Ser bom, sem religião. Final

 

 

A vida não é a partida, nem a chegada, a vida é a caminhada

O ser humano para ser bom e feliz não precisa de misticismo, precisa de racionalidade, auto-conhecimento, conhecimento do seu meio físico, social e cultural, conhecimento e respeito pelos outros e pelo mundo. Precisa saber que ele é do mundo e não o mundo é dele. Precisa se livrar de maya, a ilusão das necessidade artificiais, e atender aos seus desejos naturais e necessários. Pode ler os textos religiosos sabendo que neles há muita coisa boa, mas ler com os olhos da ciência, da literatura, da filosofia, da psicologia, da história. A ciência e o espírito científico são grande amigos do ser humano. São insuficientes, mas são o que temos de mais certo. “Nada é certo”, disse o francês Albert Camus, “mas isto já é uma certeza”. Viver é como caminhar sobre troncos que bóiam num rio e que não suportam sozinhos o nosso peso. Antes que afundem é preciso pular para o próximo, mover-se, seguir em frente em direção a outra margem. Na caminhada nada nos ampara, na outra margem nada nos espera. A vida não é a partida, nem a chegada, a vida é a caminhada

A Verdade (Carlos Drummond de Andrade)

A porta da verdade estava aberta,
Mas só deixava passar
Meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
Porque a meia pessoa que entrava
Só trazia o perfil de meia verdade,
E a sua segunda metade
Voltava igualmente com meios perfis
E os meios perfis não coincidiam verdade…
Arrebentaram a porta.
Derrubaram a porta,
Chegaram ao lugar luminoso
Onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
Diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual
a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela
E carecia optar.
Cada um optou conforme
Seu capricho,
sua ilusão,
sua miopia.

Anúncios

8 Respostas

  1. Isso aqui é cultura! Que belos textos! Obrigado pelo brilhante “pensar”…

    abração

  2. É isso aí, oque pensava …
    Parabéns querido, fabuloso*

  3. Obrigado Ná e Saracura mas quem merece os louros é o Wellington autor do texto e o Grande Carlos.

  4. Cada um optou conforme
    Seu capricho,
    sua ilusão,
    sua miopia.

    E cada deus foi criado de acordo com a ignorância de cada um.

    Muito bom esses textos!

  5. Adam,

    Você também tem os méritos por ter posto estes textos, escolhido e admirado o que é bom!

    abração

  6. Você poderia colocar esses textos lá na guia de ‘Melhores Textos”, mesmo não sendo um texto do site hein.

  7. vida não é a partida, nem a chegada, a vida é a caminhada

    Bela mensagem.
    Boa Ada!!

  8. “O ser humano para ser bom e feliz não precisa de misticismo”:

    O que é ser bom? Não é relativo?

    Tomando como fonte original para definir respeito, o único modelo razoável – um exame racional sobre os limites do que considero digno de respeito embasado em auto-conhecimento. É como o modelo popular democrático que sugere a do bom-senso que supostamente leva a racionalização individual do próximo em respeito a mim mesmo. Por exemplo: “Minha liberdade termina aonde a do outro começa”. A melhor alternativa é basear a liberdade de todo mundo dentro dos detalhes inerentes ao meu julgamento de liberdade moral, ética, legal, mística, filosófica, etc, e a partir daí, presumir que todos tem a mesma concepção de liberdade e respeito restrita e igual a minha. O resultado seria uma noção extremamente vaga e egocêntrica, o que na prática me tornaria um errante civilizado, que vê a sociedade como uma utopia coletivista absurda e inaceitável.

    Comunismo é para anjos. Não somos anjos, somos todos pecadores, injustos, egoístas, neuróticos, mentirosos e deslumbrados, eis a democracia. Eu não acho que assumpções emocionais como “bom”, “feliz”, “fiel”, “justo”, “amor”, “ódio”, tenham definições absolutas. Tampouco acho que emoções são oscilações de temperamento e não um estado emocional estático.

    “Precisa saber que ele é do mundo e não o mundo é dele.” Como se faz isso? “Precisa se livrar d(…)a ilusão das necessidade artificiais.” Um exemplo disso seria fé, crença e destino? Ou entendi mal? “Atender aos seus desejos naturais e necessários.” Seria uma forma ampla de estoicismo? Anti-materialismo?

    “Ler textos religiosos sabendo que neles há muita coisa boa.” Eu acho que em geral, lá pelos vinte anos não há muita coisa de novo que não se tenha ouvido, no entanto, as boas-novas dependem do contexto. Por exemplo, um ditado popular que é basicamente igual a uma passagem bíblica, uma citação de um livro, ou uma história de pescador, papo de bêbado em mesa de bar, ou uma cantanda, paquera, elogio, crítica, que recebemos de quem temos afeição ou desafeto.

    Exemplo: “O que não me mata, me torna mais forte” (Nietzsche), “O caminho do excesso leva ao palácio da perfeição” (W. Blake), “O homem é o exercício que faz” (Raul Seixas), “Viva para sempre ou morra tentando” (Fernando Veríssimo).

    Espero ter esclarecido meu ponto de vista e não ofender ninguém por dizer que não há nada em textos religiosos que me valha à pena, pois mesmo sem ter lido todos (obviamente), eu tenho uma opinião formada (negativa) sobre textos religiosos e religião em geral para poder tirar algo de útil – pessoalmente.

    A partir da citação de Albert Camus, estou de pleno acordo com o autor do texto. Parabéns pelo trabalho! :)

Deixe um comentário:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: