Ateísmo sem Indiferença

Considerações sobre o livro “O Espírito do Ateísmo” de André Comte-Sponville.

As religiões de tão heterogêneas  de vastas possibilidades de dogmas, de crença e deuses, até mesmo sem estes, podem ser resumidas como : “um sistema solidário de crenças e de práticas relativas a coisas sagradas, isto é separadas, proibidas, crenças e práticas que unem numa mesma comunidade moral, chamada igreja, todos que a ela aderem”

Comunidade de crente não é necessariamente uma igreja. Pode ou não ter um deus. Todo teísmo é religioso. Nem toda religião é teísta. Por Durkheim: “Religião é todo conjunto organizado de crenças e de ritos que remetem a coisas sagradas, sobrenaturais ou transcendentais (sentido amplo), em especial a um ou vários deuses (sentido estrito), crenças e ritos sses que unem numa mesma comunidade moral ou espiritual os que com eles identificam ou os praticam.” Vivem os teístas, sob a égide de uma força maior que não é exatamente a tranquilização em face da morte, mas a perspectiva inquietante do inferno.

O autor sugere alguns conceitos como e e fidelidade . Sugerem forças agregadoras que mantém a associação unida em prol da sua existência. A fé é uma crença, a fidelidade um comprometimento, reconhecimento. A fé tem por objeto vários deuses, a fidelidade tem valores, uma história, uma comunidade. A fé é do âmbito do imaginário, a outra da memória e da vontade

Fé e fidelidade podem andar juntas, que o autor chama de piedade. Mas podem se separar, distiguindo impiedade (ausência de fé), do niilismo (ausência de fidelidade). Quando não se tem a fé, resta a fidelidade. Quando não se resta nem um nem outra, resta o nada e o pior.

Aí está o cerne da questão, o aspecto mais importante no entendimento humano. Podemos perder a fé, religião, mas estaremos sempre presos à idéia de comunidade, sentido de grupo, civilização. Não podemos perder o sentido de comunhão. São exigências para todas as civilizações. A laicidade assumida por nós não pode ser algo vazio, indiferente, um niilismo refinado. Se acharmos que nada resta depois da morte dos deuses, então estatemos indiferentes à humanidade, não teremos vontade de lutar contra os horrores da injustiça, econômicos, ecológicos, ideológicos. A riqueza nunca bastou para fazer civilização, a pobreza menos ainda. É necessário também cultura, imaginação, entusiasmo, criatividade e nada disso prospera sem coragem, trabalho, sem esforço.

Mas o que resta mesmo para ativos é a fidelidade comum, um apego compartilhado a esses valores que recebemos, o que supõe ou acarreta, para cada um de nós a vontade de transmiti-los.

Da mesma forma que o religioso tem o fanatismo que impõe pela força, sua fé o niilismo pode se revelar em barbárie, no egoísmo, ódio, violência dos que são indiferentes o sentido de comunidade, civilização. Carecemos de  valores fundamentais relacionados que nos permitem viver juntos em paz, harmonia e solidariedade.

Ateísmo não pode ser indiferente à humanidade. Pode apagar os deuses, relega-los à mitologia, mas permanecendo o sentimento de coesão por pertencer a um grupo, sociedade, Estado, País, raça humana, Terra e universo.

Saracura.

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14 Respostas

  1. Saracura,

    Eu concordo com o ponto central do texto, mas não acho correto o uso do termo “niilismo” para caracterizar o que foi chamado de “ausência de fidelidade”.

    Niilismo é um conceito complicado, pois se aplica em diversas situações. No âmbito moral, apenas representa a visão de que não existem nada intrinsecamente “bom” ou “mal”; ou seja, uma escolha deve ser feita pelas suas consequências, não por um padrão moral do que é bom ou ruim.

    Meu blog é sobre niilismo e hedonismo, e tento discorrer sobre algumas questões envolvendo esses conceitos de vez em quando. Fica o convite para dar uma olhada.

  2. Daneil Suqui
    VocÊ está certo. Cada autor tem uma idéia. Posso não ter sido claro, no que diz respeito ao vocábulo muito usado em filosofia.Não sou um entendido.
    Vou ler seu texo.

