Fé & Autoengano (parte 2)

 

1 no catolicismo, a primeira das três virtudes teologais 2 confiança absoluta 5 FILOSOFIA na escolástica, crença religiosa sem fundamento em argumentos racionais, embora eventualmente alcançando verdades compatíveis com aquelas obtidas por meio da razão.

As primeiras definições de “fé” do meu dicionário Houaiss (uáis).

Claro que não é função de um dicionário ser enciclopédico, mas eu fico imaginando que exemplo de “verdade” a fé religiosa teria alcançado que pudesse ter sido usado pelo autor dessa definição para, digamos… ilustrar o verbete. Se fosse numa enciclopédia, acho bem provável que o autor tivesse ficado só com “crença religiosa sem fundamento em argumentos racionais” na sua definição, pois a outra parte, sobre “verdades eventualmente alcançadas”, iria exigir um mísero exemplo, que ele não iria ter para dar.

Então fé é a virtude de crer em algo, sem que haja nenhum fundamento racional que sustente, valide, ou mesmo que motive essa crença. É o que mantém todo o mundo religioso inabalavelmente de pé: o acreditar por acreditar, e ainda se convencer de que isso é uma coisa muito boa.

Entendido o que é a fé, pode-se entender, também, como é completamente sem sentido um dos principais, senão o mais recorrente, “argumento” teísta contra a visão ateísta do mundo: o de dizer que o ateu também tem fé, — parafraseando Richard Dawkins — como se tudo o que diz respeito ao teísmo esteja também no ateísmo, com o sinal invertido.

Assim, o teísmo é bom, o ateísmo é mau; o teísmo é condizente com a moral, o ateísmo é imoral; o primeiro é louvável, o segundo, reprovável; um é sinônimo de retidão, bem-aventurança e paz de espírito, o outro significa inquietude, fracasso e vilania; etc. Mas quem põe as coisas nesses termos? Os próprios teístas. Só que, tal qual a sua fé, eles fazem isso sem nenhum argumento racional que embase tais declarações e, infelizmente, também tal qual a sua fé, eles aceitam essas proposições sem nenhuma avaliação crítica.

Mas sendo a fé inútil nesse mundo formado de átomos; como não dá para simplesmente usar o tal do acreditar por acreditar para, digamos, considerar um parente seu como uma pessoa má, imoral e vil só porque ele é ateu, o cérebro do crente se vale de um artifício engenhoso: o autoengano.

Mas… comecemos pelo começo…

Eu moro sozinho num planeta, igual ao Pequeno Príncipe. E nunca me preocupei com a existência de deuses. Não mesmo! As coisas no meu planeta são tudo preto no branco. Eu me preocupo com a gravidade, com vulcões, com rosas e com baobás… Nenhum deus nunca interferiu em nenhuma dessas coisas e, portanto, eu nunca me interessei por eles. Muito menos pelo seu Deus em particular.

Aí, um dia, você desce lá nesse meu planeta com a sua Bíblia debaixo do sovaco, e em vez de perguntar qual o meu nome, ou se eu coleciono borboletas, você quer saber isso:

Você acredita em Deus, Nosso Senhor e Salvador?

Ao que eu, naturalmente, respondo:

Hein?

A partir desse diálogo esclarecedor, você passa a me relatar tudo o que há na sua Bíblia, no seu livro sagrado, que é a origem do seu “conhecimento” sobre esse Deus específico. Ao final desse curso intensivo, onde eu fui informado, através de você, que, por sua vez, foi informado disso através da sua Bíblia, que foi escrita por pessoas que, segundo outras pessoas, foram informadas daquilo tudo porque foram inspiradas pelo ser supremo sobre o qual o livro supostamente fala — [respire] —, bom, eu fui informado, então, sobre os seis dias da Criação, sobre as “vontades” de Deus, sobre suas regras para me livrar do Inferno… Fui informado, também, de que algumas coisas que estão nesse livro sagrado não devem ser levadas ao pé da letra, outras sim; fui informado de que algumas coisas não se aplicam mais nos nossos dias, mas outras ainda sim; e de que algumas coisas soam erradas, são contraditórias, estúpidas, ridículas, cruéis, perniciosas, degradantes, etc., mas só porque, especificamente nesses trechos, os homens que escreveram esses tais livros sagrados não estavam 100% conectados a Deus e, tendo perdido a conexão, escreveram o que lhes vinha à cabeça, o que não nos podia fazer esperar que fosse algo que prestasse!

Enfim, depois disso, e mesmo sem ter me explicado como ou de onde tirou esse discernimento aí sobre que trechos descartar, você me repete a pergunta:

— Você acredita agora em Deus, Nosso Senhor e Salvador?

Ao que eu respondo calmamente, depois de ter avaliado como as coisas sempre estiveram funcionando perfeitamente bem sem nada daquilo: “— Eu não!”.

E, aí, você se estressa, como se estressam todos os crentes ante uma atitude assim, em que a fé simplesmente não aparece para “iluminar” tudo, como faz o sol saindo por detrás de uma nuvem densa…

Você, então, torna-se mais alterado e começa a esbravejar e a falar alto, citando inúmeros versículos bíblicos dessa mesma Bíblia que você acabou de me confessar não ser lá muito confiável. Você se estressa, se revolta e se enfurece porque eu, de repente, virei um tipo de adversário a quem derrotar, pois me recuso a não querer abandonar essa minha “condição de ateu” que — note-se — desembarcou junto com você no meu planeta.

E como parece que não há nada que me faça ceder e aceitar o que você aceita, você se vê obrigado a inverter a lógica das coisas e a querer passar para mim toda a responsabilidade de mostrar a você que o seu Deus não existe. E quando eu lhe informo que não vou me dar ao trabalho, porque não há como provar que “uma coisa que não existe” não existe, e mesmo que houvesse eu não me importaria em fazer isso — e por que me importaria se, até ontem, eu sequer tinha conhecimento da sua crença? — , enfim, quando eu lhe informo que não compartilho da sua fé e que o seu Deus não me interessa, você descarta seu trunfo:

— Você então acredita que Deus não existe, o que o torna, também, um crente, porque também tem fé.

O “argumento” mais recorrente. A UTI que mantém Deus vivo num mundo feito de átomos. O subterfúgio engenhosíssimo do autoengano.


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32 Respostas

  1. Entrar em um debate semântico com essa gente é perder tempo. Eles definem fé de acordo com a necessidade e não se importam em muda-la no decorrer da discussão.

  2. E o que mais me intriga é que se utilizarmos da ciência para prova alguma evidência que mate qualquer deus, eles dão risada da nossa cara, crendo seriamente de que estão corretos.

    Muito bom o texto.

  3. Barros:
    excelente texto, claro e direto ao ponto. O último recurso é mesmo o “argumento” mais recorrente. É um argumento fraco, mas eles não estão nem aí. Repetem à exaustão, como se a repetição fosse conferir alguma veracidade ao “argumento”.

  4. Mas querer negar q o ateu nao tem fé é como querer negar o brilho do sol. Vc nao pode negar sua fé atéia, a fé que vc tem na crença de que não há Deus. Se vc não sabe q Deus não existe e se não pode provar isso vc está se valendo da mesma fé q vc condena no cristão. Não enxergar esse fato inrrefutável é de uma imbecilidade tamanha q só mostra como os ateus são na verdade – uns fabricadores de fábulas.

  5. Cristiano tem fé que Shiva não existe ?
    Seja sincero.

  6. Leonardo,

    Já rezou o descredo hoje?

    (Não esqueça de negar Tlahuixcalpantecuhtli três vezes em voz alta.)

  7. Ih Hudson nem me diga isso, sabe quanto tempo por dia eu perco dizendo que as 33 milhões de divindades hindus não existem ?
    Hahaha.

  8. Leonardo,

    Pois te dou uma notícia que lhe poupará bastante de seu tempo no “Descreio”:

    Não são 33 milhões, são 330 mil divindades no hinduísmo:
    http://www.guardian.co.uk/world/2008/may/28/nepal

    (Espero que você não fique emocionalmente abalado por perder tanta fé na não-existência de tantos deuses assim de uma vez.)

  9. E o teu pastor, Cristiano? Vai vir ou não?

  10. Ufa Hudson agora me sobra mais tempo para sair com o meu megafone e gritar frases de Richard Dawkins e trechos da Teoria da Evolução hahaha.

  11. E você pode provar a existência de deus, Cristiano? Você poderia apresentar provas irrefutáveis de que seu deus é real?

    Já parou pra pensar que o fato de não se poder provar a inexistência de deus (assim como do lobisomem, do curupira, da fada do dente, dos deuses hindus, da mula-sem-cabeça) seria menos constrangedor do que o fato de que não se pode provar a existência dele? Afinal, se ele existe mesmo, porque sua existência não é suportada por fortes evidências sensoriais? Não há qualquer prova sensorial da existência de deus (nenhum deles). Se houvesse, todos o sentiriam. Ele seria detectável. O que existe mesmo é a vontade de crer, porque o ser humano é frágil e precisa de amparo de um papai celestial e gosta de pensar que essa vida não é a única. O medo de que a existência acabe com a chegada da morte é muito forte.

    E lembre-se: o que você disser a respeito do seu deus pode ser adaptado a qualquer crencça em qualquer deus, não só o cristão. Por exemplo, pode-se usar seus argumentos pra querer justificar a existência dos deuses gregos, nórdicos, das divindades das tribos africanas.

    A idéia de deus já foi necessária para tentar explicar e pôr ordem no mundo, mas essa hipótese vem se tornando cada vez menos necessária. Pra você ter uma idéia, há alguns séculos a única explicação que se tinha para os fenômenos da natureza era deus, mas hoje, com o avanço do conhecimento, deus foi empurrado para o momento antes da grande explosão, onde ainda (eu disse ainda) não conseguimos explicar. Se chegarmos lá, então nem nesse momento talvez se precise recorrer a ele como explicação pra qualquer coisa que seja.

