Deus está morto, mas sua “alma” perturba alguns

Amigos. Enquanto as idéias ultrapassadas que permeiaram o imaginário coletivo, como deuses, milagres, dogmas religiosos são abandonadas em nome de uma percepção mais racional, mesmo assim, parecem deixar uma lacuna nas mentes despreparadas, submissas por anos de alienação. O vazio diante do super-herói pressupõe aos despreparados, a tristeza, a fraqueza, o pessimismo, em contrapartida à presença, na antiga crença, do deus “faz tudo”, “pode tudo”. As pessoas se sentem órfãs desse pai poderoro. O problema é que a vida e o mundo não necessariamente é uma novela com o próprio homem como protagonista, ator principal, levado ao desfecho de final feliz, a vida eterna. As pessoas preferem uma fantasia à realidade. Como mostra um trecho do livro “Tratado de Ateologia”, de Michel Onfray quando diz:

Não desprezo os crentes, não os acho ridículos nem lastimáveis, mas desespera-me que prefiram as ficções tranquilizadoras das crianças às certezas cruéis dos adultos. A fé que tranquiliza em vez da razão que preocupa – mesmo ao preço de um perpétuo infantilismo mental: eis uma operação de presdigitação metafísica a um custo monstruoso!

A credulidade dos homens supera o que se imagina. Seu desejo de não enxergar a evidência, sua avidez por um espetáculo mais divertido, mesmo que pertença à mais absoluta ficção, sua vontade de cegueira não conhece limites. Antes fábulas, ficções, mitos, histórias para crianças do que assistir à revelação da crueldade do real que obriga a suportar a evidência trágica do mundo. Para conjurar a morte o homo sapiens a exclui. A fim de resolver um problema, ele o suprime. Ter que morrer diz respeito apenas aos mortais: o crente, o ingênio e tolo, “sabe” que é imortal, que sobreviverá á hecatombe planetária…  

 Mesmo depois de perceberem os absurdos dos dogmas, das incoerências do livro sagrado, da falta de ingerência de  um deus na vida cotidiana,  por falta de compreensão de que a vida não é esse filme feito por seus deuses, as pessoas não admitem o vácuo do “pai” todo poderoso criando “forças superiores”, “espíritos de luz”, “almas protetoras”, ou “algo que nos protege” . Eu já ouvi diversos comentários de pessoas desiludidas com  religião que comenta: “-Eu acredito numa Força Superior Universal, que fez tudo”. O abandono das crenças, religiões nem sempre vem acompanhado do abandono das ilusões e aceitação da realidade nua e crua. Do livro citado retiramos:

A retração das tropas judeo-cristãs não modifica em nada seu poder e seu império sobre os territórios conquistados, conservados e administrados por elas há quase dois milênios. A Terra é uma aquisição, a geografia um testemunho de uma presença e de uma infusão ideológica, mental, conceitual, espiritual. Mesmo ausentes, os conquistadores continuam presentes pois conquistaram  os corpos, as almas, as carnes, os espíritos da maioria. Seu recuo estratégico não significa o fim do seu império efetivo…sem o padre nem sua sombra, sem os religiosos nem seus turiferários, os indivíduos permanecem submissos, fabricados, formatados por milênios de história de dominação ideológica…Decerto mais gente não acredita na transubstanciação, na virgindade de Maria, imaculada concepção, existencia de inferno, Paraíso, Purgatório…Onde reside o substrato católico? Na idéia de que matéria, o real, o mundo não esgotam a totalidade. De que “alguma coisa” reside fora das instâncias explicativas dignas desse nome: uma força, uma potência, uma energia, um determinismo, uma vontade, um querer. Depois da morte? Não, certamente nada, mas “alguma coisa”…”alguma coisa” transborda da série lógica. O espetáculo do mundo: absurdo, irracional, ilógico, monstruoso, insensato? Certamente não…”Alguma coisa” deve existir que justifique, legitime, faça sentido. Senão…

  Tudo isso advém do fato da não aceitação humana do verdadeiro,  pelo medo do conhecimento, da ciência reveladora, ocasionados pela perda dos seus super-heróis e o desejo cego pela eternidade. Essa fuga tem seus desdobramentos deletérios à mente humana: afasta o homem dele mesmo, da razão e direciona toda a energia para seres sobrenaturais, até mesmo gerando sacrifícios e sua própria destuição. A impregnação religiosa durante os milênios de perseguições castigos e dogmas absolutos, tornaram as pessoas restritas, enjauladadas no mundo ilusório, sem que se apercebam da forçada limitação. Mais um pequeno trecho do livro acima:

A religião torna-se portanto a prática de alienação por excelência: supõe a separação do homem de si mesmo e a criação de um mundo imaginário no qual a verdade se encontra ficticiamente investida. A teologia, afirma Feuerbach, é uma “patologia psíquica”, a que ele opõe sua antropologia apoiada num tipo de “química analítica”… 

  Então, mesmo que o abandono de certos dogmas seja de crucial importância para ser “livre pensador”, mais afeito a questões racionais e coerentes, ainda assim os resquícios de um  período de dominação pelas superstições permanecem nas mentes restritas. O medo do real, da morte, da falta de um final feliz do episódio existencial os tornam escravos de idéias obtusas, contraditórias, porém acalentadoras. Não admitir a crudelidade do mundo, a efemeridade da vida, a ausência do paternalismo divino, fazem certos seres voltarem a criação de ilusões para a satisfação pessoal. Fugir da realidade não faz o homem melhor, apenas denota sua incapacidade perante as vicissitudes, transferindo para o sobrenatural, mesmo ilusório, o preenchimento dos fatores da  sua impotência natural.

