De olhos bem fechados (13ª parte)

 

 

Como se Deus não existisse – parte 1

Se você estiver se afogando, acredite: você não vai se lembrar de Deus. (E, muito provavelmente, ele também não estaria lembrando de você na ocasião…)

Eu sei disso porque eu já quase me afoguei. Uma cãibra me pegou de jeito a vinte metros da praia, numa manhã de mar agitado em que eu resolvi provar para mim mesmo que eu sabia nadar bem. Não sabia. E quase que a minha família descobre isso lendo a minha certidão de óbito, que seria emitida pouco mais de duas décadas depois da minha certidão de nascimento.

Quando aquela cãibra veio, a primeira coisa que eu fiz, como se fosse um antídoto ou uma prescrição médica, foi ingerir o equivalente a meio copo americano de água salgada. Mas não resolveu: eu me encolhi e afundei. Submerso, eu apenas esperei a dor excruciante diminuir um pouco, simplesmente porque era a única coisa possível de se fazer: esperar que a dor diminuísse; um pouco que fosse. Quando isso aconteceu, uns 10, 15 segundos depois, meu corpo me avisou que todo o ar que eu tinha nos pulmões havia sido gritado debaixo d’água, em bolhas silenciosas de dor.

Ao voltar à tona, ainda com a perna paralisada e tesa, tentei dar algumas braçadas em direção à praia, mas o sal em excesso na garganta me fez tossir, e, tossindo, lançava fora reservas preciosas de oxigênio, ao passo que sorvia mais água do mar, em quantidades cada vez maiores. A cãibra, por fim, transformou-se num suportável incômodo dolorido, mas eu já estava, então, pesado e cansado, e afundei de novo.

Quando a dor me deixou em definitivo, eu me debati com a força que a necessidade me ditava, e obtive o empuxo necessário para me arremessar para cima, chegando à superfície já de boca aberta, preparado para puxar com força todo o ar que meus pulmões pudessem suportar. Mas foi uma onda impiedosa que me recebeu, que me virou de ponta-cabeça e me fez tomar, de um só gole, uma dose cavalar do meu remédio fatal contra cãibras.

Exausto, com o estômago saturado de oceano, imaginando como iria fazer chorar a minha mãe, eu afundei pela terceira e última vez. E enquanto contemplava impotente o mundo subaquático girando ao meu redor, percebi — com uma calma absurdamente fora de contexto — que eu só tinha mais uns trinta segundos de vida.


 

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Uma resposta

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Beth Amorim, blog deusilusao. blog deusilusao said: De olhos bem fechados (13ª parte): "Como se Deus não existisse" >> http://t.co/uCQznEX […]

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