Oração “em línguas estranhas” — A Fraude (parte final)

3. O dom de falar e ser entendido por outros povos (Atos, 2; 4-8).

Na primeira vez em que vi uma pessoa “orar em línguas estranhas”, eu senti vergonha. Muita. Senti vergonha por ela, e pelos demais que a ouviam e fingiam acreditar naquilo. E, ali, então, quando ainda me considerava católico, quando ainda tinha pudores de assumir pra mim mesmo que Deus era tão real quanto o Sherlock Holmes, eu me fiz a pergunta errada:

“O que leva uma pessoa a tentar enganar a si mesma e aos outros desse jeito?”

Era a pergunta errada porque ela não estavam “tentando” se enganar. Ela já havia conseguido. Não sei de outro exemplo mais prático e inconfundível de autoengano: o processo pelo qual alguém se ilude tão completa e honestamente, que não pode mais enxergar nem a ilusão que ele mesmo criou, nem o processo em si.

Os que “oram em línguas estranhas” fazem o que fazem certos de que estão possuídos pelo Espírito Santo, e de que é assim mesmo que ele se manifesta: permitindo que produzam, de forma consciente e intencional, uma ladainha incompreensível, mas que deve significar alguma coisa. Para Deus, pelo menos. E eles pensam assim porque é isso o que lhes ensinam aqueles a quem pagam para lhes interpretar a mensagem do seu suposto Criador; mensagem esta que eles mesmos não querem ou não têm tempo de ler (ups!). E mesmo quando querem e podem, acham o próprio Deus tão absolutamente intragável, tão imoral e mesquinho, que sentem uma necessidade extrema de alguém que consiga fazê-los mudar de opinião. 

São esses guias espirituais que se encarregaram de difundir o dom das línguas estranhas e de explicá-lo assim, como sendo algo mesmo incompreensível, desde a produção ao produto final, mas que é a forma mais pura de orar ao “Pai”. 

E tentam eles esquecer e fazer esquecer que o milagre da “variedade de línguas”, das “línguas estranhas”, assim definido, está capenga. Falta aparecer ainda quem possa manifestar esse dom na sua plenitude, como aparece na Bíblia, e se valer da única parte realmente útil dele: a de ser entendido em outros idiomas terrenos. Apesar da referência bíblica, apesar dos donos de bocas de culto se referirem indistintamente a essa habilidade e à de falar a língua dos anjos como fazendo parte do mesmo pacote, esse tipo específico de milagre só foi registrado uma única vez, em Jerusalém, dois mil anos atrás. 

Desde que voltou à moda falar línguas estranhas, parece que os cristãos não conseguem receber do Espírito Santo essa dádiva absurdamente útil para os propósitos evangelísticos. Curiosamente, essa é a única parte do show em que eles precisariam — mesmo — de uma intervenção divina.

Mas Deus só se manifesta na Terra através dos milagres que seus seguidores conseguem realizar por conta própria.

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