Nada a ver com Deus (parte 3)

 

 

Quando um homem e uma mulher começam a namorar, eles dizem para quem quiser ouvir que estão apaixonados. Quando decidem viver a vida toda ao lado um do outro (na verdade eles vão tentar, né?), eles vão querer justificar tal atitude dizendo que “se amam”.

— Papai, mamãe, eu e o Barros… bom… nós nos amamos e vamos nos casar!

É esse pensamento equivocado que, geralmente, leva um casal apaixonado a fazer aquela promessa imbecil, no altar, na frente de um monte de parentes e amigos. Mas esse é o maior erro que eles já cometeram e que poderão cometer em relação ao outro. Não existe o pecado original? Pois esse é o erro original: não fosse por ele, não haveria casamento e, por conseguinte, não haveria Inferno.

Você pode amar seu pai, sua mãe, sua filha, seu irmão, e até pode amar a sua esposa, com a qual conviveu bem ou mal, aos troncos e barrancos, pelos últimos 30 anos; mas o que dois pombinhos consumam com um “sim”, após aquela pergunta fatídica, não tem nada a ver com amor. É apenas um ritual tolo, equivocado e desastroso imposto pela sociedade, que, embora oficialize e faça propaganda do tesão que um está sentindo pelo outro, vai violentamente de encontro a milhões e milhões de anos de programação genética.

Para Richard Dawkins, nós somos robores desajeitados controlados remotamente pelos nossos genes.* Somos apenas a carcaça que protege, transporta e repassa os seus Criadores invisíveis, que não se estressam com esse lance de pecado, muito menos se importam com o que façamos de nossas vidas, tendo nos deixado apenas dois Mandamentos:

1. Sobrevivam;

2. Procriem.

A consciência que temos de nossa própria existência e do mundo ao nosso redor é apenas um subproduto dessas máquinas orgânicas que os genes desenvolveram para sobreviver. E eles sobrevivem. Nós não.

E só não nos importamos muito com isso por um desses dois motivos: ou por ignorância, porque, quando você não está devidamente inteirado dos fatos, pode ficar tentado a considerar apenas os mitos; ou pelo distanciamento involuntário da realidade, que é o que faz, por exemplo, você saborear alegremente uma picanha argentina mal passada, sem se dar conta de que está devorando um cadáver.

Segundo Geoffrey Miller, “do ponto de vista dos genes de um macho, o corpo em si é um navio-prisão que afunda. A morte chega, cedo ou tarde. A única salvação [nada a ver com Deus] é através de um tubo de escape que termine dentro do corpo de uma fêmea carregando um óvulo fértil.”

Qualquer fêmea, se é que você me entende.

“Para os genes da fêmea, o corpo também é um navio que afunda; mas ela tem quase tudo que é necessário para produzir outros corpos: óvulos, útero, leite. A única coisa que lhe falta é o DNA de um macho. Mas há muitos pretendentes disponíveis no mercado. E eles são tantos que a fêmea pode se dar ao luxo de ser exigente.

Qualidade se torna o ponto-chave.”

Esse conflito de interesses — qualidade x quantidade — é, basicamente, o que torna o casamento uma instituição que tende a desmoronar sob o próprio peso, à medida em que os anos (ou meses) passam. Raramente é a morte que põe fim àquele voto leviano de amor vitalício que foi feito no altar…

Você pode ter tido a cara de pau de, um dia, ter prometido a uma moça bonita amá-la “até que a morte nos separe”. Mas os seus genes não prometeram nada! A ninguém. Mesmo porque, para eles, essa promessa não faria o menor sentido:

Eles são imortais.

 

<< Parte 1


 

 

* Não deixe de ler:   O outro nome de Deus


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18 Respostas

  1. Por mais que eu compreenda, aceite e acredite na veracidade dessa “versão genética” para os relacionamentos entre os homens e as mulheres, desconstruir todo aquele imaginário “romântico” que circundam as relações amorosas, torna-se um ato muito difícil pra mim… (boba, eu, né? rsrsrs…me entreguei…rs)

    Mas concordo com o exagero do “até que a morte nos separe…”

    Até porque nunca achei que eu deveria morrer pra me separar de alguém… rs..(fato!)

  2. concordo que é um ritual bobo e criado, humano.

    mas como máquina biologica de propagacao genética q sou, me sinto imbuído a ter filhos com uma femea escolhida a dedo.

    nao só isso, sei tb q evoluimos para criar sociedades complexas, pois é o q fez nossos genes sobreviverem até aqui e serem selecionados – o mutualismo social, q em uma das suas formas é a monogamia (mesmo q nao na forma de casamento). “infelizmente” seres humanos invariavelmente se dao melhor vivendo em pares e grupos.

    nossos impulsos de machos reprodutores que querem comer td mundo são um resquicio evolutivo, como um apendice ou um coccix. acho q nossa evolucao apontou para o lado do mutualismo social, é um dos grandes diferenciais da nossa especie – a sociedade de pares (diferente da sociedade das formigas, em q soh ha 1 reprodutor)

  3. eu gosto muito do dawkins, mas tenho serias reservas quanto a algumas ideias que ele desenvolve.

    eu me recuso a pensar que sou APENAS os meus genes. eu tento levar minha vida pensando que sou TAMBEM meus genes.

    querendo ou não, um desses subprodutos dos genes se chama , sei la, cerebro/sistema nervoso/consciencia e passa a vida inteira disputando espaço e decisões com os genes absolutistas. entende?

  4. nao concordo: o amor pode superar tudo, até nossos gens

  5. Se o amor pode superar até os seus genes, tente amar uma mula e ter descendentes com ela, talvez o amor consiga até superar os óbvios impedimentos físicos para tanto.

  6. Anonimo

    O amor está também incluso na genética, variando, claro para cada pessoa! O amor é relativo!

    Rayssa

    Apesar de parecer cruel, tem o sentido de existir, a genética, e o que fala como cérebro também faz parte disso, ditadura da qual procuramos nos livrar, criando nossas formas de interagir socialmente. Nossos desejos, nossa vontades têm um sentido de existir. Só o fato de compreendermos isto, já podemos nos regular para não haver injustiças…afinal o ser humano é na essência egoísta…aí o mutualismo que também genético, ajuda-nos na sobrevivencia. própria sociedade cria mecanismos para nossa vida melhor…

    A religião se presta a destruir tudo, do prazer ao entendimento…e ainda cria a imortalidade que preenche o vazio maior, a morte….daí as pessoas caem nessa..

  7. Ah o amor é uma droga no cérebro masculino http://vidaeestilo.terra.com.br/homem/interna/0,,OI4288201-EI12827,00-Corpo+violao+age+como+droga+em+cerebro+masculino.html

  8. Mas é aqui que está a beleza … ao evoluir até a consciência, também a Natureza nos proveu de circunstãncias saborizantes (isso nos faz lembrar o “data” da Enterprize tentando ser humano). Sabemos que muitos de nós têm um apetrecho ocular capaz de sensibilizar-se com nuances de cores sofisticadíssimas, e sabemos que muitos de nós não (estou dizendo assim para não se pensar que estou alegando provisão pro racismo). O fato é que até em relação ao alimento se escolhemos muito bem o que comemos, muito melhor é aprimorada nossas capacidades perceptivas e não só a pele. A consciência traz um refinamento, faz com que escolhamos até bem uma parceira, umas parceiras; e é isso que nos brinda com o gosto da vida, porque nós a transformamos em Arte, em poesia.
    A poesia genial da vida vem em nós por instância da consciência. Se os princípios saborizantes não fossem deturpados pela usurpação das crenças, aí sim, ao invés de cidades sujas, pornografia, igrejas, nós teríamos o affair de pessoas livres, não teríamos praças vigiadas por escroques espreitando a vida alheia, e nem sujeitos com armas tomando conta de cordeirinhos bonzinhos olhados de cima dos morros com mágoa e recalque e raiva.
    Nós afundamos a competência de viver bem ao nos prostarmos como imbecis diante de crenças.
    É ridículo um homem e uma mulher aceitarem ser “abençoados” por caras que são simplesmente doentes mentais, que cismam de colocar as mãos imundas nas nossas cabeças já premeditando no que vão fazer com as crianças que gerarmos.
    Se entregamos nossa felicidade e autonomia a uns pulhas intrometidos, confiados, ruins das idéias, que covardia já submetemos os filhos que fazemos (como brindes pelo que vivemos)? A Sociedade Humana não pode ser colocada sob uma dureza de ferro dum Sistema Falido imposto por vagabundos covardes incompetentes e insanos. É por isso que nós homens e mulheres temos que tomar uma atitude; a vida já é curta, e nós ainda damos trela de passá-la toda sob a pulhice de canalhas safados que não conseguem sobreviver sem nos desgraçar?

  9. eu acho que o seu pai conseguiu realizar essa proeza dando total razão ao anonimo .

  10. O amor é uma estratégia evolucional, mulheres com quadris largos e seios fartos teoricamente falando terão bons filhos, e homens de peitoril largo e bons provedores de alimento, segurança e etc bons parceiros.
    A vida em bando nos fez sociais e possessivos, logo a monogamia iria se tornar algo habitual.

  11. O ritual do casamento pode até ser uma instituição falida, criação dos homens e supervalorizado ($$) pelas igrejas, mas lembremos que, viver com um par foi imprescindível para a sobrevivência e evolução do homem.

  12. a minha instituição é bem sólida e duradoura porque acreditamos.
    este papo de gens, seleção, programação biológica é muito superficial , o que resolve mesmo são os sentimentos, afinidade, comprensão,doação, sensibilidade o resto é papo de pseudos sabios cientificos.

  13. mas lembremos que, viver com um par foi imprescindível para a sobrevivência e evolução do homem.

    Eu discordo, Robson. O ser humano é um animal sociável e a “invenção” da civilização foi sim imprescindível para o desenvolvimento de nossa espécie, não necessariamente imprescindível para a nossa sobrevivência. Mas o casamento foi só uma forma de resolver alguns problemas de ordem prática que começaram a surgir justamente quando “a vida a dois” mostrou ser contra nossa natureza. Precisava-se, então, de algum instrumento legal que formalizasse certos deveres e direitos para um “casal desfeito”, como divisão de bens, pensões e guarda de filhos… Ninguém procura um advogado enquanto está casado…

  14. Rayssa, aguarde os “próximos capítulos”… rsrs E parabéns, de novo, pelo seu texto.

  15. desconstruir todo aquele imaginário “romântico” que circundam as relações amorosas, torna-se um ato muito difícil pra mim

    Beth Amorim, citando, mais ou menos, Richard Dawkins: não é porque algo é reconfortante que é verdade; nem é porque algo é “muito difícil de aceita” que seja mentira.

    Pedro Almeida, como disse pra Rayssa: aguarde os próximos capítulos… rsrs

  16. E esses sentimentos são processados aonde mesmo ?
    Ah lembrei no cérebro hehehe.

  17. […] 2 – Parte 3 – Parte 4 – Parte 5 – Parte […]

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