De olhos bem fechados (11ª parte)


“Deixai vir a mim as criancinhas” – parte 2

É. Nessa eu tenho que admitir que quem escreveu essa fala para Jesus teve mesmo um insight divino, pois, sem as criancinhas, o Filho do Homem teria permanecido morto e sepultado depois do terceiro dia e, muito provavelmente, ninguém lembraria mais nada dele dali a dez anos. Para que lembrassem, depois de dois milênios, não iria dar certo apenas divulgar que ele era o filho de uma divindade e deixá-lo concorrer a esse cargo com todos os outros filhos de divindades já existentes (Hércules incluso). Eles precisariam de um recurso mais eficiente que esse e inventaram, então, o Ctrl C, Ctrl V.

É absurdamente espantoso notar que o cristão não se dá conta de que o que ele entende, sabe, respeita, cumpre, acredita, etc., relacionado ao seu Deus, veio do seu doutrinamento na crença de seus pais.

Não seria uma coisa de arrepiar os cabelos se uma garotinha de 9, 10 anos, vinda de família católica, de uma sociedade católica, dissesse para a freira responsável pelas aulas de catecismo que ela não acreditava no Deus de Abraão e sim em Shiva? Ou um menininho, nas mesmas condições, que, ao ganhar sua primeira Bíblia das Crianças, revelasse aos seus pais que gostaria de aprender árabe para poder ler o Corão, a verdadeira palavra do verdadeiro deus? Não é uma coincidência incrível que os filhos de pais católicos sejam católicos e os filhos de pais muçulmanos sejam muçulmanos e os de hindus sejam hindus?

Não, não é coincidência. É “copia e cola” mesmo.

Mas se poderia alegar que praticamente tudo o que as sociedades humanas compartilham com as gerações seguintes — incluindo a moral e o conhecimento científico, por exemplo — é também passado do mesmo modo acima. Mas veja: uma criança pode aprender as leis da termodinâmica sem precisar “acreditar” nelas, e a moral humana comum é o resultado da nossa evolução como espécie, ou seja, é exatamente tudo aquilo que aprendemos e testamos — e que deu certo — , de forma a nos permitir viver em sociedade, desde que deixamos de ser grupos nômades caçadores e coletores.

Se uma geração, simplesmente, quiser “deletar” o que recebeu das gerações passadas com relação às leis da física, por exemplo, vai descobrir que terá muito a perder, porque não terá nada para pôr em seu lugar, e, ainda, que as leis da física são demonstráveis e úteis. Se uma geração aprender que se um indivíduo matar outro sofrerá uma punição nessa vida mesmo e nesse mesmo mundo, ela vai perceber que a moral que rege as leis sociais é real e necessária.

Mas se uma geração quisesse se desfazer das crenças em contos mitológicos inúteis e, obviamente, não demonstráveis, para se preocupar, de fato, apenas com essa vida e com esse mundo, a única coisa que iria perder seria o cordão umbilical que a nossa espécie ainda carrega do útero da ignorância de onde veio, pendurado e pesado, sendo arrastado por milênios, servindo de estorvo para o nosso próprio desenvolvimento e plenitude mental.


 

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3 Respostas

  1. O meu filho mais velho mal fez 5 anos e já venho doutrinando dentro do evolucionismo.

    Só discordo plenamente de que as crenças e contos mitológicos sejam inúteis. Assim o é se forem ensinados como se fosse verdade, não só inúteis, como nocivos, mas todos eles trazem a história na humanidade. Falam sobre duendes, gigantes, elfos (formas de definir os diferentes tipos de hominídeos que coexistiram conosco e tivemos contato, Tudo bem atestado pela moderna visão de evolução nos hominídeos), catástrofes ocorridas (enchentes, erupções, etc), entre tantas outras descrições de forma e comportamento do humano moderno.

    São peças valiosas para a humanidade se forem estudadas de maneira correta, mas de fato você tem toda razão em ser contra a sua imposição como a verdade, já que autoridade e tradição podem ser posto à prova em grande medida e a ciência é o melhor meio de explicar o que observamos através dos sentidos.

    Mas também quero que o meu filho leia a Alegoria da Caverna de Platão. Bem curtinho e simples, ele dá uma boa medida do que é ser escravo dos nossos sentidos.

    Como disse Dawkins, seria um motivo detestável ser ético por ter medo de que se possa sofrer um castigo no pós vida. Não é assim que se constroi a ética.

    Beleza de texto!

  2. Perdão, onde está escrito:

    “Só discordo plenamente de”

    Leia-se:

    “Só não concordo plenamente”.

  3. “Só não concordo plenamente de que as crenças e contos mitológicos sejam inúteis”

    Concordo contigo e acho que o Barros vai concordar tambem…

    Eu não afirmaria que a crença em Papai Noel ou no Mito da Caverna são inuteis, são alegorias que ensinam lições interessantes e tals…

    O problema é quando a crença neles TEM QUE SER literal. Crer que há um fundo de moral e verdade neles é importante e salutar, assim como percebe-los como passiveis de critica e revisão…

    Agora, com os Deuses dos teistas… ai de quem questiona-los…

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