Apocalipse. Fim da Terra. Armagedon! O Tempo e Morte (2)

Do livro de Marcelo Gleiser “O Fim da Terra e do Ceú”, cap I, “Os céus estão caindo”

Nós somos criaturas limitadas pelo tempo. Nossa vida tem um princípio e um fim, um período finito de tempo que nos apressamos a dividir em segmentos iguais – anos, meses, dias – na vã esperança de que, por meio dessa contagem, possamos, de fato, controlar sua passagem. Mas, desdenhando nossos esforços, o tempo sempre vence no final: nós envelhecemose ,sem saber quando ou como, morremos. Esse fato, que muitos desprezam como óbvio, outros como demasiado perturbador e outros, ainda, como muito deprimente, é um dos aspectos mais fundamentais de nossa existência. E, como espero convencer os leitor desse livro, também um dos mais maravilhosos. É ele que dá significado ao que é ser humano.

A morte faz com que nos apeguemos à vida com todas as forças, inspirando nossa constante busca por algo que transcenda a passagem do tempo. Nós criamos incessantemente, ou um quadro, ou uma família, ou um teorema matemático, ou uma nova receita, de modo que algo permaneça no mundo após nossa partida, algo que vá além da simpes memória de nossa existência na mente de amigos e parentes: memórias se esvanecem de geração em geração. Há alguns anos, quando explorava cantos empoeirados e esquecidos do sótão dos meus pais, encontrei os álbuns de fotografias de meus avós paternos, recheados de memórias amareladas de parentes, amigos e de suas festas, momentos congelados de um passado já distante. “são todos fantasmas agora”, disse meu irmão Rogério, em seu estilo peculiarmente sarcástico….sentindo-me como elo perdido em uma corrente que une quatro gerações, fechei os álbuns com a triste sensação de haver perdido parte de minha própria história, agora enterrada em fotos de pessoas que não consigo reconhecer. Quem afirmou que ter filhos é uma forma garantida de imortalidade?

…eu não estava tentando conhecer melhor os meus parentes; as fotos e as cartas poderiam ter me auxiliado nisso. O que eu realmente procurava era me conhecer melhor por meio deles. Queria que eles me ajudassem a responder perguntas que não posso responder, a escolher quando estou confuso, que eles me apoiasse os caminhos que tomei na vida….Mas estas pequena verdades não são suficientes; não devemos esperar que nosso passado venha a definir por completo nosso futuro. A vida e as lições dos parentes já falecidos podem nos guiar e apoiar em muitos momentos, mas somos nós os únicos responsáveis por nossas escolhas. E, mesmo quando estamos rodeados por aqueles que amamos, mesmo quando tudo está indo relativamente bem, podemos nos sentir profundamente sós.

Nós buscamos significado, ajuda, companheirismo. Precisamos de algo além de lembranças e sonhos: precisamos de esperança. Talvez, se fôssemos capazes de transceder as limitações de nossa curta vida, de exister em um realidade sobrenatural, pudéssemos até suspendera passagem do tempo. E, quem sabe, se conseguíssemos de alguma forma ludibriar o tempo, não poderíamos nos reunir mais uma vez com aqueles que deixaram este mundo? Quando suspendemos a passagem do tempo , quando nos tornamos imortais como os deuses, a vida e a morte passsam a coexistir, e os mortos podem então caminhar o lado dos vivos. Para isso nós criamos o infinito e o eterno, dedicando-nos de corpo e alma à nossa fé, qualquer que ela seja. A fé consola e justifica. Inspira a todos nós: o pintor, o professor, o cientista, o padre, o advogado, o porteiro. Como escreveu o norte-americano Saul Bellow: “Somos todos atraídos para a mesma cratera do espírito – para sabermos quem somos e por que somos, para descobrirmos nossa missão, para buscar a graça”.

Aqui o autor começa citando a implacável morte e o inexorável passar do tempo, sem solução.Os parentes que se foram, o desejo que falar com eles.E, a vontade de  que fosse diferente, mas não é. Daí surge  condição de necessitarmos de esperança, queremos transcender à morte ao tempo. Daqui podem surgir muitas especulações, inclusives deuses e milagres…

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4 Respostas

  1. Buscar explicações para a morte pode nos remeter ao modelo mais simplório, simplificado. Num determinao momento, queremos fugir, então criamos a eternidade e para não ficarmos desamparados no eterno, criamos o super-pai deus.

    Uma manobra complicada pela total falta de indícios, mas que satisfaz a uma grande maioria. Não queiramos discordar disso, senão estaremos tirando a virtual felicidade dos coitados!

    Uma coisa é certa, ninguém voltou dos mortos e nunca vai voltar pelo jeito. Eu gosto de mim mesmo, mas morrerei e não voltarei, mas vivo mesmo assim..

    abração a todos

  2. Se não existisse um Deus dando lógica a nossa existencia.
    Se por um “acaso” niguem morresse, certamente chegaria rapidamente o dia que seres humanos jantariam criancinhas, para abrirem espaço no seus limitadissimos territórios tomados pelo crescimento populacional, assim voltariam a suas origem animal e irracional.
    Se fossemos eternas crianças seriamos dependentes e ignorantes para sempre!
    Se fossemos jovens para sempre seriamos arrogantes e prepotentes.
    Se fosemos idosos para sempre viveriamos do passado, sem futuro e sem presente e sem experança.
    Nos tres estagios a vida eterna na terra seria um inferno e não um paraiso.
    E nisto podemos ver uma saberdoria divina, nada sem planejamento e lógica produz algo funcional e coerente.

  3. A sabedoria divina é demais mesmo. É igual a sabedoria da natureza, com a diferença de que no fim nos reserva um paraíso enfadonho ou um cruel inferno, ambos eternos, como recompensa ou punição para ações finitas.
    Colocar um deus para justificar uma lacuna pessoal que não se compreende é pura preguiça mental.

  4. preguissa mental seria o comodismo de continuar querendo manter essa lacuna.
    Pois é mais facil rejeitar o que não se compreende, do que procurar conhecelo.
    Mas tudo vai da necessidade, o homem busca por uma autonomia e não por uma submissão.
    Mas o fato de querer ignorar não altera a realidade.
    Quanto a sua opinião sobre a sabedoria das criações divinas, acredito que estão bem distante de Deus.
    Se eu enxergasse Deus como voce, tambem seria um ateu.
    sds

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