As Fadas de Barro [1]

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A beleza do mito.

Para mim fica fácil perceber que Deus é apenas um mito antigo, afinal, eu sou ateu e vejo a coisa toda “de fora”. Ou “de cima”, se preferir. Do mesmo jeito que um crente em Deus encara o fascínio que certos mitos exercem sobre as crianças, eu percebo o fascínio que Deus exerce sobre eles.

Mas a grande diferença é que crianças podem sonhar acordadas, podem brincar de faz de conta, podem desejar viver num mundo encantado. Faz parte do desenvolvimento natural delas, e esse tipo de fantasia é indispensável para um processo sadio de maturação intelectual e emocional. Deixem que elas creiam em fadas; que conversem com elas; que as amem; que as vejam. Elas estão vivendo num mundo à parte, só delas; estão na época delas, no direito delas de serem crianças.

Um adulto, entretanto, não deveria perder tempo adorando o vazio. Deus é apenas um mito, criado por nós mesmos, como tantos outros mitos e como tantos outros deuses, numa época em que precisávamos desse tipo de muleta intelectual para “entender” e para “explicar” o mundo ao nosso redor, e para ficarmos com a impressão de que sabíamos de alguma coisa, quando, na verdade, não sabíamos de nada, e ninguém tinha a menor noção do que estava acontecendo, do que tinha acontecido, nem do que poderia acontecer. Compensava-se isso acreditando-se forte e cegamente num mito criado, numa estória inventada e difundida, de tal forma e de tal sorte que, milênios depois, as pessoas ainda continuam fazendo a mesma coisa, com os mesmos propósitos: fingir que têm as respostas.

Um hábito que advém da infância da nossa espécie, que, tendo tido, também, uma infância, teve esse direito. Teve. Insistir em não se desfazer dele é tão ridículo quanto seria ridículo um adulto ainda acreditar em fadas…

 


O crente é apenas uma criança fascinada pelo seu mito. A ponto de bloquear os impulsos eletroquímicos do seu cérebro que lhe dizem exatamente isso: que Deus é um mito pelo qual ele está fascinado.

“O Senhor é meu pastor, e nada me faltará”. Mentira: falta sim. “Deus atende às minhas preces”. Mentira: atende não. “Livrai-nos do mal, amém”. Quando o mal não o atinge, foi porque Deus o livrou. Quando o atinge, ele me vem com uma explicação diferente a cada vez. Tudo isso para “provar”, não para mim, mas para ele mesmo que Deus existe, que o mito não é um mito. Que o sonho não é um sonho.

Mas Deus não está lá.

Ele olha para o céu e, depois dos planetas, galáxias, buracos-negros e nebulosas, não há nada além de antimatéria. Ele olha para os lados e Deus só pode ser encontrado dentro de um livro de fábulas. Ele fecha os olhos e tenta não se incomodar com o cisco da dúvida, e acaba por fingir que é o cisco que não existe; e reza e ora e clama para si mesmo.

“ — Deus existe sim, Barros.”

Já ouvi isso um sem-número de vezes. E sempre assim: uma frase curtinha, em que a vontade cega e infundada de que algo seja como se quer que seja procura compensar a ofuscante falta de argumentos. Uma sentença assim tem o mesmo peso e valor de uma outra que ouvi de uma enfermeira, enquanto acompanhava, chorando, meu pai se encaminhar para a sala de cirurgia:

“ — Não se preocupe. Vai dar tudo certo.”

Claro que ela não tinha como saber se tudo terminaria bem. Não seria ela quem iria operar meu pai; não foi ela quem havia lhe dado o diagnóstico; ela nem mesmo sabia que doença ele tinha. Muito menos que as chances de ele sair vivo da mesa cirúrgica eram de uma em dez. Ela só viu um homem sendo carregado numa maca, e um rapaz chorando enquanto acenava, talvez, o último adeus ao seu Criador.

