De olhos bem fechados (21ª parte)

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O maior de todos os medos – parte final

Do meu dicionário preferido, o Houaiss (uáis), a definição de medo:

1. PSIC estado afetivo suscitado pela consciência do perigo ou que, ao contrário, suscita essa consciência;

O que ajuda a manter os nossos genes.

2. temor, ansiedade irracional ou fundamentada;

O que ajuda a manter os nossos consultórios.

3. desejo de evitar, ou apreensão, preocupação em relação a algo desagradável.

O que ajuda a manter as religiões e todos os seus deuses, que, invariavelmente, prometem uma outra vida bem melhor do que a que você tem, num outro mundo bem melhor do que esse em que você vive. Uma vida mágica num mundo mágico, uma solução apelativa para livrar a criatura humana do maior de todos os seus medos: o do aniquilamento.

A religião apareceu para suprir um desejo que está impregnado em nós no nível genético: o de perdurar. A consciência que temos de nós mesmos e do mundo à nossa volta é um efeito colateral do empenho dos nossos genes para obterem justamente isso: a imortalidade. E eles conseguiram, pelo menos enquanto restar um de nós vivo. Mas a nossa consciência individual não segue com eles e isso nos apavora. E a função do padre, pastor, pregador, etc., é justamente continuar nos apavorando, só que de uma outra forma. Eles querem nos fazer crer (=ter certeza de uma coisa da qual não se pode ter certeza) que há, sim, “um depois”, mas que precisamos deles, e dos seus deuses, para chegarmos lá. Pelo menos na parte boa desse “lá”.

E as pessoas têm aquela tendência genética para querer justamente isso: um “depois”, um lugar para além da morte. Os abastados, ricos e multimilionários querem que isso seja verdade, porque já desfrutam de uma vida muito prazerosa e cômoda, e seria extremamente penoso e decepcionante imaginar que ela não teria uma continuação. Os que estão na metade da pirâmide agradecem ao seu deus por não estarem vivendo uma vida desgraçada, como os que estão lá bem mais abaixo, mas querem uma outra vida igual ou tão cheia de conforto quanto a que têm os que estão lá bem mais acima. E, por último, a base da pirâmide; os que torcem para que a vida infeliz e miserável que têm não seja mesmo a única que irão viver.

Por causa dessa vontade, desse desejo impregnado no ser, criaram-se todos os deuses e Deus. Porque o apego a essa esperança, a essa vontade de que um sonho seja mesmo verdade, não tem nada de divino. É apenas humano. Como é, também, humano o desespero para manter essa chama acesa. Esse desespero existencial por vezes me comove, quando o percebo em vidas escravizadas pela ignorância, em mentes atoladas num passado distante da nossa história.

Certa vez, ao voltar distraído para o meu quarto de hotel, não passei pela recepção e fui surpreendido com a presença de uma senhora no meu banheiro que entoava, fervorosamente, um hino religioso de exaltação ao Senhor Jesus, agradecendo pela sua vida cheia de bênçãos e de alegrias, enquanto, de joelhos, esfregava com esponja e sabão a privada de um ateu.

 

 

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6 Respostas

  1. Quem quiser que me chame de doido: eu adoro dicionários. Mas sou apaixonado por esse meu Houaiss gigante, primeira edição.

  2. Barros !

    Parabéns pelas postagens, muito esclarecedor e útil já daria um ÓTIMO LIVRO.

    Abbs
    Oiced

  3. Valeu, Oiced. Pelo menos eu tô pensando mesmo em imprimir todos os meus textos e encaderná-los… rsrsrs Já é alguma coisa. E aqui na net nunca é seguro deixar algo que não se tem uma cópia. Duma hora pra outra… vai que acontece alguma coisa.

    Abraço. Tô de volta no sábado à noite.

  4. A parte final da série sai publicada amanhã, 18h.

  5. Barros, já faz um tempo q venho acompanhando as suas postagens. Gostei do seu texto e em especial o último parágrafo. Parabéns e abraço!

  6. Já já, na livraria mais próxima, o livro do Sr. Barros com os melhores textos do blog!
    E também a versão digital pra iPad, claro!

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