Saracura do brejo  

 

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15 Respostas

  1. Quando não se tem deuses, criam-se “forças superiores”, mesmo que estas forças não estejam preocupadas com nossa vida sexual…

    Existe, mas não interfere. Assim como deuses, existem no imaginário e não agem nem mostram seus poderes..

    Abração a todos

  2. Bom texto, Saracura…

    É bem por aí! Esse deus é tão efetivo em suas ações quanto o acaso, exatamente como se não existisse… Ou simplesmente não existe.

  3. Samurai,
    Obrigado amigo. Sendo invisível em forma e ações, já era pra desconfiar e não entra em nenhuma equação no mundo.

    Mas a coisa ficou tão impregnada que mesmo depois de abandonar a crença, até mesmo um deus pessoal, as pessoas parte para a tal da “força superior”, que é o deus impessoal…..rrsrs….não é uma droga?

  4. As pessoas, em virtude da perda da crença, tentam encontrar uma que explique melhor, ou mantenha as mesmas esperanças de vida eterna, e mais alguns bônus, diminuindo as incoerências…

    Aí partem pro espiritismo, pro esoterismo, pro budismo, e ainda pra tal da “força mágica”….a verdade parece doer…..ser frágil e efêmero é muito ruim, mas é a realidade.

  5. É a biologia, o ser humano foi “programado” a acreditar!
    Isso foi importante no homem primitivo para avaliarmos perigos sem vê-los, hoje é um entrave…

  6. O interessante o que as pessoas fazem da crença…da prostração a um deus! Gastam energia demais e chegam a fazer algum mal à humanidade

  7. O processo de mudança é bem vagaroso ; mas pode ter certeza Saracura que acontece e talvez pra alguns seja até melhor.
    Ateus por modismo vão fazer miséria (a história se repete)
    Veja ai que a maioria aqui foi gradualmente se informando e largando certas coisas.

  8. ADAM,

    Amigo. O processo é realmente vagaroso, porque somos inundados diariamente com idéias absurdas e repressão da infância.

    Então para alguns, começam a perceber os equívocos e vão abandonando…mas sempre parece ficar algo de desejo de “mágica”, de extraordinário….a orfandade, dói….mas a realidade não tem piedade!

    O mundo não se curva para as pessoas; nem as forças físicas, nem o tempo, nem o acaso, nem o fim inevitável

  9. A frase Freud resume boa parte texto.
    “A crença em Deus subsiste devido ao desejo de um pai protetor e imortalidade, ou como um ópio contra a miséria e sofrimento da existência humana.” (Frases e Pensamentos de Sigmund Freud)

    As pessoas não gostam de questionar seus desejos, querem ser eternas e ponto final.

  10. Rodrigo,
    Muito boa a colaboração Obrigado. Mesmo o homem não desejando a morte, o sofrimento, não significa que ele tenha que ser eterno e livre de tudo..

    O religioso não entende isso.

  11. Saracura

    O resultado da fé religiosa ; é o derramamento de sangue.

  12. Neto,
    É isso mesmo… barbárie anda junto com a ignorÂncia e religiosidade, como se esta justificasse e permitisse perversidade sem culpa.

  13. É importante saber ler Friedrich Nietzsche. Ele contesta o deus pai bíblico que felizmente nunca existiu e infelizmente continua existindo na cabeça de muitos. Nietzsche contesta o Cristo elaborado pela religião e que também nunca existiu. Ele não se refere ao Jesus humano, um espírito evoluido que veio trazer uma mensagem de moral, não a moral dos hipócritas ligada a sexo, mas a moral cósmica onde devemos respeitar o próximo ou em sua linguagem: amarmos uns aos outros. Visitem meu blog: omitododeuspai24x7.blogspot.com e encontrarão a verdade sobre o deus pai.

  14. Pedro Cabral,

    Obrigado pela dica.Verei.

  15. “moral” cósmica, “matéria escura”, “filosofia espiritual”, tudo uma gaita para ouvidos tontos na mão de manipuladores.
    Já foi mostrado que o hitlerchens (que deu sumiço no dia em que foi publicado rapidamente na mídia — uma notícia de tal importância que ficou 6 HORAS NO AR — que Dezenas de Milhares de Crianças foram mortas e estupradas dentro de igrejas nesses últimos anos, a partir da 2a. Guerra até 2011) infiltrou-se no meio dos ateus como um manipulador. Agora mostramos outro, supostamente dá a entender que usa saia, e que está levando ateus no bico do bule voador:
    Espera-se que isso lá faça um vídeo, usando de toda sua ‘graça’ (de “dando adoidado” — sic — pra lá) afim de comover os ateus; adoraríamos ver as nuances de suas “curvas”. Adiantamos que não use hologramas, como aguns vídeos de suas ‘madrinhas’ em posse de ‘presidentas’.
    http://www.atheistnexus.org/photo/manipuladores-at-dos-ateushandlers-also-atheists-um-com-o-sorriso?context=user

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