TRATADO DAS ILUSÕES – Epitáfios

Descansem o meu leito solitário 


Na floresta dos homens esquecida

À sombra de uma cruz, e escrevam nela: 


“Foi poeta — sonhou — e amou na vida”.

 — Lembranças de Morrer (Álvares de Azevedo) 

E

Epitáfio é uma palavra de origem grega que designava a inscrição que se punha sobre o túmulo de um morto, para homenageá-lo. Literalmente, significava isso mesmo: ‘epi (prefixo) = sobre, acima; e ‘tafos’ (radical) = túmulo, tumba; “sobre o túmulo”. Com o passar do tempo, entretanto, epitáfio passou a ser entendido como “a última mensagem de alguém”, manifesta em vida para esse uso específico.

Aparentemente, a nossa cultura não nos permite confiar nos outros sequer para escolher o que pôr sobre as nossas sepulturas. E passamos a fazer isso nós mesmos. E aí o termo grego manteve o significado, mas perdeu o foco: o que, antes, era um elogio que os vivos prestavam aos seus mortos, passou a ser apenas mais uma constatação da onipresente soberba humana, que nem a morte diminui.

As pessoas passaram, então, a redigir mensagens para serem escritas sobre suas próprias lápides. E elas variam, hoje, de tolas tentativas de fazer graça, a um tipo de autodefinição, como o que se pede para inserir no campo Bios do Twitter, por exemplo. Ou, também, uma mensagem póstuma para os seus entes queridos. Algo como “Minha família foi a minha vida” talvez fosse uma forma de querer lembrar os que ficaram do amor que o finado alegava ter. Ou isso, ou uma tentativa desesperada de mascarar, com uma frase, um arrependimento doloroso, como se aquelas palavras gravadas em mármore pudessem substituir um amor que, por omissões e descaminhos, jamais pôde ser efetivamente demonstrado em vida.

O apelo mais forte que tem um epitáfio talvez seja a imagem de alguém que deixa uma mensagem de adeus ao partir para um outro lugar. É essa vontade de imaginar que o autor da frase “foi” para outro lugar que conforta na inscrição; não a inscrição em si. E é para isso que serve um epitáfio: para renovar essa esperança, para difundir e fortalecer essa ilusão.

E, principalmente, para mascarar a realidade desesperadora que a visão do túmulo daqueles que nós amamos nos traz da certeza do nosso próprio fim.

Um epitáfio sugere o mesmo tipo de ilusão que os administradores de cemitérios profusamente exibem nos seus “jardins da saudade”, nos seus “parques da paz”, repletos de árvores frondosas, jardins coloridos e grama eternamente verde, desviando a atenção dos vivos de todos aqueles corpos em putrefação, liquefazendo-se na podridão aprisionada abaixo dos seus pés, onde seus entes mais queridos são vorazmente devorados por vermes indiferentes ao que eles foram ou ao que fizeram em vida.

Quase todos os momentos bons que iremos viver precisarão ser conquistados; mas todos os ruins já estão a nossa espera. Eu estou livre da dor de perder um filho, mas não poderei evitar a dor de perder um pai. A menos que eu morra primeiro. Mas meus genes e meus arrependimentos vão se desfazer comigo no fogo onde serei cremado. Sem vermes e sem epitáfio, que já foi um elogio que os gregos faziam aos seus patrícios mortos, aos seus artistas, políticos e filósofos; mas que, hoje, não passa de uma propaganda desnecessária que o ser humano faz da sua própria ignorância acerca do mundo, da vida e de si mesmo.

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4 Respostas

  1. […] – Epitáfios […]

  2. Barros
    Ainda não tinha lido esse texto. Estou encantada com o exercício de pensamento nele contido. A vida é assim mesmo, ser e então, deixar de ser. É realmente a questão da onipresente soberba humana que nos faz buscar amparo em todo tipo de coisa, sejam epitáfios, sejam religiões, mas é também medo do conhecimento da nossa finitude.
    Realmente parabéns!

  3. Oi, Shirley. Obrigado.

    Esse texto faz parte da série Tratado das Ilusões. Todas as outras partes estão no post inicial: Introdução

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