Fé & Autoengano (parte final)

 

A fé religiosa é a causa ou consequência de um autoengano?

 

Eu não sei, mas, sendo uma coisa ou outra, a fé depende totalmente dele.

Você pode fazer o que quiser, ser o que quiser, viver como quiser, ir aonde quiser, etc., desde que se mantenha respirando, certo? Sem respirar, criança, nada feito.

O autoengano é, então, a respiração da fé.

E é a fé que sustenta um universo em que Deus existe, te ama e te protege; é a fé que te hospeda num mundo em que os seus passos são observados por anjos, porque você não aceita essa realidade em que está abandonado à sua própria sorte, entregue aos seus próprios recursos e dependente de sua própria competência. Você não aceita essa realidade em que está vivendo uma vida que precisa ser conduzida unicamente por você através de caminhos tortuosos e íngremes, onde o terreno ruim é muitas vezes intransponível e incontornável, onde é preciso atolar-se ou enguiçar, e esperar por um eventual socorro — que pode até nem vir! — de uma outra vida que passe por perto, ou de uma que aquilo a que chamamos de destino te traga e, depois, leve embora de novo. Uma vida que está sujeita, de uma hora pra outra, e sem mais nem menos, a ter violentas mudanças de curso; desejadas e indesejadas; alegres e tristes; por vezes temporárias, por vezes definitivas. Uma vida que — embora você faça questão de esquecer também — vai ter um fim um dia. E esse dia pode ser qualquer dia, e vai continuar podendo ser qualquer dia até que o dia mesmo chegue.

Não, isso não lhe convém. Essa realidade você não merece. Você precisa estar vivendo num mundo retocado, onde todos os relógios estão adiantados 30 minutos e você nem lembra mais que foi você mesmo quem os adiantou. Exatamente porque você precisa “não lembrar”. Só assim é que as coisas se ajustam ao seu redor, sem que você mesmo precise se ajustar.

Mas o autoengano da fé precisa ser cultivado todos os dias, a todo momento e de todas as formas possíveis. As pessoas religiosas precisam enganar-se, manter os outros enganados e reforçar o próprio engano. O tempo todo. Esse é o calcanhar de Aquiles de Deus, porque é um esforço muito grande para se fazer sem descanso durante toda uma vida.

Eventualmente, alguém resolve querer espreitar essa realidade mais de perto e acaba se deparando com a verdade inevitável: a fé sobrevive apenas num mundo explicitamente e mal-feitamente inventado. E, aí, esse alguém vai se sentir como se estivesse vendo as horas num relógio que nunca havia visto antes. E vai pensar: “Por que eu deveria acreditar que esse um aí é que está marcando a hora certa e não o meu, perfeitamente sincronizado com o do meu pastor e com o de todos os outros membros da minha igreja?”.

Mas basta procurar ver as horas nos outros relógios aos quais você não teve acesso; basta procurar na realidade que te cerca os indícios de que as coisas realmente não são como você pensa que são; basta ser um pouco curioso, ou teimoso, e tentar investigar um pouco mais essa sua “realidade”; basta entender como funciona a sua própria fé, que você vai se convencer de que estava sendo enganado.

Por você mesmo.



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6 Respostas

  1. […] Parte 2 –  Parte 3 –  Parte 4 –  Parte final […]

  2. […] This post was mentioned on Twitter by Ábia Costa. Ábia Costa said: RT @DeusILUSAO: "Fé & Autoengano (parte final)" https://deusilusao.wordpress.com/2010/12/21/fe-autoengano-parte-final/ […]

  3. Legal o texto. Tive algumas experiências em que tentei mostrar o diferente e real a quem só vivia nesta obscura ilusão. É realmente difícil de se fazer entender. Mesmo tendo o maior sentido, as pessoas quando em contato com a realidade, dizem que podem estar erradas, mas não querem abandonar a religião por terem sido ensinadas assim…..

  4. Saracura, eu nem diria abandonar a religião, mas abandonar a crença. O interessante (ou trágico) é isso: recebemos dois tipos de educação, a formal (será esse mesmo o termo correto ou seria secular?) e a religiosa. E das duas, a única que geralmente é reforçada em casa, depois das aulas de catecismo (quando é o caso), é a religiosa. Se o processo de educação formal tivesse a mesma atenção e zelo por sua continuação que o processo caseiro de educação religiosa, é bem provável que tivéssemos mais céticos, menos pessoas sujeitas ao autoengano da crença.

    Sem ofensa aos que crêem, mas é meu ponto de vista.

  5. A melhor resposta para esse “problema” só pode vir de curiosos… Minhas respostas podem ajudá-los a entender que não há nada de “auto-engano” no Catolicismo.

    Portanto, façam as perguntas que quiserem: Me desafiem a responder seus argumentos! Essa é a melhor forma de mostrar como não há nada de “auto-angano” em ser Católico.

    Portanto, façam suas perguntas sobre ciência, religião e todo o resto: procurarei respondê-las.

    Segue o Link:
    http://www.formspring.me/catolicoresp
    E-mail para contato:
    debate1594@zipmail.com

  6. A coisa que mais chama atenção nos crentes é a necessidade desesperada de arrastar para o autoengano todo os que estão fora.
    Ontem cedo um par de Testemunhas (mãe e filho) bateu no portão aqui de casa. Como sempre, de cara já digo não, obrigado, sou ateia. Como de hábito, caras e bocas, ohs e ahs e em seguida querem saber o que aconteceu para que eu “ficasse assim”. Digo que não “fiquei assim”, sou assim. Como tinha decidido prestar atenção no comportamento dessa gente, dei corda.E foi um festival de “razões” para os feitos divinos, cada uma mais irracional que a outra.
    No fim fiquei com pena. A mãe e o filho não davam conta de pensar em algumas questões sem antepor um: mas Deus…isso ou aquilo.
    Ás tantas o rapaz quis ser espertinho e me perguntou se me parecia ser razoável que a vida tivesse surgido de uma mistura aleatória de “químicas”.Eu não achava isso nem um pouco absurdo?
    Quando respondi que não era menos absurdo que acreditar que um ser, tendo sido capaz de criar galáxias, precisou improvisar juntando um punhado de barro e soprando nele, a mãe pôs a mão no braço do rapaz, quando ele fez uma expressão que eu interpretei como desconcerto, mas podia ser espanto, ou raiva,vai saber.
    Acabou que a mãe disse que lamentava, por eu querer ficar fora da graça de Deus, mas que respeitava minha opinião e que Deus ainda ia se revelar para mim.
    Haja!

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