De olhos bem fechados (9ª parte)

 

O Deus da Ignorância

Algumas vezes, depois que mencionava para alguém que eu era ateu, a primeira pergunta que (de forma bem redundante) me faziam era essa: “Você não acredita em Deus??!!”. Invariavelmente, eu respondia com outra pergunta: “E por que deveria?”.

As pessoas de fé ficam embasbacadas ao ouvir uma pergunta como essa, porque elas convivem e sempre conviveram com quem teve a mesma doutrinação, com quem recebeu o mesmo modelo de treinamento que elas: o de acreditar. Daí elas pensam que estão, de fato, “respondendo” alguma coisa assim:

“Porque foi Deus que te deu a vida.”

“Porque foi Deus que criou o universo e tudo o que nele há.”

Esse tipo de crente não consegue perceber que o que ele considera como sendo uma resposta não passa de uma frase com sentido e significado, mas sem nenhum fundamento.

Mas há outro tipo que responde com perguntas desafiadoras, e com um ar mais desafiador ainda:

“Como, então, surgiu a vida?”

“Como surgiu o universo?”

Geralmente são pessoas mais instruídas e são, justamente, as que mais se sentem desconfortáveis com os ateus, porque elas próprias, só com muito esforço intelectual e com um apego comovente à sua herança familiar e social, conseguem continuar acreditando. Para esse tipo de crente, um ateu é uma ameaça constante, uma vara sempre a cutucar o ninho de marimbondo que está dentro do cérebro deles. E isso só pode ser muito desconfortável.

“Ora — eles dizem —, se nem você nem eu sabemos como surgiu o universo, nem como surgiu a vida, só pode ter sido Deus.”

E Deus fica sendo a resposta perfeita, porque tudo o mais que se pergunta sobre ele pode ser “respondido” com aquele tipo de frase que tem sentido e significado no nosso idioma, mas que não tem fundamento algum.

“Big Bang, uma ova! Isso não explica nada! É uma teoria científica que, como tantas outras — como a Teoria da Evolução, que pretende explicar o surgimento da vida — , tem que ser reformulada de tempos em tempos, sempre que alguém descobre algo que não se encaixa nela. Mas veja o meu Deus: eu só preciso dele para responder qualquer coisa. Como o universo surgiu? Deus. Como a vida surgiu? Deus. O que vem depois da morte? Deus. Quem ouve minhas preces, quem cuida de mim, quem tem um plano para minha vida? Deus, Deus, Deus.”

Mas esse Deus — aquele mesmo Deus das Desculpas — é, também, o Deus da Ignorância.

Se eu, crente, não sei como surgiu o universo; se eu, crente, não entendo como surgiu a vida; se eu não tenho a menor ideia de como explicar de que forma um ser vivo pôde ter usado, para o seu benefício, os recursos toscos propiciados por uma asa em desenvolvimento; se eu não sei como 1% de um olho pôde ter servido para alguma coisa na luta pela sobrevivência de uma determinada espécie, antes que chegasse a um olho completo… Por tudo isso, como eu sou ignorante nessas coisas e não consigo atinar com as respostas, tenho, preciso e sou obrigado a admitir que essas coisas todas, como tudo o mais, surgiram prontas nos seus 100% pela mágica de um deus, exatamente como pensaram outros muito antes de mim, e que eram ignorantes sobre coisas muito mais simples, como relâmpagos e trovões.

É… mas agora os relâmpagos e os trovões, os terremotos e as secas, os furacões e as estrelas têm explicações convincentes demais para serem ignoradas, obrigando o crente do Deus da Ignorância a apontá-lo como estando em outro lugar, onde a luz do conhecimento humano ainda não chegou completamente e ainda existem alguns buracos. O Big Bang e a Teoria da Evolução sendo exemplos clássicos.

O religioso parece exultar com certas faixas do terreno científico onde a ciência ainda anda batendo cabeça, porque é o que ele usa agora como os seus próprios “relâmpagos e trovões”. Ele dá gargalhadas quando um documento científico contesta a teoria em vigor que diz que os dinossauros foram extintos há 65 milhões de anos, e a recalcula em 60 milhões de anos… Talvez na esperança infantil de que venham outros vários e vários documentos corrigindo esse dado até se encaixar nos 6 mil anos que a Bíblia sugere que a Terra tem.

Isso sim é ter fé. É como se eles pensassem: “Tá vendo?: as suas teorias têm que ser refeitas o tempo todo! Por quê? Porque estão erradas. Veja a minha Bíblia: nunca é atualizada. Por quê? Porque está certa.”

Mas eu ainda acho que o crente do século 21 deve sentir uma pontada de inveja daqueles crentes de tempos passados, que até viam Deus com certa frequência, que conversavam com ele, que ouviam sua voz ribombar das nuvens, que recebiam mensagens dele trazidas por anjos… Enfim, um Deus, digamos, mais presente… Talvez porque era um tempo em que a ignorância estava, também, mais presente.

Hoje, eles são obrigados a ir catar os pedaços microscópicos do seu Deus em terrenos dos mais inóspitos, como nas falhas das cadeias de DNA, no balé quântico das partículas subatômicas, ou nos erros de cálculo sobre a época da extinção dos dinossauros.


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Uma resposta

  1. É o velho deus das lacunas que ainda resiste, cheio de hematomas.

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