A Aposta

Recontei uma estória para crianças e adultos com o título O pintassilgo e as rãs. Está no livrinho Estórias de bichos (Loyola). É sobre um punhado de rãs que viviam dentro de um buraco fundo. Haviam nascido lá, nada conheciam sobre o mundo de fora. Pensavam que seu buraco escuro e malcheiroso era o universo. E estavam muito felizes. Até que um pintassilgo entrou lá dentro e começou a trinar canções sobre o maravilhoso mundo de fora. As canções do pintassilgo provocaram um rebuliço. Os poetas sempre provocam rebuliços. A paz do mundo das rãs foi perturbada pelas as idéias novas. As rãs românticas acreditaram, começaram a sonhar e a fazer planos para sair do buraco. As rãs realistas, ao contrário, disseram que o pintassilgo era um mentiroso que desejava enganar as rãs com promessas falsas de um mundo diferente.

Escrevi um livrinho com o título O que é religião?. Nele eu me pus a perguntar a sociólogos, psicólogos e filósofos: “O que é religião?“. Eu desejava ouvir o que eles têm a dizer, mesmo sendo diferente daquilo que penso. Nietzsche dizia que a maneira mais fácil de corromper um jovem é ensiná-lo a respeitar mais as pessoas que pensam igual a nós, que as pessoas que pensam diferente. Os que pensam diferente são aqueles que estão vendo o mundo por um ângulo diferente do nosso. Sabendo que há uma forma diferente de ver as coisas começamos a ficar desconfiados de que, talvez, estejamos dentro do poço das rãs…

As Igrejas sempre tiveram e têm horror aos pintassilgos. Os pintassilgos, elas os chamam de “hereges“. E, como você sabe da história, milhares de pintassilgos hereges foram torrados em fogueiras, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. É preciso ter muito cuidado com rãs que moram em buracos fundos.

Algumas das pessoas a quem fiz a pergunta “O que é religião?“ me disseram que a religião é uma louca que balbucia coisas sem nexo, produtora de ilusões, serva dos poderosos, traficante de cocaína. Outros, ao contrário, afirmaram que sem a religião o mundo humano não poderia existir e que, quando deciframos seus símbolos, contemplamos a nossa imagem refletida num espelho. Para estes a religião é um sonho da alma humana… E todos os sonhos dizem a verdade.

Mas aqui preciso revelar que só fiz a pergunta a pessoas que não frequentavam os lugares sagrados, que só os observavam à distância, e que não acreditavam na sua fala…

Aí eu me perguntei se não seria necessário ouvir o próprio canto da religião. É certo que há uma religião que é como o coaxar de rãs. Mas há uma outra que é como o canto do pintassilgo… Quem sabe o pintassilgo tem razão? Quem sabe o universo é mais bonito e misterioso que os limites do poço em que vivemos? Sobre o que fala a religião?

É necessário que não nos deixemos confundir pela exuberância dos símbolos e gestos, vindos de longe e de perto, de outrora e de agora, porque o tema da canção é sempre o mesmo. Variações sobre um tema dado. A religião fala sobre o sentido da vida. Ela declara que vale a pena viver. Que é possível ser feliz e sorrir. E o que todas elas propõem é nada mais que uma série de receitas para a felicidade. Aqui se encontra a razão por que as pessoas continuam a ser fascinadas pela religião, a despeito de toda a crítica que lhe faz a ciência. A ciência nos coloca num mundo glacial e mecânico, matematicamente preciso e tecnicamente manipulável, mas vazio de significações humanas e indiferente ao nosso amor. Bem dizia Max Weber que a dura lição que aprendemos da ciência é que o sentido da vida não pode ser encontrado ao fim da análise científica, por mais completa que seja. E nos descobrimos expulsos do paraíso, ainda com os restos do fruto do conhecimento em nossas mãos…

O sentido da vida: não há pergunta que se faça com maior angústia, e parece que todos são por ela assombrados de vez em quando. Valerá a pena viver? A gravidade da pergunta se revela na gravidade da resposta. Porque não é raro vermos pessoas mergulhadas nos abismos da loucura, ou optarem voluntariamente pelo abismo do suicídio por terem obtido uma resposta negativa. Outras pessoas, como observou Camus, se deixam matar por idéias ou ilusões que lhes dão razões para viver: boas razões para viver são também boas razões para morrer.

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6 Respostas

  1. ADAM,

    Parabéns pelo Belo texto, com estilo, majestoso…

    Bem. O mundo da rãs é muito profundo. Existem guardas pra impedir sua entrada. Há pessoas negando sua existência, quando não mentem sobre o caminho até lá. Até chegar ao novo paradigma, novo universro, há um miríade de alçapões grotescos pra tirar do caminho. Antes da própria aventura, do desbravamento da descoberta do “el dourado” já se impõe sua impossibilidade….para que nenhum elemento da sua vida possa se aventurar, e assim entrar em conflito com a dominação reinante!

    Viva a liberdade! Viva as descobertas, viva o mundo REal!

  2. Eu quis dizer: “o mundo das rãs é profundo, não se pode de lá sair…” considerando a falta de visão dos que vivem lá…rsrs

  3. Saracura sempre com bons comentários , mas eu quero dizer que talvez nem precise mai de guardas nem nada porque nossa mente muitas vezes ja esta presa la não precisa mais.
    UM exemplo simplis é o que agluns amigos do interior me disseram ; que eles sempre amarravam o cavalo num determinado lugar depois de um certo tempo não precisava mais amarrar era só jogar a corda em cima da cerca e pronto ele não fugia nem a pau mesmo estando desamarrado.

  4. uau a palavra ali em cima é simples e não simplis mas é normal qdo escrevemos na correria.

  5. Salve Adamantdog,

    Mais uma vez um otimo texto :)

    “A ciência nos coloca num mundo… vazio de significações humanas e indiferente ao nosso amor”

    Sim, é isso mesmo, apesar de discordar por ser um romantico :) A Ciência nos mostra que podemos amar um cogumelo, e ele nunca vai nos amar devolta… Simples assim…

    Mas ai esta o belo: Podemos então parar e pensar o motivo de estarmos amando um cogumelo, e não nosso(a) companheiro(a)…

    Podemos saber que uma roda de orações não produz efeito nenhum em um doente, que um velório não produz qualquer efeito no falecido… Mas não precisamos ignorar que tudo isso tem um significado para os humanos envolvidos e efeitos em suas mentes…

    Não precisamos abandonar os contos de fadas, ou qualquer outra mitologia… O que não precisamos é acreditar em lobos ou cobras falantes DE VERDADE…

    Abraços,
    Amauri

  6. Valeu Amauri ; outro pra vc tb…

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