa e fervorosamente a Deus, não pela sorte de ter encontrado um novo lar, mas por minha antiga tutora não ter tido tempo de contar para a minha nova família o episódio ocorrido com a filha do açougueiro, o motivo de eu ter estado sob a sua guarda.

Lembro da certeza que tinha de que Deus havia ouvido os meus sussurros por entre os trovões que ribombavam nos céus acima, e lembro de que fiz o sinal da cruz sorrindo, enquanto me acomodava na minha rede armada a menos de um metro da entrada do quarto sem porta da minha doce e linda Hortência.


Veja a Edição Completa

Hydrangea macrophylla (Hortênsia)

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9 Respostas

  1. Legal… já vi que voce é um safadinho irrecuperável… mulher gosta mesmo de caras assim… eu inclusive… ai, ai…

  2. Isso é serio Barros?Nossa,realmente,sua historia é emocionante.

  3. Pq o titulo “As flores do Mal”?

  4. Suely,

    gostei dos comentários! Espirituosos! rsrs…..vontade, desejo,extroversão, sexo sem limite, tudo safadeza boa…rsrs

    Roberta

    Talvez o Barros queira deixar as explicações para o romance dele…aí entenderemos o título…

    Barros,
    Que história, a sua! Não fez comentários, mas não estou acreditanto muito que ocorreu contigo…abraço

  5. Quanto ao título do conto, notaram que todas as mulheres até agora tem nome de flores?
    Não acho que seja uma biografia do Barros, mas vamos ver o que nos espera no decorrer da estória.

  6. Saracura ,quem tem que gostar é Barros!
    Eita Marketeiro …

    Essa história eu explico, é FICTÍCIA*, nem precisa Barros confirmar ,quando aqui um a vez disse que seus pais se conheceram em um velório.
    Ô gente desmemoriada!!
    Até lamentou que se dependesse de arrumar uma esposa por meio das ” festas ” cristãs para ele seria muito difícil!

    Festa = Velório

  7. As flores são resultado da nova fase*Tenho alguns registros mais Barros, queres?Mandarei…
    rrs…

  8. Ná Jung esta foto sua é lindaaaaaaaaaaaa

  9. […] Parte 2 –  Parte 3 –  Parte final […]

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