Daniel Dennett – entrevista no ZERO HORA.com 01/05/2010

“Religião não é apenas um fenômeno acadêmico”

Entrevista: Daniel Dennett, filósofo, autor de “Breaking the Spell”

Há clérigos que não acreditam em Deus? Essa pergunta, que poderia ter sido o ponto de partida de uma reportagem jornalística ou de um romance, serviu de mote para um artigo científico intitulado Preachers Who Are Not Believers (Pregadores que Não São Crentes) publicado na edição de março da revista americana Evolutionary Psichology. Um de seus autores, o filósofo e psicólogo Daniel Dennett, foi a campo entrevistar homens e mulheres que, depois de uma vida inteira dedicada a comunidades de fiéis, deram-se conta de que haviam perdido a fé. O texto revela as angústias desses pregadores que, apesar da descrença, não abandonam o púlpito.

Filho de um agente de inteligência e de uma jornalista, Dennett é um dos expoentes do neoateísmo, corrente que, além de sustentar a não existência de Deus, recorre a instrumentos de comunicação de massa, como outdoors, para propagar suas ideias e promove uma crítica ácida de instituições como a Igreja Católica. O livro mais conhecido de Dennett é Darwin’s Dangerous Idea (A Ideia Perigosa de Darwin), inédito no Brasil, foi publicado em oito países e está prestes a ganhar versões em húngaro, japonês e chinês. Nesta entrevista, concedida por e-mail, ele explica suas ideias:

Zero Hora – O ateísmo está se expandindo? Por quê?

Daniel Dennett – Sim, está. Acredito que quatro livros surgidos num curto período de tempo – O Fim da Fé, de Sam Harris (Tinta da China, 2007), Deus, um Delírio, de Richard Dawkins (Companhia das Letras, 2007), Deus Não É Grande, de Christopher Hitchens (Ediouro, 2007), e meu livro, Breaking the Spell (Quebrando o Feitiço, inédito em português), encorajaram muitos ateístas a serem menos reticentes sobre suas opiniões. Isso também encorajou outros a repensar suas crenças. Duvido que muito mais pessoas tenham se tornado ateístas; penso que elas estão apenas admitindo que foram ateístas por anos.

ZH – Um mês depois do 11 de Setembro, o romancista britânico Ian McEwan escreveu: “Dissabor com qualquer religião”. O revival ateísta é um efeito colateral do 11 de Setembro?

Dennett – Duvido que o 11 de Setembro tenha muito a ver com isso, embora a resposta do governo George W. Bush ao 11 de Setembro tenha sido extremamente desordenada. Foram as insinuações de teocracia no governo Bush que me provocaram, por exemplo, a deixar de lado meus outros projetos e escrever meu livro.

ZH – A religião é, em si, má?

Dennett – Não, ou pelo menos apenas certa religião é má em si mesma. A maior parte é muito benigna, mas isso confere “coloração protetora” às variantes más, que, por serem religiões, são consideradas acima da crítica por muitas pessoas.

ZH – Imaginar que não exista religião é uma questão supérflua?

Dennett – Os Beatles já nos convidaram a imaginar isso. (O verso “Imagine… que não há religião também” é da canção Imagine, de John Lennon, e foi composta quando ele era ex-integrante dos Beatles.) Eu duvido que a religião vá simplesmente se extinguir. Penso que uma hipótese muito mais realista é que as religiões vão sobreviver se transformando em instituições mais aceitáveis.

ZH – O escândalo de abusos sexuais na Igreja Católica seria diferente se tivesse ocorrido num contexto não-religioso?

Dennett – Claro! Se, por exemplo, fosse descoberto que uma multinacional como a IBM, a Shell ou a General Motors tivessem acobertado esses crimes por seus empregados, os líderes dessas companhias estariam todos na prisão cumprindo longas penas. Penso que deveríamos julgar a Igreja Católica pelos mesmos padrões com que julgamos fabricantes de automóveis. No mínimo, deveríamos julgá-los por padrões elevados, uma vez que seus representantes têm tão extraordinárias posições de confiança.

