As flores do mal (fim)

Tudo bem, ninguém comprou a minha história. Alguns leitores já descobriram que essa biografia é falsa. Paremos, então, por aqui. Mas por que eu estaria escrevendo uma relato fictício sobre a minha própria vida? Ah, essa resposta só eu tenho. Já dizia o poeta que “até nas flores se nota a diferença de sorte: umas enfeitam a vida, outras enfeitam a morte”. Há o jardineiro que não conhece o destino de suas flores, e há o que as cultiva para um determinado fim.

Mesmo interrompendo a série, não perco meu argumento. Veja: ainda que eu continuasse com a farsa e postasse toda a minha “biografia” aqui no site, não é difícil de imaginar que, se fosse do interesse de alguém, eu poderia ser desmascarado fácil, fácil. Um detetivezinho de subúrbio não passaria mais do que uma semana pesquisando meus rastros, reais e virtuais, até achar, pelo menos, algum documento meu que contivesse minha filiação, ou encontrasse um conhecido, um parente, um colega de trabalho, que pudesse, enfim, dizer-lhe que minha vida não tem nada a ver com essa história. Isso sem contar que ele não precisaria fuçar muito se tivesse escolhido investigar aqui mesmo no blog, uma vez que três ou quatro leitores já perceberam o embuste.

Agora, imagine que o Barros, com tempo e alguns rolos de pergaminho de sobra, tivesse tido a mesma ideia uns dois milênios atrás. Eu iria mostrar meus escritos a uma meia dúzia de pessoas (era uma época em que apenas uns poucos sabiam ler e escrever) e só. A brincadeira parava por aí. Entretanto, meus pergaminhos iriam, certamente, sobreviver a mim e seriam guardados com carinho, visto que toda produção literária naqueles tempos era um luxo, um sinal de status, e dali a pouco, numa sociedade em que a expectativa de vida era de três décadas e as pessoas sequer tinham sobrenome, tudo o que o mundo teria sobre mim seria justamente o que eu mesmo escrevi.

Algum leitor que tomasse meus textos para ler, nos séculos seguintes, não teria a quem recorrer, nem ao que recorrer, para se certificar se o que estava ali escrito seria ou não a verdade sobre o autor. Se ninguém mais havia escrito sobre o Barros, aquele leitor chegaria à conclusão de que o Barros teria sido uma figura bem comum de sua sociedade, sem absolutamente nada de extraordinário, e que teria que se conformar com a única coisa que havia sobrevivido a ele: sua autobiografia.

“ — Ora, por que uma pessoa deixaria para a posteridade uma história fictícia sobre sua própria vida? O mais provável é que esse Barros tenha relatado fielmente o que lhe aconteceu nos seus tristes dias sobre a terra…”

E a partir daí, se, por acaso, eu ganhasse a fama que nunca havia tido, tudo o que se escreveria sobre mim seria baseado naquele texto inicial, que só eu e os defuntos que me conheceram em vida sabiam se tratar de uma história inventada.

Quando um crente rechear seus argumentos e exaltar sua própria moral duvidosa com versículos de uns certos textos escritos há vinte séculos, tente pensar nas minhas Flores do Mal, uma história que eu criei e na qual você  se veria tentado a acreditar se a tivesse lido 2 mil anos após a minha morte. Acho que essa lembrança vai te inspirar a conduzir a discussão. E, sobre os Evangelhos, vale a pena dar uma lida nessa tradução que fiz, em que uma avaliação minuciosa revela que os seus autores eram apenas dois, e que não viveram na mesma época de Jesus.

Será que o que esses dois escreveram era a descrição fiel da realidade que foi presenciada por terceiros? Ou será que poderia ser apenas um história inventada com intenções que supomos, mas não podemos provar?

O resultado do trabalho deles está aí nas ruas, em cada esquina. Mas não se esqueça de lembrar a todos quantos puder: não há nada que não nos permita pensar que tudo isso não passa de uma grande mentira.

.Veja a Edição Completa

____________________________

Quando publicou, em 1857, As Flores do Mal (Lês fleurs du mal), o poeta francês Charles Baudelaire fincou o marco a partir do qual se estabelecia a poesia moderna e simbolista. Entretanto, sua obra-prima escandalizou a sociedade parisiense de então, despertou hostilidades na imprensa e foi considerada imoral, sendo, por fim, proibida de circular.

As Flores do Mal reuniam uma série de temas de toda a obra do poeta: a queda, a expulsão do Paraíso, o amor, o erotismo, a decadência, a morte, o tempo, o exílio e o tédio. A primeira edição era constituída por 1300 exemplares em papel Angoulème e 10 em papel Vergé. Os editores tinham guardados 200 exemplares da obra original e, para não terem que destruir os livros, condenados em sentença judicial, limitaram-se a destacar todos os poemas proibidos de todos os volumes. Nasciam assim os “exemplares amputados”, que valem uma fortuna atualmente.

Em 1992, As Flores do Mal foi, pela primeira vez, publicado com texto integral.

Neste livro atroz, pus todo o meu pensamento, todo o meu coração, toda a minha religião (travestida), todo o meu ódio.”

(Baudelaire)

Anúncios

10 Respostas

  1. Barros,

    Será que por ter pensado ser verdade sua história eu sou um crente? rsrssrs.

    Gostei do desfecho!

  2. Voce é um bobão Amorim,

    Veja Reality show francês tortura participante (vídeo)
    Documentário disfarçado de reality show torturava um participante cada vez que errava uma resposta.
    Tudo simulação!

    http://aeiou.expresso.pt/ireality-showi-frances-tortura-participante-video=f571507

  3. Olha eu pensei o mesmo, mas como tem esse livro aqui em casa(e apesar de eu nao ter lido, o nome não era estranho) esperei para ver …
    hehehe..

    Amorim, acho que sim viu? Ali testa o quanto as pessoas se deixam levar ou não pela sua ”facilidade” de querer se deixar levar pela emoção…
    hahhaha…
    Assim fica fácil,fácil …daí chamamos de crente ô louco que vai com os outros hahaha….

    Beijos, Barros essa ratoeira foi bem traçoeira.

  4. Sucessor de Ivo Holanda.

  5. Putz eu gostei pacas e não me acho bobão ou burro por acreditar no texto do Barros ; porque com os nossos amigos e colegas devemos dar um voto de confiança até que nos prove ao contrário.
    E a respota para o Barros sobre o que ele disse sobre a biblia é :

    Com certeza tem muita coisa la introduzida por supertição e vinda das tradições antigas.
    Mas os crentes não vão aceitar isto nunca sabe porque?

    Pra ser crente tem que ser burro !! é proibido pensar por si só ou parar e meditar em opiniões alheias.

  6. Boa Adamantgod,

    Mesmo porque não é nada difícil de isso ter acontecido com alguém.

    O impossível é alguém ressuscitar depois de 3 dias,
    andar por cima das águas,
    dividir as águas dos oceanos e outras loucuras mais.

    Lucia,

    Foi só uma brincadeira,
    melhor dizer que fui crente! rsrsrsrs

  7. O livro deve ter servido de inspiração para as canções:

    da Legião Urbana (As flores do mal)
    e do Barão Vermelho (Flores do mal)

  8. kkkkkk e eu acreditei na historia.to me sentindo uma boba.
    alias vcs tbm tem que acreditar!creiam!creiam!pois barros cristo te ama e vai te salvar!

  9. Voltando..

    Acreditei piamente também! Fiz a pergunta sobre veracidade e o Barros não respondeu! Havia algo errado!

    abraço

  10. […] Parte 1 –  Parte 2 –  Parte 3 –  Parte final […]

Deixe um comentário:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: