O Falso Brilho dos Milagres…

Anais do Livro: “Deus não é Grande” de Christopher Hitchens.

As filhas do sumo sacerdote Anius transformavam o que quisessem em trigo, óleo em vinho. Atalida, filha de Mercúrio, ressuscitou diversas vezes. Esculápio ressuscitou Hipólito. Hércules resgatou Alceste da morte. Heres retornou ao mundo após passar uma quinzena no inferno. Os pais de Rômulo e Remo eram um deus e uma vestal virgem. O Paládio caiu do céu na cidade de Tróia. O cabelo de Berenice se tornou uma cosntelação.(…) Dê-me o nome de um povo em meio ao qual incríveis prodígios não aconteceram, especialmente quando poucos sabiam ler e escrever. 

Voltaire, Questões sobre os milagres

Uma antiga fábula fala do surgimento de um fanfarrão que estava sempre contando a história de um salto realmente fantástico que ele tinha dado na ilha de Rodes. Aparentemente, nunca tinha visto salto em distância tão heróico. Embora ele nunca se cansasse da história, o mesmo não podia ser dito da platéia. Finalmente, quando ele mais uma vez tomava fôlego para contar a história do grande feito, um dos presentes o fez calar dizendo rispidamente: “Hic Rhodus, hic salta”. (Aqui é Rodes, salte aqui!)

De certa forma, assim como profetas, videntes e grandes teólogos parecem ter morrido, também a época dos milagres parece ter ficado em algum ponto de nosso passado. Se os religiosos fossem sábios, ou tivessem confiança em suas convicções, deveriam aplaudir o eclipse dessa era de fraude e invocação. Mas a fé, mais uma vez, se desacredita se mostrando insuficiente para satisfazer o fiel. Acontecimentos ainda são necessários para impressionar os crédulos. Não temos dificuldade de identificar isso quando estudamos os médicos-feiticeiros, os mágicos e os videntes de culturas antigas ou remotas: obviamente uma pessoa esperta que primeiramente aprendeu a prever um eclipse e depois a utilizar esse acontecimento planetário para impressionar e assustar sua platéia. (…)

Com tudo isso, é surpreendente como parecem banais alguns dos milagres “sobrenaturais” de hoje. Como nas sessões espíritas, que cinicamente oferecem tartamudeios do além para os parentes do morto, nada realmente interessante é dito ou feito.

O autor exemplifica que o desejo de voar, de ter asas, a inveja dos pássaros originou fantasias para o homem neste sentido!O desejo do poder, do sobrenatural.

A levitação também tem um grande papel na fantasia cristã, como confirmam as histórias da ascenção e da assunção. Naquela época o céu era visto como uma tigela e o clima comum, fonte de grandiosidade ou intervenção. Dada essa visão pateticamente limitada do universo, o acontecimento mais trivial parecia miraculoso, enquanto um acontecimento que realmente nos impressionaria – como o sol para de se mover – parcia apenas um fenômeno local.

Supondo que o milagre é uma mudança favorável da ordem natural, a última palavra sobre o assunto foi escrita pelo filósofo escocês David Hume, que nos deu o livre arbítrio. Um milagre é uma perturbação ou interrupção do rumo esperado e estabelecido das coisas. Isso pode envolver qualquer coisa, desde o sol nascer no oeste até um animal de repente começar a recitar versos. Muito bem, então o livre arbítrio também implica decisão. Se você parece estar testemunhando tal coisa, há duas possibilidades. A primeira é que as leis da natureza  foram suspensas (em seu benefício). A segunda é que você está equivocado ou tendo um ilusão. Assim, é preciso avaliar a probabilidade da segunda em comparação com a probabilidade da primeira.(…)

Os milagres diminuíram em seu impacto espantoso desde os tempos antigos. Mas ainda, aqueles oferecidos mais recentemente foram um tanto mal-ajambrados. A famosa liquefação anual do sangue de San Gennaro em Nápoles, por exemplo, é um fenômeno que pode ser ( e tem sido) repetido por qualquer mágico competente. Grandes “mágicos” seculares como Harry Houdini e James Randi demonstram facilmente que levitação, andar sobre o fogo, descobrir água e entortar colheres podem ser conseguidos em condições de laboratório, de modo a revelar a fraude e proteger o consumidor desatento de ser enganado. De qualquer forma, milagres não confirmam a verdade da religião que as pratica: Aarão supostamente derrotou os mágicos do faraó em disputa aberta, mas não negou que eles também podiam realizar maravilhas. Porém, não tem havido uma ressusreição há algum tempo, e nenhum xamã que afirme poder fazê-lo concordou em reproduzir seu golpe de uma forma que pudese ser desafiado. Assim, precisamos perguntar a nós mesmos: a arte da ressusreição morreu? Ou estamos confiando em fontes duvidosas? (…)

(…)Aplique isso aos dias de hoje, em que algumas vezes é dito que estátuas de virgens ou santos choram ou sangram. Mesmo que eu não pudesse facilmente apresentar a vocês pessoas que conseguem produzir esse mesmo efeito em seu tempo livre usando banha de porco e outros materiais, ainda me perguntaria por que uma divindade deveria se satisfazer em produzir um efeito tão insignificante.

