De olhos bem fechados (14ª parte)

 

Como se Deus não existisse – parte 2

Meu cérebro, tendo tido bastante tempo para avaliar a situação, já havia feito o prognóstico daquele meio minuto final. Dali a cinco, dez segundos, os músculos que eu estava usando para manter meu diafragma contraído iriam ceder à sua força irrefreável em sentido oposto, moldada por milhões de anos de evolução, que deveria expandir o meu tórax a qualquer custo e encher os meus pulmões com água. Eu me debateria, então, por mais alguns poucos instantes até restarem apenas alguns espasmos, enquanto uma última descarga de adrenalina seria injetada na minha corrente sanguínea, como que para me confortar nos meus últimos segundos de vida. Uma dádiva indevida que a Natureza colocava ao meu dispor, como uma recompensa, ou apenas um alento para aquele indivíduo que, para ela, já deveria ter cumprido com o seu destino. Mas eu a teria enganado: não haveria descendentes.

Dois décimos de segundo teria sido tempo mais do que suficiente para meu cérebro calcular que eu só tinha mais uma única chance. Se após um novo esforço, bancado apenas pelo instinto de sobrevivência, eu emergisse novamente dentro de uma outra onda, seria o fim. E eu estava plenamente consciente disso, enquanto fazia novamente os movimentos que me levavam de volta à superfície.

Foram três braçadas.

Eu lembro com uma nitidez terrível de como podia divisar, enquanto subia, um céu de um azul dos mais lindos como nunca havia visto antes. Acho que, por uma fração de segundo, eu imaginei como seria doloroso se, dali a pouco, eu estivesse descendo novamente, e fosse usar os últimos instantes da minha vida para invejar todas aquelas pessoas, lá em cima, que podiam contemplar aquele céu que, então, teria ficado para trás.

Eu iria morrer já sabendo que a imagem de um céu azul, totalmente limpo de nuvens, seria a última coisa que veria. E nem assim eu lembrei de Deus.

Eu era católico. Mas, naquele momento, enquanto despendia um esforço descomunal para completar a última braçada que me alçaria à  superfície, para dentro de uma outra onda e para a morte, ou para uma nova chance de viver, meu deus passou a se chamar Oxigênio.


 

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2 Respostas

  1. Um belo texto, muito bem escrito! O li no Bule Voador e tive que vir aqui elogiar. Uma frase muito poderosa essa “deus passou a se chamar Oxigênio.” Parabéns.

  2. Marcus Vinícius, muito obrigado por comentar, e mais ainda pelo elogio… rsrs Espero que goste do resto da série também. O Bule só publicou uma parte do texto. Abraço.

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