Ela era só uma enfermeira que passava… Eu sabia que ela “não sabia”. Mas como eu queria acreditar naquilo! Como eu precisava crer naquela frase! Como seria bom se ela estivesse certa!! É a isso que se chama de fé.

Eu, particularmente, não vejo nada de errado em ter fé. Se uma pessoa quer esfolar seus joelhos rezando para Deus, para o Diabo, para o Shrek, para o Papai Smurf, eu não tenho nada a ver com isso. Que seja bem feliz.

O grande problema da fé (justamente o tema da minha série de textos intitulada Deus, Alice e a Matrix, pela qual eu tenho um especial carinho) é que ela precisa ser “compartilhada”. Ninguém reza para o Papai Smurf porque iria se sentir muito sozinho. Ele diria “O Papai Smurf atende às minhas preces” e todo mundo iria rir dele; e ninguém quer fazer papel de bobo. E já que é para conversar com o vento, melhor fazer parte de um grupo numeroso, forte, coeso, socialmente reconhecido, que já faça isso. Daí as religiões.

Mas o que se pensaria de um pequeno grupo de pessoas que adora fadas? Um grupo pequeno, nas redondezas da sua cidade, que diz que fadas existem, porque têm um livro muito antigo escrito por alguém que recebeu inspiração direta das fadas, que fala sobre o mundo das fadas, o que fazer para agradá-las e coisas do tipo? O que dizer de um pequeno e isolado grupo de pessoas que têm templos sagrados destinados ao culto das fadas, onde acontece uma interação mágica com elas, onde se sente a presença delas, onde se cantam músicas lindas, outras nem tanto, em louvor a elas? O que dizer dessa gente? Que esse povo é doido, porque fadas não existem?

E se essas pessoas, em vez de um pequeno grupo, correspondessem a, digamos, 98% da população da cidade onde você mora, ou do mundo em que você vive?

Só porque a proporção se inverteu, seria de se esperar que mudássemos o juízo inicial sobre a ingenuidade, ou estupidez, de se adorar fadas?

 

Parte 2 –  Parte 3 –  Parte final


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16 Respostas

  1. Se eu creio que tudo que existe foi criado por um unicórnio, sou louco.

    Se mais pessoas aderem a essa crença, somos membros de uma seita.

    Se escrevemos um livro inspirado pela sabedoria suprema do unicórnio, construímos templos em homenagem a ele e nosso grupo cresce e ganha reconhecimento, somos religiosos.

  2. pois é, matheus. trocando o unicórnio por jeová, alá ou outro deus dá no mesmo. tudo fantasia.

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  6. Eu tenho pena dos ateus, porque gastam suas vidas tentando provar que não existe um Deus. Ter fé é tão mais fácil, não precisamos provar nada, e além disso, o que temos a perder? E se realmente tudo for verdade? Com que palavras um ateu se defenderia de sua descrença? Se nada for verdade, os crentes nã perderam nada, aliás viveram com muita fé e foram beneficiados pela beleza do algo supremo inexistente. A idéia de um Deus traz sanidade à mente humana, ao invés de loucura, já que a saúde mantida pelas leis humanas não tem sido tão “saudável” assim. Acreditar em algo perfeito é predispor-se à melhorias internas, à correção do ser e ao respeito pelo próximo, mesmo sendo ele um ateu. É muito provável que os ateus sintam que há algo maior, que exista uma força além das grandezas naturais e talvez até crêem nisso, mas o orgulho que alimentam tentando não ceder a essa baboseira toda é muito grande, tão grande que faz deles esses super-heróis que são, livres de contos de fadas e balelas de um livro mitológico, a Bíblia. Se há um Deus ou não, a única coisa comprovada é que o homem busca por algo maior desde o seu surgimento, mesmo que esse algo seja a ciência ou tentar acreditar que não exista nada. Isso é sede e fome. E o único alimento pra isso está em Deus. Ver a coisa de fora, ou de cima, significa estar com medo de se molhar, com medo de mergulhar em águas desconhecidas, com medo de sentar-se à mesa e gostar do banquete. Ah…os crentes…eles não têm esse medo, eles se esbaldam com prazer, eles têm um rumo, um forte, um farol, algo em que se escorar, algo que lhes dá paz e satisfação, porque isso nasce com o ser humano, visto que em sua infância ele já busca por coisas imáginárias, tipo fadas, papai noel, amigos imáginários, coelhos da páscoa e até o papai de céu; isso é o vazio natural do ser humano, e se alguém não tem a coragem de assumir que exista um Deus, esse vazio o domina e o enche de confusão, fazendo-o desperdiçar sua vida oca em teses ateístas. É por isso que eu tenho pena, é como se eu estivesse tomando um sorvete delicioso e alguém do lado morrendo de vontade de provar, mas ao invés de pedir por causa do orgulho, me atacasse com “provas” de que o sorvete não existe ou que não é bom. Deus é assim. Se você o provar, nunca mais você será o mesmo. Deus é simples, ou você se molha ou viva sem nada então, à mercê de suas teorias, examinando admirado o porquê de tantas pessoas estarem perdidamente apaixonadas pela crença num Deus que não existe…

  7. Deus é assim. Se você o provar, nunca mais você será o mesmo.

    Os viciados dizem a mesma coisa de pedras de crack.

  8. Eu tenho pena dos ateus, porque gastam suas vidas tentando provar que não existe um Deus. Ter fé é tão mais fácil, não precisamos provar nada, e além disso, o que temos a perder?

    Não pensar é tão mais fácil, seguir a manada é tão mais fácil. O que se tem a perder? Talvez a dignidade.

  9. Pedras de crack destroem….Deus (ou a idéia de um Deus) constrói! Há muitas coisas que, se experimentarmos, mudaremos de vida, mas à quê elas nos levariam? Se for bom, que seja, mas se for mal, é claro que NÂO! Entre Deus e o crack, qual você escolheria, se não houvesse outra opção? Ora! O crack é real, isso seria fácil de decidir!
    Fiquemos com o real, então, mesmo que seja mal, pois é melhor eu me dar mal com algo que estou vendo do que bem (ou mal) com algo que não existe!

  10. “A manada” é um termo relativo. A manada vai à escola, a manada vai à igreja, a manada vai ao trabalho, a manada é ateia, a manada segue um Deus irreal. Citar “a manada” configura cegueira, e crer em Deus nunca foi considerado uma cegueira, mas sim, uma forma de elucidação, dados os segmentos variados dispostos em diferentes tipos de religião. E crer num Deus, não significa ter preguiça de pensar, pois pra crer em Deus é necessário que se pense muito, é necessário muita análise e estudos, além da experiência pessoal, e por mais simples que essa idéia possa parecer, não é! É grandiosa, misteriosa e passiva de guerra (moral, e até mesmo física, que é um tremendo exagero, mas existe). E dignidade….deixe-me ver….vamos fazer uma pesquisa, pra ver quem se acha indigno por crer em Deus, ou quem acha que é indigno aquele que crê em Deus. Nessa pesquisa, vai valer a opnião de qualquer tipo de pessoa, sendo ela de qualquer religião, ou sem religião ou até mesmo os ateus! Que tipo de resultado teríamos? Ah…me desculpe, você já deve saber, porque os crentes (os que creem, não só os evangélicos) são “a manada”, ou seja, não conseguem pensar, portanto, não serão capazes de responder a uma simples pesquisa, então que seja! Somos uma manada sem cérebro, obstinadas a gastar sua vida inteira seguindo um caminho vão, sem rumo e sem um ponto de chegada…Que coisa impressionante!