O autor mostra que com um mínimo de raciocínio se consegue mostrar as fraquezas do “milagre”, usando a navalha de OCKHAM. Mesmo para aquelas oportunidades em que as leis da natureza são aparentemente suspensas de uma forma que não oferece contentamento ou consolo evidente. E diz mais:

Tragédias naturais não são violações das leis da natureza, e sim parte de suas inevitáveis flutuações, mas sempre foram utilizadas para impressionar os tolos com o poder da desaprovação de “deus”. Todos os livros sagrados falam com excitação de inundações, furacões, raios e outros fenômenos. Após o terrível tsunami da  Ásia em 2005, e depois da inundação de Nova Orleans em 2006, homens bastante sérios e instruídos como o arcebispo de Canterburry foram reduzidos ao nível de camponeses bestificados ao agonizarem publicamente sobre como interpretar a vontade de deus na questão. Mas, se a pessoa faz a suposição simples, baseada em um conhecimento absolutamente certo, de que vivemos em um planeta que ainda está esfriando, tem um núcleo fundido, falhas, rachaduras em sua crosta e um sistema climático turbulento, então simplesmente não há necessidade de tal ansiedade. Tudo já está explicado. Eu não consigo entender porque os religiosos relutam tanto em admitir: isso os livraria das perguntas fúteis sobre porque deus permite tanto sofrimento. Mas aparentemente esse incômodo é um pequeno preço a pagar para manter vivo o mito da intervenção divina.

Vamos irmãos, mostrem-nos uma ressureição, uma regeneração de membro “amputado”, um “arrebatamento”, uma levitação demorada sobre o Saara, uma cura de um cego, a “regeneração” de uma cabeça decepada, dar “voz” ao meu cachorro, “mula” ou ramster, uma transformação de água em vinho, uísque, vodka, na hora, ou a cura do sofrimento dos doentes, os números da “sena” para 10 concursos. Não vale esses milagrezinhos pequenos. Por quê só vemos curas de “dor-de-cabeça”, caroços não vistos, cura da ansiedade, curas mentirosas? É difícil usar a “navalha de Ockham?

Abração

Saracura do brejo 

 

 

Anúncios

6 Respostas

  1. Milagres, como sinal da existência divina, são uma contradição à parte. Ora, deus é tão incompetente que não consegue enviar uma mensagem clara de xua existência? Precisa recorrer a artifícios simplórios, enigmas dúbios e agentes falhos?

  2. O papamóvel blindado demonstra o quanto se acredita em milagres.

  3. E como os milagres tem perdido cada vez mais espaço, graças as ciências, só resta aos religiosos a opção de atribuir qualquer evento puramente natural à providência divina. Para ver isso é só ligar a TV em um das dezenas de canais que vendem seus horários para igrejas neo-pentecostais. O crente da Universal acha que a conquista do emprego, a cura de uma doença, a preservação do casamento…etc São puramente desígnios divinos.

    Deus está aumentando seu território. Se antes era relegado as lacunas, hoje é a esperança de um futuro financeiramente e emocionalmente bem sucedido. Infelizmente Deus não está mais morto.

    Saracura meu caro, viu o email que te mandei?

  4. Amigo Dhiogo,
    Estou meio adoentado..li seu e-mail mas estou febril com uma virose braba…praga dos crentes! rsrsrs…

    Irei consertar sim…desculpem pessoal estive ausente…os textos vão saindo agendados!

    abração…quase sentindo o cheiro do chulé do capeta! rsrsrs

  5. Hahahaha. Melhoras Saracura!

  6. DAVID HUME pensador Iluminista defendeu a emancipação do homem frente ao pensamento religioso…

    Ele trata da questão da validade dos milagres trabalhando a inveracidade dessa manifestação de cunho religioso. Assim, diz HUME, o sábio deve refutar toda e qualquer manifestação de apoio ao milagre uma vez que este vai contra as forças imutávesi da natureza.
    Outro ponto discorrido pelo filósofo é quanto à validação do relato do milagre. Sendo este uma subversão da natureza, sua descrição acaba por incorrer em mérito, uma vez q contrapõe a expereiência prática – o empirismo.
    Outra crítica de Hume contra a veracidade dos milagres é baseada nos interesses e análise de caráter dos que anunciam milagres.
    Para o filósofo, os indivíduos q testemunham milagres não são íntegros; além de as pessoas serem, em geral, propensas ao sensacional e, por isso, a acreditar em relatos extraordinários; e povos “bárbaros” costumam a relatar com abundância a ocorrência de milagres – para um Iluminista, isso jjá seria motivo suficiente para demonstar o quão irracional é crer em milagres.

    Assim, conclui HUME, a crença nos milagres é baseada em fé e não na racionalidade e na experiência prática das leis naturais.
    …LEIA MAIS na Revista FILOSOFIA EDIÇÃO de nº 25

Deixe um comentário:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: