O verbo “acreditar”

No dia 02/04/2010, a Folha Online publicou o texto abaixo com o seguinte título: 59% dos brasileiros acreditam em Deus e também em Darwin.


Ao investigar as convicções sobre o desenvolvimento da espécie humana, pesquisa Datafolha mostrou que a maioria crê em Deus e em Darwin. Para 59%, o homem resulta de milhões de anos de evolução, mas guiada por um ente supremo, informa reportagem de Hélio Schwartsman publicada nesta sexta-feira pela Folha (íntegra disponível para assinantes do UOL e do jornal).

Um em cada quatro brasileiros, porém, acredita que o ser humano foi criado por Deus há menos de 10 mil anos. Para 8%, a evolução se dá sem interferência divina.

Os índices variam segundo a classe social e a educação. Quanto maiores a renda e a instrução, maior é a parcela de darwinistas e menor a de criacionistas, que dão mais peso à ação divina.

Os resultados se assemelham aos da Europa e contrastam com os dos EUA. Segundo pesquisa Gallup de 2008, lá os criacionistas somam 44%. Os evolucionistas com Deus, 36%, e os darwinistas “puros”, 14%.

O Datafolha ouviu 4.158 pessoas com mais de 16 anos. A margem de erro é de dois pontos.

Nada a comentar sobre a pesquisa, mas sobre o título. Aparentemente, o autor quis apenas se valer de um jogo de palavras, mas incorreu num erro inadmissível para um veículo de comunicação que pretende ser visto como “confiável”: deu a entender que Deus e Darwin habitam o mesmo universo. Quis ser sagaz com seu título, mas perdeu credibilidade, pois a avaliação que seus leitores farão da sua inteligência ficará um tanto comprometida, uma vez que ele não consegue perceber a separação que existe entre duas coisas, mesmo quando estão a um universo de distância uma da outra.

Segundo o meu dicionário Houaiss (lê-se “uáis”), na sua acepção de número 1, o verbo acreditar é definido como “admitir, aceitar, estar ou ficar convencido da veracidade, existência ou ocorrência de (afirmação, entidade, atributo, fato, etc.); crer”.

Quando você diz que acredita ou não acredita em Darwin, está usando o verbo com o sentido que também teria se você dissesse que “acredita no Barros, quando ele diz que não foi o responsável pelo Holocausto”, ou que “não acredita que o Barros tenha sido o responsável pelo Holocausto”. Ou seja, você está expondo que admite a veracidade da minha negação, isto é, concorda comigo quando digo que não exterminei 6 milhões de pessoas, ou que aceita como verdade o fato de que eu não tive nenhuma participação nesse genocídio.

Quando você diz que acredita ou não em Deus, está usando uma outra semântica do verbo acreditar: “admitir, aceitar a existência de uma entidade”. Percebeu o verbo “crer” logo depois do ponto e vírgula na definição acima?

Diferentemente do que acontece no caso de Darwin, que, por acaso, viveu e morreu na mesma dimensão, no mesmo universo em que você e eu estamos agora, Deus está fora de alcance para contestações. Ele habita um mundo mágico ao qual você só terá acesso depois de morrer, após ter passado uma vida toda molhando os testículos sagrados dele com a sua saliva.

Você tem todo o direito de NÃO acreditar na Teoria da Evolução de Darwin, e vai ficar bem famoso se conseguir provar que o grande cientista estava, enfim, errado! Mas não pense que vai ser fácil. Ele dedicou praticamente toda a vida na elaboração dessa teoria, e você, por mais inteligente que seja, não vai levar menos do que isso para desbancá-lo. A menos que conte com uma ajuda divina…

Mas que eu saiba, até  agora, Deus não ajudou ninguém.


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2 Respostas

  1. O problema é que teístas que acreditam no design inteligente ou criacionismo, só acreditam por causa da PREGUIÇA de estudar e entender o que fala a Teoria (Científica) da Evolução…

    Grande texto… abraço

  2. é verdade. A preguiça de dizer: ” nem quero pensar nisto, acredito e pronto!”, faz com que existam tantos crentes..

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