ZH – O cientista britânico Richard Dawkins propôs a prisão do papa Bento XVI por “crimes contra a humanidade” em razão de seu suposto acobertamento dos escândalos. Qual é a sua opinião sobre isso?

Dennett – Creio que dificilmente será uma campanha bem-sucedida, mas aprovo-a de todo o coração.

ZH – Fazer campanha pelo ateísmo com anúncios em ônibus, como ocorre na Grã-Bretanha, é correto? Não seria melhor manter o debate no campo acadêmico e cultural?

Dennett –Religião não é apenas um fenômeno acadêmico. Creio que é muito saudável ter o público em geral informado sobre a variedade de opiniões sobre religião sustentadas por seus vizinhos e concidadãos. Os anúncios que vi eram de bom gosto, muitas vezes divertidos, leves. Eu os aprovo. Quem se sentir ofendido deveria ser submetido a algum tipo de ajuste de conduta. Não têm o direito de ter suas próprias opiniões mais respeitadas do que as opiniões de outros cidadãos.

ZH – Há um grande número de cientistas efetivamente engajados no ateísmo militante. O historiador britânico Eric Hobsbawm escreveu que cientistas geralmente não se preocupam com questões políticas e filosóficas, a menos que percebam algum risco a seu próprio trabalho. O senhor acredita que é esse o caso atualmente?

Dennett – Sim, cientistas têm coisas melhores a fazer com seu tempo e energia do que se engajar em atividades políticas em favor do ateísmo. Se pessoas que não acreditam em Deus mantivessem suas opiniões e práticas restritas a seus próprios grupos e não tentassem impô-las aos outros, não teríamos de nos engajar nesta atividade política.

ZH – A obra de Darwin ainda é perigosa do ponto de vista religioso?

Dennett – Não apenas do ponto de vista religioso. Há muitas pessoas na academia que não são religiosas no sentido tradicional mas que consideram a ideia da seleção natural profundamente repugnante. Isso as torna quase histericamente contrárias à aplicações do pensamento darwiniano em seus próprios campos. Isso pode se tornar perigoso.

ZH – Qual será a situação da religião na metade deste século?

Dennett – Se eu soubesse – se alguém soubesse –, não teria escrito meu livro, que apela por um novo estudo científico da religião, especialmente para nos dar uma fundação mais substancial na qual basear uma resposta a essa importante questão.


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5 Respostas

  1. “Se pessoas que NÃO acreditam em Deus mantivessem suas opiniões e práticas restritas a seus próprios grupos e não tentassem impô-las aos outros, não teríamos de nos engajar nesta atividade política.”
    Como é?!! (Se disse isso, confirma o que venho alertando: Os desinformadores estão jogando uma rede de confusão nos ateus).
    Então vamos ver isso aqui …
    Se o candidato que o lula pediu a Deus falou mesmo aquilo, então vai vestir uma camisolona preta e pôr um crucifixo do tamanho do que os traficantes usam no peito, no lugar dum terno de presidente. Se disse mesmo, trata-se de uma ameaça política no molde do que o lula disse no ar pro Bóris Casóy.
    Acontece que já são uns vinte milhões de sem-crenças só no Brasil; e quem acha que isso ficaria assim sem atenção dos que estão no controle do Sistema FALIDO?
    … Tu viu? Nem chegô lá e já arriô as calça pra nóis.
    Nosso rebanho bota mêdu.
    É só trabalhá o boizinho:”Não iscuta ninguém, num lê nada, cunhecimento é perigosu, tem qui sê igual à serpente, tem qui vigiá”.
    Eis mêrmu vão lá i livra a rênti.
    E comu qui tá lá na tua?
    Prá tê a bençinha du pastozinho deles é dez milzin que caiu na continha …
    KáKáKáKKK …
    Também num tem prá ondi corrê. Se sai a rênti aperta, fecha us caminhu …
    Se sai da tua cai na minha …
    Galinha de casa num si corri atráis.
    E a maldição dus perdófilu?
    Tá bão, tábão …
    Tem qui reforçá nas fámília.
    Tem qui reforçá nas fámília.
    As novinha tão tudo na nossa mão. Bobeô, vai um ólinho no narizin, uma vigília pá árnimá as mijona véia; si u côrnu manso piá a rênti passa u otáriu. Tá tudo cercadu.
    Si num pego pra múmia até agora, cum nóis mêrmu é qui num péga.
    Us cára qui fecha cum nóis tá tudo regado, só tem piranhudu.
    U qui pegá agora a rênti joga tudo in cima dus ateu, o pácêru já deu a dica: “Sê ateu faiz mal”.
    Us cára lá num jogô as culpa nus bicha? Num tem mais prá ninguém, só tem nóis nu contrôli.
    Quem invento êssi manjá tinha qui recebê um troféu …
    E ganhô … um dêssi tamânhu …
    Ka!Ká!Ká!KKK …

  2. Quando vi essa barbona e esse olhar TÃO profundo e cheio de ‘autoridade’ cheguei chamar duas amigas pra ajoelhar. Pensei que fosse jeová-deus. Depois vi que era jeová-dan-net. Ufa!
    A biografia dele é um mimo; ele parece muito com aquele espião russo que os EUA contrataram pra ‘ensinar’ como AFERROLHAR nações com crenças/religião. Um desinformador a serviço de sua majestade a Teocracia-Pulhítica.
    Achei até que fosse uma versão do Aristóteles (plagiador de Platão e feitor à gosto do Sistema) ou uma versão adocicada do Voltaire (plagiador de lavoisier e feitor do Sistema); depois vi que era apenas uma caricatura dum lixo buarco (que nunca fez o que valesse naquela cara de pau que tem — “mirem-se no exemplo daquelas mulheres” — a não ser servir de presépio de intelectual para marxistas).
    Que frases feitas, pra fazer tanto BEM!!! Parecem a fina-flor dos sofistas:
    “deveríamos julgá-los por padrões elevados”; parece o “êrlis num são pessoa comuns”; que maravilhosa comunhão caridosa. “Religião não é apenas um fenômeno acadêmico”; Jesus-maria-santíssima-da-niversidade-tutelada! SOCORRO!
    “cientistas têm coisas melhores a fazer com seu tempo e energia do que se engajar em atividades políticas em favor do ateísmo”; o ‘tato’ e o ‘conselho’ e a ‘mensagem’ dele tem horrorosamente tentáculos sinistros ao invés de cinco dedos nas mãos.
    E a confissão torta e poluída do caquético psicológico: “não teríamos de nos engajar nesta atividade política”.
    Amém.
    Verdade, verdadeira: filósofú e piscólogos comprados pelo Sistema não são mesmo cientistas.
    Cena do dia-a-dia: O gaiato com chinelo-de-dedo num pé sujo e sem camisa, o tipo bombado-púff, comedor de biscoito e viciado em video-game, entra no ônibus no RJ, e joga a lábia-cata-biruta — “Sô ringenhêru da Pertobás”. A animadinha com aquele currículo ‘jesus-capacitou’ se anima logo, e não liga mais coisa com coisa; e passa telefone, endereço, etc, etc.
    Quanto em nós não tem brechas de fragilidade, mais que conhecidas, pelos vigaristas merrequeiros,e quanto pior é nossa condição psicológica ‘trabalhada’ desde criança pelos que nos sacaneiam e nos desgraçam à séculos e séculos?

  3. Pra vcs ai de “cima”…

    Como pessoas tão inteligentes conseguem ter religião? Ou não ter religião, mas um “lado espiritual” independente de religião?!?!

    Ê meu Brasil brasileiro…

  4. Muitas pessoas tem religião apenas por ter, um velho hábito sabe ? Algo como tirar os sapatos e andar de meia em casa.

  5. […] Daniel Dennett – entrevista no ZERO HORA.com 01/05/2010 Publicado em 05/05/2010 por Valmidênio Barros […]

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