De olhos bem fechados (12ª parte)


“Deixai vir a mim as criancinhas” – parte final

Quando eu era criança, ouvia da minha avó que não deveria nunca deixar as sandálias havaianas viradas. Nem um pé, muito menos os dois. Atrairia coisas ruins para mim se deixasse, ou eu poderia até morrer. Ou alguém da minha família poderia morrer. Eu ouvi isso algumas poucas vezes durante a minha infância, porque, depois, nunca mais ninguém precisou me mandar desvirar as sandálias havaianas, nem precisou me lembrar dessa maldição, justamente porque eu tinha sempre o cuidado de nunca deixá-las viradas. Estava protegendo a mim e a minha família…

Eu lembro hoje, com muito pouco esforço, que nunca passou pela minha cabecinha infantil perguntar para a minha avó coisas como “Isso só vale para sandálias havaianas, vovó?”; muito menos: “Por que essa maldição? De onde ela veio? Como ela age? Que evidências a senhora tem dela? Não seria apenas uma superstição?”.

Não, eu não perguntei. Quando se tem 5 anos de idade e sua avó diz que você tem que desvirar suas havaianas para que nenhum mal lhe aconteça, nem a ninguém da sua família, você simplesmente acredita. E passa a checar duas vezes se elas estão desviradas, antes de deitar na sua rede. E você se habitua a fazer isso todas as noites, mesmo depois de ter deixado de dormir de rede; mesmo depois de ter deixado de ser criança.

E olha que não me obrigaram a me arrumar todo domingo para ir a um lugar onde se falava sempre dessa maldição das havaianas; não tive catecismo disso; não me leram livros sagrados sobre isso; não vi desenhos animados, nem vi filmes no cinema, nem ouvi sermões em igrejas… Não havia palhacinhos engraçadinhos em programas de televisão, feitos especialmente para esse fim, me dizendo o tempo todo para tomar cuidado com as minhas havaianas; nem ninguém fazia de tudo para fixar essa preocupação no meu cérebro, entupindo de “lembretes” as coisas que normalmente rodeavam uma criança da minha idade. Foi apenas minha avó que me disse, umas poucas vezes, que eu tinha que manter minhas chinelas desviradas para evitar que algo de mau acontecesse.

Agora veja até onde se estende o poder que esse tipo de coisa exerce sobre uma mente infantil. Hoje, obviamente, eu entendo que aquela preocupação da minha avó era pura superstição, uma tolice em que ela acreditava e passava adiante, mas que foi apenas inventada por alguém e difundida numa sociedade ingênua e crédula. Mas o que eu queria dizer é que, mesmo adulto, mesmo “sabendo” que aquilo era apenas uma bobagem sem fundamento… eu ainda uso havaianas e por nada no mundo eu deixo uma delas de cabeça para baixo. Muito menos as duas.


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17 Respostas

  1. Véio, me poquei de rir aqui. A mesma coisa comigo, não consigo deixar as havaianas viradas de cabeça para cima.
    Bem, de fato ela não estava errada, apesar da explicação ser outra: você pisa em todo tipo de coisa na rua e não há como negar que a sola para cima te expôe mais a germes, hehehehehehe
    Nossa, tô sofrendo de TOC?
    Adorei o texto!

  2. Haha, minha mãe também tinha essa crença dos chinelos e passou pra gente, quando éramos pequenos. Hoje, sinceramente, nem penso nisso. Deixo meus chinelos, tênis, sapatos, o que quer que seja, virados para cima simplesmente por uma questão de organização, mas jamais por uma crença. Mas entendo o quanto esse tipo de coisa pode intoxicar uma criança. É justamente sobre isso que o Dawkins fala, em um de seus vários documentários. Não são só os deuses que nos “atormentam”. Essas superstições tolas propagam, cada vez mais, o crer por crer, o comodismo do acreditar sem evidências. E isso faz mal. Como o Sagan disse uma vez, nos devemos ser céticos com tudo da mesma forma que somos quando compramos um carro usado.

  3. essa tradição do chinelo é muito forte no nordeste, nasci em são paulo, mas minha mãe e meu pai são do maranhão, não posso ver um tênis ou chinelo virado (até de estranhos) que chuto até desvirar

  4. […] This post was mentioned on Twitter by Will Marangoni, blog deusilusao. blog deusilusao said: De olhos bem fechados (12ª parte): http://t.co/LE7YzDV […]

  5. Sabe de uma coisa que nunca vou esquecer?
    Minha mãe era católica (hoje é evangélica) e sempre dizia que eu tinha que “abrir” e “fechar” as orações com o sinal da cruz. Eu não poderia “deixar a oração aberta”, sem fazer o sinal da cruz para fechá-la.
    Pois bem, eu deveria ter mais ou menos uns quatro anos. Dormia rezando. Quando acordava, havia esquecido se tinha “fechado” adequadamente a oração e fazia o sinal da cruz várias vezes, até me perder na contagem para não ficar com peso na consciência.

    Com seis anos percebi que isso definitivamente não tinha lógica e parei de rezar, já não acreditava em deus – se é que algum dia cheguei a acreditar.

    Mas que era engraçado, era.

    Um abraço!

  6. Essa é forte! KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

  7. kkk Barros, me ensinaram isso também, só que disseram que era a mãe da gente que morria, pensa num medo! eu sempre cuidando pra nao ficar virado e conferindo, bem igual vc disse! hahahhahaha

  8. sobre o comentario da lisiane: pra mim disseram coisa pior, que antes de ler a bíblia tinha que fazer oração pedindo a deus pra abençoar a mente da gente, e também pra proteger contra interferencias do demonio! kkkkkkkkk caraca lembrar disso hoje é mais que engraçado, é trágico!

  9. A superstição aqui no meu canto de mundo é não deixar nenhum tipo de calçado virado. Ainda hoje tenho que fazer um esforço para resistir e não desvirar o calçado só que as vezes, quando vejo já foi.
    Essa do sinal da cruz foi traumática pra mim. Nunca lembrava qual a mão certa e a direção certa e levava tapa na mão quase sempre. Ainda hoje não tenho certeza se a gente começa de cima pra baixo, da esquerda pra direita.
    Meus filhos nem imaginam a sorte que tem, nunca tiveram que passar por esses rituais…rsrrs

  10. ô Adrielle

    não é bem assim não, se não acredita em demônios externos deveria crer nos demônios que existem dentro de você, ou seja os seus maus pensamentos brigando contra os bons.
    Alem do mais sofremos sim interferências externas, conviva com uma pessoa pessimista e ira entender isso:

    “Sr. livrai nos do mal (do nosso e também dos outros) amem.

  11. Olá Criaturo! Eu concordo c/ sua ideia. Sei sim que existem esses demônios interiores de cada um, mentais. Mas no comentário não quis dizer que não sei, mas que achei engraçado pensar nas coisas absurdas que fazem a acreditar. Ou que acreditamos.

  12. Alias crenças que fazem a gente sofrer.

  13. Certas crenças são perigosas. Pelo visto, algumas delas nos levam até a desenvolver sintomas de TOC.

  14. Sim, fé tem os dois lados o da arrogância e o da ignorância e ambos são prejudiciais, a ignorância despreza a ciência.
    A arrogância fecha a portas para novas ciências .

  15. Assim falou CRIATURO, o ateu:

    Sim, fé tem os dois lados o da arrogância e o da ignorância e ambos são prejudiciais

    Falou e disse, Criaturo! Tô gostando de ver!

    Adrielle, vi agora o seu e-mail, mas quero responder só no fim de semana, que agora eu tô em plena BR-101, numa viagem pelo Nordeste. Beijo.

  16. Legal Barros. Claro. Ótima viagem!

  17. gostou porque não conseguiu se identificar

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