  11. Seja lá quem for o ‘autor’ desse blog, parabéns pela explanação. Mateus Barros, João da Silva, José dos Santos, Maria Aparecida, etc… O nome não quer dizer muita coisa. Pelo nome, apenas, não sei dizer quem é esse ‘autor’, assim como pelo meu nome, apenas, ninguém consegue me explicar. Mas, ainda assim, alguém poderia “me” analisar e concluir que ao menos tenho alguma inteligência apenas por ler o que escrevo, ou ouvir o que digo. Igualmente, percebo o quanto o tal “autor” é inteligente e convincente de sua descrença apenas lendo poucas palavras aqui postadas.
    Pois bem, se ser CRENTE é ser como uma criança cheia de imaginações e fantasias, acentuo que ser DESCRENTE é o oposto disso, então. Ser ateu é ser crescido no entanto IMENSAMENTE rude consigo mesmo, a ponto de negar-se à imaginação e ao desconhecido. Todos nós (humanos) precisamos nos apegar à alguma coisa, à alguma crença, nem que seja à crença de que não há crenças inteligentes, exceto a crença que faz alusão ao descrédito de todas as demais crenças…
    Ser ateu é, no mínimo, ser racional demais. Quando a gente raciocina demais, acabamos pondo em dúvida até mesmo nossa existência… Será que REALMENTE estamos aqui? Ou tudo não passa de um sonho, de uma ilusão de ótica? Ao pensarmos muito sobre o que fazemos aqui, sem nos liberarmos ao imaginário, acabamos sempre nos colocando em situação de CERTEZA TOTAL dos fatos. Quais fatos? Aqueles que nos fazem enxergar o quanto a vida é uma baita FARSA, sem sentido, sem objetivo, sem razão, sem propósito.
    Todo ateu (INTELIGENTE) é severo demais consigo mesmo, por não se doar ao crível, ao externo, ao mais profundo sonho, o sonho de ser alguém com propósito.
    Por que estamos aqui? Pra que estamos aqui? Será que toda coincidência do NADA não vale de nada? Se não estou aqui por uma razão, então por que estou aqui?
    Todo ateu, ao falar de Deus, fala de ALGUÉM que jamais conheceu, óbvio. Por isso tantas falácias….. Pra mim, um crente, é tão clara a resposta do porquê de Deus não responder a todas as preces… Mas, pra um ateu, isso é banal. Ele não acredita. Ele não aceita. Ele apenas perde seu tempo enroscado ao dilema por ele mesmo criado – por que está aqui????
    E a fé? Neste ‘post’, a fé foi comparada à otimismo e força de vontade… Quão tolo é o ‘autor’ deste blog, mesmo sendo super inteligente. Tolo e louco. A você, caro ‘autor’, deixo uma declaração bíblica, citada em Eclesiastes 11:5 >> “Assim como não sabes o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da que está grávida, assim também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas”.

  12. Pra mim, um crente, é tão clara a resposta do porquê de Deus não responder a todas as preces

    Na verdade, meu querido, Deus não responde prece de ninguém. E para um crente, como você, não perceber isso faz parte do “jogo”…

  13. Ah, o jogo…. Verdade, como eu pude me esquecer! Estamos “todos” num jogo, o jogo da vida. Uns jogam bem, outros nem tanto. Saber jogar é a chave. Saber ‘por que’ jogar é a excelência. Já que estamos todos jogando, então por que tanta diferença entre as crenças?
    Um ateu como você, querido autor, deveria ao menos saber que todo jogo tem um propósito… E qual o propósito do jogo da Vida? Será que é apenas um jogo sem objetivo, sem proveito, sem essência?
    Se sim, então a ciência está toda errada. Se não, então qual o propósito. Quem focou para nós o objetivo? O nada? A coincidência? A espontaneidade do além (que nem é tão além assim)?

  14. Rapaz, coincidência muito grande seria se, no meio de tantos outros deuses, fosse exatamente o seu o deus verdadeiro que tá no comando dessa gincana…

    Não sei se você leu essa série de textos toda, ou se só esse texto, mas parece que você não entendeu muita coisa. Ou não quis entender.

    Sugiro que leia esse meu texto (todas as partes): As sacolas de Sofia.

  15. Meu caro, li o texto completo, as 4 partes.
    E vou ler SIM “As Sacolas de Sofia”, com muito prazer. Obrigado.

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