De olhos bem fechados (5ª parte)

 

Procurando Deus

Quando, muito tempo atrás, achava-se que o céu era a parte de baixo do assoalho de um outro mundo; quando se acreditava que as estrelas eram enfeites brilhantes colados nessa abóbada para o nosso deleite noturno; quando se achava que a Terra era plana e que era o centro do universo, as pessoas procuravam por Deus olhando para cima. Já que não mais se via Deus em lugar algum aqui na Terra, como a Bíblia relata que acontecia nos primórdios, acreditava-se que ele morasse lá naquele mundo inacessível, que tinha o céu como chão. E, por isso, as pessoas olhavam para cima, na direção de onde Deus deveria estar. Um hábito que foi sendo passado de geração para geração, mesmo depois que se descobriu que o céu não era o que aparentava ser: que não era uma abóbada sólida com estrelas coladas na parte que é voltada para nós; que não era um piso; que não era a morada de Deus; que não era nem mesmo azul.

Assim, como não se via mais Deus como antes, perambulando aqui por baixo, e como ele não poderia mais estar lá em cima, porque o céu não é nada além de nada, os religiosos adotaram a atitude extrema, de desespero extremo, de fechar os olhos. Ufa! Que alívio: lá estava ele! Deus!! São e salvo, dentro das suas cabeças.

Tudo o que Deus criou no mundo foi através das mentes humanas, porque foi lá onde ele nasceu e é lá onde ele vive. E é, também, de lá que ele pula, invariavelmente (ou, antes, inescapavelmente), para as cabecinhas de criaturas indefesas.

Deus não existe fora do cérebro humano. Tudo o que se supõe ser dele, ou ter vindo dele, foi fabricado aqui mesmo por seres humanos iguais a mim. De seus altares e templos até os seus programas de tevê; de sua Bíblia até os seus milagres. É o cérebro dos que creem que lhes diz que tudo aquilo é de Deus, ou que veio dele, ou que é para ele, ou por ele, ad infinitum. Mas o dispositivo interior que foi concebido para fazer essa conversão não trabalha bem vendo o mundo que eu vejo.

Há  algo dentro da cabeça do crente que se cansa fácil quando precisa manter Deus vivo ao mesmo tempo em que tem que trabalhar com o mundo real. É exaustivo para ele ter que sustentar para si, o tempo todo, que Deus permite que todas aquelas pessoas estejam morrendo de fome e de doenças para que ele possa agradecer, de boca cheia, por sua vida farta e por sua saúde quase perfeita; que aquele monte de gente na parada do ônibus, numa manhã fria e chuvosa, está ali para que ele possa ver como Deus foi bonzinho por ter lhe dado um carro. É desgastante manter longe do pensamento a ideia fixa de que, apenas por sorte, ele faz parte do grupo de pessoas para as quais Deus está se exibindo, pois poderia muito bem ter caído no grupo dos que morrem de fome e de doenças, ou estar na fila do ônibus debaixo de chuva…

Mas quando eles se cansam, eles oram. Pedem a Deus forças para continuar acreditando. E quando oram, se não olham mais para o céu, eles fecham os olhos. De olhos fechados, o contato com Deus é potencializado, as interferências mundanas são, em sua maior parte, eliminadas, e a visão do mundo em que ele não existe é bloqueada ao cérebro, que fica, então, livre para criar uma realidade artificial, um mundo internalizado em que Deus não só existe, como é o seu criador, ditador e popstar.

Um mundo de faz de conta, um mundo fantasioso, um oásis encantado em que se pode ter tudo o que se desejar: respostas, proteção, conforto, esperança, incentivo, alívio, companhia… E, de bônus, a imortalidade.

Não duvide do poder dessas sensações sobre a mente das pessoas. Uma grande parte delas não teria como obter nada disso de nenhuma outra fonte. E se há algo que lhes propicia esse tipo de coisa, de certa forma e até certo ponto, gratuitamente e a qualquer momento, fique certo de que elas não irão se desfazer disso tão facilmente.


 

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4 Respostas

  1. […] This post was mentioned on Twitter by blog deusilusao, Will Marangoni. Will Marangoni said: De olhos bem fechados (5ª parte): http://t.co/7bS9a9C […]

  2. Salve!

    Eu já tinha posto o link do seu blogue no meu. Notei que o wordpress (pelo menos aqui) não possibilita “seguir”, como ocorre no blogspot.

    Abraços.

  3. […] parte – 3ª – 4ª – 5ª – 6ª – 7ª – 8ª – 9ª – 10ª – 11ª – 12ª – 13ª […]

  4. Viva Mano, olha, copiei umas partes deste teu livro, ate a parte 5,… vou ler com certeza, so espero que nao me decepciones,… Pois de repente e’s um equivocado tambem, igual a muitos que so enxergam a religiosidade,… Deixe me te dizer apenas que se nao tiver refencias claras, este texto nao passa dum sensacionalismo! Vou ler depois digo algo… Mas no concreto e’ o seguinte:

    DEUS favorece ao universo exterior, pois e’ efeito de ilusão…

    A Consciência vincula-se ao universo interior, pois é a plenitude, é essência…

    O Ego é pura ilusão da separação (jogo bem elaborada)

    O medo, a dor, sofrimento, tudo isso são fantasias (atributos) do Ego

    Desperte a Consciência (…), e vivencie novas formas de se relacionar consigo mesmo

    Nada é estático, tudo está em constante transformação!

    Busque a CONSCIENCIA (O UNIVERSO)!!!

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