TRATADO DAS ILUSÕES – Os mortos apodrecem

Muito, muito tempo antes de terem aprendido a inventar paraísos, nossa espécie vagava por savanas perigosas buscando o que qualquer outro animal buscava: a sobrevivência. Desde a Pré-História até menos de duas dezenas de milênios atrás, nós éramos todos nômades, caçadores-coletores, vagando em bandos atrás de água, alimento, e para regiões com menos predadores. Não morávamos em cavernas mobiliadas, como os Flintstones. Éramos andarilhos numa África ancestral, e, quando um membro do bando morria, simplesmente era deixado para trás.

Foi a descoberta da agricultura e da domesticação de animais que possibilitou a maior invenção da humanidade até hoje: a civilização. Não precisando mais correr atrás do próprio alimento, nós paramos às margens dos rios e construímos nossos primeiros abrigos com a intenção de permanecer neles por mais tempo do que apenas uma noite. E foi quando começamos a perceber, de fato, o que acontecia com os mortos que antes deixávamos pelo caminho: eles começavam a se encher de vermes e a apodrecer.

Como não iríamos mais a lugar nenhum, e como aquele fedor insuportável incomodava muito, era preciso decidir o que fazer com os corpos: levá-los para um lugar bem longe dos nossos muros, enterrá-los, ou queimá-los. Alguns povos se decidiram por uma coisa; outros, por outra.

E a vida em sociedade, com suas divisões de tarefas e a transferência de conhecimentos que melhoravam, a cada geração, esse novo sistema de sobrevivência, acabou por gerar um subproduto crucial para o nosso desenvolvimento como espécie, e que era, então, impensável nos tempos em que nossas únicas preocupações eram procurar comida e fugir de predadores: tempo livre para conversar, de barriga cheia, abrigados das intempéries e a salvo das feras. 

Isso destravou a nossa curiosidade e criatividade. E como a então recém-criada civilização acabou por estreitar os laços entre seus membros, pelo convívio mais próximo e demorado, pela necessidade de executar tarefas em grupo, pela identificação já de hierarquia social, pela noção mais precisa do que fosse uma “família”, houve quem desse a ideia de transformar aqueles procedimentos perfunctórios de sepultar ou cremar os mortos, levados a cabo de forma rotineira e desprovida de qualquer significado, em cerimônias fúnebres que, com o passar do tempo, ganharam uma enorme importância social, com rituais próprios.

Rituais são repletos de simbolismos; simbolismos precisam ser decodificados pelos participantes dos ritos; essa decodificação precisa atravessar gerações, para que aquele ritual, específico daquele povo, sobreviva. A maneira mais fácil de fazer isso? Inventando histórias fabulosas para serem contadas às crianças, contendo tudo o que elas precisariam saber para entender aquela cerimônia: por que morremos; por que o corpo do vovô ou da mamãe foi enterrado, ou queimado numa fogueira; para onde eles foram.

O que as crianças precisassem saber estaria ali, nas histórias por trás do ritual. 

E as explicações foram dadas a elas por nós, seres recém-chegados de uma vida nômade, que tinham acabado de descobrir que se comessem uma fruta e enfiassem as sementes no chão, com um pouco de sorte e com um pouco de tempo, nasceria no mesmo lugar uma árvore, que lhes daria mais da mesma fruta. 

Desde então, tudo nas nossas sociedades evoluiu. Mas aquelas explicações continuam as mesmas.


 

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6 Respostas

  1. […] TRATADO DAS ILUSÕES … on TRATADO DAS ILUSÕES –…ton on #4 Deus é todo-poderoso?Valmidênio Barros on […]

  2. Trtado das ilusões ou do que são feitos os auto enganos.

  3. Você deveria escrever um livro

  4. Você deveria escrever um livro

    Rsrsrssss. Obrigado, Juca Xavier. Eu ainda vou ver se dá mesmo… rsrrssss

  5. […] – Os mortos apodrecem […]

  6. NÃO FOI ASSIM TÃO SIMPLES;
    Então e as lutas entre,os predadores de topo desses tempos?
    as lutas,entre a nossa própria espécie.O canibalismo dos mais fortes
    sobre os vencidos?UM ABRAÇO..

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