    A idéia era que esse niilismo pudesse representar uma autorização para praticar qualquer ato, com isso surgindo atitudes sem limites. O autor fala sobre esta questão desta forma. Eu mesmo não entendo muito!

    Agradeço as dicas. Aqui é pra isso mesmo! Assim que tiver uma chance vou ver seu texto.Obrigado!

    Que sejamos ateus mais humanistas, menos indiferentes À humanidade!

  3. CLAP ; CLAP . CLAP VALEU SARACURA

    Gostei do texto

    Tenho visto alguns ateus qeu passam por aqui que parecem ter raiva de tudo estão de mal com a vida.

  4. quem são eles??

  5. Os dois episódios a seguir ocorreram na Cidade do Rio de Janeiro (adicionei em um frases de vários outros para não ter de repetir momentos quase iguais em várias outras cidades brasileiras):
    Uns elementos e umas meliantes impingiram uma trama de demolição de auto-estima em cima de uma moça bonita (que conversava com um hasta-fári num calçadão dum bairro bastante movimentado). Um pernóstico surgiu intrometidamente do nada e começou a chamá-la de feia, feia, feia; na cara de todo mundo — Notem: Quem conversava com a moça devido ao súbito da situação ficava a pensar que devia ser uma brincadeira de um conhecido da garota; e assim não faziam nada — e depois, à espreita, e vendo-a momentaneamente fragilizada, a corja que ficava mais afastada corria e se apresentarem pra moça, dizendo, “Liga não, não deixe nada te magoar, Gersuis cuida disso”. Aquela gente ‘bondosa’, cheia de ‘amor de cristo’ passava ser vista como ‘carinhosas’ e as vítimas aceitavam agradecidas os convites para ir na igreja se livrar ‘dos espíritos’.
    Pode ser que um gaiato desgraçado desse tenha recebido um cacete seguro e acabou abrindo o bico.

    O sujeito entrou no ônibus e largou: “Já fiz estrupu, já matei, já rôbei, e hoje sou lárvado e sáurvu por Gersuis”.
    Daí um passageiro interpela: “Então você devia estar é na Cadeia”. Houve um entreolhar.
    Um outro mandou zunindo: “Isso aí é o arremêdo e a trapaça que tomou conta de tudo”. Outro, e outro ainda, na impagável tirada carioca, um a um, mandou: “É o limpa SPC Divino”. “Não querem nem saber se temos outra Fé”. “Já tá demais …Cacete!”
    O tempo fechou.
    No meio do arranca-rabo mais um lá arrematou sem deixar dúvida: “Agora que tá ‘capacitado’, com mais um cursinho pra enganar e ‘trabalhar’ bocós, ele ‘aprende a fazer as coisas com sabedoria’ e vira mais um salafrário dono de igreja, com um monte de ‘escolhidos’, para fazerem ‘os planos’ que eles têm pros outros, para entrarem na Política e fazê-los nadarem em dinheiro”.
    A troca de conversa se espalhou como um estopim: “É por isso que se gabam de um ‘tremendo’ no controle” … “O currículo desse aí é de fazer inveja a qualquer pastuto” … “É de fazer os padrerastas tremerem os olhinhos de admiração” … “É de preocupar … é quase um currículo de papa”. O povo faz nomes praticamente exatos pra certas coisas. “Com certeza, um monte de adultos e crianças que tá aí nas ruas podem ter sido ludibriadas, estropiadas, por um pulha desse; e depois, ainda vai se escorar nos manuais de pilantragem divinas, e aparecer pra entrar nas nossas vidas pra ‘aconselhar’, e nos fazer ‘confessar’, e nos mandar”…

    Falta ainda relatar sobre canalhas dentro de bancos, dentro do judiciário, dentro dos correios, nos consultórios médicos, nas universidades, e nas múltiplas e inumeráveis firmas de segurança que crescem igual capim.

  6. Numa situação social em que em um periódico (revista ‘séria’ ) se lê sem o mínimo senso de putaria na cara de quem escreve e autoriza, que se deve borrifar plantas com cocô de cachorro pro cachorrinho não destruí-las … Aonde chegamos?
    E ainda escutarmos dos imbecis alienados: “É chêru invisívi num faiz mau às prânta!” …
    No auge dum estado chafurdado em crenças, as almas abençoadas do eixo do terror são capazes de cheirar cocô ao invés do perfume das flores. E muiot mais que isso …
    Caraleo, isso não é mais um planeta de seres humanos ..

  7. Amigo revoltado que prefere manter o anonimato:
    Não entendi o que seus comentários tem a ver com o texto, e nem qual argumento você quer defender. Poderia ser um pouco mais claro?

  8. Eu também não entendi muito. Comecei a pensar que eu estava meio burro!

  9. Sou um entusiasta de filosofia. Aliás meu plano de vida é ,ao adquirir estabilidade financeira, me graduar em filosofia, sinto que nunca serei realizado sem isso hahahaha.

    Voltando ao assunto, gosto do niilismo de Nietzsche. Há nós humanos, resta fazermos nossos próprios valores pautados não mais na transcendental e dogmática moral divina , mas sim nos valores humanos e sociais.

  10. Dhiogo
    O autor acha que esse niilismo pode levar à indiferença à humanidade, como por exemplo a barbárie e aniquilamento! Não sei porque pensou assim, mas na idéia que ficou, pelo menos entendi, seria um Pol polt, Stalin e por aí vai…

    De qualquer forma vou ler mais sobre isto! Não é meu forte. Não consigo assimilar um Kant, em sua crítica da razão em profundura!
    abração

  11. Junte a falseamento de alusão à intolerância qdo pessoas íntegras se levantam frontalmente contra a covardia, veja comentários aludindo à ‘marketing’ de cruz … O comentário que postei como ‘revoltado’ diz bem o que é o ‘marketing’ que enche as igrejas. Nenhum dos fatos relatados é pra ser adoçado com chás calmantes nos blogs e sites; é para fazer valer a hombridade do Ser Humano, que não se põe indefinidamente sob a tutela da covardia de canalhas que destroem o organismo civil humano.

  12. saracura,

    Estou lendo o Tratado de Ateologia, e tem uma parte lá que fala sobre o niilismo nietzschista. Como não estou com o livro comigo agora, vou parafrasear. Diz mais ou menos que o niilismo de Nietzsche não é para ser seguido ao pé da letra, mas é um convite a termos nossa própria visão do mundo, livre das correntes impostas pelas religiões. Nietzsche não queria que as pessoas concordassem com ele, e sim que formasse seu próprio niilismo.

    Se quiser, depois eu coloco a citação direta do livro.

  13. Homens que pensam e fazem nunca foram murrinhas; quando os filósofos vestiram a fantasia da fraqueza etérea a ver o mundo por trás de óculos fundo de garrafa e braços caídos como caniços quebradiços, desde então também a lógica ficou estagnada no tempo, e as crenças invadiram a sociedade como erva daninha. Mas hoje os tempos reviram e para surpresa dos ‘espertos’ uns Homens não são fracotes por que têm conhecimento de ciência avançada, antes são completamente preparados com total disposição. Essa a nova verve de ser humano, cujo vigor é como a pedra atirada à frente pelo estilingue do garoto indomado e furioso..

  14. O céu que nos pregam é o inferno que nos arrasta …
    O mais dramático de tudo é ver que na sociedade brasileira, escrúpulo, dignidade, integridade, não servem absolutamente a ninguém no conviver social.
    Qualquer um tem de se encher de moral, respeito, cinismo, hipocrisia, e, mentir e enganar descaradamente em qualquer situação, sem preocupação alguma; só assim alguém consegue se mover, e se livrar do escárnio e da difamação.
    A lição generalizada é essa: Os idiotas se esforçam, suam, se estrepam, se lascam, e entregam a conta, a vida, e tudo que prezam nas mãos dos capangas de deus com seus comparsas e aconluinhados.
    Sinceridade e honestidade são travas que prendem os idiotas, que não atinaram logo quando crianças, pelo comportamento dos adultos nas igrejas, que essas duas receitas da imbecilidade jamais servem pra alguém na vida.
    As resmas dos velhacos rabiscos divinos mostraram isso o tempo todo, só os estúpidos arrastados em seus prejuízos não viram logo diante dos olhos a desgraça da enchurrada que leva a vida de todos e de cada um no meio disso.

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