As Fadas de Barro [2]

Era uma feirinha de artesanato à beira-mar. A menina devia ter seus cinco, seis anos. Ela e a mãe pararam do meu lado, enquanto eu examinava um Buda, do tamanho de uma Bíblia grande; muito bem feito, por sinal. Não era daqueles Budas industrializados, feitos em cópias aos milhares. Esse tinha sido moldado à mão, em argila.

Muitas pessoas consideram Buda um deus, e eu abomino deuses. Todos eles. Apesar de eu ter gostado do Buda, e apesar de ele não ser um deus, não comprei. Além do mais, a dona da barraca estava cobrando um preço que continuou muito alto mesmo depois do “desconto” que ela me deu (eu e a minha cara de turista!).


— Olha só, ***: fadas!

— Cadê?

— Aqui, filha! Olha que lindas! Quanto custa, moça?

— As menores são *** reais, e as grandes saem por *** reais.

— Se eu levar mais de… Cuidado, meu amor! Assim você pode quebrar as asinhas dela! Quer levar essa?

— Não.

— Quer uma das grandes? Vê como tá linda aquela ali…

— Quero não.

— Vai querer qual?

— Nenhuma.

— Por que, filha??! Você é louca por fadas!

— Mãezinha… essas fadas são de barro…

.

.

“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. É assim que terminam as Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.

Eu também não pretendo ter descendentes, mas por bem outros motivos. Nada a ver com o legado miserável da raça humana, seja lá em que o autor estivesse pensando no momento. Mas se eu tivesse filhos, iria fazer questão de ler contos de fadas para eles. E iria fazer mais questão ainda de que eles nunca ouvissem, nem nunca pusessem os olhos em nenhum versículo da Bíblia. E isso não porque eles iriam ter um pai ateu.

Seria assim porque eles teriam um pai que os amaria muito.

Um pai que amasse seus filhos, que tivesse um mínimo de inteligência e senso crítico, que tivesse perdido um pouco do seu tempo para analisar friamente o que estaria fazendo com eles ao lhes empurrar goela abaixo as “lições” das estórias bíblicas, jamais permitiria que suas crianças fossem submetidas a uma tradição ridícula, belicosa, humilhante, opressora, limitadora de mentes, usurpadora de direitos, preconceituosa, infame, estúpida e infundada como a tradição religiosa.

Eu não leria a Bíblia para os meus filhos e, sim, as estorinhas das fadas, primeiro porque tais estórias foram escritas justamente para eles e, melhor, por causa deles. Alguém que amava crianças um dia inventou uma estória dessas, que, de tão bonita e tocante, de tão apreciada pelas crianças de sua época, foi sendo contada e recontada, enfeitada cada vez mais e aumentada sempre que possível, atravessando séculos até os nossos dias. E como aconteceu com outros mitos, essas estórias se eternizaram pelas mãos de escritores que as enfeitaram com a sua arte. E ainda apareceram outros que também amavam crianças e lhes fizeram desenhos e pinturas maravilhosos para enfeitar cada texto, fixando à tinta o que antes apenas flutuava sem forma definida em cada cabecinha que se povoava dos sonhos desses mundos mágicos. Assim surgiram os livros de contos de fadas, com suas estórias infantis repletas de cores, aventuras, surpresas, emoções, suspense, poesia e beleza. Umas ainda traziam de brinde a “moral da estória”, encerrando algum bom ensinamento que aqueles autores que amavam crianças queriam transmitir ao objeto do seu amor.

Agora, comparando, responda: o que a Bíblia teria a oferecer para os seus filhos? Uma coleção de mitos asquerosos, cheios de mesquinhez e preconceitos, repletos de toda sorte de violência e degradação humana, intimidação, ameaças, coação, crimes, e com uma “moral” sórdida que diz que todos nós somos imundos pecadores, merecedores de uma punição eterna, e que não deveríamos fazer mais nada durante a nossa curta existência a não ser repetirmos isso para nós mesmos, e para quem mais quisesse ouvir, na esperança de que aquele que preparou o tal castigo, tocado por toda essa nossa humilhação, viesse a nos considerar dignos de sua companhia.


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8 Respostas

  1. cansei, vejam aí… espiritualidade é bobagem e uma coisa anti-humana.

  2. Eu tenho tres filhos, todos estudaram em colégios religiosos e nunca proibi de lerem nada.
    Sempre fui ateu. resultou que nenhum filho meu é crente. Eles tem que serem orientados. só isso.

  3. Carlos Mello, eu devo ter exagerado um pouco… rs Como diria Machado de Assis, eu “carreguei na tinta”. Mas eu até poderia ler os Evangelhos pros meus filhos:

    Viram, crianças: toda essa confusão, perseguição, sofrimento, crucificação, ressurreição, tudo isso porque Deus queria nos livrar da maldição que ele mesmo nos colocou… Se Deus existisse mesmo e quisesse nos perdoar de alguma coisa, por que esse furdunço se ele poderia simplesmente ter perdoado a todo mundo, não é? Perceberam como isso tudo é uma grande tolice??

    Mas uma coisa é certa: não dá para entender o mundo completamente hoje se alguém ignorar completamente os contos bíblicos. Mas, ainda assim, eu prefiro mil vezes os contos gregos, cujos personagens dão nomes a nossas músicas, a filmes de heróis, a continentes, a planetas e satélites, a espaçonaves, a livros.

    Abraço.

  4. […] Parte 2 –  Parte 3 –  Parte final […]

  5. Deus nos deu o livre arbítrio portanto, a salvação é individual. Não posso impor as pessoas a seguirem o meu caminho porém, recomendo para que evite alguns tropeços.

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