Fé & Autoengano (parte 3)

 

No primeiro capítulo de Autoengano*, “1. A Natureza e o valor do autoengano”, Eduardo Giannetti classifica os tipos de engano usados no mundo natural em “engano por ocultamento” e “engano por desinformação ativa”.

No primeiro caso, o engano resulta de uma ilusão negativa, onde um animal induz outro a “não perceber” algo que lá está, sendo a camuflagem, usada tanto por predadores quanto por animais que são essencialmente presas, o seu melhor exemplo.

No segundo, a ilusão é positiva, ou seja, o animal-vítima do engano, seja presa ou predador, é levado a “perceber” algo que não está lá, resultado obtido, por exemplo, pelos discos iridescentes nas asas de uma borboleta, que induz um possível predador a achar que está vendo os olhos de um animal muito maior e, assim, ir procurar o almoço noutro lugar.

A conclusão que se tira é a de que, se o engano está presente e se é útil até entre seres irracionais, deve fazer parte, também, do dia a dia dos animais que dominam o planeta. E faz. Não só como uma simples mentira contada para a namorada, mas como uma mentira contada para nós mesmos: o autoengano.

A mentira todo mundo sabe como funciona. E o autoengano? Para ficar num exemplo só, citado no livro, imagine que você é uma pessoa muito relaxada quando se trata de cumprir horários, e isso vem lhe prejudicando ao longo do tempo, seja na sua vida amorosa, social ou profissional. Por mais que você se esforce, você sempre está, em média, meia hora atrasado pra tudo. Você, então, adianta todos os relógios que consulta durante o dia: o da parede, o do pulso, o do computador, o do celular. Num primeiro momento, você “saberá” que, quando consultar o relógio e verificar que são 14:30, na verdade, a hora certa será 14:00. Mas, com o hábito, você vai acabar esquecendo que está consultando relógios que estão 30 minutos adiantados e, mesmo não precisando mudar sua personalidade relapsa, você pode começar a se tornar mais pontual nos seus compromissos.

Um exemplo bem prosaico, é verdade, mas um excelente treino para exercitar o hábito do autoengano, que pode atuar em situações menos prosaicas do que essa, como a de salvar a sua vida.

“o dom de mentir com sucesso para si mesmo pode ajudar a manter a chama da vida acesa nos momentos em que a sobrevivência está por um fio”. (p. 60)

E se você, por acaso, acha que uma vida só é muito pouco, talvez porque você  se considera especial demais, importante demais, perfeito demais; talvez porque você não veja nenhuma semelhança entre você e os outros animais, afinal, eles são desprovidos de um livro sagrado que lhes revele a “verdade” e o propósito da sua existência; enfim, se você não se conforma com a morte, não seria de se espantar que o seu cérebro criasse, sem você perceber, uma ilusão semelhante à dos relógios adiantados, em que as coisas falsamente se ajustam numa mentira onipresente, para que você mesmo não precise se ajustar a uma realidade que não lhe agrada, que não lhe convém, ou, simplesmente, que você acha que não merece.


Se o animal humano expulso do paraíso foi punido com a consciência da morte e a vergonha de ser quem é, ele recebeu também da natureza o dom de uma esperança selvagem e inexplicável: a cegueira salvadora e iluminada que nos protege de pensar e de viver plenamente o peso absurdo dos nossos erros e a certeza do nosso fim. (p. 61)

 

 

*Auto-engano. GIANNETTI Eduardo. Companhia de Bolso: São Paulo. 2005. 1ª reimpressão. 256 pág.

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4 Respostas

  1. Excelente o texto, Barros. O livro já entrou na minha lista de leitura (gigante por sinal).

    Nutro uma esperança nos avanços da psicologia evolutiva, sociobiologia e neurociência.

    Creio que entenderemos bastante sobre aspectos da nossa humanidade com uma análise crua e livre de preconceitos religiosos. Nem todo mundo tem “culhões” para aceitar que o que entende por “personalidade” possa ser explicada por fatores sociais e biológicos.

  2. […] 2 –  Parte 3 –  Parte 4 –  Parte […]

  3. primeiro foi um gatinho pesando que era um leão, agora vem essa idosa achando que é uma bela jovem

    isso ai tá mais batido que as fotos da

    raissa Gonorreia no blog deusilussão

  4. Nossa Anônimo quanto argumento…

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