  12. Cristiano… continue lendo a série… quero ver qual será seu comentário no último post.

    E, só uma curiosidade, cadê mesmo o seu pastor que você disse que viria aqui me mostrar como eu sou um perdido e me desmoralizar, intelectualmente falando, provando que eu estou errado em tudo quanto escrevo?

    Já sei: ele cobrou 15% do seu salário pra fazer isso e você achou que não valia a pena. Eu te disse: pastor evangélico é como garota de programa — dinheiro na mão, calcinha no chão.

  13. Concordo com voce Cristiano só que voce esta equivocado com relação a qeum adorar.

    Faço minha as suas palavras:

    Querer negar q o ateu em Shiva nao tem fé é como querer negar o brilho do sol. Vc nao pode negar sua fé atéia,(no meu Deus shiva)a fé que vc tem na crença de que não há Shiva. Se vc não sabe q Shiva não existe e se não pode provar isso vc está se valendo da mesma fé q vc condena no adorador de Shiva. Não enxergar esse fato inrrefutável é de uma imbecilidade tamanha q só mostra como os ateus em Shiva são na verdade – uns fabricadores de fábulas.

    Espero que Shiva venha ilumina-lo no caminho certo e todos os ateus em Shiva

  14. Leonardo,

    Agora fiquei confuso…

    Você deixou de ter fé na inexistência de quase 33 milhões de deuses “hindus” que não existem no hinduísmo.

    Agora você tem fé que eles existem, então?

    Aleluia, irmãos! Mais um convertido!
    kkkkkk

  15. Um cristão nos acusando de fabricadores de fábulas!!! Era só o que faltava. Eu realmente gostaria de saber a idade desses religiosos que visitam o blog, suspeito deveras que sejam pré-adolescentes ou até mesmo crianças.

  16. Esse texto deve constar na aba dos melhores. Aos poucos leva o crente pra armadilha onde ele se meteu e não consgue enxergar a luz da verdade.

    Muito bom, Barros!

  17. o acreditar por acreditar, e ainda se convencer de que isso é uma coisa muito boa.

    Esse é o ponto fundamental da fé: os religiosos acham que é uma coisa boa, enquanto na verdade não é. Por algum motivo, eles acham que é normal acreditar nas histórias absurdas de um livro velho, só porque disseram que aquilo é a palavra de um deus, sendo que as histórias absurdas de outro livro velho, que dizem ser a palavra de outro deus, são descartadas prontamente.

  18. Hudson se você for o mesmo pois o Avatar está diferente, não sabe entender um pouco de sarcasmo e ironia ?
    Ou realmente acha que eu faço como muitos crentes que enchem o saco em praça pública com megafones ?

  19. Leonardo,

    Não sou nenhum avatar, sou humano normal mesmo. :-)

    A partir do “raciocínio” de que “não crer” é o mesmo que “crer que não”, todo aquele que não tem fé na existência teria fé na inexistência (e vice-versa).

    Portanto, agora você é um crente em 32.670.000 de deuses hindus nos quais nenhum hinduísta crê… :-D

  20. Aliás,

    Leonardo, você é o mesmo Leonardo dos comentários anteriores?

    É que não acredito em avatares. ;-)

  21. Hahaha eu sou desconfiado com Avatares que mudam, pode olhar que o seu mudou devido ao e-mail que colocou e pode olhar o meu perfil é só clicar no meu Avatar vai aparecer o nome LEONARDOMEKS Hahaha.
    Qualquer coisa peça para alguém confirmar o meu IP.
    Sabe como é temos que procurar sempre por evidências hehehe.

  22. Que coisa estranha. O que vem a ser “gravatar.com” e como esse sítio tem informações sobre mim?

  23. Hudson o Gravatar é uma boa escolha eu uso ou você pode fazer um cadastro no WordPress(eu tenho ambos).
    Ou deixe mais informações aqui nesse post https://deusilusao.wordpress.com/2010/02/03/apresentem-se/ por exemplo aqui tem o link do meu Orkut .
    Com um comentário com o mesmo ID Leonardomeks com mais de 10 meses.

  24. Acabo de descobrir que é o wordpress que “vaza” informação (tal qual o Wikileaks :-)… Mas consegui remover alguns dados que eram exibidos. Obrigado pelo alerta.

  25. Minha auto-descrição seria similar à do Barros (sem celular nem rede social).

  26. Hahaha Hudson você é quem sabe.

  27. Vixe mexi nas minhas contas e apareci com outro nome que eu ponho nelas hahaha.

  28. Notei…

    (Por acaso estou usando um navegador configurado para mostrar imagens e reconheci o sorriso do Gato de Botas… já as informações no “gravatar” eu não via porque desabilito javascript.)

    Já negou Tlahuixcalpantecuhtli três vezes em voz alta hoje? (Taí um bom “nick” pra internet.)

  29. Hahaha eu gosto dessa minha foto, um pouco de tempo livre e tinta dá nisso hahaha.

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  31. cada um deveria ter o direito de acreditar no que quizesse acreditar.respeitando opinioes[eu sou cristao] na minha opiniao alguem nao e ruim ou deixa de ser-lo por acreditar ou nao em deus.

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